A fragilidade dos argumentos

 

César da Neves tornou-se uma espécie de jogral da intelectualidade em Portugal. Faltando as contribuições generosamente iluminadas de Pedro Arroja, reduzido agora a perorar num blog chato e fundamentalista, temos César das Neves em versão estentória a berrar contra o ateísmo nas páginas de um dos jornais diários mais lidos do país.

Nestas coisas de religião é sempre tramado quando enveradamos por argumentos logicamente sustentados que não se couracem contra a refutação à força de dogmatismos e proibições.

Temos assim que César das Neves começa por classificar de inconsistente a atitude ateísta, inconsistência essa decorrente da sua fragilidade intelectual. Por conseguinte, César das Neves anuncia o propósito de trilhar os caminhos da justificação e da falibilidade para provar a existência de deus e a sua necessidade.

Os argumentos, nos quais César das Neves depõe uma fé cega, foram rebatidos, logicamente, há bastantes anos por Russel. Trago Russel à colação para que a acusação segundo a qual o ateísmo é um produto difundido pelo marxismo não tenha qualquer cabimento. A menos que Russel fosse um agente duplo. Mas para além disso, Russel, num pequeno ensaio que serviu de tema a uma palestra, denominado “Porque não sou cristão” rebate os três argumentos que César das Neves apresenta como sendo de força maior. A verdade é que não são. Tanto mais quanto as contradições que encerram são supreendentemente fáceis de detectar como provou Russel em 1927.

O primeiro axioma – porque CN os refere como axiomáticos – prende-se com a questão das origens. Quem criou este universo? Qual é a causa de tudo? Como refere Russel, trata-se do problema da causa primeira. Para os católicos tem que haver uma causa primeira, e essa causa é Deus. Mas qual é a causa de deus? Não tem. Deus é o ser primordial. Porém, se podemos imaginar um ente sem causa, que seria Deus, o que nos impede de imaginar que há coisas que não têm causa? Ou deus tem causa, e por conseguinte, não é causa primeira, e outra coisa o será; ou deus não tem causa, e isso permite a proposição de que há coisas sem causa, logo o universo pode ser uma delas.

O segundo axioma católico é o do plano. Vejam bem como é que algo tão harmonioso poderia ter surgido sem um ser supremamente inteligente o ter planeado? Como é que as coisas se ajustam umas às outras, sem concebermos uma mente superior para as organizar? A primeira reacção de um ateu deve ser afirmar, não!, as coisas não se ajustam umas às outras. E, indo mais longe, pôr em causa a premissa da harmonia. Porque é esta que é aceite pelos católicos sem demais interrogações. Mas qual harmonia? Onde vê um católico harmonia? Nas leis naturais? Nos padrões climáticos? Eu, espantosamente, quiçá?, só vejo desarmonia. Considero as coisas que me rodeiam, tudo menos ajustadas, calibradas, articuladas (um pouco como o programa de Manuela Ferreira Leite segundo VGM, mas ao contrário). Deparo-me muito mais com desequilíbrios, incertezas, imprevisibilidade. Onde foram os católicos buscar esta percepção de harmonia? Só pode ser puramente ideológica, ou melhor, teológica.

A ideia do plano, porém, possui também uma refutação lógica. Novamente Russel: se Deus planeou, porque fez assim o universo e não de outra forma qualquer? Se se disser que fez assim por seu próprio capricho, então não existe qualquer plano e deus deixa de ser o supremo arquitecto. Se se disser que o fez assim porque há razões para que assim seja – a maior harmonia possível ou a bondade do criador, por exemplo – então deus opera segundo essas outras razões que são exteriores ao plano e está submetido a leis que lhe não são consubstanciais. Se assim for, deixará de ser causa primeira.

Terceiro axioma apresentado por CN, prende-se com a diferença entre o bem e o mal e o sentido de justiça. Diz CN que todos os humanos, todas as culturas, sentem esta “ânsia” de dissociação entre o bem e o mal. Trata-se do argumento moral para a existência de Deus. A refutação de Russel é, novamente, lapidar. A existência do bem e do mal decorre da vontade de Deus; ou seja, sem a existência de Deus, o bem e o mal não existiriam. Russel sublinha que para refutar esta proposição, é indiferente saber se existe realmente uma diferença entre o bem e o mal; importa sim saber se se acredita que essa diferença resulta de uma vontade divina. Se resulta de um mandato divino, então para deus deixa de haver diferença entre o bem e o mal e torna-se incongruente dizer que deus é um deus de bondade. Se, como afirmam os teólogos e aprendizes de teologia, deus é bom, então teremos que concluir que a diferença entre o bem e o mal são independentes da vontade divina, porque a vontade divina é boa, e não má, independentemente do facto de ser a Sua vontade. O que nos leva à conclusão de que o bem e mal são logicamente anteriores a deus.

O último axioma de CN entronca com aquilo que se designa pelo problema da finitude. Segundo CN a perspectiva da finitude a que um ateu está sujeito só pode lançá-lo no desespero. Atrás, no que começa a ser um expediente cada vez mais usado pelos teólogos actuais, CN referiu o bing bang como a hipótese científica que prova que algo pode vir do nada: “Porque existe ordem, não caos? A resposta ateia era recusar a questão, porque o universo sempre existira assim, mas a teoria do Big Bang explodiu essa certeza e deu solidez científica ao facto da Criação.” Se aceitarmos o Bing Bang como explicação do princípio teremos que aceitar que ele coloca como real a hipótese da finitude. Pois o que diz o Bing Bang é que todas as coisas caminham inexoravelmente para a morte. Aceitar o Bing Bang como explicação para um princípio (reciclado pela teologia que adapta a seu bel-prazer a teoria) é ter que aceitá-lo como explicação para um fim. Se há coisa que a teoria do Bing Bang induz é à confrontação com a morte – a morte de sistemas solares, de estrelas, de planetas, de vida. Morte sem qualquer objectivo, assim como a vida que antes a precedeu, também não o possuía. Morte e vidas cíclicas, sem plano nem direcção global.

“Bons e maus têm o mesmo destino vazio”, diz CN – sim, é exactamente isso. Como não há qualquer razão que sustente que o universo seja essencialmente justo, não há qualquer razão para acreditar que os destinos seriam distribuídos consoante o grau de bondade ou de iniquidade. Basta, para tanto, olharmos à nossa volta.

 

 

 

 

Bater no ceguinho

Há um erro de apreciação no artigo de Mário Soares publicado ontem no DN. Soares insurge-se contra as excessivas desigualdades em Portugal reveladas recentemente pelo Eurostat e que tantos comentários, mormente de natureza política, têm merecido. E tem todo a razão em o fazer – é, efectivamente caso para nos insurgirmos. Se a insurgência se torna neste caso uma obrigação moral, será igualmente razão para apresentarmos argumentos morais que revelem de um definido sentido de injustiça. Claro que uma certa esquerda convive mal com razões morais, a que apelida criticamente de moralismo, presupondo-se assim que se insurge por razões que nada têm a ver com esta; eventualmente, alvitro, porque é chique insurgir-se.

Para além da apreciação catastrófica que Soares faz da situação actual nacional, aduz causas que segundo ele seriam externas. Ora as causas externas, como o preço atípico do barril de petróleo, o desregulamento dos mercados financeiros, a crise das subprimes ou as falências dos grandes bancos internacionais, que Soares enlenca, são com certeza bons factores para explicar o incremento das desigualdades e a pobreza extremada em que certas zonas do globo se encontram. Contudo, não explicam a peculiariedade do caso português e porque razão é este o país que mais desigualdades apresenta na Europa dos 25.

 

As condições que Soares identifica como estando na génese desta situação, afectam por igual todos os outros países. Se a explicação colhe, por comparação, em relação aos países da Escandinávia, onde os sistemas de segurança social se mantêm robustos e funcionais, dificilmente se percebe porque aparece Portugal atrás dos novos dez países de Leste. Aí, não apenas o sistema de apoio público tem vindo a ser desmantelado selvaticamente (com privatizações especulativas que geraram fortunas astronómicas de um dia para o outro) como a situação herdada do comunismo era de crise profunda em termos quer de produtividade quer de investimento.

 

Uma das razões que pode ser avançada é que justamente os países de Leste ainda não se encontram numa situação de descaracterização total dos seus sistemas de apoio público e que a herança socialista ainda perdura em certos sectores. Mas para contrabalançar, saliente-se que estes países só muito recentemente começaram a receber fundos estruturais que lhes permitissem equilibrar as suas deficitárias balanças de pagamento e incrementar o investimento. Dir-se-ia portanto que apesar de tudo Portugal, que recebe fundos estruturais há mais de vinte anos, teria que, necessariamente (senão obrigatoriamente), estar à frente em indicadores como a pobreza ou o nível de desigualdades dos dez novos membros. Assim não se verifica. Porém, o que mais incomoda e, seguramente, distorce a discussão, é que esta desigualdade é persistente; ou seja, não foi criada pelo governo Sócrates (mas que também, diga-se em abono da verdade, nada fez para a mitigar) como quer Soares quer sectores de direita sugerem. Sem termos isso em conta, estamos condenados a passar ao lado das verdadeiras causas da desigualdade em Portugal.  

 

Mourejante

 

À falta de adjectivos, de qualificativos, que coubessem nos, normalmente, contidos elogios que os porta-vozes do PSD prodigalizam aos seus, Graça Moura lembrou-se de um “radioactivo” para aplicar a Ferreira Leite. Não é fácil qualificar Ferreira Leite, mas vê-la acometida de “radioactividade” é trabalho para uma imaginação extraordinariamente fértil. Conseguimos imaginar uma Manuela Ferreira Leite a “emanar” arrogância, prepotência, maus fígados, verrina, e o famoso alheamento cavaquista de quem carrega a exuberância de nunca ter dúvidas.

Mas o que será uma MFL radioactiva? Começo por dizer que será desde logo um perigo para a saúde pública. E se isso não for preocupação suficiente, acrescente-se que os efeitos da radioactividade são perenes e não recicláveis pelos ciclos geológicos. Ora se isto não mete medo, não sei o que meterá.

A radioactividade de Ferreira Leite mede-se, porém, de uma forma assaz elucidativa. Segundo Graça Moura, não só ela nos bafeja com o seu cogumelo atómico, como traz consigo um programa. E é justamente este que faz toda diferença. Por programa não se entende um mero enunciado de pontos mais ou menos genéricos com os quais toda a gente pode estar de acordo, mas sim um conjunto estruturado de linhas de acção devidamente calibradas, devidamente articuladas e devidamente desenvolvidas pelo trabalho das estruturas partidárias competentes, face à realidade portuguesa – explicita Graça Moura deixando-nos incontinentes de vontade de querer saber mais. Ficamos, contudo, a saber que ela não carrega um mero enunciado de pontos genéricos, mas antes o bem mais específico e preclaro “conjunto estruturado de linhas de acção devidamente calibradas, devidamente articuladas, – e, como não podia deixar de ser -, devidamente desenvolvidas”. Todos concordarão que isto é uma definição de programa passível de ser encontrada no Dicionário de Morais. Nada sabemos sobre conteúdo, mas estamos descansados, pois parece que ele é “devidamente” em todos os aspectos.

Temos por conseguinte uma mulher radioactiva que calibra, articula e estrutura, e tudo na sua devida medida. Suspeito que o segredo se encontra neste insinuante “devidamente”. É que mesmo que Graça Moura não consiga enunciar uma ideia que seja sobre esse programa, podemos reconfortar-nos com o facto de nunca ninguém ter apresentado definição tão devidamente rigorosa do que significa a palavra “programa”.

Eles vivem

Ainda sobre Indiana Jones. Tenho dificuldade em situar o filme com precisão. Por isso prefiro enveredar por uma análise ideológica; ou, melhor dizendo, por uma análise do que ideologicamente nos é apresentado.

A acção passa-se nos tempos do maccartismo. Em pano de fundo são-nos dadas a aperceber um conjunto de perseguições a professores universitários cujos motivos nunca são bem identificáveis. Sabemos apenas que havia um clima anticomunista larvar. Hélas, existiam sérias razões para isso, pois não andavam os russos com o seu KGB a violar terreno militar norte-americano em pleno deserto do Kansas?

Indiana Jones é impreterivelmente pela América, que é o único país que não pretende dominar o mundo. Os russos querem adquirir um conhecimento de tal forma poderoso que lhes permita assenhorearem-se do globo; e até o cientista britânico está mancomunado com os comunistas (com os comunistas, mancomuna-se).

Por conseguinte temos que apesar de o clima persecutório ser um pouco exagerado, havia razões para tal, porque quer quiséssemos quer não, os soviéticos estavam realmente entre nós (eles). Better dead than red – lê-se num cartaz que alguém empunha à entrada da universidade numa manifestação de desagravo perante o comunismo que se insinua na academia. É claro que isto é uma tautologia, porque afinal de contas o comunismo andava realmente por lá a colonizar as mentes. O cogumelo atómico do início é rapidamente assimilável ao poderio americano, mas para que serve ele, esse poderio? A parábola resume-se assim: não desejes demasiado conhecimento porque ele é mortal. E isto assemelha-se sobremaneira à história do fruto proibido. Dead and red são equivalentes.   

 

 

 

As selvas

 

 

A primeira selva foi a de “As Minas de Salomão” em tradução de Eça de Queirós que eu só percebi que não era o autor passado algum tempo. Tinha eu então dez anos. Sentava-me no quintal da minha avó – um rectângulo esconso emparedado entre prédios – e lia pela tarde fora as minas do famoso rei Salomão descritas em estilo queirosiano de tal forma Eça se apropriou do livro homónimo de Haggard. Como poderia eu saber que Alão Quartelmar era na realidade Allan Quatermain? A voz de Eça, na realidade, a sua presença obsessiva, encontra-se em cada página, descrição, diálogo de “As minas de Salomão”. Dir-se-ia que, não tendo Eça escrito nenhum romance cujo fulcro fosse o colonialismo português, se tivesse imbricado de tal forma a sua linguagem na tradução do livro de Haggard, que o Quatermain, não é mais do que uma projecção do próprio Eça na figura do seu Alão Quartelmar na sua gesta colonizadora. Veja-se a sonoridade e polissemia de Quartelmar, junção entre a empresa guerreira do colonialismo português e a odisseia por mares nunca antes navegados.

“As minas de Salomão”, o original, é o percursor dos romances de aventura na selva, dos mitos propalados entre secretismos e códigos apenas conhecidos pelos neófitos, das descobertas maravilhosas em regiões recônditas em terras distantes. E, por isso mesmo, ou apesar disso, aparece a tradução de Eça de Queirós. Note-se que África praticamente não aparece na literatura portuguesa de antes do 25 de Abril. Ou melhor, um romance passado em África, excepção feita a crónicas de viagens, como a de Serpa Pinto. Contudo, África encontra-se estranhamente ausente das obras dos grandes escritores portugueses do final do século XIX até metade do século XX. Há referências a África, ao tráfico negreiro, à África dos pretos e colonial. Dificilmente se encontra um romance cuja acção seja localizada em África. No após 25 de Abril, África entra pela literatura portuguesa adentro para nunca mais de lá sair. Não apenas África, como os escritores africanos que possuem dela uma visão interior cuja voz fala na primeira pessoa de uma experiência propriamente africana não mediada pelo olhar colonialista.

 

O mesmo não se pode dizer do Brasil. A imortalização da cultura da cana do açúcar nas belas páginas de “A Selva” de Ferreira de Castro, mostram como o Brasil era e sempre foi parte do nosso imaginário. A viagem feita ao contrário, ou seja, a viagem do colonizador em direcção ao país colonizado, tem por símbolo a esperança desencontrada de o protagonista de “A Selva”. Desencontrada porque a selva de Ferreira de Castro não é um lugar que abriga templos míticos ou aventuras excitantes. Pelo contrário, é um lugar de doença, de morte, de trabalho, de desespero, de desesperança. É uma selva de agruras e de traições. Uma selva que coarcta cedo os sonhos do jovem que embarca em Lisboa rumo ao Rio de Janeiro com o objectivo de fazer fortuna.

Uma outra selva que se apresenta como um desafio à capacidade humana, ao encontro entre o homem e aquela parcela desconhecida da sua interioridade, é obviamente a de Conrad. Sobretudo no Heart of Darkness, selva de perigos inusitados e de dissimulações; selva que surge como desafio à capacidade humana de tentar os seus limites. Mas sobre isso, escrevi mais detalhadamente aqui.

Há uma outra selva, a de Kippling, que se encontra na sua avidez de aventuras com a inicial de Haggard. Mas essa é para mim desconhecida.

Finalmente, uma selva luxuriante, ufana, prenhe de ilusões e de desejos, como a que encontramos em “Os passos perdidos” de Alejo Carpentier. Aqui a selva ganha contornos de poesia lírica; confunde-se facilmente com o intricado do desejo do protagonista por duas mulheres. Esta selva está repleta de significados, de máximas sobre a natureza humana com que Carpentier vai pontuando as densas descrições de uma paisagem que se adensa ela própria à medida que vai sendo penetrada.

Há muitas outras selvas, claro está. De Edward Rice Borroughs a Mel Gibson e o seu Apocalipto.

O que sobra destas selvas no último Indiana Jones? Não muito. A recusa de Silperg em ceder aos efeitos especiais para manter a personagem interpretada por Harrison Ford o mais rude e natural possível, provocou um efeito de jardim botânico. Explico: se, por exemplo, Gibson passou semanas a tentar deslocar a câmara na selva em condições adversas, Spielberg optou por não colocar Ford e os seus venerandos 65 anos em apuros. O resultado é um tanto ou quanto decepcionante na medida em que esta última selva soa a jardim botânico. Nem sequer é comparável às memoráveis cenas do início de Indiana Jones e a arca perdida. A selva descaracterizou-se. Tal como Indiana: lento, mas ainda assim disfarçando surpreendentemente bem os seus sessenta cinco anos. Simples: a selva foi digitalizada. Aliás, todo o setting foi digitalizado, das formigas aos macacos, de o arremedo de Machupichu às cataratas do Orenoco. Por isso, este Indiana soa a falso. Temos um Jones que se quer fazer passar pelo ainda jovem e atlético arqueólogo de há vinte anos atrás, e um cenário que é igualmente artificial.

Talvez a selva tenha perdido a sua aura enigmática. Talvez a chamada selva urbana seja incomparavelmente mais tenebrosa do que as brenhas que bordejam o tempestuoso Orenoco.