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O feio mundo de Trump

Junho 26, 2018

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Para vermos como as questões das migrações são mal entendidas ou cinicamente distorcidas basta atentar no elenco de artigos que José Manuel Fernandes apresentava no observador há alguns dias, justamente sobre a temática das migrações. Desde as provocações ignorantes de Rui Ramos até ao espalhar de termos como “enchente”, “dificuldades de convivência”, “respostas naturais a mudanças culturais súbitas”, toda espécie de disparate é disseminado numa panóplia (algo enviesada) de artigos nacionais e estrangeiros. São bitaites atirados para o ar, sem qualquer sustentação empírica, desresponsabilizando os seus autores de serem sujeitados ao contraditório.

Mas a vaga não se encontra apenas na direita conservadora bem pensante. Ao ouvirmos a antena aberta de ontem (antena 1) percebemos que uma onda fascizante que tomou de assalto a Europa começa a fazer-se sentir no seu mais ocidental rectângulo. A xenofobia anti-imigrante do Zé Manel da Guarda encontra a sua irmã na retórica anti-imigração de Trump e dos seus acólitos. Os termos são de tal forma mimetizados que ficamos a pensar se o Zé Manel aprendeu de Trump, ou se foi este que aprendeu com os zé manéis do Iowa ou do Wisconsin. Facto é que uma reforça a outra, e vice-versa.

O núcleo actual da retórica anti-imigração encontra-se na diferenciação que se faz entre imigrantes desqualificados e qualificados. Para o Zé Manel da Guarda “essa gente que para aí vem” é toda desqualificada, o que à partida a desqualifica como merecedora de migrar.

Aqui a Europa fez um passe de mágica que é digno de nota. Durante anos os Estados Membros acusaram os refugiados de serem imigração económica encapotada. Com base nessa premissa recusavam-se entradas e preteriam-se estatutos. Os requerentes eram olhados com especial desconfiança e como potenciais abusadores da sagrada instituição do asilo. O que é que acontece actualmente? Toda a imigração económica é canalizada para o asilo! Em virtude das fronteiras estarem apenas abertas para os mais qualificados, o remanescente (que é também a maioria) fica automaticamente condicionado ao asilo. Ora esse remanescente é sem dúvida o menos qualificado, e simultaneamente o mais necessitado.

Todos sabemos que os países querem os mais qualificados. Isto apesar de a maioria dos empregos em oferta serem os menos qualificados. A troca aparente entre os nossos e os outros no que à empregabilidade diz respeito nem sequer é real. Os imigrantes ocupam em geral trabalhos mais desqualificados porque os autóctones não se sujeitam a ocupá-los pelos salários e condições que estão em oferta. O tristemente irónico nisto tudo é que por toda a Europa temos imigrantes altamente qualificados a fazerem trabalhos altamente desqualificados. Este entorse do mercado de trabalho não acontece por acaso. A oferta de trabalho desqualificado é bem mais rotativa e precária do que aquilo que oferecem os segmentos qualificados. O paradoxo é termos gente como Trump ou o Zé Manel da Guarda a berrarem que querem imigrantes qualificados quando depois o mercado oferece-lhes trabalho desqualificado e mal pago. Trump sabe isso muito bem. Ele, que governa uma empresa de construção global e bilionária, com entrepostos que vão do Uruguai à Índia passando pelo Japão, sabe perfeitamente que grande parte dos seus trabalhadores são mão de obra imigrante, mal paga e explorada. Milhares de mexicanos, nos Estados Unidos; de venezuelanos, colombianos, bolivianos, etc, na América Latina; milhares de muçulmanos na Índia. Certamente, o que a sua mega-empresa de construção menos emprega é trabalho imigrante qualificado. Ou seja, Trump é um mentiroso agitador de massas.

O Zé Manel lá terá as suas desculpas para justificar a ignorância reaccionária. Entre as quais, dizia este, afectando tanto de pânico como de desconforto, uma invasão muçulmana que por estes dias nos estaria a bater à porta. O velho tema dos bárbaros à porta. E perguntava-se com espantada incredulidade: – Mas porque é que são todos muçulmanos? E respondia tecendo conspirações e acusações aos poderes demoníacos que governam a UE – Porque os senhores do poder europeu querem quebrar os sentimentos nacionais à nascença, cerceá-los ainda antes destes se poderem exprimir e florescer em toda a sua pujança nacionalista. Seria mais simples pensar que há tanto muçulmano a imigrar porque as guerras e as crises têm ocorrido em países muçulmanos. Mas não, uma razão convulsionada e capciosa parece recolher mais dividendos para o espírito defensivo dos guardenses, pelo menos a julgar por aquele exemplo.

Porém, outros há para quem a desculpa da ignorância não tem cabimento. A elite intelectual de direita conservadora que acha que devemos “colocar as coisas em perspectiva” quando se trata de crianças encerradas em gaiolas em gigantescos centros de detenção. Para esses as desculpas são curtas. Para os Rui Ramos que encontraram pouso nas sinfonias cínicas da direita conservadora, o problema da imigração irregular justifica as gaiolas e não fosse a má-fé da esquerda bem pensante qualquer um veria que o problema se adensa e não tem solução à vista.

A imigração irregular é o simétrico da regulamentada. Só existe imigração irregular porque os canais regulares se encontram condicionados a um mínimo. Para todos os neoliberais acoitados na direita bem pensante, num mercado perfeito a mobilidade espacial dos indivíduos não teria mais restrições do que as forças da oferta e da procura. Por isso se um mexicano desejasse tentar a sua sorte no Iowa, num mercado perfeito poderia fazê-lo sem que nada se interpusesse entre a sua vontade e as suas oportunidades. Infelizmente (ou não) o que menos existe são mercados perfeitos. O que existe são estados e estes possuem, para citar uma bela expressão, o monopólio legítimo dos meios de mobilidade espacial. Trump e a sua política de gaiolas torna mentira um dos principais credos dos neoliberais que assentaram arraiais na administração. Nega as próprias interdependências geradas pela globalização neoliberal que tão bem acolhidas são quando se trata de fazer negócio. Ora a imigração irregular não é mais do que o desajustamento entre expectativas culturais e económicas dos indivíduos, vivendo numa densificação de redes globais, e os meios institucionalizados desigualmente distribuídos que permitem satisfazer essas expectativas. Num mercado perfeito seria um caso típico de mobilidade social coadjuvada por mobilidade espacial. Ou seja, os indivíduos deslocam-se porque procuram mercados onde as condições de institucionalização dos seus cursos de vida esteja garantida. Entre a fome e a guerra os indivíduos escolhem o bem-estar das sociedades ocidentais. A preocupação com a ideia de invasão que muitas destas cabeças propalam não tem o seu equivalente quando se trata de conquistar mercados. Aí a deslocação do capital e dos seus recursos não oferece a mínima contradição. Trump desloca a sua produção para a América Latina porque lá há trabalho barato e mercados ainda por explorar; mas insurge-se quando são os indivíduos que pretendem fazer o mesmo mas na direcção inversa.

A irregularidade tem que ser vista como um fenómeno endémico das sociedades globais. Quanto mais os estados negam a possibilidade de aceder a recursos que apenas a mobilidade espacial promete, mais o contingente de irregulares aumentará. Não é nem o falhanço de políticas nem uma patologia social. Patologia social é sim a medida nazi que a administração Trump implementou para estancar um fluxo que faz parte das razões pelas quais os Estados Unidos é a nação rica que é.

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São 11 contra 11 e nem sempre ganha a Alemanha

Junho 22, 2018

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A vitória do México contra Alemanha no primeiro jogo do grupo c do mundial deu-me uma grande satisfação. Para já tirou aquele sorriso arrogante da cara do Muller, o que por si só já é uma grande conquista. E depois assistimos a uma equipa rápida e matreira a atacar a Alemanha onde lhe dói mais: antecipando os passes dos seus meio-campistas e cortando-lhes o fio de jogo em contra-ataques (quase) mortíferos.

Mas este mundial tem sido parco em golos. E isto explica-se porque as equipas se colocam sistematicamente à defesa. O jogo da Alemanha com o México foi disso exemplo. Depois de marcado o golo, o México recuou linhas e formou um bloco intransponível à entrada da sua grande área. A segunda parte só deu Alemanha, com apenas algumas saídas em contragolpe por parte dos atacantes do México; mas no geral foi a Alemanha a carregar. O mesmo se passou com o exasperante jogo Argentina-Islândia. Os vickings guardaram a sua grande área com o zelo de guerreiros recebidos no valahala e raramente saíam de lá. O que acontece neste caso é que o jogo fica parado na circulação de bola (parece contraditório) e nas sequenciais tentativas de incursão junto à área do rival. Há uma regra no basquete que não permite este estado de coisas – a penalização por tempo sem atacar. Se não se ataca, sofre-se uma punição.

As equipas que baixam linhas após marcarem o tento e se confinam à defesa deviam ser punidas; o mesmo para equipas que apenas põem em prática estratégias defensivas sem praticamente qualquer construção. O mais recente jogo do Brasil contra a Costa Rica é o exemplo perfeito de como a estratégia ultra-defensiva pode macular o futebol. A segunda parte do jogo só deu Brasil; e tudo se encaminhava para um novo empate dos canarinhos. A Costa Rica não jogou futebol; limitou-se a fazer antijogo ensaiando umas surtidas rápidas cada vez mais raras há medida que o jogo se aproximava do fim. Mas eis que o golo brasileiro chega já em período de descontos. E o que é acontece? Magia. Os últimos quatro minutos do desconto mostraram os brasileiros soltos e sem a pressão do resultado e foi um show de bola. O Brasil mostrou, em quatro minutos, porque os seus jogadores são os melhores do mundo. Porém, fomos privados dessa magia durante 90 minutos de jogo porque a Costa Rica não quis dividir o jogo, apenas colocando-se obstinadamente à defesa. O mesmo com a Islândia que contra a Nigéria repetiu a fórmula. Uma equipa carrega carrega, a outra limita-se a cortar as suas jogadas. O futebol não pode ficar reduzido a isto.

Em tempos, nos primórdios da constituição das equipas de futebol, a canelada não apenas era permitida como era sinónimo de jogo viril. A regra da proibição surge em virtude das imensas lesões e porque o futebol se tornara cada vez mais tecnicista, enveredando pelo drible ao invés da força bruta.

As regras do futebol foram mudando. Por exemplo, o fora de jogo, inexistente outrora, sofreu várias modificações até chegar à fórmula actual. Assim, não me pareceria estranho que algo acontecesse depois deste mundial a respeito das regras do jogo. É que ele prova que equipas houve que foram apuradas só pelo facto de se entrincheirarem nas suas defesas e apostarem em contra-ataques rápidos. É pouco. É desesperante ver uma equipa a jogar contra a Islândia. Não há futebol ali. Estas equipas que não assumem qualquer risco deviam ser penalizadas.

A verdade é que se este estado de coisas continua estamos condenados a guardar toda a energia celebratória para o único golo que, com sorte, surgirá no jogo.

Porque a esquerda se tornou aborrecida.

Junho 19, 2018

Notícias ao Minuto

Devemos riscar das nossas memórias, percepção ou mais básicos estímulos cognitivos aquelas declarações de tipos de esquerda que vêm explicar ao populucho que se pode ser rico e de esquerda em simultâneo. Daniel Oliveira teve alguns desses momentos menos felizes nas suas crónicas. Recentemente, decidiu defender a quinta de Pablo Iglesias.

O problema de Iglesias – porque é um problema – resume-se nisto: não critiques no teu inimigo aquilo que desejas para ti. Em tempos ouve uma coisa que era propalada, sobretudo por Álvaro Cunhal, como a superioridade moral dos comunistas, algo que o autor explicitou num velho opúsculo. O que era esta superioridade? Uma das razões centrais para a sua existência era que ao contrário do burguês, cuja venalidade  infundia “a admiração pelo dinheiro e a sociedade de consumo”, a classe trabalhadora possuía uma moral proletária que respeitava as coisas pelos seus valores intrínsecos e não pela sua transmutação em valores monetários. Descontando o disparate, este era o cerne da questão. Senão o que poderia separar o burguês do proletário se o mesmo fascínio pelo dinheiro sobreviesse nos dois?

Diz Daniel Oliveira que a esquerda quer luxo para todos! Mas que se assim fosse deixava de ser luxo. Não meu amigo, não deixa de sê-lo! Assim como se todos vivêssemos abaixo do limiar da pobreza não deixávamos de ser pobres. Existe uma materialidade em ambas as condições que não é subjectivável.  A verdade é que o capitalista é o único que pode querer luxo para todos, sabendo no entanto que tal é impossível porque colide com a própria natureza do capital. Posto que querer luxo para todos é, à maneira de Veblen, querer ociosidade para todos. O luxo traduz-se em ócio, e essa é a importância que ele tem. O velho Sombart caracterizou como ninguém como o luxo gerou o capitalismo. E luxo e capitalismo são as duas faces da mercadoria. E nós sabemos como à “primeira vista a riqueza de uma sociedade sob o sistema capitalista se apresenta como uma imensa acumulação de mercadorias” (primeiras frases da Crítica da Economia política de Marx)

Segue-se que o luxo é próprio do capitalismo. Daí que, muito logicamente, a esquerda da “outra alternativa é possível” anticapitalista não poder ter como mote, o luxo para todos! Na realidade o único mote consequente, como bem sabiam os comunistas marxistas-leninistas, é luxos para ninguém!

Conclua-se que devemos sempre desconfiar do esquerdismo de quem se diz de esquerda e defende luxos para todos. A quadratura do círculo não se resolve com boa-vontade (cínica) ou assertividade ignorante. Por mim o Pablo Iglesias até pode querer luxos; não pode é querer ser anticapitalista.

Sheik mate

Junho 15, 2018

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Ontem tivemos uma primeira aproximação ao que é um mundial de futebol na era de Putin. Quer dizer, na era da máxima corrupção, autoritarismo político e falta de transparência nos processos decisórios. Essa era, a qual se tem expandido pelas grandes potências, atingindo actualmente Rússia, Estados Unidos, China, Turquia, entre outros players menores, teria que infundir o seu cunho no futebol. Ou não fosse este a maior manifestação de massas em todo o planeta.

Por isso o jogo que colocou a selecção Russa contra a da Arábia Saudita foi, à maneira de Putin, um jogo para afirmar taxativamente a superioridade da grande nação russa. Colocar, como pontapé de saída, a selecção anfitriã contra a mais fraca selecção do mundial de 2018 parece-me menos uma coincidência e mais uma vontade bem orquestrada. Os 5 a 0 infligidos à Arábia Saudita não são um resultado de abertura de um mundial de futebol, são um massacre digno de um cossaco a exterminar chechenos. E a forma atabalhoada como a Arábia Saudita praticou o seu futebol, questiona a razão pela qual foi sequer seleccionada para fazer parte da competição. Em rigor, esta não foi a Arábia Saudita que ganhou ao Japão! Por conseguinte, o jogo também teve aquele travo a coisa preparada nos bastidores, como os jogos entre Porto e Sporting esta época – um arrastar de bola a meio-campo que não leva a lado nenhum e que deixa a equipa particularmente vulnerável a qualquer saída rápida do adversário. Incompetência? Alguma certamente. Mas caramba a equipa foi apurada tendo passado por provas mais complicadas! Aquele estilo de jogo é um jogo mastigado; um jogo que noutra modalidade seria tido em conta como anti-jogo. E essa é a táctica dos jogos combinados.

Quantos negócios terão pendido para os sheiks sauditas por parte dos oligarcas russos só para nos brindarem com esta abertura do mundial? Imagino que muitos. E os russos lá viram as suas cores ficarem mais encarniçadas, a grande nação russa demonstrar que até no futebol é temível, a populaça sofrer um influxo de nacionalismo atávico, e etc.

Com os cinco a zero, a Rússia coloca-se praticamente nos oitavos de final. Mesmo que perca contra o Uruguai – é pouco provável que não ganhe ao Egipto – o goal average garante-lhe a passagem em primeiro do grupo. Num mundial onde não figuram os Estados Unidos – e com justiça – quem é que o urso russo não pode comprar?

A imagem que fica é a de Infantino ladeado por Putin e pelo filho do rei Salman. Putin com uma expressão no rosto como que a dizer – É inevitável. Infantino genuinamente contente com a maneira como as coisas estão a correr. E o filho do rei comentando qualquer coisa que provavelmente seriam os biliões que iria recolher no final.  É, sem dúvida, um mundial à medida de Putin e da Rússia dos oligarcas.

O nosso homem em Alvalade

Junho 7, 2018

É ternurenta a carta aberta de Daniel Oliveira a Bruno de Carvalho. Ternurenta indeed.

O homem cujo consulado principiou pelo roubo vil do treinador do clube rival, num processo limpo e transparente, que deixou bem patente quem era BC e, já agora, Jorge Jesus. Depois seguiram-se quezílias e insultos quase todos dias, como o soprar de fumo para a cara do presidente do Arouca. Acto cobarde, desde logo porque teve a intervenção pronta dos seus lacaios, caso contrário teria levado uns tabefes do outro. Esta imagem ocupou horas de televisão, e marca indelevelmente o carácter de Bruno. E no entanto vários senadores do sporting disseram “é fumo, e não interessa para nada”. O problema é que, como diz o povo, onde há fumo há fogo.

Sem dúvida que BC fez muito pelo sporting; e os sportinguistas devem-lhe estar agradecidos pelo mérito, polidez, sageza e sucesso da sua gestão. Tudo marcas que podemos reconhecidamente atribuir a Bruno de Carvalho. Sempre foi um homem pacato e ponderado – nunca truculento, intriguista ou simplesmente ordinário. Olha-se para BC, para as suas reiteradas aparições em conferências de imprensa, e é impossível não atestar que ali está um líder de estatura, um homem probo, um exemplo para crianças e adultos.

Que aconteceu então? Parece que este homem, esta mirífica figura que apenas existia na cabeça dos sportinguistas quando estavam a ganhar, desapareceu, e com ele as vitórias. Ou terá sido o contrário? Terão sido primeiro as vitórias a desaparecerem e depois o homem imaginário? A cabeça dos sportinguistas é estranha e a sua leitura da realidade ainda mais. Uma coisa é certa: o homem assim como descrito atrás nunca existiu. Muito pelo contrário: o verdadeiro Bruno de Carvalho sempre exibiu o que de pior a natureza humana tem. Por isso, devemos concluir que pessoas como Daniel Oliveira, Eduardo Barroso, etc, gostavam genuinamente daquilo.  Assim como o sapateiro ou o médico dentista gostavam genuinamente de Hitler, mesmo tendo conhecimento dos campos e das desgraças que se passavam na frente russa (bem sei a comparação é ofensiva e no limiar do aceitável, mas parece-me objectivamente iluminadora). Por conseguinte, os sportinguistas e os ainda não sportingados fizeram um pacto com o diabo; só que, contrariamente ao diabo faustiano de Goethe, os sportinguistas querem atirar o seu mefisto borda fora. E está bem. Porque uma coisa é agitar as grandes glórias do passado sportinguista, recriá-las, insuflá-las com retórica e ideologia, mentira também; e outra coisa é egomaniacamente sugar os recursos ao sporting, simbólicos, posicionais, de estatuto, e o que mais for possível.

Mas aquilo não é só o labrosta Bruno de Carvalho – é toda uma direcção que mais parece uma conspiração de estúpidos. Senão ouça-se Fernando Correia na conferência de imprensa de BC do dia 6/06 e os seus exemplos idiotas de não isenção do conselho fiscal. Fernando Correia, contentinho que estava com a manobra, leu em voz alta excertos dos membros desse conselho que descreviam muitos dos aspectos do comportamento de BC que efectivamente denegriram o clube. Aquela gente é tão estúpida que enquanto Fernando Correia emitia a sua catalinária, qualquer ouvinte concordaria sem margem para dúvidas que ali estava uma representação certeira de BC. Isenção, na acepção de Fernando Correia e da direcção do sporting é só e apenas quando se tecem loas ao seu presidente; quando em manifesta glorificação se elogia o grande líder. Porque se a intenção for crítica, é esta prontamente arrolada a falta de isenção.

Mas repito: isto sempre lá esteve desde que o sporting elegeu com gáudio o grande timoneiro Bruno de Carvalho. Não é novo. Foi o timbre desta direcção, e nunca mas nunca fugiu à regra das atitudes e comportamentos do presidente.

Os gregos categorizavam a tirania como um sistema político entre outros. Tirania era uma forma de soberania em que as questões que esta envolvia estavam todas subordinadas a um só princípio ou pessoa; donde, esse princípio ou pessoa tiranizar a vida da comunidade. BC não chega a ser um tirano. Há um termo que melhor se aplica, algo apoucador, mas que colhe bem na língua e tradição portuguesa: tiranete. Bruno é um tiranete. E as pessoas que o rodeiam, uns lambe-botas do tiranete. Porém, e nisso tem Bruno inteira razão, um tiranete legitimado pelos sportinguistas.  Estou em crer que certamente entre as vozes que agora se levantam pedindo a demissão estarão muitos dos 90% que votaram as alterações de estatutos que permitem a BC fazer o que hoje faz. Aquela gente gostava daquilo. Mesmo quando era patente que ele não deveria ter sido plebiscitado como foi.

O bom imigrante

Junho 5, 2018

A história que correu mundo do maliano que trepou quatro andares para salvar uma criança que estava pendurada num corrimão de uma varanda parisiense. As imagens impressionam pela destreza, força, coragem, e mais adjectivos que se pudessem encontrar. A façanha fez parte de blocos noticiários da CNN e FOX, de slots nos programas dos magos da stand up, como Trevor Noah, e em geral ocupou o seu quinhão nos telejornais de todo o mundo. Perante tal acto, o presidente francês concedeu a nacionalidade francesa ao herói do Mali e ainda lhe arranjou um emprego nos bombeiros. É uma história de bravura e recompensa à maneira das velhas epopeias.

E no entanto a cena deixa um amargo de boca, uma estranha sensação de desconforto, um travo a falso. Que não me tomem por xenófobo, ou aderente daquela coisa nova que se chama racismo anti-africano! Todavia  não consigo afastar a sensação de que a coisa peca por dois aspectos.

Primeiro, há algo de fictício no movimento do maliano – como se tivesse sido preparado em antecipação. É um movimento estudado, que não para sequer para pensar, que age num automatismo de quem conhece a estrutura, de quem sabe exactamente por onde guindar-se e como fazê-lo. Fictício ainda a forma apatetada como o francês que se encontra na janela ao lado segura e não segura na criança; como estando a tocar-lhe não a puxa simplesmente deixando-se estar “idioticamente” do outro lado da divisória sem esboçar uma tentativa que seja para retirar a criança daquela situação. Que diabos, é um criança, deve pesar quanto muito 30 kl e a inacção do vizinho que se encontra presente durante toda a situação é demasiado patética para que seja verdade. O contraste com a facilidade com que o maliano puxa a criança para dentro da varanda com uma mão tirando-a da sua situação de perigo iminente ainda sublinha mais o patético da inacção do vizinho (Trevor Noah brinca com tudo isto, mostrando o ridículo, mas parte de um premissa diferente).

Depois, por estranho que pareça não houve, como é mester nestes casos, intermináveis depoimentos dos vizinhos, entrevistas à criança salva – o que sentiste?, como vês o teu salvador?, o que disseram os teus pais?, etc. Toda a voragem comunicacional a que estamos habituados e que quando ausente causa a ligeira sensação de que algo está errado. Se quando Bruno de Carvalho dá um arroto dedicam-se dias a falar do caso, como é que um evento com este impacto mereceu tão acanhada cobertura jornalística? Sim, é certo que o Gassama foi entrevistado, assim como a imagem do encontro com Macron passou vezes sem conta. Mas um silêncio irredutível  abateu-se sobre todos os restantes participantes na aventura.

Segundo, por este conjunto de razões e mais algumas, o acto de bravura de Gassama soa a publicity stunt. As implicações são variadas, e espraiam-se desde o domínio da (ir)realidade da informação até à moral da abertura cívica e política da nação francesa. Se a mensagem for a de que um imigrante herói tem salvo-conduto para a nacionalidade francesa, então nada menos do que um acto de uma heroicidade extrema será necessário para a ela aceder. Donde se conclui que ser imigrante, a trabalhar regularmente num dos empregos de lixo que nenhum dos franceses quer, não chega para alcançar tão almejada prebenda. Doravante a fasquia será elevada a alturas inatingíveis. Tudo o que for menos do que aquilo não serve para nada e não terá lugar na sociedade francesa. E este servirá sempre por contraste com todos os outros cujo comportamento é sancionado negativamente. Há, contudo, um outro lado, o lado benéfico, sem o qual um publicity stunt não teria qualquer efeito. Sob este prisma, a imagem do maliano pode ser metonimicamente utilizada para assinalar a importância e a presteza dos imigrantes na sociedade francesa. Através de um acto absolutamente fora do comum, esta imagem tem, potencialmente, a faculdade de contrariar os discursos de ódio que apelam para uma “frança para os franceses” e que veem permanentemente o imigrante como um intruso parasitário. Neste sentido, os sinais enviados pelo acontecimento possuem um lastro benigno que não deve ser menosprezado. E é preciso que se entenda esse lastro não apenas limitando-o à França, mas imaginando o seu impacto no resto da Europa. Numa altura em que os partidos nacionalistas disseminam a sua mensagem xenófoba por cada vez mais países, as imagens do maliano a salvar uma criança francesa tem um peso simbólico que não será com certeza despiciendo. E se pensarmos que Macron quer que seja a França a liderar os destinos da Europa, que venha dessa mesma França um repto pela integração do bom imigrante, não seria totalmente de espantar. Hélas, a palavra que aqui devemos fixar é “bom”. E neste sentido existe uma continuidade (quiçá perigosa) entre alguns aspectos da retórica xenófoba e a elegia ao bom imigrante. Desde logo, porque há uma exigência de valor individual que dispensamos fazer quando se trata do cidadão nacional. O bom imigrante tem que ser completamente bom, e não pode haver sinais recalcitrantes nessa qualidade. Assim, por um maliano apelidado de homem aranha que recebe a nacionalidade das mãos do próprio presidente da França, há milhares que trabalham em condições de miséria e para quem a nacionalidade é uma miragem. A dupla natureza do imigrante é aqui perfeitamente sublinhada. Imigrante invisível enquanto força de trabalho, numa relação precária e mesmo de desconhecimento com o Estado que temporariamente o recebe; imigrante homem aranha, herói revelado num momento televisivo, singularizado pelos seus actos e a quem o Estado reconhece essa singularidade. Ora é no reconhecimento dessa singularidade, no excepcionalismo invocado como justificação para a prerrogativa cívica da cidadania,  que o imigrante homem aranha reclama o seu espaço na sociedade onde actualmente existe. Para todos os outros, os brancos, os franceses, reclamar o espaço na sociedade não é coisa que os atormente. Reclama-se, sim, e não o nego, espaços múltiplos em situações tão diversas quanto imprevisíveis (escola, emprego, família, exército, clube desportivo, etc). Ninguém nasce perfeita e acabadamente integrado e ninguém sustenta esse facto em absoluto pela vida fora. Mas reclamar o espaço numa sociedade é um patamar diferente. É o patamar em que não chega ser quem somos para sermos reconhecidos – é necessário um “mais”, um surplus de evidência que justifique a sua existência naquele lugar. Para que se perceba onde quero chegar, seja-me permitido citar com alguma extensão do livro de Nikesh Shukla “The good immigrant”

(…) the biggest burden facing people of colour in this country [England] is that society deems us bad immigrants – job-stealers, benefit-scroungers, girlfriend-thieves, refugees – until we cross over in their consciousness, through popular culture, winning races, baking good cakes, being conscientious doctors, to become good immigrants.

And we are so tired of that burden.

E é isto.

L’enfer

Junho 1, 2018

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Peguemos na trágica máxima que forneceu a fama a um enfadonho livro de Sartre: O inferno são os outros. E são. Os outros são quem nos agride e macula. Os outros esmagam-nos e infiltram-se no nosso sangue inoculando-o de doenças. Os outros destroem-nos com a pulsão da sua presença.

Porém, outros há que são o céu. Que não são nem a canção perversa do narciso, nem a maldição que próspero lançou a Caliban. São o mundo que nos espera num devaneio crepuscular; as ideias que temos por nossas e que se vêem acarinhadas por mãos alheias; a fonte de uma esperança augusta que destapa com o seu jacto uma abóbada de estrelas. São-nos esses infinitamente mais próximos? Nem por isso. O que macula está sempre mais presente. É o mais inesperado. Há um certo egoísmo nessa condição, é certo. Ou seja, darmos por adquiridos aqueles que nos confortam. Quem nos magoa surge geralmente como a fractura numa expectativa. Mesmo que essa expectativa seja afinal aquilo que se viria a revelar ser. O bom faz parte do tempo. O mau interrompe-o. Assim dizem os amantes não darem pelo tempo passar. E assim murmuram aos enlutados que dêem tempo à sua dor. Aos desiludidos, aos frustrados, o tempo surge como recorrente: memórias que volteiam sobre  um eixo único como os enxames sobre a sua colmeia. De todo o modo, nem todo o inferno são os outros. Ou uma parte do inferno é por vezes povoada por pessoas revoltadas com o facto de serem o inferno dos outros. Essa revolta é, paradoxalmente,  o que nos torna mais compreensivos, empáticos, humanos.

A maldade é desumanizadora. Olhamos o sofrimento dos outros com um misto de fascínio e distância. É por isso que as imagens que nos servem diariamente nos telejornais não nos provocam colapsos éticos irredutíveis.

Por vezes basta um acerto num gesto para que o desfecho seja incomparavelmente mais tranquilo. Por vezes, somente é necessária a pequena abdicação da vontade de infligir dor e sofrimento para que se construa uma harmonia extensível aos envolvidos. Isto é frequentemente mais fácil do que cominar sofrimento ou humilhação. Todavia, temos preferido, e os exemplos abundam ao longo da história, o contrário. Desde as micro vilanias do quotidiano entre conhecidos ou relacionados até às gigantescas atrocidades, preferimos esmagar o outro a recebê-lo na sua ínfima condição de necessidade.