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Classic nouveau

Maio 13, 2008

Actualmente os livros levam sempre na contracapa ou nas badanas rasgados elogios. São quase todos obras “de uma imaginação inigualável”, “supremamente inteligentes”, “engraçadíssimos e de sôfrega leitura”, “incomparáveis”, “um clássico”, “brilhante” ou o já típico “melhor livro que li este ano”. As edições francesas ficam sempre a perder. Como não têm desmedidos elogios na contracapa, ninguém se interessa por aquilo. Parece que não tem qualquer efeito, mas hoje em dia ninguém leva um romance para casa sem que este tenha os famosos comentários de uns tantos especialistas que nos afianciam que como aquele não encontramos mais nenhum. Porventura, é a falta desse aparotoso desfilar de comentários e seus respectivos comentadores nas obras francesas que as torna sempre preteridas (salvo excepções) nos tops de vendas das grandes livrarias.

E no entanto dir-se-ia impossível que tanta e tão variada obra fosse bafejada pelo imorredoiro talento dos clássicos. Escreve-se mais actualmente, muito mais do que em qualquer outra época; concomitantemente, publica-se infinitamente mais. Paradoxo curioso para uma época que profetizou a morte do livro e da palavra escrita. À partida, a proliferação de obras e de estilos levaria a crer que a qualidade diminuíria impreterívelmente. Afinal, dificilmente seriam todos génios. Contudo, parece que não; pelo menos a julgar pelos tais comentários tão curtos como apodíticos. “Génio” é palavra que de tão usada se tornou perfeitamente redundante. Quantos são hoje os escritores que já mereceram o apodo de “génio”? É só preciso entretermo-nos a passar os olhos pelas principais editoras anglo-saxónicas. E mais uma vez dir-se-ia que um Sterne, um Kafka, um Tolstoi ou um Dostoievski não nasce facilmente.  E se assim fosse, ou nos enganámos todos e os milhares de exegeses que as obras destes autores mereceram são um mero exercício ocioso e especulativo, sem, diríamos, validade canónica, ou escrever um Crime e Castigo encontra-se ao alcance de qualquer um que tenha passado por um curso de escrita criativa na UCLA. Ambas as hipóteses afiguram-se inverosímeis.

Há, porém, um lado ainda mais negativo nesta proliferação de adjectivação superlativa. Sucede que se todos os contemporâneos que são editados forem justamente classificados de génios, então a ordem dos clássicos pouco ou nada nos tem para ensinar. Ou seja, este exagero na adjectivação apouca os verdadeiros clássicos. O que é um clássico é uma discussão imorredoira e para a qual não tenho unhas. Eliot, num famoso texto, classificou um clássico segundo o seu grau de maturidade, do espírito, de maneiras, da linguagem, e do estilo médio. Uma tal classificação parece totalmente inoperativa actualmente. E a razão é simples: a maturidade obriga a uma repetição, ao gradual coalescer de uma forma de escrita, essa sim, apenas possível graças, justamente, à sua maturação. Ora o que nos diz o pós-modernismo é que qualquer convulsão é por si só potencialmente inovadora e digna de ser contemplada como resultado de um movimento criativo, logo de funcionar como arte. Neste sentido, a maturidade de um autor e da sua obra é o que verdadeiramente o condena ao olvido; é onde ele caiu após deixar de ser inovador. Neste momento, menos que novo, qua experimental, não tem cabimento na paisagem artística, literária. 

Vem isto a propósito de o único livro que li de Percival Everett – Erasure. Na capa lá vem “bound to become a classic” e nós ficamos sem perceber se esta entronização extemporânea tem alguma coisa a ver com as classificações de Eliot ou se simplesmente responde (em eco) ao Zeitgeist. E a verdade é que o livro – que poderei dizer? -, é brilhante.

 

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