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Se queres saber o que é plágio chama o Tóni

Setembro 13, 2017

(cortesia do blitz)

Confesso que a notícia caíu-me que nem uma bomba num estômago ainda vazio, prestes a receber empanadas e chouripan. Falo da acusação de plágio que recai sobre Tóni Carreira, pelo menos em relação a quatro músicas. O plágio é de tal ordem que nem as letras foram modificadas. Por isso, o famosíssimo “Depois de ti, mais nada” tem o seu émulo antecipado (brincar com antíteses) em Después de ti…qué, de um cantor latino-americano com o cabelo como o do pietra quando este jogava futebol. Agora bem, dava-se de barato que um título pudesse andar mai coisa meno coisa, ela por ela, e donde se tirava um “qué”, se colava um “mais nada”. O problema é que não apenas a composição musical é exactamente a mesma, como o refrão é igual. Assim, ouve-se “depois de ti mais nada/nem sol nem madrugada” e compara-se com “después de ti, mai nada/ ni sol, ni madrugada”. Irra que é demais. Isto é o cúmulo do desleixo preguiçoso; do laxismo energúmeno; do desrespeito ocioso (e que mais rimas se escolhesse…). Noutras músicas – são quatro – a composição é idêntica, mudando ao menos a letra. Mas em algumas nem o cuidado de mudar a letra houve. Dava demasiado trabalho com certeza, a um génio como o Toni Carreira, estar a matutar para arranjar uma letra que encaixasse na musiquinha já pronta – ih, que trabalheira!

E chegados aqui a onda de escândalo abate-se sobre o mundo da canção popular. Vale dizer que é importante não perder de vista que estes tipos ditos cantores populares são na sua maioria uns escroques, que talento têm zero, e só pensam em fazer dinheiro. Contra a acusação de elitismo com que muitos destes senhores e senhoras verberam a crítica (dita intelectual, pois claro) é bom que surjam momentos destes; momentos clarificadores onde fica patente como esta “gente se forra”, como diriam os nossos irmãos peninsulares. Posto que se trata de um negócio, e como mostra o exemplo, um negócio sem escrúpulos.

Todavia, há mais ilações a retirar deste caso. A primeira é de que não me admiraria nada que as versões plagiadas fossem elas próprias plágios. O mundo da canção popular alimenta-se de tal forma da reprodução incessante que é difícil perceber onde começa a originalidade e acaba a cópia. Isto também é válido para a canção pop, ou seja, para o eixo anglo-saxónico de produção musical popular (há evidentemente coisas muito boas, mas 90% é trampa). Mas a América Latina leva a palma d’ouro. São tantos e tão iguais os cançonetistas que por lá fazem fortuna que julgo ser de justiça dizer que há muitos anos se andam a plagiar todos uns aos outros de tão igual soa o produto. A mediocridade ganhou forros de mercado. Os cantores sabem-no, os produtores musicais também, apenas o público parece que anda sonâmbulo a consumir estas merdas com uma apetência de crianças por papas bledine. Porque há um quê de infantilização a que este mercado nos sujeita (e digo “nos” porque é difícil fugir dele, de tal forma nos é infundido até no mais recôndito dos lugares quotidianos (uma feira, uma loja, uma casa de banho…)). A maioria das coisas que por aí se faz não vale o papel da pauta em que são escritas. No caso do Toni Carreira nem foi preciso gastar dinheiro em papel de pauta, porque a música foi levantada no take away mais à mão. Mas o que por aí se vai ouvindo é um atentado ao esforço das pessoas que têm realmente que pensar, ser criativas e trabalhar sobre, nos seus respectivos ofícios.

O caso Tony prima no entanto pelo desleixo. Porque as pessoas que o rodeiam devem ter pensado, há tanta coisa por aí igual, que soa exactamente à mesma coisa, tira-lhe uma semimínima e mete-lhe uma semibreve – por que não copiarmos exactamente aquilo que queremos? E o que queriam? Sucessos garantidos que já tinham provado o seu valor noutras paragens (ou a falta dele). Esta é a outra face dos processos de reprodução da música popular: comportam o mínimo risco, e são pensadas como tal. Ora isto é a antítese do trabalho criativo. A criação comporta sempre algum risco, quanto mais não seja porque se está perante uma página em branco, tela, película, o que seja, que amedronta, e que na realidade é ela que lança o desafio. Duplamente medíocres portanto todos estes Toni Carreiras, de aquém e além atlântico, que se passeiam em Porches e Jaguares nos seus videoclips lamechas. Devíamos por eles ter menos contemplações. Confrontá-los com o valor das suas criações; não os deixarmos passar ilesos na boçalidade do consumo rápido e irreflectido; não os cumularmos de atenções indevidas. A noção é simples: se eu censuro um mau serviço num serviço público, porque hei-de enaltecê-lo na cultura? Porque esta gente não vale, e desmerece os milhares de horas de música dada ao mundo por verdadeiros músicos.

Isto não é elitismo – é justiça artística.

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Irma

Setembro 11, 2017

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E lá se foi o Irma que na sua fúria demolidora passou de categoria 5 para 2, espalhando uma ventaniazinha pelas terras do tio sam. Quem apanhou com o momento catastrófico foram os caribenhos e os cubanos. A esses o Irma não poupou esforços para se apresentar como o furacão do século (deste e eventualmente dos anteriores). E deixou de facto um rasto de destruição e morte que se prolongará pelos anos vindouros.

O que foi notável na passagem do Irma pela Florida não foi o seu poder demolidor, nem a sua força catastrófica. Foi o facto de pela primeira vez assistirmos a um furacão, na sua actividade de furacão, em directo, 24 sobre 24, com cobertura jornalística de cada onda, cada rajada de vento, cada redemoinho desenfreado, cada vórtice de chuva. CNN e FOX em simultâneo competindo pelas melhores imagens. À espera da catástrofe anunciada; seguindo cada passo do Irma em direcção ao norte, com acompanhamento científico de uma trupe de metereologistas, comentários intermitentes de especialistas do clima e intervenções de políticos e responsáveis governamentais. Sem dúvida que o Irma eclipsou a ida do Papa à Colômbia, e nem do perigo da loucura nuclear da Coreia do Norte se falou mais.

Tanto quanto me lembro, pela primeira vez a televisão esteve em directo de dentro de um furacão. O que é interessante – não apenas pelo seu potencial metafórico, mas porque ficamos na dúvida de onde se estabelece a fronteira entre a notícia e o filme catástrofe. Durante horas filmou-se um conjunto de guindastes na Florida na vã esperança que caísse… mas nada aconteceu. O mais que podia ser feito era seguir a iminente desgraça com constantes comentários a antecipá-la. E assim um jornalista excitado apontava a câmara com gestos largos e eficientes para o guindaste que balouçava e pontuava as imagens com exclamações precoces de desastre anunciado.

E o que dizer da heroicidade de jornalistas, homens e mulheres, que lutaram contra ventos e marés – literalmente – para nos trazerem um directo do furacão? O mínimo que se pode dizer é que o grau de insanidade atinge picos paradoxais. Rematando cada notícia, cada intervenção, com cabais avisos à população para não saírem das suas casas e seguirem as instruções das autoridades, ali estavam aqueles deuses olímpicos a desafiarem a fúria de Poseidon, à borda dos cais das marinas, a resistirem contra a inclemência dos ventos com a força de titãs. O que dizer? Bom, sobretudo que quem esteja preso à televisão pensará que se eles podem, porque não eu? E foi aqui que se deu a passagem do acontecimento furacão para o desporto radical furacão. Pois se é verdade que técnicos e jornalistas estarão provavelmente rodeados de medidas de segurança bem planeadas, também é certo que aquilo que mostravam era que afinal era possível: estar dentro de um furacão fincando os pés com a insistência de gigantes, tratava-se de uma questão de vontade. Desta forma, os jornalistas desafiaram todas as recomendações das autoridades e passaram a mensagem que estas eram apenas espasmos alarmistas. Na próxima catástrofe veremos quantas mais almas afoitas se juntarão aos profissionais da informação desafiando os elementos. As apostas estão no ar!

Imagens impressionantes sem dúvida. Vários jornalistas durante horas a serem fustigados pelas lâminas da chuva. A competirem eventualmente pelo espaço mais arriscado, pela situação mais digna de admiração, o grande pulitzer do jornalismo enquanto desporto radical de catástrofe natural. Não houve cadeia de televisão no mundo que não enviasse os seus profissionais para dentro do furacão. Nunca, avento, um fenómeno climático tinha sido tão acompanhado pelos serviços noticiosos. E as acrobacias a que os jornalistas se prestavam para estarem nos locais mais arriscados, na rua inundada, na esquina onde as palmeiras se dobravam até ao solo, na praia onde as ondas se encapelavam em altura de prédios – em nada se pouparam a esforços para nos trazerem o real da catástrofe.

Numa escala menor assistimos a isso nos incêndios de Pedrogão. Os jornalistas apareciam nos sítios mais insuspeitos. Ainda antes dos bombeiros sequer saberem dos acontecimentos, já eles lá estavam. O curioso foi porque é que em vez de aproveitaram esse tempo para justamente avisarem os bombeiros, o perdiam cobrindo em directo os avanços do fogo. E enquanto filmavam afanosamente os esforços desesperados da população, a ideia que nos ocorria era porque caraças não agarram nuns baldes e nas mangueiras e contribuem para combater as chamas? Da mesma forma, esperámos em vão para ver um jornalista ser atirado pelo vento a quilómetros  de distância, mas nada aconteceu. Embora esse, sim, teria sido um desfecho digno do verdadeiro blockbuster.

Ontem o jornalismo mostrou que pode mais, sempre mais. Que se pode transformar em filme-catástrofe. E quase diria que houve uma certa desilusão pelo Irma se ter ido definhando, lentamente, da tão esperada cat 5 para cat 2, onde apenas havia vento e chuva para noticiar, sem a esperança da catástrofe iminente.

A questão da habitação

Agosto 31, 2017

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(retirado de esquerda.net)

Ontem no debate com os candidatos à CML a questão da habitação ocupou lugar central. Fiquei na dúvida se pretendiam glosar o título do lindíssimo poema de Ruy Belo – O problema da habitação – de tanto que foi repetida a frase “a questão da habitação”.

A primeira coisa que se deve perceber sobre a “questão da habitação” é que ela foge à alçada da administração pública. Pretender que o executivo camarário a resolva por inteiro é demagógico. A câmara pode e deve ter um papel na sua resolução? Seguramente. Mas não está mais no seu poder modificá-la nas suas tendências fundamentais.

Lisboa tem vindo a perder habitantes a uma velocidade assinalável. Grande parte da fuga é para os subúrbios. Mas não devemos confundir os subúrbios; ou melhor dizendo, há subúrbios e subúrbios. A conotação negativa que a suburbia alcançou está actualmente ultrapassada. A classe média alta que se transfere para a linha de Cascais faz uma escolha consciente por um subúrbio altamente valorizado. Por isso essa suburbanização nada tem de degradação das condições habitacionais. Pelo contrário, insere-se em estratégias de valorização da propriedade e do património. Já as classes baixas relegadas para a serra da mina (e nada contra a serra da mina, a não ser o facto da sua desvalorização fundiária) são-no objectivamente porque não possuem capacidades económicas para escolher. A suburbanização deixou de ser o fantasma aterrador da vida das cidades e dos seus centros. Até porque cada subúrbio reinventa o seu centro, insuflando-lhe uma vida própria, policentrando a mancha urbana.

O outro lado da moeda dá pelo nome de turistificação. A triste verdade é que a turistificação dos centros urbanos não é mais controlável pelos poderes públicos – nem por normativos, nem por regulações: nada de nada. É o efeito de escolhas racionais da parte dos proprietários cuja propriedade é intocável à luz das liberdades civis.

O conjunto de acções desta natureza tem entregado os centros, sobretudo as partes históricas, aos especuladores e empreendedores turísticos. O fenómeno estende-se de Lisboa ao Casco Viejo na Cidade do Panamá. Não é brincadeira. Trata-se de um fenómeno global (e globalizado) que já mereceu a ajustada designação de gentrificadores transnacionais. Marx: o capital move-se; as pessoas ficam no mesmo sítio. É agora falso. Pessoas e capital movem-se a velocidades estonteantes. E substituem-se – isso é ainda o mais interessante. O turista rico já não quer hotéis. Quer lugares. Na busca por lugares – de preferência exóticos, típicos, extravagantes, lo que sea – está disposto a pagar… e, novidade das novidades, a adquirir. Não é na realidade assim tão novo. No tempo dos czares, dizem-nos os romances de tolstoi e dostoievsky, a nobreza – que eram mais do que as mães – adquiria propriedades quando queria visitar um sítio. Ir a Paris significava comprar um palacete no centro de Paris. Há algo de aristocrático nas actuais práticas dos gentrificadores transnacionais. Ir a Lisboa é comprar um naco de Lisboa. Madonna não vem a Lisboa: compra uma propriedade em Lisboa para aqui estar. A aquisição como ligação ao lugar mais do que fortuita possui o seu complemento no potencial negocial. Hoje Lisboa; amanhã Marrakech. E assim sucessivamente. Que podem as câmaras fazer contra um tal fluxo? Pouco ou nada.

O problema da habitação é um problema dos seus proprietários. Ah mas a câmara é o maior proprietário da cidade de Lisboa, e cenas… O que pensam que acontecerá assim que a CML começar a alienar património nas zonas nobres para as famigeradas classes médias? Como julgam que se irão comportar os felizes adquiridores? Quantos airbnbs irão pulular em São Bento, Graça, Portas de Santo Antão, you name it? Verdade: podia haver uma cláusula que proibisse o uso dos imóveis para fins de alojamento turístico durante um determinado período. Mas que lei seria essa? Quantos anos seriam razoáveis para revitalizar a cidade? Três? Cinco? Vinte? E quem os impede de alugar partes de casas para turismo de alta rotatividade? É impossível controlar. Convençamo-nos: as cidades estão a sofrer mutações profundas. O centro das cidades exerce novamente uma força centrípeta avassaladora. É engraçadíssimo ver a esquerda mais politizada a bramir contra a gentrificação enquanto se alinham pressurosamente para agarrar o seu lote nos bairros da moda. Quem pode, pode; quem não pode, arreia – dizia a minha avó. O corolário é que as cidades são, e sempre foram, lugares de profundas assimetrias. Replicam enfim as assimetrias dos sistemas de mercado dos quais fazem parte. E a direita? – compungida a defender habitação no centro da cidade! Não surpreende a boutade dos 1300 euros de Cristas. A classe média de Cristas é aquela que vai pagar 1300 euros de renda no centro da cidade… porque pode… e porque já existe. Por isso Cristas não está a enunciar uma linha programática, mas sim uma realidade. É justamente essa classe média que abocanha os melhores quinhões da cidade. Estamos portante perante um desaguisado sobre definições e limites da classe média. Porém, as dinâmicas residenciais são absolutamente alheias às definições esgrimidas por um ou outro quadrante político. Impõem-se. Não vêm do ar e esmagam as pessoas com o seu peso irredutível como mãos invisíveis que se tornassem punhos de deus. Não. É mais simples. São as próprias pessoas, os próprios moradores, que aprofundam este modelo de cidade. E, make no mistake, sentem-se muitíssimo bem dentro dele.

Angola – o charco

Agosto 24, 2017

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A definição de charco compreende a existência de água estagnada e imunda. E é nesse sentido que a analogia assenta que nem uma luva a Angola. Por um lado, a estagnação do seu regime político cuja confirmação será dada uma vez mais através dos resultados eleitorais de 2017. A família dos Santos que não governa o país, reina no país há 38 anos. Por outro lado, a imundície que reveste as atitudes e práticas desse reinado. Ao pé destas a Venezuela parece um paraíso de rectidão institucional e soberania democrática. É estranho ver que o povo angolano plebiscita sistematicamente a máfia que os governa. Será por medo? Por ignorância? Por preguiça? As repostas não são evidentes, mas podem ser uma combinação destas três hipóteses. Serão as eleições viciadas? É também provável, embora com tantos e tão competentes observadores internacionais o truque teria que ser mais comedido e não reproduzir-se através de margens tão astronomicamente absurdas.

Um artigo no New York Times, que o editor do Expresso nos convida a ler, mostra como o asco deve forçosamente caracterizar a nossa reacção perante o regime angolano dos Dos Santos. Curiosamente, esse mesmo editor considera o artigo “vexatório” para Portugal. Só se for porque o comportamento das elites portuguesas tem sido vexatório para o país. De outra forma, o artigo descreve com clareza penetrante a relação entre as duas economias – a portuguesa e a angolana – e como esta se tem alicerçado numa teia de compadrios ilícitos e obscuros… e como isso tem enriquecido ambas as elites. Mas julgo que o editor do expresso ficou apenas pela parte vexatória para Portugal e não leu o ainda mais vexatório trecho sobre a família Dos Santos. É um retrato da nojice humana que ali se expõe.

Aliás, o mundo deve estar louco ao deixar Isabel dos Santos gabar-se dos seus dotes de empresária na London School of Economics quando a sua fortuna cresceu no país com maior taxa de mortalidade infantil do mundo. Esta gente não tem vergonha? Angola é um país miserável e Isabel dos Santos passeia-se com um diamante de 404 quilates, eventualmente o maior diamante do mundo a andar nas mãos de uma pessoa. Ficamos perplexos perante a amnésia dos princípios que sustentaram ideologicamente Eduardo dos Santos nos seus primórdios revolucionários. Nada disto é novidade; menos ainda no continente africano. Mas Angola é talvez o país onde esta descoincidência entre princípios e realidade é maior. Desde logo, porque Isabel dos Santos é a mulher mais rica de África. Sendo Angola, de acordo com o Banco Mundial, um dos países mais desiguais do mundo é preciso ser-se moralmente couraçado para prosperar tanto mediante tamanha miséria. Angola é o terceiro maior produtor africano de petróleo, mas encontra-se em 149º lugar do ranking do indíce de GINI no conjunto de 187 países (o índice de GINI mede o desvio na distribuição de rendimentos de uma distribuição perfeitamente equitativa).

Há toda uma discussão sobre corrupção que esconde o essencial. Como se as alternativas em jogo estivessem entre democracia transparente imunizada e corrupção paralisante e destruidora. São regimes para os quais ainda não existem quadros interpretativos eficazes. São democracias no papel que funcionam como reinados absolutistas. Aparentemente revestem-se da pátina de anacronismos; mas na realidade estão a expandir-se e a tornarem-se norma. É a Rússia de Putin, a Turquia de Erdogan, a América de Trump, e outras tantas pretensas democracias africanas. Sob a aparência de regimes alicerçados na típica divisão institucional de poderes funcionam resistentes plutocracias. Quando as maiores fortunas do país coincidem com os mais importantes cargos estatais é difícil compreender como é que se pode assistir passivamente à extrema miséria do povo. João Lourenço enfileira esse cortejo. Encontra-se aliás num dignificante 21º lugar na lista das pessoas com fortunas superiores a 50 milhões de dólares. A sua mais que provável vitória anuncia apenas que a cooptação sucessiva funcionou em pleno. O mistério é o povo ratificar constantemente estas mesmas oligarquias. Mas o mais provável é o povo já não ter nada a dizer porque em países onde o jogo económico está tão viciado porque não estaria o seu equivalente democrático?

A lira dedilhada no fragor do fogo

Agosto 22, 2017

(retirado do site da protecção civil)

Tenho para mim que a disseminação de incêndios que grassa pelo país é obra do terrorismo. Meço bem as palavras: trata-se de terrorismo com intenções políticas. A concertação com que os incêndios deflagram, um após outro, em lugares estrategicamente escolhidos é demasiado consistente para ser fruto do acaso, ou sequer da malevolência de alguns indivíduos isolados, porventura sociopatas. A forma como os incêndios se têm espalhado quase geometricamente pelo país leva também a pensar que algo de premeditado se passa. E neste sentido trata-se de uma acção terrorista em larga escala com objectivos muito concretos e de natureza política.

Para ser exacto, surgiu recentemente a teoria dos interesses ligados ao próprio negócio do fogo. Quem lucra com aviões canadair postos a voar, com fardas que têm ser renovadas,  com a venda da madeira? Se seguirmos estas pistas encontraremos os culpados. Qualquer destas razões é provável e não despicienda. Mas não chegam. Antes de mais, podem estas parcelares justificações conviver perfeitamente com um plano mais alargado e mais ambicioso; um plano de natureza política. Estou ciente que uma tal hipótese cheira a teoria da conspiração, a congeminações secretas e malignas aparentemente tão fantasiosas quanto um livro de Dan Brown. E no entanto o mundo já assistiu a coisas mais estranhas. Pode até ser que os primeiros fogos tenham sido fruto das condições climatéricas, do acaso, do azar e da negligência. O incêndio de Pedrogão por exemplo teria sido a tragédia não anunciada. Contudo, tendo a direita percebido que poderia daí retirar dividendos políticos o que se seguiu (e ainda segue) tem um carácter demasiado elaborado para passar por vaga de incêndios descontrolada. Quer isto dizer que eu acho que o Passos Coelho anda de tocha na mão por esses pinhais fora a pegar fogo às matas? Não. E também não precisaria de o fazer. Bastaria que os interesses interessados em apear a “geringonça” pagassem para isso. Mas quem seriam tais interesses obscuros cujas mentes operassem a um tal nível de psicopatia?

É preciso recordar que em Portugal houve em tempos terrorismo de direita. Que bombas foram postas nas sedes da esquerda e pessoas foram mortas. Que este terrorismo era organizado e manifestação de pânico perante a possibilidade de um irredutível regime de esquerda que então se perfilava no horizonte político. Que pessoas ligadas ao velho regime, com os seus direitos adquiridos, pagaram para que tais actos fossem praticados. Demasiado escabroso e paranóico? Já aqui escrevi que pela primeira vez na história da democracia portuguesa há a possibilidade de a direita ser arredada do poder por bastante tempo. As perspectivas em termos de eleições autárquicas não eram nada animadoras para os dois partidos da direita. A popularidade dos socialistas crescia sem parar e, em contraste, essa mesma popularidade encontrava-se em queda livre para os partidos da direita. Silenciados no discurso da economia, com os indicadores a darem boas notícias quase todas as semanas contrariamente ao discurso catastrofista com que receberam a “geringonça”, o tema do desleixo do Estado a propósito dos fogos caiu que nem mel na sopa. Ou melhor dizendo, substituiu um catastrofismo falhado por outro cujos resultados são palpáveis. Isso mesmo é ilustrado pelo jornal Correio da Manhã, verdadeiro órgão de propaganda do PSD-CDS, que diariamente insiste que estamos perante um regime que se esboroa porque não consegue controlar os incêndios. É preciso salientar que nunca tanto fogo foi utilizado de forma tão exímia como material de guerra ideológica pura, de manobra política propagandística. Essa novidade tem pelo menos o condão de mostrar a elasticidade das lutas ideológicas e dos temas que estas elegem. Do discurso político dos dois partidos de direita restou apenas os fogos. E para mim a intenção de pôr o país a arder através de retóricas inflamadas sobre incêndios e a irresponsabilidade da administração no confronto com os mesmos, possui a sua materialização no acto mesmo do incendiário, dos vários incendiários que têm espalhado o caos pelo país. De tal forma que a crítica ao desmando administrativo do PS em virtude da incontrolabilidade dos incêndios parece feita à medida e à velocidade com que estes se vão espalhando pelo território. A maneira como passam de terrenos massacrados para outros ainda virgens como se se tratasse de um périplo turístico pelas mais belas florestas portuguesas leva a pensar que nem Deus joga aos dados, como queria o grande Einstein, nem tão-pouco o fogo lavra a eito. Pelo contrário, saltita conscientemente pelas regiões do interior como saltitam as farpas no tabuleiro do xadrez político.

Talvez um dia quando se faça a história destes incêndios se chegue ao fundo da questão. Ou talvez nunca se saiba. E contudo, olhando para o que a história nos tem ensinado, motivações políticas de diversas índoles estiveram por vezes por detrás de grandes catástrofes. Nero vem depressa à mente. Não me admiraria se algures uma lira fosse dedilhada com indisfarçável prazer perante a voragem do fogo.

Lobos em pele de cordeiro

Julho 28, 2017

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O artigo de Henrique Raposo em defesa da liberdade de expressão de Gentil Martins de dizer aquilo que pensa sobre a homossexualidade é como sempre um entorse intelectual.

Raposo acha que não se devem queimar pontes. Que as afirmações do médico foram eventualmente um tanto ou quanto destemperadas. Contudo, acha que deve haver espaço para discussão. Mas o que é que há para discutir? Há homossexuais; vivemos num mundo em que as pessoas têm direitos; e um desses direitos é não poderem ser discriminadas com base na sua orientação sexual. O que há então para discutir? Pressentimos, claro está, a concessão óbvia ao discurso de Gentil Martins: que a homossexualidade é uma anomalia, que é uma doença, que é uma perversão, etc, etc. É isso sem sombra de dúvida que há para discutir… segundo Raposo. Devo dizer que não li o artigo todo. A um terço dos artigos do Henrique Raposo começo a sentir o refluxo gástrico e desisto. Mas também não importa. Porque aquela sugestiva ideia da discussão diz tudo. Gentil Martins não é apenas médico e católico – é de outra geração. Ao contrário de Raposo que pertence a uma geração (embora não pareça) onde estas coisas já foram discutidas; na qual as pessoas aprenderam a aceitar a diferença dos outros,

Imaginemos por absurdo que a medicina chega de facto à conclusão que a homossexualidade é uma anomalia. O que é que se faz? Cura-se com choques eléctricos? Castram-se quimicamente os homossexuais? Gazeiam-se em balneários simulados? Estas alternativas já foram todas tentadas. Quererá Gentil Martins e Raposo sugerir uma outra “cura”? Assim como é incompreensível que o deputado André Ventura acorde todos os dias tão preocupado com os ciganos que não pagam o autocarro, também gera perplexidade a obsessão com a homossexualidade por parte de Gentil Martins e Henrique Raposo. Tenho poucas dúvidas que terão aplaudido a triunfante decisão trumpista de impedir os transgéneros de servirem no exército norte-americano. E que para eles deveria haver uma ampla discussão – eventualmente um programa do prós-e-contras da Fátima campos ferreira – sobre o assunto. É estranho que lhes tenha passado ao lado a ampla discussão que há pelo menos meio século se anda a fazer: na arte, na literatura, no cinema, na ciência, no direito… – a lista não teria fim – sobre a aceitação da homossexualidade por parte da sociedade alargada.

A discussão que Raposo e Martins querem ter, possui um objectivo muito concreto. Fazer regredir as conquistas em todas essas áreas. Este argumento da necessidade de discussão é tão cínico como estúpido. Para os estúpidos, ele actua cinicamente; para quem tem dois dedos de testa ele rescende a estupidez. Também André Ventura afirmou que a questão dos ciganos era algo que as pessoas queriam discutir. Como se esta – seja lá qual for a “questão” dos ciganos – não fosse falada até à exaustão! Nas numerosas demonstrações de ciganofobia, nas inúmeras provas de preconceito, nas representações que os indivíduos entretêm sobre qual deve ser o lugar dos ciganos na sociedade portuguesa, etc.

Assim o Raposo. A afirmação “pode e deve haver discussão sobre homossexualidade”  por ele proferida de forma tão peremptória, oblitera que desde sempre houve discussão; ou melhor, desde sempre houve discurso! Aliás, se houve área que sempre se pronunciou sobre a homossexualidade foi a medicina. O que houve foi sempre uma discussão feita apenas e só segundo os termos de um dos lados. Diriam, mas ele acrescenta que a discussão deve ser feita “fora das balizas da LGBT”, o que qualifica a afirmação. Mas a discussão sobre homossexualidade foi durante séculos feita fora das balizas da LGBT! Tanto a sua discussão como os seus silêncios. É pelo contrário tempo de a fazer dentro das balizas da LGBT!

A pior coisa com que nos confrontamos no espaço comunicacional actual é esta espécie de virgens ofendidas que se vitimizam de ser amordaçadas quando o seu discurso foi, durante séculos, o discurso hegemónico. Uma das razões pelas quais o chamado politicamente correcto é tão aguerrido é porque está a lutar contra discursos cristalizados, ideologicamente suturados por séculos de trabalho efectuado pelos grupos dominantes sobre a cultura.  Por isso vir fazer o papel de vítimas da intolerância do politicamente correcto é sempre escorregadio. A um tempo porque sendo geralmente o politicamente correcto o discurso dos dominados, o trabalho de inversão dos poderes instituídos e instituidores é muito mais exigente. A outro porque este trabalho implica destruir pré-noções e preconceitos enraizados como verdades. Por exemplo, é falso quando cinicamente André Ventura vem dizer que ele só falou de um assunto que as pessoas querem falar, mas não o fazem porque são censuradas, porventura por uma fantasiosa polícia de esquerda. O que André Ventura fez foi repetir as seculares acusações aos ciganos de estarem à margem e contra a ordem, só que desta feita através de uma retórica ajustada aos tempos correntes. O mesmo para Gentil Martins. E por consequência para Henrique Raposo.

As desventuras de André

Julho 19, 2017

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André Ventura faz parte daquela constelação de intelectuais dontrinadores da nova direita portuguesa cujas maiores preocupações na vida são o islão e as chamadas minorias. Outros dos vates que enfileiram este grupo são Henrique Raposo e João Pereira Coutinho. Esta rapaziada vive assoberbada pela ideia de que o Islão está a invadir a Europa e que as minorias – negros, ciganos, bielorrussos, you name it… – se encontram a esbulhar o Estado. Logo eles que abominam o Estado! Esta relação entre os neoliberais da nova direita e o Estado começa a assemelhar-se a uma relação fetichista. Por exemplo, Raposo veio imediatamente defender a tese extraordinária que é não falando do assunto – neste caso “ciganos” – que se dá azo a correntes e especulações racistas. A questão é muito simplesmente esta: por que razão ocupa o candidato do PSD a Loures, André Ventura, 40% da sua entrevista com o tema ciganos? De todos os problemas que um Concelho possa ter, os ciganos não pagarem para andar de transporte público, será o mais relevante? Ou terá sequer alguma relevância?

Podemos ver em André Ventura um intolerante ou um oportunista. Não tenho a certeza para qual das carapuças me devo inclinar ; mas a de oportunista corresponde a certos factos que lhe dão consistência. Por exemplo, quando André Ventura publicou uma coisa chamada A última madrugada do Islão parece que houve alguma controvérsia, e que o escritor chegou mesmo, segundo nos relata, a ser alvo de ameaças por parte da comunidade islâmica a residir em Portugal. Digamos que este corpetezinho à la Rushdie serviu muito bem para dar corpo à figura do intelectual incompreendido perseguido pelo Islão. E acrescentemos que não há má publicidade – apenas publicidade! Por aqui já se vê que Ventura não é um estreante nestas andanças. Procede portanto a tese segundo a qual o PSD encontrando-se silenciado no grande tema ECONOMIA procura agitar as águas através dos temas caros à extrema-direita. Isto seria uma visão meramente instrumental das inconfessáveis razões de Ventura. Todavia, estou em crer que subjacente a esta instrumentalização, que sem dúvida possui o seu peso na retórica política, há um nível de crença naquilo que se diz que não é despiciendo. É certo que o tema ciganos pode ser visto como uma reactivação dos temas de eleição xenófobos que mobilizam as massas. Desconfio, no entanto, que não se tivesse dado o caso da condenação da esquadra de polícia de Alfrangide, André Ventura arrolaria os negros à sua lista de inimigos da nação. O que mostra alguma capacidade monitorizadora do discurso que lhe permitiu discernir que “negros” era uma no go area, enquanto ciganos era campo por desbravar… no que toca ao momento presente, bem entendido.

O que percorre o discurso do candidato, na realidade, é a paranóia securitária. Não são apenas os ciganos, ou melhor, o cigano enquanto categoria diferenciadora, que lhe fazem espécie – são os bairros sociais onde medram, para ele, todas as tendências entrópicas do Estado de direito! O Estado de direito, garante da ordem e da liberdade, vive acossado por esses espaços obscuros, selvagens e imprevisíveis que bordejam as nossas zonas habitacionais. Na sua segunda aparição sobre o tema, em tom de retractação, já Ventura diluía as suas afirmações ajuntando-lhes a questão do género e das diferenças de papéis no interior das comunidades ciganas, curiosamente, o tema central do artigo de Henrique Raposo desse mesmo dia. Mas na entrevista ao Notícias não está minimamente preocupado com as meninas ciganas e os seus destinos, algo de que nem sequer fala. Os temas são concretamente: o abuso do Estado por parte dos ciganos, nas suas múltiplas modalidades de não pagamento das suas obrigações, de frutificação na ilegalidade ou de edificação de guetos de autarcia interna… e depois a prisão perpétua.

Temos que nos habituar a não ver nestes processos retóricos esquemas de either/or. Ou seja, não se trata de à falta de economia viram-se para a xenofobia e para a segurança. Não. A sua economia, a visão que sobre ela têm, exige que se pense de forma xenófoba e securitária. Não é portanto um processo calculista de substituição retórica, mas sim uma conjugação por afinidades electivas. Os temas articulam-se porque a concepção neoliberal – diria mesmo a antropologia filosófica que lhe está subjacente -, assim o exige. De que forma? Das maneiras que tão bem descritas foram por Naomi Klein e Loic Wacquant. O neoliberalismo preza as assimetrias sociais como o sangue que lhe corre nas veias. O mundo é um mundo de desigualdades e assim deve ser mantido. O Estado é uma entidade caucionadora desta ordem, e nunca por nunca deve assumir o papel de potencial agente seu diluidor. Perante os fracos – força máxima. Perante os fortes, máxima flexibilidade.