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Marine Le Pen – A mãe de todas as bombas

Abril 18, 2017

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Marine é a moab da Europa assim como a conhecemos. Tem o poder de fazer implodir o projecto Europeu infiltrando-se na terra e deflagrando a partir do seu interior: tal qual a moab. As ondas produzidas por uma tal deflagração arrasariam tudo à sua volta. Não é uma pequena mina terrestre como Strache na Áustria, tão-pouco um míssel de curto alcance como Wilders na Holanda. É a mãe de todas as bombas e o fim do projecto europeu. A entente que segurava a Europa entre França, Alemanha e Inglaterra, ver-se-ia reduzida à Alemanha; e esta por sua vez não tem interesse no projecto europeu para além dessa mesma entente. Sem França, ou tendo esta como inimigo juramentado do projecto europeu, a união desune-se, porque o cimento que a unia deixa de existir.

Le Pen tem aliás um discurso assaz curioso. Mas com o cinismo de Theresa May do outro lado da Mancha, quem a pode censurar? Os conservadores – e Le Pen é apenas uma conservadora de visões mais extremadas – nadam num mar de cinismo e hipocrisia. Os reptos de Le Pen anti-imigração, por exemplo, que coisas estranhas emitem quando não existe imigração para a França desde a década de 90! Porquanto desde essa época que a França, como tantos outros países europeus, encarreirou pelas chamadas políticas de imigração 0, que como o nome indica fecharam as fronteiras à imigração legal. Bem entendido, quando Le Pen fala refere-se aos refugiados. Eventualmente aos ciganos, aos roma do leste europeu que Sarkozy queria enviar num comboio para os seus países de origem. Mas a França tem as fronteiras fechadas desde o atentado do Bataclan e nada de extremamente novo aconteceu desde aí. Os empregos não regressaram, a França não se des-islamizou, os banlieus das grandes cidades não se transformaram em verdejantes quintas onde a paz reina. Porquê? Porque o problema não é a imigração. E mesmo que Le Pen assimile – como na realidade faz retoricamente – imigrantes e segundas e terceiras gerações, não poderá nunca expulsar cidadãos franceses.

O que significa então fechar fronteiras na acepção lepeniana? Não é com certeza fechar os caminhos aos estudantes chineses que acorrem em vagas cada vez maiores às universidades parisienses; tão-pouco aos jovens recém-formados italianos e luxemburgueses que tantas vezes estendem o seu campo de prospecção de emprego ao mercado de trabalho francês; também não será ao capital alemão que continua a circular quer em recursos humanos quer em negócios entre os dois países; menos ainda ao investimento russo que compra Paris aos talhões. O que quer dizer então com fechar fronteiras? Impedir os programas de aceitação de refugiados? Mas estes já foram reduzidos de tal forma que nem se consegue perceber donde viria o perigo por essa via…

Le Pen, tal como o seu pai, quer uma França pacificada com a sua história. Uma frança sem complexos ou dilemas morais com o seu passado colonial. E quer uma França branca, de comedores de queixo e de jogadores de Pétanque. Mas existe onde essa França? Não em Paris, onde o metropolitano oferece uma imagem saída dos piores pesadelos de John Difool e da cité-puits [ver o incal de Moebius para perceber alusão]. A França do dinheiro, a frança da moda, do turismo não existe sem esta, a da cidade-poço. Piores pesadelos no bom sentido, se tal se admite. Até porque essa Paris da confusão de culturas e origens é uma Paris que não se distingue daquela que nela é anualmente descarregada vinda de fora, de paragens tão longínquas como o Japão ou o Chile. Como fechar uma sem sacrificar a outra?

Le Pen é nacionalista. E isso está longe de contradizer a maior parte dos países com actual representação no parlamento europeu. Também aqui a mentira é dita e redita. Não existe qualquer contradição entre europa e nacionalismo. Senão como seria possível a sobrevivência no seu desta de nacionalismos aguerridos como o húngaro, ou o checo, ou o polaco? Não seria. E ninguém nas elites desses países se preocupa em fazer parte de um corpo chamado união europeia. O facto é que o federalismo é uma quimera na actual europa e só aparece para assustar criancinhas, como o papão. O papão do federalismo não tem qualquer consistência. E cuidado, o que Le Pen promete, o resgatar os empregos dos estrangeiros para os franceses, não anda longe das promessas de Trump. Ambas são falsas e subsistem apenas porque há muita mente ignorante que se entretém com a perversa equação.

Para que serve então Le Pen? A nível interno francês, para nada. Não vai fazer uma política doméstica muito afastada dos seus homólogos da UDP; não vai contrariar a neoliberalização das políticas públicas; não vai redistribuir rendimentos. Ou seja, com mais ou menos papão da imigração, as políticas vão ser fundamentalmente as mesmas dos seus congéneres neoliberais conservadores. Contudo, externamente, Le Pen pode ser muito mais preocupante. A sua eleição gerará, é quase certo, uma reacção em cadeia pela Europa fora que alastrará como fogo numa savana. A Europa de Leste ficará entalada entre uma Rússia putinista e uma França de extrema-direita, com a Alemanha, por enquanto, a servir de Estado-tampão. E não se desse o caso das simpatias de Putin por Le Pen, e vice-versa, serem muitas, e ainda poderíamos pensar que muita margem de manobra haveria para os entalados da Mittle Europa. Mas não. A tenaz será poderosa. E uma Alemanha sozinha no concerto europeu só pode tocar mais alto até a um certo ponto. A partir desse ponto deixará de existir a Europa que herdámos dos anos sessenta.

Ainda as nossas crianças

Abril 18, 2017

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Uma das justificações mais ouvidas por estes dias foi a de inexorabilidade do choque de gerações. Os comportamentos dos mais novos, disseram diversas vozes, sempre foram criticados pelos mais velhos, pelos seus excessos e desvarios.

Num texto muito interessante intitulado La jeunese n’est  qu un mot,  Bourdieu assinala algo que depois de lido se torna retrospectivamente de uma evidência cristalina: a juventude é uma categoria social e historicamente construída. Mais, os limites daquilo que lhe é permitido variam consoante as relações de defesa do status quo daqueles que, numa determinada conjuntura, possuem o poder, geralmente os mais velhos, eles próprios estabelecedores da possibilidade de divisão cultural entre categorias de idade. Ou seja, as atribuições da juventude enquanto grupo não apenas têm variado ao longo da história como são pretexto para lutas ideológicas sobre a questão donde situar a fronteira entre a juventude e a velhice. E estas são mutáveis. De tal forma que ao longo da história a juventude de uns ameaçou a estabilidade de outros, mas foi também incentivada quando a isso correspondiam interesses específicos, como por exemplo formar uma juventude violenta e apta para guerrear. Por isso não basta dizer que o choque de gerações é inerente à vida social, é preciso questionar a natureza desse mesmo choque. Isso sim é que parece ter interesse.

Aos nossos jovens fomenta-se a liberdade. Há, concretamente, uma ideologia de deificação da juventude – onde tudo é belo, vicejante e criador – que leva a que a velhice seja considerada um peso. Nisso a nossa época apresenta diferenças quando comparada com épocas anteriores. Por exemplo, se o viço da juventude foi em geral homenageado, já a racionalidade da velhice, a sua sagesse, era o complementar da senescência física. O que numa se perdia, ganhava-se na outra.

Outras épocas houve onde o controlo sobre os ímpetos da juventude era o ideal da organização social, da imposição da ordem. Assim, o choque geracional da época vitoriana, admitindo que existia, nada tem a ver com o actual. Leia-se Dickens para perceber que a estratificação das práticas juvenis era o que mais separava os grupos, i.e., as condutas rigorosas da burguesia, contra o desarvoramento dos filhos dos operários e, em geral, do povo. A juventude do Vermelho e o Negro de Stendhal, se pretendia ascender socialmente, colocava-se por entre duas opções: a de seguir o caminho religioso ou o militar. Ambas, como mostra Stendhal, exigiam uma intensa disciplina.

Por isso, a indisciplina dos jovens não é efeito do choque de gerações – é a marca do nosso choque de gerações! Com a proliferação de linguagens de autocentramento, como as que nos chegam dos livros de auto-ajuda, dos discursos dos psicólogos, das sistemáticas estimulações publicitárias – o ego ganha uma dimensão inaudita. Os jovens, apesar das inúmeras maleitas psis, estão apaixonados por eles próprios. Nem poderia ser de outra forma. Incitados a contribuir constantemente para uma publicitação do seu eu, a construção desse mesmo eu não é nunca autónoma dessa compulsão para a sua publicitação. Eis o facebook! Na época da extrema autonomia, paradoxalmente confrontamo-nos com a escravatura à nossa exposição.

Dizia no outro dia Nuno Lopes que gostava “de ter sucesso, mas não gostava de ser famoso”. Frase eticamente admirável, mas que esconde o alfa e o ómega da sociedade actual: os dois termos são indistinguíveis. Resta mesmo saber qual precede qual – se ser famoso leva ao sucesso ou vice-versa. O que parece ser evidente é que, nas condições actuais, um não existe sem o outro. E as nossas crianças estão preparadas para navegar com presteza nos dois lados deste oceano.

Weapons of mass destruction

Abril 12, 2017

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Pode ser que esteja a ficar paranóico, mas o ataque com armas químicas alegadamente perpetrado por Assad cai que nem sopa no mel na administração Trump. Sabemos, de acontecimentos passados, como o gritar “armas químicas” ou of mass destruction, pode ser instrumental para os desígnios das administrações norte-americanas. Em tempos serviu para invadir um país, sem se perceber bem porquê, e com as consequências que estão patentes. Agora quando o cerco se apertava em torno de Trump, quando as ligações à Rússia por parte dos seus assessores e braços-direitos se tornavam evidentes, surge um acontecimento que permite a Trump assumir uma posição de força perante essa mesma Rússia de que se desconfia ter sido a obreira da sua eleição. Demasiado conveniente, se me perguntam.

Depois que sentido faz um ataque com armas químicas quando a insurreição síria se encontra praticamente esmagada? Em que plano militar isto seria sensato? Dando de barato que não exista sensatez na guerra – em qualquer guerra – não é no entanto judicioso desprezar a sua imensa dimensão estratégica. E neste plano, que sentido faria suscitar uma comoção internacional desta grandeza quando se tinha a guerra contra as denominadas forças rebeldes praticamente ganha? Mas para Trump este é o volte-face que tanto necessitava para reabilitar a sua imagem perante os americanos. Afrontando directamente os russos dificilmente se poderá doravante pensar que estes possam ser seus aliados; mais ainda que possam estes ter sido estratégicos na sua eleição… de forma ilegal. Será expectável que nos próximos tempos a popularidade de Trump comece a subir. É o efeito de Trump ter finalmente criado a ilusão que a América pode ambicionar o lugar de superpotência mundial novamente. Trump e a sua administração precisam desesperadamente de uma guerra. Está nos livros dos neocons, para quem belicismo e make america great são sinónimos. E veja-se como o mundo se deixa encantar com o regresso do polícia global que frequentemente os USA chamam assim. Como se esta responsabilidade, assumida unilateralmente, correspondesse aos interesses desse mesmo mundo. Ninguém estranha que depois de anos em que todos estavam convencidos de controlarem as armas químicas no cenário de guerra sírio, os americanos consigam descobrir a base onde estas se encontravam armazenadas… em dois dias! É um prodígio de eficiência. De duas uma, ou sabiam e nada fizeram – assim como os russos -, ou alguém achou conveniente criar a coincidência entre um ataque com gás sarin e a imperativa necessidade da administração norte-americana mostrar que afinal está contra os russos. Até a reacção dos russos é mansa e não atinge a dimensão expectável que um ataque directo a um seu aliado poderia produzir. Parece tudo muito bem encarreirado, certinho e pronto a servir. Apenas me pergunto se toda gente sabia onde estavam armazenadas tais armas porque não fizeram nada antes de forma a evitar que morressem centenas de civis com escoriações químicas?

O melhor do mundo são as crianças

Abril 11, 2017

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Os Amish têm um ritual que designam por Rumspringa, corruptela da palavra alemã rumspringen, ou seja, saltar por aí, e que consiste em libertar temporariamente os seus adolescentes das rigorosas imposições de que serão objecto toda a vida. Assim a um jovem Amish é-lhe permitido durante um período da sua adolescência, que pode variar de dois a quatro anos, fazer o que lhe dá na gana; o que inclui beber, fumar, sexo, drogas e o que mais lhe aprouver. Este período, como qualquer ritual de passagem, contém um teste: o do regresso à sua comunidade e a aceitação da severidade do seu modo de vida. Parece que a taxa de retenção destas comunidades é grande. Mesmo depois dos jovens Amish serem tentados com todas as primícias da moderna civilização, decidem regressar e integrarem-se na cultura de origem.

Os nossos jovens vivem um rumspringen permanente. No entanto parece que necessitam de exteriorizar a tensão em saídas em manada onde vale tudo. Importaram o ritual dos states, onde em filmes diversos de gente bonita e muito doida se vêem representados como prometeicos entes a quem nada é proibido. A importação cultural é de tal ordem que até os polícias se inspiraram nesse hábito e deram à operação de controlo da saída primaveril dos adolescentes o nome de “Spring break”. O mítico Spring break não existia em Portugal. Era uma coisa que a gente via nos filmes marados de jovens bêbedos e drogados a fazerem sexo como doninhas nas praias de Acapulco. Nada poderia estar mais afastado das nossas vidinhas. Helas!, as modas viajam. E fazem-no de tal forma, que quando se transmudam noutro contexto têm que atingir uma intensidade ainda maior. Foi assim que os jovens portugueses, não contentes com o delírio fílmico que lhes servia de inspiração, decidiram levar o ritual ao seu paroxismo. Em vez de Acapulco, saem em revoadas devidamente planeadas por grandes operadores turísticos, em direcção ao sul de Espanha. É o nosso Acapulco. À falta do James Franco e do fascínio da “vida loca” do sex, drugs and rock roll dos Spring breakers californianos, marcham todos para Torremolinos e aí preparam o seu estendal de liberdade. Só fazem merda!

Depois vem sempre uma pedopsiquiatra dizer que os meninos sofrem uma grande tensão, que precisam de extravasar, coitados, aquela tensão toda acumulada do 12 ano, aquele ano horribilis dos jovens de 17/18 anos assoberbados pelas agruras da vida, pela tremenda responsabilidade que é fazer o 12º ano, vejam lá, que nada se compara a isto, não senhor. Desta converseta, a pintar paredes e atirar colchões pela janela vai um pulinho que é como quem diz vai uma rumspringen!

Não acredito nos jovens. Tão-pouco no senhor que organiza estas viagens que com uma cara de rato comprometido apareceu ontem na televisão a dizer que o seu rebanho de 800 era incapaz daquelas malfeitorias. Afinal ver uma oportunidade destas para fazer dinheiro é caso para ser benzido de admiração! Quem se lembraria de sacar guito importando os Spring breaks norte-americanos aqui para a costa ocidental? E se bem que os nossos jovens não fazem merda nas ocidentais costas lusitanas, vão promovê-la para terras de nossos irmanos, e tudo com patrocínio de um jovem empreendedor que empreendeu com a ideia certa para o novo milénio!

Agora a questão do racismo. Os jovens queixam-se de terem sido vítimas de comportamentos e atitudes racistas. É preciso perceber que a ideia do Spring break é ela própria racista. Não pelo conteúdo da mesma, mas pelas formas práticas que ela assume. Que os jovens americanos que vão para o México divertirem-se a vomitar tudo, partir os quartos, estragar e inutilizar o que apanham decorre de haver sempre um qualquer mexicano que há de limpar a trampa logo a seguir. Por isso é que o Spring break se desloca para sul, para a colónia mexicana, e assume um aspecto de vendaval sem limites. É um exercício de poder. Ninguém os expulsa por uma imposição de dependência hierárquica económica. Há qualquer coisa desta subjugação nas afirmações de Trump sobre os mexicanos terem de pagar o muro. Mas os espanhóis não precisam de Portugal para nada, e por isso por que razão aturariam os Spring breakers do seu parente mais pobre? O mesmo não acontece com os britânicos. Aí a reverência em relação aos seus jovens é grande. De tal forma que nunca ouvimos queixas, e não será com certeza por estes se comportarem como verdadeiros lords, porque não o fazem. Mas a estrutura colonial funciona na perfeição. O país mais “afluent”, na parlance dos brits, atira com a sua explosão neurótica para os vizinhos pobrezinhos e estes só têm que estender a passadeira vermelha a todos os desmandos e javardice.

O que não justifica de maneira nenhuma o comportamento dos portugueses. Apenas indica que nesta coisa de jovens em manada há que perceber a estrutura que permite estes movimentos. Quando ela colide com um contexto que não lhe é particularmente subserviente, dá-se a contradição. No fundo é tudo muito marxista, hegeliano mesmo, entre senhor e escravo, embora os jovens actuais tenham absorvido a certeza de que a relação é imutável e onde quer que seja lhes devemos prestar vassalagem. É assim nas universidades; e tem vindo a ganhar expressão nos liceus. Nestes últimos onde dantes se pensava que a juventude não fazia mais do que a sua obrigação, que era marrar nos livros, tudo se faz para os manter entretidos. É preciso entretenimento. E aí podia mesmo entrar o Cobain e o seu repto para o entertainment – rock is stupid, entertain us! Lá se comportam os nossos jovens como uns selvagens, a pintar paredes, a despejar extintores, e pasme-se, revoltadíssimos porque não lhes vendiam cerveja no hotel! Que mais violências sofreram estes rapazes e raparigas, deus meu? Porque não organizar estas viagens ao México onde a estrutura da porcalhisse irresponsável já se encontra montada e pronta a recebê-los?

Mata bicho

Abril 7, 2017

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O espaço de comentário humorístico mais inteligente no panorama nacional cabe a Bruno Nogueira e ao seu Mata Bicho. É caso para dizer que, não obstante a suprema inteligência de Ricardo A. Pereira, este ficou encalhado numa mescla de humor queque infantilóide e teatralização do absurdo. Talvez porque a própria estação onde ele decidiu trabalhar cultiva a inconsequência e a mediocridade repetitiva, quer em termos musicais – com a pior selecção de música das ondas hertzianas nacionais – quer dos diversos protagonismos que por lá assentam arraiais. Esta combinação fez com que Araújo Pereira se sentasse confortavelmente no imenso sucesso que granjeou e vegetasse no registo imposto pela Comercial sem arriscar para além disso. Por isso é Bruno Nogueira que está a ganhar a competição. E se é verdade que há espaço para vários estilos – tantos quanto a máquina de produção de cultura consiga inventar públicos – também é certo que o humor de risco, sem contemplações com os censores da palavra, e empurrando o que faz rir para os limites, está do lado de Bruno Nogueira. Este não se limita a fazer trocadilhos com mais ou menos piada: faz uma verdadeira crítica social, com denúncia, escárnio dos poderes vigentes – nas suas facetas morais e políticas – e é instigador de paixões, que podem ir do ódio à admiração abnegada. Com Ricardo Araújo Pereira nós sentimo-nos divertidos, mas a colagem repetitiva aos mesmos tropos humorísticos limita, em muito, o alcance deste humor. Bruno Nogueira tem ensinamentos: há uma qualidade nas suas crónicas que ajuda a ler o mundo. Descaracterizando-o , é certo; tanto quanto se pede ao humor que o faça, desde logo porque a sua função deve ser desestabilizadora de certezas, crenças absolutas, profissões de fé violentas. É para isto que necessitamos do humor.

O talento da dupla – Quadros, Nogueira – está bem expresso na gama de assuntos que abordam. Na perspicácia com que analisam diariamente os acontecimentos mais “in” espetando-lhes simultaneamente um ferrete de derrisão. E se por alguma razão o choninhas recriado até à exaustão por Ricardo Araújo Pereira atinge os seus limites por falta de substância é porque o mimetismo que nele se encontra implicado fica depressa sem assunto quando o único assunto é ele próprio. É de uma falta de intervenção política que estou a falar. Veja-se, ao invés, como o desafio político espreita constantemente os textos de Quadros e Nogueira; como a sua rubrica está instilada de capacidade subversiva pelo gozo despudorado das coisas sérias. Ou representadas como sérias. Fátima a preços do além!, quantos cristãos apostólicos romanos terá esta rábula chocado? O tempo encarregou-se de provar que a elasticidade da censura social não se encontra determinada à partida. Compare-se com o escândalo suscitado pela rábula que Herman José dedicou à rainha Santa Isabel. Quanto caminhámos! E ao fazê-lo quebrámos barreiras que pareciam inamovíveis? Talvez. Sinceramente, julgo que foi o mercado que todas as elasticidades dita, que ditou mais esta. Nunca como antes se ganhou tanto dinheiro com o humor como se ganha actualmente. O comic relieve dos norte-americanos passou a ser uma espécie de necessidade social paga a peso de ouro. Um equilibrador de humor à maneira dos melhores psicotrópicos. E se em RAP pressentimos o dedo desequilibrador do Quixote e do Tristram Shandy – ou não fosse ele um leitor insaciável – do outro lado, no Quadros, não sabemos que referências intuir para além do bom e selvático vale tudo para chocar. O humor, como Goffman ele próprio intuiu, sustenta-se no medo do ridículo. Ridicularizar é a palavra. Podemos então dizer que se um, o RAP, ridiculariza em abstracto, o outro, o Quadros, ridiculariza o concreto. Actualmente, com todas as efabulações do concreto, as espirais ilusórias que sobre ele se abatem – sobretudo fabricadas pelos media – é bom atacá-lo no seu âmago: o senso comum de que se revestem as múltiplas ilusões.

Putas e vinho verde

Março 22, 2017

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A boutade de Dijsselbloem sobre os países do norte terem que pagar para os desmandos dos  países do sul, porque os últimos gastavam tudo “em mulheres e álcool” é desconfortavelmente reveladora do que se tornou a Europa. Também aqui a esquerda relapsa faz uma análise apresada e recorre aos mesmos tropos da austeridade e da traição à social-democracia. Mas eu gostava de pessoalizar a análise. Ou seja, perceber que a Europa é regida por homens e mulheres e que esses homens e mulheres fazem parte de uma elite que se coloca à parte dessa mesma Europa. Antes porém alguma reflexão sobre o trabalho de exegese que as declarações do presidente do eurogrupo têm sido objecto.

Por exemplo, o Expresso. No pressuposto de que a notícia salienta um aspecto das afirmações que quando lidas no original é mitigado, o jornal sublinha que Dijsselbloem estava a utilizar uma metáfora aplicada a ele próprio: “Eu não posso gastar o dinheiro todo em mulheres e aguardente e em seguida pedir a sua ajuda”. O título do artigo, o que disse realmente Dijsselbloem, implica que a frase tenha sido citada fora de contexto. E no entanto, embora me pareça excessivo o tom condenatório geral, e seja verdade que Dijsselbloem não disse directamente que os países do sul andaram nas putas e vinho verde, o que ele diz não deixa de ser uma variação do coelhismo “vivemos acima das nossas possibilidades”. A primeira, para sermos correctos, tem uns laivos da retórica dos pigs e a ser verdade o que dizia Freud sobre actos falhados, o homem desejaria ardentendemente que a sua vida fosse mulheres e bebida. O regresso do recalcado na frase de Dijsselbloem poderia apenas significar o desejo inconsciente de mandar a sua vida chata no eurogrupo para o caraças e abraçar uma vida de dissolução de viagens diárias ao red light de Amesterdão. Ou podia ser que apenas estivesse lixado com o péssimo resultado do seu partido nas últimas eleições holandesas e que o facto de o seu lugar se ter tornado periclitante lhe causasse ansiedade. De tal forma que precipitou as coisas e parece que de periclitante o seu lugar passou mesmo a estar em causa mediante tão extemporâneas afirmações.

Mas vejamos isto pelo lugar das elites na actual conjuntura europeia. É preciso regressar ao “vivemos acima das nossas possibilidades” do coelhismo de má memória para percebermos um ethos partilhado por estes meninos. Um ethos que fala a linguagem do castigo e da recompensa. Aqui podemos perceber que enquanto há um total laxismo relativamente às grandes fortunas, como foi o caso português e o seu agente de liaison Paulo Núncio; há, pelo contrário, uma extrema severidade – moralista obviamente – em relação aos de menos posses. A Holanda é um caso paradigmático de larguezas em matéria de fuga aos impostos, de falta de controlo, de assobiar para o lado, e até de criações propícias a que se afirme como paraíso fiscal europeu. Não espanta por isso que de um holandês como Dijsselbloem pudesse vir o mesmo olhar severamente moralista enquanto pisca o olho aos possidentes. A analogia dos copos e vinho, entendamo-nos, é prenhe de duplos significados e não é necessário recorrer a Freud, como ainda agora fiz, para perceber que o raciocínio é sempre o mesmo: quem anda a calaceirar – na perspectiva desta retórica, obviamente – merece sofrer.

Todo uma axiomática leviana ajustada ao neoliberalismo conservador que assiste as instituições actuais e as pessoas que as dominam se esparrama nestes dichotes. A justiça do ganho do rico e do sofrimento do pobre, como se da ordem natural das coisas se tratasse; a culpa sobre o pobre que não soube aproveitar para ser rico por demérito próprio; o comportamento perdulário que leva à pobreza por oposição à contenção racional que leva à riqueza. Este considerando é, claro está, de uma falsidade atroz. Os comportamentos perdulários, dissipadores e irresponsáveis são marcas dos ricos e não dos pobres – pela simples razão que os últimos mesmo que os quisessem ter não podiam.

O Véu, esse objecto incómodo.

Março 20, 2017

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Da esquerda para a direita: o hijab, a burqa e o niqab

Surgiu com grande aparato a decisão do Tribunal Europeu de Justiça de conceder margem de liberdade às empresas que desejem proibir o véu ou outros símbolos religiosos. Num dos telejornais nacionais a notícia até vinha enunciada como “proibição do véu” em grandes parragonas na caixa inferior. A história das sucessivas limitações do uso do véu e dos tipos deste é ampla na Europa; por isso dificilmente se justifica o espalhafato pela recente decisão do TEU. Tem exemplos emblemáticos no affaire foulard em França, em 1989, com a proibição de símbolos religiosos em escolas públicas. Na Alemanha com a proibição dos professores usarem símbolos religiosos – com isenção para os católicos – em certos Lander, em 2004 e 2005. Na Holanda, em 2015, com a proibição do uso do véu nos espaços e transportes públicos. Na Inglaterra com as controvérsias em torno do niqab e as limitações ao seu uso em instituições públicas. E mais recentemente, na Áustria com a proibição da burqa e niqab em escolas e tribunais, e em França com a proibição do burkini. Um historial significativo, portanto.

Não devemos ver por conseguinte a decisão do TEU como uma ruptura numa tendência (que nunca existiu) mais permissiva, mas antes como a continuidade de um processo que se tornou irreversível.

Hoje é evidente que quando se fala de problemas com o multiculturalismo está-se a referir os muçulmanos. O Islão é o problema identitário europeu, havendo ou não razão para o considerar como tal. Luckmann e Berger afirmaram em tempos que certos grupos legitimavam os universos simbólicos dos quais se tornavam zeladores, e se neles acreditavam ou não, era irrelevante. O mesmo pode ser dito de todas as tentativas de provar que o islão não constitui ameaça à identidade europeia: se é ou não verdade tornou-se irrelevante.

Sou daqueles que considera que a proibição de modalidades do véu como o niqab e a burqa são não apenas inevitáveis, como indispensáveis. A discussão sobre a imposição das crenças e culturas da maioria sobre a minoria não resiste, a meu ver, ao julgamento sereno relativo ao lugar da mulher no islão. Esse lugar deve sofrer transformações, e se tais mudanças só ocorrerem através das limitações de alguns dos seus usos e costumes então que seja. Não se pode defender a paridade feminina e depois continuar a olhar placidamente para mulheres islâmicas de cara tapada argumentando a relatividade dos padrões culturais. Mas também é preciso dizer que a medida deve ela própria ser paritária, ou seja, abranger todas as confissões religiosas. A proibição francesa de todo e qualquer símbolo religioso na sala de aulas faz sentido, e foi apoiada pelo tribunal europeu dos direito do homem. O problema é que nunca ninguém definiu se levar uma cruz pendurada ao pescoço colide com esta norma. O problema é que proibir crucifixos na sala de aula não é equivalente a proibir o véu ou a quipa judaica. Com efeito, o equivalente seria proibir crucifixos ao pescoço dos alunos. Não consta que a medida alguma vez tenha assumida estas proporções. Contudo, num exercício de relativismo social não é complicado concluir que é justamente esse o sentimento que uma tal medida implica na comunidade islâmica: o mesmo que se proibissem as pessoas de usar aqueles fios piedosos com o crucifixo pendurado. São formas de visibilizar a crença religiosa que em substância possuem a mesma natureza. Podemos sempre dizer que um artefacto atenta contra a liberdade feminina e a outra não. No que eu estaria fundamentalmente de acordo, não se desse o caso dessa raramente ser a justificação. A justificação tem sido quase sempre alicerçada no pressuposto de uma colisão entre o secularismo das instituições e os hábitos religiosos privados. Nas suas diversas formulações – seja porque coloca em risco a segurança pública seja porque desafia a laicidade das organizações – é esta a equação que se encontra em causa. Não se afigura o terreno certo para debater o assunto.

Como há muito viu a associação francesa Ni Pute ni Submisse, o terreno certo para esgrimir argumentos é o da liberdade da mulher. E aqui terão que ser chamados à colação todos os grupos religiosos. Porventura é porque uma tal ordem de ideias teria uma repercussão bem maior do que o acantonamento no islão a que geralmente a discussão se sujeita que esta tem sempre sido atirada para o campo da segurança ou da laicidade. Desde logo, os judeus teriam que ser confrontados com as suas práticas em matéria de divisão sexual, os hindus igualmente, e porque não os católicos, cujo papel da mulher, embora o mais emancipado (não vale a pena tapar o sol com a peneira), continua a ser objecto de manipulações grosseiras de cariz teológico. Eva nas três religiões do Livro é ainda assim o receptáculo da perversa ideologia masculina de culpabilização da mulher. Por isso quando a questão do lugar da mulher no Islão é levantada tendo por pano de fundo uma ideia de fanatismo ali colada, é bom lembrar que a subjugação da mulher está muitíssimo presente no judaísmo ortodoxo com marcadas implicações quanto ao papel desta na ordem sexual e laboral. Tal, como é evidente, não desculpabiliza o uso da burqa e do niqab; mas relativiza o foco de atenção sobre as práticas do islão.