Skip to content

As três faces do mal

Maio 5, 2008

No post abaixo eu aflorei a questão do nazismo e das caves. Na altura, quando escrevi o texto, pareceu-me certamente forçada a relação de causalidade. Porém, surgiu como hipótese interessante, não tanto por aquilo que possa ter de verídico, confirmável, mas porque, à partida, seria uma das hipótese que mais depressa surgiria nos aparelhos especulativos (expressão que bebe no famoso conceito de “aparelhos ideológicos do Estado” cunhado por Althusser, e cujo o significado é mais ou menos o mesmo) .

Não tardasse, portanto, a relação a ser proposta. Primeiro foi o Sun com uma proposta um tanto ou quanto imaginativa. Segundo o tablóide, o facto de Hitler ter sido ovacionado pela população de Amestteten, teria determinado a personalidade do jovem Fritzl. É que ele deslocou-se à praça central com a família para ver a chegada do Reich. Para além disso, o Sun salienta o facto de em Amestteten terem existido dois campos de concentração. Menores, é verdade; mas a certa altura subsidiários, ou filiais, de Mathausen. Seja como for, pobre Fritzl que contava apenas três anos quando o Reich por lá passeava a sua nervosa saudação nazi.

Mas eis que chega Natascha Kampus, retirada de uma outra cave há relativamente pouco tempo, e defende a mesma teoria. Teria o regime nazi influenciado, ou mesmo determinado, esta compulsão para as caves e para a clausura de outrem? Kampus parece estar a cavalgar uma wild chase, porventura incitada pelos seus consultores. Vendo a oportunidade para capitalizar no sensacionalismo, aproveitou para estabelecer a arriscada relação. A tentativa fez ricochete, e a menina querida da Áustria passou de anjo libertado a demónio destruidor de um dia para o outro. O efeito Kampush tem vindo a desvanecer-se paulatinamente. É natural que ela e a sua máquina de marketing tentem não perder o pé nas conturbadas águas do sensacionalismo das caves.

Entretanto, o horror o horror, repete-se. Na Alemanha uma mãe congelou três filhos recém-nascidos deixando-os na arca congeladora durante mais de vinte anos. Os turistas alemães que rumavam para Amstetten em peregrinação mórbida, inflectiram a direcção e agora acorrem aos magotes à pequena localidade de Saurerland.  É claro que já não vão a tempo de ver os pequenos corpos congelados, assim como um dos filhos os encontrou enquanto procurava uma pizza. É claro, também, que há pizzas que sabem pior do que corpos descongelados de recém-nascidos, e ninguém nos garante que a gorda e perturbada mãe não os estaria a guardar para um momento de dificuldade ( o custo de vida, o custo de vida).

O que se sabe é que o pai não deu por que a mulher estivesse grávida, por três vezes. Segundo o surpreendido marido, a mulher é tão gorda que podia carregar tri-gémeos que ele não daria por eles; sobretudo quando bem acondicionados na arca congeladora.

Conclusão, uma hierarquia começa a esboçar-se. Primeiro o cativeiro de Kampusch. Nada mais hediondo podia acontecer. Oito anos enclausurada numa cave. Falso. A cave de Fritzl bate aos pontos o cativeiro de Natascha que foi entretanto atirado para o lugar de assuntos bocejantes do ano. E agora os bebés congelados. No fundo, acontecimentos que concitam uma reflexão sobre o mal e as suas manifestações.

Em Ana e as suas irmãs, Woody Allen põe Max Von Sydow a descretear sobre os campos de concentração. “As pessoa não devem questionar-se porque razão aquilo (os campos de concentração) aconteceu. Deviamos perguntarmo-nos porque razão não acontece mais vezes”, diz Sydow à sua namorada.

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: