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Pedindo o impossível

Maio 4, 2008

Enquanto se agitam as bandeirinhas do Maio de 68, Daniel Cohn-Bendit vê a sua éfigie imortalizada na blogosfera e noutros media, e Zizek diz que devemos pedir nada mais nada menos do que o impossível, a direita conservadora vai ceifando cidade após cidade, país após país. Sejamos relalistas!, pois então e observemos calmamente o que se passa à nossa volta, sem exigências desmedidas. Primeiro a espantosa vitória de Berlusconi, a estrondosa queda de Roma, pior ainda de que aquando das invasões bárbaras. Agora a queda de Londres, os trinta ininterruptos anos de Labour, e oito de Livingstone, esfarelados num fim-de-semana; lágrima no canto do olho, do pobre Ken, e sorriso mordaz de orelha a orelha do eficiente Johnson.

O que é que se passa afinal? As marchas contra a precarização, os abusos do capital, a privatização compulsiva, sucedem-se, e até, na medida do possível, lá vão arregimentando gente. São aparatosas, barulhentas, e até rendem umas imagens baratas nas televisões e principais jornais. Depois chegam as eleições, e quando se julgava que a razão iria substituir o estímulo emocional, eis que acontece o inverosímel, o caricato, o arrepiante inacreditável. Sarkozi ganha França; Berlusconi limpa Prodi; e agora, parece, é a vez dos Toris regressarem ao poder. E de consciência lavada; de moral fortalezida, e prontos para desalojarem o desajeitado Brown.

Pergunto, o que é que se passa? Dizem que é a classe média que tem decidido estas coisas. Se assim for, então aquela utopia idiota escrita por Ballard, está longe de se realizar. A lembrar. No romance de Ballard é justamente essa mesma classe média, alta, que encontrando o seu ímpeto revolucionário se revolta. So much for fiction! Tudo leva a crer que a classe média está mais preocupada com o aconchego do lar. O custo de vida disparou; a vida é cada vez mais incerta; é difícil sustentar famílias de quatro e de cinco…E no entanto o que é que leva classe média a apostar no cavalo conservador? Não terão tido já a má experiência de os ter no poder? O que é que realmente mudou quando por lá se acoitaram? O que é que fez com que os italianos apostassem novamente em alguém que estava a braços com a justiça; um ordinário, prepotente e que só fez figura de asno por esses corredores europeus? Teria sido a sua belíssima frase “Os italianos estavam habituados a verem o presidente a receber os convidados estrangeiros em palácios que não eram deles (dos presidentes). Eu, pelo menos recebe-os em palácios que são meus”, ou qualquer coisa parecida, que levou a um êxtase eleitoral pela coligação de direita? E que dizer das bocas semi-racistas, a dar para o xenófobo, do vencedor Johnson? Estariam os Londrinos assim tão desiludidos com a “afirmative action” e com as políticas raciais de Livingstone? Que aconteceu os protestos monumentais contra a poll tax que provocaram a derrocada de Tatcher. E que faz Brown para apaziguar os ânimos do tal volúvel eleitorado de classe média? Retrocede num conjunto de impostos que estavam a ser discutidos.

A pergunta permanece: o que quer esta classe média?

Peçamos o impossível, pois então. Enquanto isso a classe média vai-nos fodendo o possível.

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One Comment leave one →
  1. brunopeixe permalink
    Maio 11, 2008 2:53 pm

    Não sei se é a classe média que fode o possível. O que sei é que o Brown, o Prodi, o Sócrates e outros sorridentes seguidores da terceira via têm feito o possível para nos foder. O que me parece cada vez mais impossível é não sermos fodidos seja por que governo for.

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