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Im Keller Leichen versteckt haben

Maio 1, 2008

As caves de um país são os olhos da alma? Nós temos as caves do vinho do Porto, nós os portugueses. Delas extraímos, para além do precioso nectar da ínvicta, uma sólida imagem da nossa vocação – claramente partida, separada, ambivalente. Quer dizer: o Porto, o vinho, não é nosso, é qualquer coisa que nos exotiza lá para os salões do number 10 de Downing Street. Sempre assim foi. Cortados ao meio entre duas referências maiores: a Paris do bom Tormes versus a oxfordiana compustura dos nossos nóveis liberais. E assim é, de ambivalência em ambivalência chegámos ao medo de existir. Este medo seria mais apropriadamente apelidado por uma inversão: existir com medo. 

Estas são outras caves, as do existir com medo. Encontramo-nos na Áustria, não muito longe da imperial e austera Viena. Na pequena cidade de Amstteten. Alguém me chama a atenção para o facto de muitos dos que agora têm a provecta idade de setenta anos, terem enfileirado os exércitos do terceiro Reich; aplaudiram euforicamente o Anshluss, e embebedaram-se com os companheiros cuspindo para cima da barba dos rabis de Viena. Ah, a boa e imperial Viena!

Os companheiros de armas mostram fotografias com a cruz gamada ao peito; envergada garbosa e honradamente. Eram jovens dizem alguns. E agora surgem as caves. Nem sequer quero com isto dizer que existe uma relação directa entre o III Reich e as caves. Mas submeto a apreciação dos leitores (ou do autor) a teoria segundo a qual as planícies verdejantes da bela Áustria estariam pejadas de caves com os seus mortos – é esse o sentido da expressão que dá título a este post: ter mortos na cave. Expressão universal que, como bem sabemos, encontra a sua equivalente na não menos famosa “squeletons in the closet” ou “mujeres? Antes ter puercos para vender e comprar vinho!”, não tendo esta última frase nada a ver sobretudo quando vem da Galiza região frontal e honesta (se tais apodos servem para regiões).

Isto chama-se um desvio, o que eu fiz. E no entanto o que eu queria era falar da cave em Amstteten e do seu obreiro o demoníaco Fritzl. Não refaço a história que já toda gente a conhece – os seus pormenores macabros, o gosto mórbido com que nos pelamos por saber insidiosamente o quotidiano daquela cave. Dá que pensar: viver sem ver a luz do sol, um único dia. Por isso este post é o primeiro do solstício, porque, embora possa não parecer, o seu tema é o sol…e a morte. Ou a morte do sol. Não no sentido astronómico de: ah, a nossa estrela está a morrer! A morte do sol com o regresso do Muselmenn.

O que é o Muselmenn? Eram os mortos-vivos que vogavam pelos campos de concentração. Agamben recuperou-os para explicar a sua teoria da sujeição total, o espaço de excepção na lei aberto por essa inexplicável catástrofe chamada campo de concentração. O morto-vivo como vida nua.

As caves. Primeiro a de Prikopil, e o famoso aprisionamento de Natascha Kampush; depois Elizabeth e a sua cave em Amestteten. Não serão estas caves a vontade de regressar aos Muselmenn? O que têm estes dois acontecimentos em comum senão o facto de manter alguém em sujeição total? De retirar-lhe a vontade, a força, o âmago do ser, tornando-o vida nua, poder puro sem intencionalidade? Há qualquer coisa de fetiche pelos Muselmenn que se repete nestas duas caves.

Todavia, nem tanto. Porque há o sexo. O Muselmann estava condenado a não ser nem sujeito nem objecto de qualquer intencionalidade que não fosse o despojamento da sua humanidade. Estes mortos-vivos, enterrados vivos, eram ainda assim objecto do desejo sexual; da violência do desejo sexual imposto. Guardados com o esmero de objectos preciosos; tratados com o desprezo de coisas descartáveis. E todavia, esta espécie de brincadeira de dimensões macabras acaba por ligar as duas possibilidades irreconciliáveis: o sexo e a vida nua. O cativeiro das caves torna o impossível catastrofal dos campos de concentração a ilusão do consumismo absoluto. Sexo, desejo, e vida nua. Não é justamente isso que, ao limite, nos tornamos todos perante a impossibilidade de cumprir a injunção consumista?

Passo por aquele homem que costuma sentar-se de costas para o vento frio encostado ao corrimão da ponte. A perna enrolada num trapo que por vezes está mais sujo outras mais branco implicando a sua mudança de tempos-a-tempos. O trapo protege uma gangrena avançada; e para que o pútrido da gangrena não exude para lá do trapo, o homem enterrou a perna num frasco de compota. Da sua boca o mesmo gemido repetido indefinidadamente: por favor, por favor…Um copo de plástico estendido a quem passa. E eu pergunto-me como é que ele não morre? Com que fantástica força se segura ele ao corrimão da ponte?

Eles andam aí, entre nós – os Muselmenn.

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