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Combate de afectos

Fevereiro 8, 2019

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Miguel Sousa Tavares tem uma posição que lhe permite dar-se ao luxo de criticar o que lhe dá na veneta. Em rigor, deveria ter começado a frase por dizer Miguel Sousa Tavares granjeou uma posição… dado que foi um estatuto construído, com provas dadas, com o aplauso do público. A sua crítica é a mais das vezes acutilante e consequente. E a ele costumamos permitir quase tudo, porque é geralmente bem fundamentado. Sereno, confronta os grupos de pressão e os corporativismos pátrios. Ele sabe que é intocável e que a sua imagem de jornalista e comentador independente o precede em qualquer julgamento.

Mas eis que confronta Rita Pereira e cai o carmo e a trindade! MST pode morder as canelas aos enfermeiros, dar porrada nos professores, enxovalhar os líderes benfiquistas  – e nada! Porém, tocando em Rita Pereira, a fashion star vesga do momento, é um deus nos acuda e aqui del rei! Moura Guedes, em mais um exercício de histrionismo disfarçado de jornalismo, vem para o espaço público atacar Sousa Tavares porque este ousou dizer que a exposição de Rita Pereira era exibicionismo. Os meninos da comunicação hitech nos seus pequenos feudos radiofónicos e youtúbicos vieram a terreiro defender a sua dama – as redes sociais! – como se se tratasse da sua própria mãe.

E o que provocou esta agitação na esfera pública portuguesa? O facto de MST ter ousado dizer que as redes sociais acoitavam um monte de gente exibicionista servidas a frio para uma ainda maior multidão de voyeurs. Por mais estranho que pareça, aquilo que para todos deveria parecer por esta altura banal, causou grande crispação na sociedade portuguesa. Quem assistir ao momento televisivo apercebe-se que MST está a fazer um esforço hercúleo para não desancar a bela Rita. Seja por respeito ao vedetismo, seja por honrar os tempos em que engatava suecas – estas mais louras, de tons mais flavos – no Horta 2 nas imediações de Lagos. A verdade é que MST pega no assunto com pinças quando a Rita merecia ser surrada intelectualmente. Não se trata de mais uma incursão no universo da violência sobre a mulher. A vontade é justificada, porque mal a criatura abriu a boca se percebeu que a mulher não tem nada naquele cérebro, é um poço de vaidade, um reflexo macaqueado do star system hollywodiano, uma pécora da imagem narcísica e por aí afora. Rita Pereira, em abono da verdade, só é a imagem: como actriz não vale nada e quando abre a boca, ficámos a saber neste confronto, pedimos-lhe encarecidamente que se volte a remeter ao silêncio.

Porém, e é aqui que Miguel S. Tavares mostra ser uma pessoa com poucas leituras, ser só a imagem na actualidade é o que importa. Por conseguinte, está longe de ser de somenos, um epifenómeno dos espaços e comportamentos de sociabilidade. Bem pelo contrário: ser só a imagem é o fenómeno mais consequente. E por isso Miguel S. Tavares deveria ter insistido no argumento, extremá-lo, colocar a nu a fragilidade e cinismo daquele edifício autocontemplativo.

Rita quer dar a conhecer à plebe a “verdadeira Rita”. Mas não há verdadeira Rita para além da imagem criteriosamente construída de Rita. Facto é que precisa de um gestor de imagem, que pelo menos sempre tinha um cérebro, para a acompanhar na sua gesta de vender a “verdadeira Rita”. Rita vende aos pacóvios  “a verdadeira Rita”, mas para isso precisa de um gestor de imagem e um especialista em comunicação e, presume-se, em redes sociais.

Claro que Sousa Tavares não foi tão longe. Ele move-se nos mesmos meios; para ele a imagem e a construção da mesma são igualmente consubstanciais ao seu modus vivendi. Podíamos inclusivamente perguntar se é actualmente possível sair deste ciclo. Creio que não. Mas é possível desmascarar os cínicos e labrostas que vêm propagandear o seu “verdadeiro eu” como se fosse uma esmola aos pobres.

Não é por conseguinte apenas uma questão de exibicionismo com a sua contrapartida de voyeurismo. É um fenómeno mais vasto cujos impactos vão bem para além da mera esfera comunicacional. Trata-se, no fundo, da incorporação dos processos produtivos na própria esfera do pessoal; na transformação dos afectos, dos desejos, das emoções em veículo de criação de lucro. Enfim, da subjectivação do trabalho, em que os mundos da vida dos sujeitos não se distinguem das ferramentas de produção.

Por isso a “verdadeira Rita” não é mais do que um prolongamento da falsa. E a primeira é tão judiciosamente controlada, preparada, estudada, como a que actua. Ambas visam aquela coisa muito crua, muito mesquinha, torpe até: vender. Conhecer a “verdadeira Rita” equivale a vender a falsa multiplicando o seu valor de troca em universos simbólicos sucessivos. Por outras palavras, a “verdadeira Rita” sabe que os seguidores nas redes sociais trazem proventos para a sua carreira artística, como numa câmara de ecos, em que cada um reforçasse o seguinte.

Não interessa saber se Rita é uma exibicionista. Miguel é, à sua maneira, um exibicionista também. No mundo da marketização da identidade pessoal só se pode ser exibicionista. E para cada exibicionista a sua legião de voyeurs. O que encanita é quando os mecanismos que aceleram esse exibicionismo – sendo as redes sociais apenas uma das formas possíveis – são apresentados na placidez da demonstração interior. Quando em bom rigor não são mais do que multiplicadores de dinheiro.

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Cair de Maduro

Fevereiro 5, 2019

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Maduro, tal como alguns ditadores que o precederam – penso concretamente em Sadam ou Kadhafi – só pode usar a táctica da fuga para frente. O ditador sabe que se o seu governo cair nas ruas o perseguirão, provavelmente julgando-o e matando-o, e à sua família; o mesmo para os seus correlegionários. Por isso, dificilmente uma solução política equilibrada e pacífica poderá resultar do caos em que mergulhou a Venezuela.

A Venezuela é um país destruído. Económica, demográfica, socialmente debilitado. Maduro já não tem nenhum projecto para a Venezuela – a única coisa que procura é salvar a própria pele. O exército é constituído por cliques cooptadas e endoutrinadas ideologicamente pelo espírito da revolução chavista. Mas já nada disso existe na Venezuela. É uma terra queimada, com milhares e milhares de refugiados a desaguarem nas cidades vizinhas – do Panamá a Lima, de Manaus a Buenos Aires. Um cortejo de miséria e desespero a fugir das terras do faraó. E este está, qual potestade no seu lugar etéreo, indiferente a todo o sofrimento do seu povo.

Maduro não quer cair, porque sabe que a queda equivale à sua morte. Não por qualquer apego mais elevado a uma utopia ou um projecto socialista que não pudesse abdicar por fé ou por razão. Mas simplesmente porque é Maduro, e porque a teia de interesses que criou em seu redor não quer renunciar ao poder acumulado.

A posição da esquerda portuguesa é assaz curiosa. Dizem que Gaidó é um fantoche da política externa norteamericana e, residualmente, europeia. Talvez seja. Porém é um fantoche com o apoio popular – e isso faz toda a diferença. Não é líquido que se possa falar de eleições livres na Venezuela. Tanto quanto se pode falar de eleições livres na Turquia ou na Rússia. Dizer que o processo deve começar do zero, negligencia que não há um ponto zero onde começar. Outrossim, há um regime autoritário instalado, com uma sociedade civil minada e desactivada por um militarismo capilar e abrangente. Serão estas as condições óptimas para realizar eleições livres? Duvido.

Há muitos traços em Gaidó que colocam qualquer um de sobreaviso. A sua religiosidade conservadora, a fazer lembrar Bolsonaro; a sua estreita ligação com a Igreja Católica venezuelana – Gaidó vem dos movimentos estudantis católicos –, a sua oposição a Chávez desde cedo – constituem sinais de que se trata de mais um terramoto conservador que chega a mais um país da América Latina. O problema é que um tal raciocínio deixou de ser relevante. Quando a alternativa é um presidente que quer mudar a constituição para se autoperpetuar no poder, como tentou Maduro, então não há que ter contemplações sobre o que significa realmente o “espírito da revolução”.  O messianismo dos discursos de Maduro; o provincianismo das conquistas tecnológicas para o povo; o patriotismo exacerbado – são traços típicos do autoritarismo ditatorial.

A Venezuela não difere muito da Angola de Eduardo dos Santos, com um presidente que açambarcou as riquezas do país e as distribuiu criteriosamente pelos seus apaniguados. Um presidente que não teve qualquer solução para os milhões de imigrantes que deixaram o país porque não sobreviviam.

É tempo de Maduro sair. Caso não fosse um ditador assumiria a derrota estrondosa do que quer que seja que quis impor como modelo para o seu país. É provável que Gaidó tenha o apoio dos Estados Unidos. Ninguém no seu perfeito juízo incitaria a uma revolução pacífica num país como a Venezuela sem estar respaldado por uma grande potência. O conspiracionismo que molda as declarações da esquerda tem os dias contados. Não vejo qualquer diferença actualmente entre ser um fantoche dos Estados Unidos ou da Rússia. E se Putin apoia Maduro podemos ter a certeza que não será pelas razões mais nobres.

Governar o ingovernável

Janeiro 25, 2019

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Do outro lado do Atlântico a evidência de um paradoxo. O government shut down do presidente Trump não preocupa grandemente uma considerável parte da América, tirando os lesados, ou seja, os trabalhadores da máquina do Estado. Para os republicanos a medida nem sequer é draconiana e isto porque é a consequência lógica levada ao extremo da ideia do small government. Desde os tempos de Reagan que os republicanos não têm mais nada para oferecer, se exceptuarmos a revolução conservadora e religiosa nos valores da sociedade norteamericana. O small government foi a bandeira política de Reagan nos 80 e lançou as bases para a desestruturação neoliberal que se lhe seguiu. O shut down de Trump é a mesma lógica levada às últimas consequências. Se o Estado é dispensável – excepto na segurança e na regulação da violência – então quebrar a sua máquina é de facto a intenção do programa político republicano. Com efeito, as reacções à inculcação ideológica da ideia de um estado dispensável é o que verdadeiramente representa a base conservadora de Trump – quer este seja representado como o Moloch dos centros políticos de Washington quer pela elite liberal.

Em França, a professia harendtiana está em vias de se cumprir. Os gillets jaunes mostram realmente ao que vêm: implementar a agenda e lógicas de actuação da front national.

Devemos pasmar com a reverência de Macron perante as reivindicações de um movimento que não tem mais nada para oferecer para além de uma retórica fascizante? Nem por isso. Afinal os líderes ditos “alternativos”, não se inscrevendo em nenhuma das forças tradicionais, rapidamente mostram um pendor irresistível para alianças com a extrema-direita. Foi assim na Áustria, em que o jovem primeiro ministro se apressou a chamar a extrema-direita para o seu governo; foi assim na Dinamarca; e outros casos haverá ou estão em  vias de acontecer. O que esta sucessão mostra é que entre as posturas ditas “fora do sistema”, como se apresentaram Macron e Trump por exemplo, encontra-se o pior do sistema.

A ideia de Macron de praticar uma democracia directa não nos deve enganar. O modelo dos cahiers de doléances da revolução francesa era ainda assim um expediente articulado com uma definição de uma totalidade política. Esta descrevia a sociedade na sua especificidade de ordens, de hierarquias draconianas e injustiças. Olhando para a primeira tentativa de Macron de falar com o “povo” o que encontramos? O “povo” queixa-se dos limites de velocidade e da insegurança na estrada! Por si só poderia ser anedótico, mas o que a expressão de tais doléances expressa é que estas são perfeitamente individualizadoras e não estão articuladas com nenhuma ordem de justiça. Macron vai aprender que a democracia directa na era do facebook resulta num exercício de narcisismos vários sem qualquer implicação com um pensamento das cisões, desigualdades e injustiças actuais. Este sistema de democracia directa representa ainda uma outra coisa, própria dos indivíduos reticulares e dos mecanismos de apresentação do facebook: a ideia de que qualquer opinião se equivale. Macron vai fazer o seu périplo real munido de uma caixa de doléances ouvindo o “povo”. Mas o povo é uma ilusão de óptica produzida pelo movimento. Bombardear o Estado com pedidos infinitos e de escala infinitesimal tem apenas por objectivo o bloqueio dessa mesma máquina. Na sua versão original, o povo, ou o terceiro estado, pediu as coisas mais absurdas, sendo para espanto de todos (ou nem por isso) o menos articulado dos estados nas suas reivindicações. Mas sabemos também que com esta consulta directa ao seu “povo”, Luís XVII abriu a caixa de pandora que havia  de o engolir.

Não especularíamos muito se disséssemos que a intenção dos gillets jaunes é inundar o Estado com reivindicações absurdas para que este quebre. Em ambos os casos, lançar o caos no Estado através das suas próprias ferramentas decisórias constitui o objectivo. E isto é em si mesmo interessante porque enquanto o “povo” se lança na senda do small government, este último consolida as suas estruturas autoritárias em formas que se encontram fora do campo (hors-champ, como diriam os politólogos franceses) da democracia. O pendor autoritário das outrora maiores democracias do mundo – como o Brasil ou os Estados Unidos – rivaliza com a consolidação do capitalismo autoritário nas antigas potências imperiais, como sejam a Rússia e a China. Este é um fenómeno que merece aprofundado escrutínio. Enquanto as reivindicações do “povo” se tornam irrealistas ou residuais no jogo e equilíbrio de poderes – o que afecta afinal o quotidiano das pessoas que o parlamento tenha mais 50 ou menos 50 deputados? Ou que entrem mais 1.000 refugiados em países com 80 milhões de habitantes como a Alemanha? – as estruturas próprias do autoritarismo cristalizam em torno dessas mesmas instituições que o “povo” pretende ver destruídas. Mas este autoritarismo está repleto de paradoxos e alçapões. Por exemplo, de que vale perseguir a educação sexual nas escolas, argumentando, como faz o filósofo Olavo Carvalho, que ela ensina às crianças o que é “boquete e pica na bunda”, se a internet está apinhada de “boquete e pica na bunda”? Que interessa censurar os professores brasileiros sobre o pretexto de uma contrarevolução anti-marxismo cultural se qualquer criança com o celular pode aceder a imagens de boquetes e pica na bunda no oceano de pornografia que a internet oferece? Que interessa dizer que o criacionismo é que é a verdade, quando toda a ciência dos genes, que permite justamente combater o cancro, se alicerça nos princípios do evolucionismo? A quem recorrem os criacionistas quando têm um cancro?

Este combate ideológico é uma cortina de fundo para uma deslocação mais tenebrosa: uma reorganização das elites que reclamam para si as velhas posições aristocráticas no seio de uma democracia envilecida. É esta aristocracia mundial, que nunca foi tão rica nem tão poderosa, mas que sempre existiu e se reorganizou após cada desestruturação, que governa actualmente o mundo. Bem para além de qualquer mecanismo legitimador. O que é mais interessante é que, dos Estados Unidos ao Brasil, da Rússia à China, da Inglaterra à Argentina, o mirífico “povo”, contrariamente ao terceiro estado do tempo dos originais cahiers de doléances, parece oferecer todo o suporte ao projecto de reconquista hegemónica da superelite económica.

Amarelo para todos os gostos?

Dezembro 20, 2018

 

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Há nos coletes amarelos uma violência soreliana. Em que sentido? Na sua mescla indesmentível de violência revolucionária e conservantismo moralista. Caso seja aplacado, o movimento que espalhou o terror pelas ruas francesas penderá certamente para a extrema-direita. Os seus membros, quando entrevistados, mimetizam o discurso da base que elegeu Trump: a higienização da política, o controlo do parlamento e dos parlamentares, a sobrecarga dos impostos. Subjacente a estes aspectos perpassa um discurso contra o decadentismo da república que foi precisamente o mesmo que elevou Trump aos pináculos do poder. Não é, por conseguinte, apenas na prática que os gillets jaunes se encontram com a extrema-direita – é também na teoria e nas suas visões políticas. A afinidade entre os métodos de uma violência contra a república e os seus símbolos – parlamentares, políticos, etc – e a orgânica do início dos movimentos fascistas é por demais evidente.

 É com estupefacção que vimos, daqui deste pequeno rectângulo, gente irada porque o ordenado mínimo é de 1300 euros. É apenas um dos mais altos da Europa, se excluirmos esse paraíso da opulência cidadã que se chama Luxemburgo. A ideia de que há políticos a mais é também reiterada pelos furibundos gillets jaunes. Uma linguagem própria dos fascismos regressada dos mortos pela mão de Trump e dos seus acólitos. Por isso é natural a capitalização que Marine Le Pen está a retirar das insurreições parisienses (e outras). Os discursos partilham afinidades e a possibilidade de mobilizar um descontentamento desta natureza – e particularmente por ser desta natureza – deve parecer aos lepenistas como uma segunda vida para a sua front national.

Não acredito na tese segundo a qual é preciso radicalizar a luta para que a verdadeira cara do poder seja exposta. Tese propriamente soreliana que é adoptada por alguma esquerda (Zizek à cabeça). E, não acredito, porque por vezes as formas de radicalização são formas de poder tão ou mais terríficas quanto as que se encontram estruturalmente cristalizadas. Se os totalitarismos do século XX nos ensinaram alguma coisa (pace Harendt) foi que a impossibilidade de articulação de uma ideia política com a acção abre o espaço para o movimento. E este pode assumir as mais insidiosas formas.

E em Portugal? Líderes de outros protestos tais como “O que se lixe a troika” e os “Precários inflexíveis” salientam, e bem, a natureza inorgânica dos coletes amarelos portugueses. Todavia, as mesmas temáticas dos gillets jaunes perpassam pela sua agenda contestatária: políticos a mais, corrupção, salários mínimos. Seja qual for o prisma através do qual se olhe estas reivindicações uma coisa é certa: elas estão longe de constituir uma agenda de esquerda. Alexandre Abreu, no Expresso, concitava a esquerda para que não fique à margem deste protesto social. Quando o Nacional Socialismo começou a dar os seus primeiros passos, muita gente da então esquerda alemã permaneceu na ambiguidade de aderir incondicionalmente a um movimento que assumia tais contornos populares. Sabemos como se pagou essa ambiguidade: com perseguição e morte nos campos de concentração. Por isso a esquerda não deve nem associar-se nem capitalizar de um movimento cujos principais agravos são haver políticos a mais e estes serem corruptos. Uma agenda antipartidarista que possui diversos pontos de contacto com o discurso reaccionário que destruiu a Alemanha de Weimar. Se a história nos ensina alguma coisa – e eu acho que ensina – é que movimentos que se dizem em defesa do povo sem qualificar a natureza da luta desse mesmo povo são perigosos. Bolsonaro venceu com uma agenda antipartido e antipolítico. Ele próprio um político de carreira. Tais movimentos precisam de uma figura providencial que reitere as suas palavras de ordem e soundbites; são totalmente avessos a uma articulação lógica das suas ideias, a um questionamento dos seus princípios, a uma teorização das suas finalidades. O que os move? Viver um dia como leão do que 100 anos como um cordeiro, nas belas palavras de Mussolini retwitadas por Trump.

Apesar da crítica dos comentadores oficiais ao líder do PSD, Rui Rio no seu discurso de Natal aproveita judiciosamente o momento. O soundbite de um governo que mente, que vende gato por lebre, veste que nem uma luva os agravos desarticulados dos nossos coletes amarelos. As greves dos enfermeiros, orquestradas pela bastonária, militante do PSD, com as suas quotizações à la anos da Tatcher, são uma controversão do princípio da greve e uma acção de guerrilha de um grupo privilegiado. Mas estas pequenas escaramuças convergem todas, não para a tempestade perfeita, mas para um vendaval desestabilizador. A direita começa a praticar aquilo que melhor sabe fazer: minar a esquerda através de uma retórica antipolítica. O tema da corrupção é obviamente dos mais interessantes, sobretudo porque deixa passar em claro uma corrupção endémica, a da esfera dos negócios, com os banqueiros a esbulharem milhões ao erário público, as grandes companhias como o facebook a fazerem fortunas incalculáveis através de esquemas ardilosos de venda de dados, para apontar baterias exclusivamente aos políticos. Qualquer discurso que demonize a figura do político sem lhe colocar substância, sabemos sempre de onde vem.

Os coletes amarelos chegaram a Portugal. Vamos ver como Portugal reage.

Libertadores

Dezembro 12, 2018

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E o River levou a taça. Enzo Perez de boa memória no Glorioso!, ergueu o troféu no meio da euforia do Santiago Bernabéu.

Os hinchas acorreram a Madrid para assistir à final, e assim a capital espanhola vestiu-se por uns dias de cores argentinas. Houve quem notasse sérios sintomas de pós-colonialidade no acontecimento: afinal de contas os argentinos regressavam à potência colonial de outrora para acompanhar as suas duas principais equipas. O dérbi latino-americano da década jogado na velha Madrid que em tempos enviou os seus barcos para a entrada do Rio de La Plata para esmagar os insurrectos.

Não é surpreendente que os hinchas depositados em Madrid nas vésperas da final se regozijassem com a segurança que viviam esses dias. Em contraste com o clima de violência que rodeou a final em Buenos Aires, a capital espanhola pareceria um paraíso ao turista argentino. A insegurança de uns não reflecte a insegurança de todos. Os milhares que vivem em La Boca que não têm dinheiro para pagar uma casa condigna teriam apreciado poder deslocar-se ao estádio do River para assistir à “sua” final. Mas a capacidade monetária para pagar uma viagem à Europa não assiste a todos.  Para os pobres de La Boca a violência teria sido pagar essa viagem. É por isso natural que o público que se deslocou a Madrid e que se sentia seguro fosse sobretudo gente de posses. Os outros ficaram a espalhar o seu fervor clubístico pelos cafés e bares das diversas capitais das províncias argentinas.

Se é verdade que a copa libertadores chamou pela primeira vez na sua história a atenção de milhões por esse mundo fora, também não deixa de ser de registo que retiraram à América-Latina a sua festa máxima do futebol. É certo: os chineses ficaram embevecidos com os craques argentinos a jogarem num palco mundial. Mas os argentinos de carne e osso só se puderam encantar pela televisão.

Podem obstar: mas as finais dos campeonatos europeus podem ser em Berlim ou em Moscovo se for caso disso. É um facto. Mas ainda assim é na Europa. O que seria uma final da champions no Perú? Como reagiriam os europeus?

A mansidão com que a decisão do comité da uefa foi aceite diz mais do espírito argentino do que à partida se possa pensar. Afinal de contas os argentinos imaginam-se como os últimos europeus da América-Latina; a sobrevivência do adn europeu no meio da crioulização que abafou o remanescente de brancura ariana nos outros países do continente. Teria parecido então um regresso natural ao seio europeu, agora que estão ultrapassadas as convulsões revolucionários e o mundo global permite-nos pensar como cidadãos do mundo. Não houve por conseguinte uma grande comoção. Os argentinos aceitaram o molde onde os colocaram: violentos e incivilizados; incapazes de organizar pacificamente uma ocasião desta natureza. E viram como seu destino indiscutível a civilizada europa. Foi como um reencontro com a sua fiel e especular imagem de Paris da América-Latina. Será na verdade que os mecanismos da pós-colonialidade funcionaram de formas subreptícias e fantasmáticas?

Se bem que a Europa foi provincializada em muitas das suas velhas dimensões, o futebol não é uma delas. No reino do futebol, a Europa continua a ser o centro do mundo. E ao reclamar para si a taça libertadores exerceu uma vez mais esse direito como querendo reescrever a história no único legado em que ainda pode efectivamente pensar-se como central. Assim, em plena revolução de descentramento da Europa, outrora senhora do Weltgeizt (espírito do Mundo), segundo Hegel, vem ela reclamar uma centralidade perdida há muito. Esta personificação da Europa é algo que percorreu os caminhos da modernidade Iluminista em diversas frentes. Entre elas a da Europa civilizadora, senhora de aquém e além mar, domesticadora de pulsões primevas e tribais. Não poderemos ver neste assomo paternalista da parte da uefa o recriar dessa função? Não vieram os indomesticados argentinos levar um banho de civilização à cidade do Escorial assim como em tempos os indígenas eram trazidos à presença dos reis?

É certo que a relação de subordinação actual sofre de muitos e variados matizes. Os milhões que os jogadores e clubes ganharam com a transplantação do jogo mais aguardado de sempre na Argentina temperam qualquer visão radical de subalternidade. E no entanto algo da missão civilizadora de tempos coloniais se inscreve nesta transplantação geográfica. Porque se a razão foi a impossibilidade de controlar a violência que lhe estava associada em Buenos Aires, porque não realizá-la no Chile? Ou no Perú? Nada havia de irredutível na violência latino-americana assim como nos foi representada. Basta lembrar que o ano passado a segunda-mão da copa foi realizada em Lanús, província de Buenos Aires e não houve qualquer ocorrência que a ameaçasse.

A hiperbolização dos acontecimentos perto do estádio do River leva a crer que a solução encontrada já havia sido pensada. O lastro de magia que os grandes jogadores argentinos deixam pelos estádios europeus poderia ser replicado, com benefícios, caso se providenciasse um palco mundial para as duas maiores equipas da Argentina. Porém, o futebol argentino está longe de ser o que era. E a razão para que assim suceda é a mesma estrutura pós-colonial que ditou que a final da copa libertadores fosse trazida para a Europa. A rapina a que os clubes argentinos são sujeitos anualmente pelos grandes –  e ricos – clubes europeus nunca teve uma expressão como a que assume actualmente. Se as grandes promessas são como teletransportadas na idade de 13, 14 anos para os pastos verdejantes da globalização futebolística, como poderia ser de outra forma? Daí vermos Tevez ou Enzo Perez a capitanearem equipas quando já deram tudo o que havia para dar nos maiores clubes europeus. Todos os jogadores que se encontravam este domingo no Santiago Bernabéu, se ainda não saíram da Argentina, já não vão sair. Quando muito transitarão para grandes clubes brasileiros ou chilenos. Para eles o sonho de ingressarem no carnaval rutilante dos salários na ordem dos milhões não se irá mais concretizar. Por isso aceitaram jogar a partida da sua vida no centro do futebol europeu. Para eles foi a oportunidade que ou nunca tiveram ou, como Tevez e Enzo, não mais vão ter.

Poder e massa (século xxi) parte 2

Novembro 22, 2018

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Homem na encruzilhada… de Diego Rivera

Os republicanos, nos Estados Unidos, começaram a perder terreno não em virtude dos atropelos aos direitos por estes gradualmente perpetrado; tão-pouco pela desregulação selvagem da economia; ou sequer pela inversão total das políticas redistributivas. Estas são questões que quadram na lógica social dos direitos sociais. Onde os republicanos começaram a perder terreno foi na esfera dos afectos. Esfera propriamente privada que suscita comoções populares quando invadida e exposta como pública. É aqui que devemos pausar e retornar à questão inicial do porquê do fascínio com a “autenticidade” dos reality shows. A princesa Diana não era política, e no entanto comandava mais vontades e concitava mais admiração do que qualquer figura política. Tão-pouco o fascínio que esta suscitava se devia à sua pertença na realeza. Se assim fosse não teria mantido os índices de popularidade que teve mesmo depois de sair do domínio da vida da monarquia britânica. Não era por conseguinte uma relação de legitimação que estava em causa. Tratava-se de um investimento afectivo, libidinal até se quisermos. O mesmo se passa com Trump e com Bolsonaro.

Acontece que a esquerda articula a sua mensagem na ordem dos direitos, ou seja, da legitimação contratual. Mas na sociedade dos likes as adesões são instantâneas e afectivas. É por isso errado ver a questão quer pelo lado da anomia – a desagregação da normatividade – quer pelo da classe – os excluídos que não se identificam com a democracia. Pessoas como Bolsonaro ou Trump cativam o eleitorado porque justamente não se dirigem a ele como eleitorado, mas sim como audiência. O voto passa então a ser uma guerra de audiências e não o plebiscito de ideias e programas.

A lógica das audiências nada tem a ver com o que é “bom”. Não há uma axiologia na guerra de audiências. Nesta guerra ganha a espectacularidade. É por isso que o discurso da esquerda se mostra particularmente impreparado. Ele mantém-se (e ainda bem que assim é) axiológico. Porém, numa época pós-axiológica – que não deve ser confundida com uma pós-ideologia – o que importa não é estabelecer valores numa hierarquia, mas sim organizar a emotividade.

As fotografias de Bolsonaro com os dedos em formato de cano de uma pistola, bem podem ter irritado a esquerda intelectual, mas criaram uma identificação imediata com o público. Afinal de contas a maioria de nós tira selfies a fazer gestos estúpidos com as mãos. No facebook chovem likes se publicamos uma fotografia em pose. Ou seja, implicitamente identificamo-nos com aquele modelo de apresentação do “eu”. Viver como uma estrela, com ostentação, mostrando a distância que nos separa de todos os outros, é apreciado, admirado, desejado. Por isso as atitudes autocráticas de Trump não surgem aos olhos do público como obscenas porque elas seguem o padrão das “estrelas”. A esquerda faz mal em procurar em Trump um estadista. O público não quer um estadista: quer uma estrela.

Isto não é propriamente novidade. Reagan não era um estadista – era uma estrela. E até Palin, antes de cair em desgraça, surgiu sobretudo como uma estrela, visto que o falhanço enquanto estadista estava exposto para toda gente ver. Trump refina apenas o princípio subjacente a estas experiências. De tal forma que num famoso debate com Hilary Clinton que antecedeu as eleições de 2016 sugere que deveria ter ganho um emy e que só por que o sistema está “rigged” (viciado) não o obteve. Utilizou rigorosamente o mesmo tipo de raciocínio que fez quando popularizou a expressão “drain the swamp!” – o sistema político de Washington estava “rigged”.

Há, nos dias que correm, uma correspondência muito estreita entre a autocracia e o universo simbólico do star system. Putin, na Rússia, engendrou um culto de personalidade de pendor religioso. Altares com a sua efígie são montados em diversos locais de Moscovo, curiosamente os mesmos locais simbolicamente associados aos vultos do velho comunismo.  A sua vida privada, de forma controlada, é passeada pelas revistas e órgãos de comunicação afectos ao presidente (que são praticamente todos).

As afinidades entre Trump e Putin não ficam pelos tiques autocráticos – extravasam para a capacidade de transferir o modelo do homem de negócios à gestão política. E este tem, actualmente, uma particularidade: o sucesso.

O sucesso não é uma característica política. O sucesso não funciona por legitimação; não é um aspecto contractual. Recordam-se como Habermas associava a legitimidade à verdade? O sucesso é uma máquina autoexplicativa. Não necessita da verdade para nada. É por isso que o relapso raciocínio da esquerda está errado. O que diz a esquerda?

Atribui uma espécie de falsa consciência aos votantes da extrema-direita. De Trump a Bolsonaro, a esquerda quis explicar o indizível através da noção de que as pessoas eram enganadas. Ou por fake news no watsap ou por bots: a tecnologia das notícias falsas serve para justificar o comportamento eleitoral que não encontra enquadramento na racionalidade política da esquerda. Quer seja pela influência das fake news quer pelo lugar de classe (Marx) a lógica é sempre a de atribuir a comportamentos aparentemente irracionais uma qualquer obnubilação ideológica.

Julgo que nada é mais falso do que a noção de falsa consciência aplicada aos tempos actuais. As pessoas possuem um acesso à informação como nunca antes existiu. Que esta é manipulada, disso não restam dúvidas. Mas mesmo na manipulação, os enquadramentos são tão diversos que permitem ter uma imagem geral e relativamente completa do crivo ideológico pelo qual passam os assuntos. Sendo certo que muita gente não se dará ao trabalho de fazer esse cotejo – porque é algo trabalhoso! – também é verdade que as adesões respondem a motivações individuais, por vezes momentâneas, e não a uma qualquer agenda inculcada da qual o alvo não possua capacidade de apreciação e julgamento. E onde nos deixa isto tudo?

Tenho para mim que nos encontramos no território das identificações e desidentificações. É neste jogo que actualmente se faz o que quer que seja que passe por política. Casos tão diversos como Bruno de Carvalho e Trump, ganharam e perderam pela oscilação entre identificação e desidentificação. A crise da Venezuela, com milhares de imigrantes a serem vertidos nas fronteiras do Brasil diariamente a aparecerem na televisão, fez mais pela eleição de Bolsonaro do que qualquer programa político que este pudesse apresentar. Trump cai porque as mulheres se desidentificaram com o seu estilo machista e truculento. Nada de essencial mudou nas orientações governativas de Trump de 2016 para 2018 – pelo contrário: estas foram seguidas diligentemente e com o beneplácito de uma economia a crescer como poucas vezes aconteceu. O que ditou as suas perdas (não se pode falar de derrota) foi a crescente desidentificação com a figura do presidente.

Identificação/desidentificação existem num campo ortogonal à legitimação. Weber associava esta última à validade, ou seja, à justificação do mando, na sua linguagem – da dominação. Porém, as opções actuais dos grandes líderes mundiais são injustificáveis, no preciso sentido em que ninguém lhes pede justificação, ninguém se interessa mais por aquilo que se convencionou chamar accountability. É certo, os parlamentos funcionam, há uma pluralidade de partidos, geralmente reduzida a uma dicotomia, e há a imprensa. O problema é que não se distinguem mais os assuntos legitimamente accountables daqueles que não o são, ou só muito tangencialmente o serão. Assim Trump não começa em perda por causa da sua política de impostos; antes pelos seus hábitos privados com porn stars e prostitutas. Lula não é julgado pelo bolsa família ou pelas quotas no ensino público para alunos carenciados – mas sim pelos supostos subornos do apartamento do Guarujá. Chega a ser patético que uma população inteira se levante em armas contra um presidente pelo caso do apartamento num país em que os golpes, a plutocracia, o peculato, fazem parte do quotidiano. E no entanto a população saiu para a rua em polvorosa a exigir a prisão do presidente. Quem todos os dias convive com uma ostentação pornográfica em certas partes das cidades brasileiras convivendo paredes-meias com a miséria mais atroz ficaria seguramente impávido perante a minudência do apartamento de Lula. São estas contradições que já não são da política (cont.)

Poder e massas (século xxi) parte 1

Novembro 21, 2018

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A famosa frase de Toqueville (frase a rescender a púlpito e beatice, claro está) reza assim “America is great because she is good, and if America ever ceases to be good, she will cease to be great”. A América é tudo menos boa, e nunca o foi na largueza do seu tempo histórico. Glosando a personificação aplicada diligentemente por Toqueville à sua amada América, ela não tem sido senão vingativa, violenta, prepotente, intolerante e injusta – e isto desde os tempos em que a colónia passou a país. Um retrato do seu actual presidente, portanto. Ou não fosse isso que os americanos tanto amam em Donald Trump – uma fiel imagem das próprias características da pátria.

Ainda não tivemos oportunidade de perceber quem são as pessoas que se mobilizam para votar em ditadores, prepotentes, imbecis e fascistas. No Brasil, como nos Estados Unidos, há um movimento que confere esperança ao conservadorismo fascista que se avizinha. Como diria Órban, um governo do povo, para o povo, pelo povo… esquecendo sempre de mencionar as elites oligárquicas e plutocratas que o sustentam.

A onda azul não se verificou; ou ficou muito aquém das expectativas. Há uma América do interior que se revê em absoluto na figura e método de Trump. Que o reforçou no Senado e em número de governadores eleitos. Tal como no Brasil, e em contextos que se vão multiplicando por esse mundo fora, enfrentamos um eleitorado que não está nada interessado nos pilares da democracia. Essa distanciação da ideia democrática deve-se em larga medida ao facto de não sermos mais cidadãos, mas sermos sobretudo consumidores. Esqueçam por conseguinte a litania da falta de reflexo dos problemas reais nos discursos dos políticos; da desindustrialização que leva as pessoas a procurarem soluções radicais; dos esquecidos pelo poder de Washington, etc. Não são esses que votam Trump; e não foi com certeza quem votou Bolsonaro.

Podíamos inclusivamente cair no erro de pensar que a democracia foi sequestrada pelo grande capital, como é o discurso de alguma esquerda revoltada. Sendo um tal diagnóstico correcto ou incorrecto, o facto é que não tem qualquer peso na opção dos eleitores. Para estes, as soluções democráticas não são necessariamente as melhores.

A democracia tornou-se um termo vazio. Não por causa do capital, tão-pouco dos mercados – tornou-se vazio pelo mau uso que os principais visados da sua estrutura de oportunidades – o povo de Órban! – dela fazem.

Seria necessário perceber os mapas cognitivos que estão em acção actualmente. Gente como Zizek ou Jameson afirmam que não existe mais mapa cognitivo. Existe. O que não existe é mapa cognitivo no sentido emancipatório desejado pelos dois autores. Mas isso é mero wishfull thinking.

Os mapas cognitivos actuais devem ser lidos através dos parâmetros de apreciação dos reality shows. Devemos perguntarmo-nos por que razão a vida das celebridades interessa tanto a cada vez mais pessoas? Por que razão a situação comportamental “autêntica” nos fascina cada vez mais?

Porque nos comportamos como consumidores e não como cidadãos, os nossos padrões avaliativos, os critérios pelos quais se pautam as escolhas, nada têm a ver com a percepção liberal da participação do indivíduo na comunidade social. Aliás, estão tão afastados dessa condição – situação própria da cidadania – que é difícil falar de um cidadão para além do laço formal que liga alguém a um todo nacional. O espaço da cidadania é o espaço da legitimidade, da soberania, ou seja, o espaço da contratualidade e dos direitos. Os indivíduos actuais não se revêem mais neste espaço. Por isso é fútil o desejo expresso por Boaventura Sousa Santos de inventar uma nova contratualidade. O espaço actual não é político no sentido pristino do termo. Ou melhor, é directamente político no seu sentido mais primitivo. Linguagem dos afectos e das adesões bem menos do que dos direitos e das obrigações. Trump percebeu isso. Os discursos carregados de uma linguagem dos afectos contrastam com o rigor lógico dos discursos, por exemplo, de Obama. Bolsonaro seguiu a mesma cartilha – ou não fosse Steve Bannon o seu conselheiro. Como é que na sociedade dos Likes, de adesões tão imediatas quanto efémeras, poderia ser de outra maneira?