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Putas e vinho verde

Março 22, 2017

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A boutade de Dijsselbloem sobre os países do norte terem que pagar para os desmandos dos  países do sul, porque os últimos gastavam tudo “em mulheres e álcool” é desconfortavelmente reveladora do que se tornou a Europa. Também aqui a esquerda relapsa faz uma análise apresada e recorre aos mesmos tropos da austeridade e da traição à social-democracia. Mas eu gostava de pessoalizar a análise. Ou seja, perceber que a Europa é regida por homens e mulheres e que esses homens e mulheres fazem parte de uma elite que se coloca à parte dessa mesma Europa. Antes porém alguma reflexão sobre o trabalho de exegese que as declarações do presidente do eurogrupo têm sido objecto.

Por exemplo, o Expresso. No pressuposto de que a notícia salienta um aspecto das afirmações que quando lidas no original é mitigado, o jornal sublinha que Dijsselbloem estava a utilizar uma metáfora aplicada a ele próprio: “Eu não posso gastar o dinheiro todo em mulheres e aguardente e em seguida pedir a sua ajuda”. O título do artigo, o que disse realmente Dijsselbloem, implica que a frase tenha sido citada fora de contexto. E no entanto, embora me pareça excessivo o tom condenatório geral, e seja verdade que Dijsselbloem não disse directamente que os países do sul andaram nas putas e vinho verde, o que ele diz não deixa de ser uma variação do coelhismo “vivemos acima das nossas possibilidades”. A primeira, para sermos correctos, tem uns laivos da retórica dos pigs e a ser verdade o que dizia Freud sobre actos falhados, o homem desejaria ardentendemente que a sua vida fosse mulheres e bebida. O regresso do recalcado na frase de Dijsselbloem poderia apenas significar o desejo inconsciente de mandar a sua vida chata no eurogrupo para o caraças e abraçar uma vida de dissolução de viagens diárias ao red light de Amesterdão. Ou podia ser que apenas estivesse lixado com o péssimo resultado do seu partido nas últimas eleições holandesas e que o facto de o seu lugar se ter tornado periclitante lhe causasse ansiedade. De tal forma que precipitou as coisas e parece que de periclitante o seu lugar passou mesmo a estar em causa mediante tão extemporâneas afirmações.

Mas vejamos isto pelo lugar das elites na actual conjuntura europeia. É preciso regressar ao “vivemos acima das nossas possibilidades” do coelhismo de má memória para percebermos um ethos partilhado por estes meninos. Um ethos que fala a linguagem do castigo e da recompensa. Aqui podemos perceber que enquanto há um total laxismo relativamente às grandes fortunas, como foi o caso português e o seu agente de liaison Paulo Núncio; há, pelo contrário, uma extrema severidade – moralista obviamente – em relação aos de menos posses. A Holanda é um caso paradigmático de larguezas em matéria de fuga aos impostos, de falta de controlo, de assobiar para o lado, e até de criações propícias a que se afirme como paraíso fiscal europeu. Não espanta por isso que de um holandês como Dijsselbloem pudesse vir o mesmo olhar severamente moralista enquanto pisca o olho aos possidentes. A analogia dos copos e vinho, entendamo-nos, é prenhe de duplos significados e não é necessário recorrer a Freud, como ainda agora fiz, para perceber que o raciocínio é sempre o mesmo: quem anda a calaceirar – na perspectiva desta retórica, obviamente – merece sofrer.

Todo uma axiomática leviana ajustada ao neoliberalismo conservador que assiste as instituições actuais e as pessoas que as dominam se esparrama nestes dichotes. A justiça do ganho do rico e do sofrimento do pobre, como se da ordem natural das coisas se tratasse; a culpa sobre o pobre que não soube aproveitar para ser rico por demérito próprio; o comportamento perdulário que leva à pobreza por oposição à contenção racional que leva à riqueza. Este considerando é, claro está, de uma falsidade atroz. Os comportamentos perdulários, dissipadores e irresponsáveis são marcas dos ricos e não dos pobres – pela simples razão que os últimos mesmo que os quisessem ter não podiam.

O Véu, esse objecto incómodo.

Março 20, 2017

Composite image of Muslim women wearing headscarves

Da esquerda para a direita: o hijab, a burqa e o niqab

Surgiu com grande aparato a decisão do Tribunal Europeu de Justiça de conceder margem de liberdade às empresas que desejem proibir o véu ou outros símbolos religiosos. Num dos telejornais nacionais a notícia até vinha enunciada como “proibição do véu” em grandes parragonas na caixa inferior. A história das sucessivas limitações do uso do véu e dos tipos deste é ampla na Europa; por isso dificilmente se justifica o espalhafato pela recente decisão do TEU. Tem exemplos emblemáticos no affaire foulard em França, em 1989, com a proibição de símbolos religiosos em escolas públicas. Na Alemanha com a proibição dos professores usarem símbolos religiosos – com isenção para os católicos – em certos Lander, em 2004 e 2005. Na Holanda, em 2015, com a proibição do uso do véu nos espaços e transportes públicos. Na Inglaterra com as controvérsias em torno do niqab e as limitações ao seu uso em instituições públicas. E mais recentemente, na Áustria com a proibição da burqa e niqab em escolas e tribunais, e em França com a proibição do burkini. Um historial significativo, portanto.

Não devemos ver por conseguinte a decisão do TEU como uma ruptura numa tendência (que nunca existiu) mais permissiva, mas antes como a continuidade de um processo que se tornou irreversível.

Hoje é evidente que quando se fala de problemas com o multiculturalismo está-se a referir os muçulmanos. O Islão é o problema identitário europeu, havendo ou não razão para o considerar como tal. Luckmann e Berger afirmaram em tempos que certos grupos legitimavam os universos simbólicos dos quais se tornavam zeladores, e se neles acreditavam ou não, era irrelevante. O mesmo pode ser dito de todas as tentativas de provar que o islão não constitui ameaça à identidade europeia: se é ou não verdade tornou-se irrelevante.

Sou daqueles que considera que a proibição de modalidades do véu como o niqab e a burqa são não apenas inevitáveis, como indispensáveis. A discussão sobre a imposição das crenças e culturas da maioria sobre a minoria não resiste, a meu ver, ao julgamento sereno relativo ao lugar da mulher no islão. Esse lugar deve sofrer transformações, e se tais mudanças só ocorrerem através das limitações de alguns dos seus usos e costumes então que seja. Não se pode defender a paridade feminina e depois continuar a olhar placidamente para mulheres islâmicas de cara tapada argumentando a relatividade dos padrões culturais. Mas também é preciso dizer que a medida deve ela própria ser paritária, ou seja, abranger todas as confissões religiosas. A proibição francesa de todo e qualquer símbolo religioso na sala de aulas faz sentido, e foi apoiada pelo tribunal europeu dos direito do homem. O problema é que nunca ninguém definiu se levar uma cruz pendurada ao pescoço colide com esta norma. O problema é que proibir crucifixos na sala de aula não é equivalente a proibir o véu ou a quipa judaica. Com efeito, o equivalente seria proibir crucifixos ao pescoço dos alunos. Não consta que a medida alguma vez tenha assumida estas proporções. Contudo, num exercício de relativismo social não é complicado concluir que é justamente esse o sentimento que uma tal medida implica na comunidade islâmica: o mesmo que se proibissem as pessoas de usar aqueles fios piedosos com o crucifixo pendurado. São formas de visibilizar a crença religiosa que em substância possuem a mesma natureza. Podemos sempre dizer que um artefacto atenta contra a liberdade feminina e a outra não. No que eu estaria fundamentalmente de acordo, não se desse o caso dessa raramente ser a justificação. A justificação tem sido quase sempre alicerçada no pressuposto de uma colisão entre o secularismo das instituições e os hábitos religiosos privados. Nas suas diversas formulações – seja porque coloca em risco a segurança pública seja porque desafia a laicidade das organizações – é esta a equação que se encontra em causa. Não se afigura o terreno certo para debater o assunto.

Como há muito viu a associação francesa Ni Pute ni Submisse, o terreno certo para esgrimir argumentos é o da liberdade da mulher. E aqui terão que ser chamados à colação todos os grupos religiosos. Porventura é porque uma tal ordem de ideias teria uma repercussão bem maior do que o acantonamento no islão a que geralmente a discussão se sujeita que esta tem sempre sido atirada para o campo da segurança ou da laicidade. Desde logo, os judeus teriam que ser confrontados com as suas práticas em matéria de divisão sexual, os hindus igualmente, e porque não os católicos, cujo papel da mulher, embora o mais emancipado (não vale a pena tapar o sol com a peneira), continua a ser objecto de manipulações grosseiras de cariz teológico. Eva nas três religiões do Livro é ainda assim o receptáculo da perversa ideologia masculina de culpabilização da mulher. Por isso quando a questão do lugar da mulher no Islão é levantada tendo por pano de fundo uma ideia de fanatismo ali colada, é bom lembrar que a subjugação da mulher está muitíssimo presente no judaísmo ortodoxo com marcadas implicações quanto ao papel desta na ordem sexual e laboral. Tal, como é evidente, não desculpabiliza o uso da burqa e do niqab; mas relativiza o foco de atenção sobre as práticas do islão.

Os bárbaros no interior das muralhas

Março 16, 2017

(imagem retirada do The Economist)

E a Europa lá respirou de alívio uma vez mais. Primeiro foi o imenso susto pregado pela Áustria. Esse lá passou sem maiores estragos. Agora a tremideira política causado pela Holanda e a ascensão de Geert Wilders. Podemos ficar contentes porque os liberais conservadores se aguentaram no poder. Mas Wilders tem um aumento notável – salta de 9 para 19 lugares no Parlamento – e ganha Roterdão por uma margem confortável, a segunda maior cidade holandesa, consolidando o reinado do PVV que detinha desde 2010. Por conseguinte não há motivo para respirar de alívio. Trata-se de uma tendência inexorável que mais cedo trará os seus azedos resultados.

Ainda ontem um renomado sociólogo português repetia na televisão a tese do esboroamento do centro ser decorrente do seu apoio às políticas de austeridade. A tese é falsa como por diversas vezes mostrei neste blog. Mas a contumácia com que a esquerda recita este mantra é exasperante. A revolução patriótica, como lhe chamou Wilders, parece ser um motivo mais consequente do que o imaginário da esquerda de gente vergada pela austeridade em voto de protesto. Até porque, como por aqui também já assinalei, não são os prejudicados pela austeridade que estão a votar massivamente na extrema-direita. É uma média e pequena burguesia, sobretudo rural ou de agregados urbanos menores, contra uma população cosmopolita habitante das “capitais” que resiste estoicamente a esta maré. Assim Amesterdão contra Roterdão na Holanda, ou Viena contra Graz na Áustria. Até ao momento afiguram-se ser as “capitais” a segurar as pontas deste frágil equilíbrio.

Todavia, parecemos condenados a vaticinar o fim dos tempos cada vez que há eleições na Europa civilizada. E digo civilizada, porque o lado leste há muito que foi perdido para os bárbaros. De tal forma que o desassossego provocado pelas radicais incursões da extrema-direita no jogo parlamentar rotineiro não tem equivalente quando se trata da extrema-direita que se encontra no poder e que domina o jogo. Esse é para todos os efeitos o caso da Hungria, da Polónia e numa certa medida da República Checa. Que a extrema-direita tenha acampado nas instituições nesses países apoderando-se da governança mostra bem como as hipóteses mais terríficas que possam ser fabricadas para este lado da Europa podem de facto realizar-se. Wilders ficou em segundo lugar na Holanda e por mais que os outros meninos não queiram brincar com ele, não vão poder ignorar um partido que arrecadou 19 lugares parlamentares. Quando o grande vencedor conseguiu 32 desses lugares percebemos que a extrema-direita já se encontra no poder e que não há qualquer motivo para respirarmos de alívio.

Pós-verdade

Março 8, 2017

PictureNick Dong, Retirado de ICA San Jose Institute of Contemporary Art

Não tenho a certeza donde surgiu a expressão pós-verdade, mas o que parece plausível concluir é que ela implica um determinado grau de transparência anterior. Esta pressuposta transparência é em si mesmo um efeito da dita pós-verdade na medida em que ela é falsa. Um regime pós qualquer coisa – tal como pós-modernidade – estabelece uma relação de superação com o substantivo. A superação da modernidade contida na ideia de pós-modernidade, do comunismo na noção de pós-comunismo, e assim sucessivamente. Pós-verdade assume a superação de uma época em que a verdade fosse o seu elemento estruturante. Essa época nunca aconteceu. Por isso de onde retira a sua autoridade a expressão pós-verdade?

A pós-verdade começou com o advento da publicidade. Melhor, intensificou-se, visto que sempre houve formações ideológicas devedoras dessa mesma lógica. Mas a publicidade é o ápice da pós-verdade. A publicidade transforma o exercício da verdade e do contraditório numa mascarada. Nada na publicidade é verdade, e no entanto tudo deve ser assumido como sendo. Se alguma coisa, a linguagem política foi aprofundando a mesma mecânica da publicidade. Foi-lhe copiando os meios e os tiques. E assim se chega a Trump, por exemplo. Mas este não é o advento da pós-verdade, nem sequer a sua expressão mais acabada. É apenas uma das suas instâncias mais perigosas.

Agora bem, vivemos imersos na linguagem publicitária. De tal forma que dificilmente distinguimos o que é afectividade gerada pela publicidade do que é afectividade real, ou seja, afectividade que não seja mediada por imagens carregadas de estímulos hedonistas. A forma como nos ligamos aos objectos não pode mais ser pensada sem a constante presença da publicidade, e os quadros cognitivos que a formatam têm vindo gradualmente a ser aplicados nas pessoas.  Viveríamos, por conseguinte, imersos em pós-verdade, caso tivéssemos alguns vez vivido imersos em verdade. Dos tempos do cristianismo onde o Verbo era a verdade, passou-se rapidamente para a imposição do verbo como verdade. E nesse sentido a nossa relação com a verdade sempre foi traumática, ou seja, revivida entre o desejo e o pesadelo.

Em suma, a expressão pós-verdade é inconsequente. Não apenas a verdade nunca surgiu na sua inteireza como sempre teve sujeita a regimes determinados (pace Foucault). Coisas como a identidade entre objectividade e neutralidade, cara à ciência moderna, são já elas próprias emanações da pós-verdade, porque pressupõem a impossibilidade da descoincidência entre protocolos e objectos – a subjectivação dos argumentos e conclusões.

Na realidade, a actual retórica da pós-verdade tem por implicação a perniciosa noção de que há uma forma objectiva de a ela chegar. É precisamente neste sentido que ela é um exercício retórico, assente na capacidade de nos persuadirem que a comunicação pode ser um meio sem filtros, de objectividade inatacável, basta para isso seguir os protocolos comportamentais adequados. Portanto, é uma defesa da classe jornalística, de comunicadores, que na senda da sua própria unção pretendem convencer-nos que através dela a verdade é-nos devolvida pura, cristalina, inatacável. Os defeitos passam a ser extraídos de uma avaliação, de uma qualificação, do trabalho de comunicação: o mau trabalho distorce a verdade. Como se esta estivesse ali, pronta a ser contemplada, na medida necessária do bom uso dos instrumentos que a captam. Termo conveniente, a pós-verdade. Conveniente porque abafa a terrível constatação de que a verdade é construída. E nunca é demais gritá-lo: se a mentira é assumidamente construída, sublinhe-se que a verdade também o é!

It was always never ment to be

Fevereiro 27, 2017

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Os dois filmes que foram campeões dos óscares podem declinar-se da seguinte maneira: it was never ment to be/it was always ment to be. O primeiro corresponde a La La Land; o segundo a Moonlight. Duas histórias de amor, ambas com um rasto de melodramatismo de outros tempos; ambas com referências a um outro cinema, um cinema com traços clássicos que dificilmente já se encontra na central de produção de Hollywood. La La Land é a história de um desencontro amoroso, um enredo que estava fadado a acabar mal – um descaso que dificilmente resultaria. Ou melhor, que tinha tudo para acontecer, e fosse há cinquenta anos atrás, com certeza que aconteceria, mas que numa certa visão oblíqua faz lembrar o Some come running de Minnelli: um par que não era ment to be, e acaba por nunca vir a ser. Talvez o mais interessante do filme seja o seu namoro com um cinema clássico norte-americano, injectando-o sempre de formas novas e actuais, tal como a cena no planetário reencenando o par James Dean e Natalie Wood, mas desta feita com cores de Fred Astaire e Ginger Rogers. E convenhamos, Gosling e Stone não são grande bailarinos, bem longe dos pares clássicos dos musicais, como Astaire ou Kelly, e no entanto essa versão meio tosca dos passos de dança dos dois protagonistas cai bem na era dos facebooks, da vida tal como ela é, da naturalidade do corpo e da exposição.

São, num certo sentido, dois filmes puros. Moonlight, o grande vencedor da noite, é um exercício de contenção estilística. Poder-se-ia imaginar tantas maneiras de modificar o filme, estragando-o, que o mérito do realizador está praticamente na depuração do seu estilo cinemático. Desde a contenção na violência, passando pelo apenas sugerido do sexo, qualquer outro filme sobre negros e bairros degradados norte-americanos resvalaria facilmente para os clichés e obrigatoriedades que a necessidade pictográfica deste tipo de filmes costuma exigir. Em nenhum destes exageros cai Barry Jenkins. Por isso o filme é extremamente humano, apetece dizer. E se bem que se possam elevar as vozes do inconformismo estético ou do pós-modernismo estilístico contra a própria ideia de filme humano – com arrepios na espinha e esgares de horror e rejeição – não deixa por isso de o ser justificadamente e sem pedir perdão: muitíssimo humano. E é também nesse sentido que ele recupera os grandes planos, lentos e evocativos de um cinema mais demorado, onde as cenas não se sucediam com a vertigem da espectacularidade. Há também, para ser justo, uma certa contenção em La La Land. Da mesma forma poderíamos imaginar mil maneiras de infundir uma espectacularidade desenfreada no filme. Mas ele recusa-a. Também porque o seu fulcro é uma história de amor, onde os dois protagonistas se tornam o mais importante, e onde são eles que ocupam o ecran. Não tem nenhuma cena que fique na retina, nenhuma cena que se torne um clássico. Porque não pretende ter. Filmes sobre pessoas para pessoas – perdoe-se a frase feita -, mas há algo de um novo humanismo que espreita neste cinema.

E bem, it was never ment to be/ it was always ment to be, duas versões da vida e das relações humanas, ambas tingidas com a inevitabilidade das coisas certas. Em Moonlight o amor vence, em La La Land o amor perde. Quase que apetece dizer com Stendhal: o amor é o milagre da civilização.

Marcelo – o improvável coveiro da direita

Fevereiro 15, 2017

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Uma das coisas mais fascinantes da política nacional actual é observar como o Presidente da Repúblico Marcelo Rebelo de Sousa baralhou o equilíbrio tradicional de forças que dava conteúdo a expressões popularuchas tais como “não pôr os ovos todos no mesmo cesto” e quejandas. Se por distribuir ovos por cestos diferentes entendíamos pôr um dos lados do espectro político no governo deixando sempre o presidente como contrapeso das larguezas a que o executivo se poderia dar – forma irracional de gerir a res publica e cinicamente modelar do poder do povo – Marcelo veio baralhar as contas. Posto que Marcelo, um presidente eleito maioritariamente pela direita, se transformou no presidente deste governo. Muitas foram as apostas, como nas corridas de cavalos, que colocavam avultadas quantias na eleição de um presidente da direita para fazer empenar a geringonça. Mas, para surpresa de todos, não somente não a faz empenar, como lhe tem dado o alento necessário em períodos de avaria iminente. Marcelo tem sido justo, em minha opinião. Mas para além disso inaugura uma forma de política directamente personalizável que não apenas assenta na sua capacidade muito particular de gerar afectos com os seus constituintes, como em laços directos de preferência amical com o membro máximo do governo. E isto tem resultado.

O problema é que terreno deixa à direita para gerir a sua estratégia? Neste momento, a direita deixou de ter candidato presidencial. Qualquer um que apresente contra Marcelo perde certamente. Porém, a estratégia de terra queimada que tanto PSD como CDS têm vindo a colocar em prática não permite endossar a enfatuation de Marcelo pela geringonça. É um dilema tramado. E nele reside o desespero suicida em que a direita se alavancou para mostrar a sua presença na sociedade portuguesa. As sondagens mostram que quanto mais Passos espalha os seus maus fígados por aí, menos aceitação tem. Por exemplo, as pessoas não percebem com que outra intenção, para além da de instrumentalizar o poder a seu favor, persegue a direita um ministro das finanças que atingiu o menor défice de sempre em democracia e deu juros negativos nos empréstimos estatais. Querer derrubar um ministro assim, é o mesmo que querer derrubar o papa actual só porque ele coçou os testículos na missa. Mesmo que a direita quisesse recorrer para o presidente, este estaria indisposto. Alguém duvida que se lá tivesse Cavaco outro galo cantaria?

O que torna a direita de Passos – sobretudo esta – antagonista de Marcelo. Isso é uma posição insustentável para o PSD pelas próprias leis de disseminação do carisma. Como ficar contra o representante mais amado da república portuguesa sem concitar a raiva dos seus seguidores? E como tentar partilhar parte do carisma que este vai aspergindo por aí sem ceder a dar apoio a Costa e à sua geringonça? É cruel para uma direita que governou com um seu cacique durante quatro anos perder agora a sua vantagem com alguém saído do seu seio. É cruel e é um jogo que esta direita não estava habituada a jogar. Por isso passou a jogar sujo. Não há no actual panorama político nenhum acto da direita portuguesa que não esteja encharcado de rancor e revanchismo. Tornaram-se um bando de rancorosos sem ideias nem soluções – um bando de ressentidos. Cuidado, no entanto, porque Marcelo, que é justo, afastar-se-á tanto mais quanto vir que da sua direita só ressentimento é oferecido. E tanto mais ficará esta sem presidente nem possibilidade de fazer novamente o pleno.

Vergonha

Fevereiro 1, 2017

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Terá um historiador maior obrigação ética de ser fiel aos factos? É longa a discussão de natureza epistemológica que questiona a realidade dos factos – haverá factos, ou serão construções? Haverá alguma objectividade no trabalho do historiador que não seja imediatamente contaminada pela sua relação – subjectiva – com os pressupostos factos? E qual a influência do exercício de selecção que qualquer história obriga a fazer? Mesmo aquela que é relatada nas circunstâncias mais quotidianas; ou seja, o contar de histórias, ou de estórias, sem a pulsão para a a atenção correctiva ou para a vigilância linguística dentro das imposições, mais ou menos rígidas, do discurso científico? Mesmo essas são resultados de selecções. Mas este texto não é sobre questões epistemológicas que, mal ou bem, têm atormentado historiadores e afins ao longo dos tempos.

É sobre um historiador em particular e sobre a sua duvidosa ética de historiador. Rui Ramos, num acesso de má-fé pouco admissível num historiador com o seu reconhecimento, ensaiou comparar a actuação de Trump a Tsipras e mais largamente ao Syriza. Postulava na sua crónica semanal que ambos seriam exemplos de populismo e que ambos foram (ou seriam, no caso de Trump) vergados pelo ambiente institucional e a colecção de direitos e grupos de pressão que envolvem o exercício da governação. Esta comparação a todos os títulos cínica e despudorada encobre duas coisas.

Primeiro, a direita mais conservadora adquiriu um hábito recente de taxar Trump de populista. Note-se a cautela em assentar certas premissas num descomprometimento que evite uma identificação demasiado directa com “aquilo”. A dificuldade em nomear objectivamente o fascismo ou acto ditatorial decorre de um desconforto identificatório. Afinal “aquilo” é o que muitos destes opinadores e teóricos sustentam em segredo, mas que no actual estado das coisas éticas têm dificuldade em assumir publicamente. Rui Ramos necessita da comparação disparatada com Tsipras não para nos esclarecer, mas para esclarecer a sua posição: um comprometimento que tem que aparecer como descomprometido. O raciocínio instala-se numa casuística escorreita e tem um pendor maniqueísta que cai mal a um historiador. A casuística? Formula-se assim: se eu mostrar que ambos os extremos do espectro político partilham de convicções e actos semelhantes – sobretudo em substância – então a minha identificação com um dos extremos fica resguardada da crítica. A direita conservadora donde Rui Ramos é proveniente não quer admitir abertamente que entre Trump e Hillary (e já agora Obama) escolheriam Trump. É facto que os tiques abrutalhados de pato bravo de Trump colocam a elite bem-pensante, mesmo de direita, a uma certa distância. Mas o espírito é comungado, na medida em que certas reservas sobre a “cultura da esquerda” ainda assim predominam.

Segundo aspecto, Tsipras pode ser muita coisa, mas não retirou liberdades e garantias a ninguém, nem fez selecções perversas com base em categorias sociais determinadas. Os atributos e acções ditatoriais de Trump não têm comparação nas técnicas de arregimentação do Syriza. Para mais tendo em conta que este, pela voz de Tsipras ousou afrontar os poderosos – a europa e as suas instituições – enquanto Trump, como todos os ditadores, serve os poderosos contra os mais fracos. Os populismos não se equivalem para além de qualquer substância: essa é uma armadilha da intelectualidade de direita. Assim como o populismo de Obama não se encontra sequer no mesmo registo ético do de Trump. Porque se poderia dizer que Obama soube gerir eficazmente formas novas de populismo, naquilo que poderíamos designar como um populismo de esquerda. Se se quiserem critérios de destrinça no que ao primeiro assiste como um populismo agregador, integrador, redistributivo de bens económicos e simbólicos, persiste no segundo como um populismo culpabilizador, fracturante, violento e desagregador. Por aqui nos poderia igualmente servir a comparação entre Tsipras e Trump.

Terceiro aspecto, há uma convicção que dir-se-ia ingénua no poder do sistema de checks and balances dos USA. Esta convicção não é nunca cotejada com a história, e os exemplos contrários à sua eficácia abundam. Na realidade, o panorama político actual norte-americano é efectivamente expressão da possibilidade de sabotagem desse mesmo sistema; sobretudo quando aqueles a quem incumbe por ele zelarem – congresso, senado e presidência – estão apostados em o imobilizar, ou melhor, manipular. A força da sociedade civil foi frequentes vezes esmagada sob o poder dos estados autoritários – é a história da América Latina. Achar que os USA possuem uma espécie de excepcionalismo nesta matéria é boa conversa para consumo interno – para alimentar fascínios avulsos com o que significa ser americano – mas colide contra avaliações serenas dos acontecimentos. O tão elogiado sistema de checks and balances foi o que viu nascer no seu seio uma comissão de actividades anti-americanas, o patriot act, a defesa da tortura (agora de regresso), a congeminação de uma guerra (entre outras) à revelia desses mesmos poderes de checks and balances.

Vale a pena regressar ao Plot against America de Philip Roth. Através do contrafactual Roth mostra como poderíamos ter tido uma América diferente apenas e só graças a um resultado eleitoral: se Lindbergh, o conservador republicano com simpatias nazis tivesse ganho as eleições a Roosevelt. Os paralelos não são desprovidos de sentido. Também temos um conservador republicano com simpatias czaristas por Putin. E não me parece que o despedimento imediato da procuradora geral norte-americana apenas porque esta levantou dúvidas sobre as proibições das nacionalidades imigrantes que Trump decretou evidencie muita boa saúde do sistema de checks and balances.

Em suma, Rui Ramos faria bem em não manipular os acontecimentos históricos e não enveredar por comparações absurdas e implausíveis entre Trump e Tsipras. Não o mostra a uma boa luz. Qualquer dia temos Rui Ramos a justificar Marine Le Pen com o populismo de Lula da Silva.