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A máquina de fazer bebés

Outubro 3, 2018

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A abertura da máquina hamlet de Heiner Muller: Aqui vem o fantasma que me gerou, com o machado ainda no crânio. Quem gerou o fantasma mee#too? Reflictamos: os conservadores norte-americanos. Vêem-se agora a braços com uma vingança infinita. O desespero do congressista republicano na audiência a Ford: – Vós, democratas, não terão pedras onde se acoitarem, nem buracos para fugirem: serão vítimas da vossa própria perfídia! Curiosamente, os inventores da perfídia foram os conservadores republicanos, ou não? Corria o ano de 1998 quando Clinton confirmou o seu caso extramatrimonial com Lewinsky. Outras mulheres, anteriormente, já tinham vindo a terreiro com acusações de violação e de abuso sexual. Mas foi Lewinsky que fez cair o presidente. Não foi a primeira vez que se ouviu falar de escandâlos sexuais envolvendo altas figuras políticas. Porém, a perseguição movida a Clinton foi de tal maneira encarniçada que fez desabar as fundações do partido democrático, com consequências que ainda hoje são exploradas pelos republicanos na sua guerra de propaganda. Por isso o espanto do congressista republicano contra a pretensa orquestração das mulheres que acusam Brett Kavanaugh é um caso claro de “com ferros matas com ferros morres”.

O jogo, contudo, está desgovernado. A máquina que traz à tona os fantasmas de abusos sexuais e violações (reais ou não) é autopropulsionada. Ganhou vida própria. E nesse sentido, tornou-se incontrolável. Qualquer coisa serve: desde as bebedeiras de Kavanaugh, até aos impropérios dos seus amigos, chegando ao cúmulo de surgirem acusações de abusos pelas frases escritas por adolescentes no livro de curso! Deixou de haver fronteiras discerníveis entre o que é uma conduta apropriada e o que pode ser atentatório da liberdade de outrem.

Reparem que não me interessa minimamente o futuro de Kavanaugh, de todo o modo um juiz ultraconservador colocado estrategicamente pelos republicanos no supremo para assegurarem a sua hegemonia até ao dia do juízo final. Mas assim como soam a falso as declarações do juiz, mascaradas que estão num misto de hipocrisia e de atabalhoamento, a máquina de acusação por abuso deixou de possuir baias entre o que é aceitável e o que é histeria colectiva.

Por exemplo, o mais recente caso envolvendo Ronaldo e a norte-americana Magoya tinge-se das cores do ridículo e capcioso. Uma vez mais os relatos são caricaturais. As mulheres acedem a tudo, ou a quase tudo, e depois quando tudo acontece dizem-se violadas. Como não há peritagem que resista aos anos que entretanto passaram, a culpa pode viajar a velocidades estonteantes que não há forma de a confirmar ou infirmar. O certo é que na maioria dos casos estas mulheres aceitam dinheiro para se calarem, para não denunciarem, ou seja, para não acusarem. O que diz muito da qualidade moral de cada uma delas. Parece então que quando necessitam de mais dinheiro, recuperam a potencial acusação do baú das memórias (forjadas?) e contra-atacam no sentido mais mercenário do termo. Magoya remeteu-se ao silêncio durante anos, supostamente enquanto o dinheiro lhe durou ou não lhe fazia falta. Regressa agora com a acusação a Ronaldo porque, aventamos, precisa de dinheiro, de mais dinheiro. Encontrou dois jornalistas oportunistas no Der Spiegel que por seu turno viram em Magoya a hipótese de se catapultarem para o estrelato internacional. Uma conjugação de factores, portanto, que reforça sistematicamente o mecanismo da culpa sem presunção de inocência, e que desliza sobre pressupostos tanto mistificadores como alarmistas.

O movimento metoo# deu força e cobertura a estas aparições. Qualquer destas mulheres – Magoya no caso de Ronaldo; Ford, no caso de Kavanaugh – exibem a sua aura de pureza fabricada nos seus testemunhos e queixumes. Porém, é difícil emprestar-lhes muito crédito. Os seus depoimentos estão cheios de contradições; e ninguém acredita na sua santidade quando temos sistematicamente mulheres que se envolvem em festas e outros rituais e depois, só depois, se arrependem. Não se trata de reeditar o velho tema da violação por culpa da mulher, variadamente declinado em “estava mesmo a pedi-las” ou outras formulações. Contudo, não podemos deixar de lado uma certa sensação de desconforto quando invariavelmente estas mulheres aderem activamente a certos comportamentos. Magoya aceitou um convite para uma festa num quarto de hotel com Ronaldo e mais pessoas. Isto soa a orgia. Qualquer pessoa, por mais inocente que seja, sabe ler estes sinais. Quer dizer que por aceitar ir a um quarto de hotel está a pedir para ser violada? De todo – mas significa que as condutas que aí se desenrolarem possuem fronteiras muito pouco claras e facilmente manipuláveis.

A histeria é de tal ordem que até Lewinsky da qual se concluiu sempre ter tido sexo consensual com Clinton, veio agora desdizer-se argumentando que pelo diferencial de poder não saberia bem dizer se teria de facto sido consensual. Esta é a justificação mais elástica que pode existir. Curiosamente (e terrificamente) é a simétrica daquela que é utilizada nos países onde é impossível provar uma violação, como a generalidade dos países árabes. Os seus sistemas jurídicos são blindados pelas suas formulações excessivamente patriarcais contra acusações de violação. Se aqui se torna improvável que algum acto seja considerado uma violação (desde logo porque o ónus da prova recai por inteiro sobre a vítima) no mundo do metoo# torna-se improvável que algo não seja uma violação (ou abuso sexual). Qualquer contacto físico que envolva seres em posições de poder diferenciadas pode ser facilmente arrolado ao abuso sexual – sejam dadas as condições suficientes. E se não for no imediato, pode sempre ser recuperado posteriormente e interpretado através da lente da anti-falocracia que estabelece que o poder submete as suas vítimas para além de qualquer escolha, e que este é irremediavelmente masculino.

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Da “ditadura intelectual da esquerda” ou da estupidez operacional

Setembro 25, 2018

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In recent years, there has been some tension among the political groups on campus. One group, Texas Aggie Conservatives, petitioned to ban radical leftist speakers from the campus. In another incident, the same group sued the university when their request for club funding was denied (though funding was eventually offered).

Curioso é ver uma direita que embora comprometida com Trump e o seu programa se envergonha de o fazer declaradamente por causa de… Trump. O apoio envergonhado que a direita prodigaliza ao “baby in chief”, como o apodou De Niro, é assumido por detrás de um véu de pretensa crítica que evita a identificação com a boçalidade do presidente eleito pelos norte-americanos.

Um tal apoio contrasta com a virulência dos ataques à universidade e a uma tão ridícula quanto efabulada “ditadura intelectual da esquerda” (Henrique Raposo dixit). Reparem que esta obsessão faz parte do programa trumpista – do seu ataque às elites intelectuais e em geral a tudo o que tenha a ver com pensamento. Mas se é verdade que há manifestos exageros no programa de limpeza das consciências nas universidades norte-americanas, também é facto que este não pode ser generalizado. Por exemplo, as duas grandes universidades norte-americanas – Harvard e Princeton (e claro está Texas A&M!) – estão bem longe de serem conotadas com a esquerda intelectual. Sobretudo a primeira, onde nas diversas áreas das humanidades e ciência política se pode até dizer que o que impera é um conservadorismo subtil.

É claro que esta luta não é nova. Desde que os irmãos Bloom (Alan e Harold – irmãos em conservadorismo e não pelo sangue) iniciaram a sua gesta contra a ditadura do politicamente correcto nas humanidades que esta histeria fez o seu caminho. E embora esteja fora de cogitação colocar em dúvida a genialidade literária de Shakespeare, também dificilmente se pode suportar Harold Bloom e a sua monomania de reconduzir tudo o que foi produção literária ao agon com o bardo britânico. Justificadamente se insurgiram as vozes apoiantes de outras literaturas quando Bloom, por exemplo, criticava a adopção de um contista mexicano “sem grande jeito” nos programas de literatura de algumas universidades. Esse contista era Juan Julfo. Donde se conclui que o disparate não se encontra acantonado nos heresiarcas de esquerda, mas que abunda em velhas carcaças conservadoras.

Mas esta luta é ainda mais descerebrada quando se assiste à forma como corredores e departamentos são abertos (para não dizer cus) aos mais ortodoxos da economia neoliberal. Aqui a crítica ao esquerdismo das universidades torna-se uma verdadeira caricatura (afinal o que ela é também em relação a outras áreas). Sabendo-se do espaço diminuto que os designados economistas heterodoxos possuem nas universidades americanas – e nos seus rankings internos – perguntamo-nos onde anda a tão famigerada ditadura da esquerda? Apenas na cabeça tresloucada, histérica, de raposos e quejandos.

E é talvez aqui que devemos concentrar os nossos poderes analíticos. O alvo a abater por esta frente ultraconservadora são as chamadas humanidades, ou as soft sciences, ou ainda, à maneira dos idealistas alemães, as geistwissenshaft, as ciências do espírito. É assim porque é nestas que os contornos culturais, ideológicos, são mais vincados, mais, diríamos, perceptíveis. Desde logo porque o seu sistema simbólico é o mais acessível: história, sociologia, psicologia, antropologia, filosofia, linguística – são tudo áreas imediatamente legíveis. Diferente da física, cuja linguagem é apenas para iniciados. Ou as matemáticas, cuja notação possui um código inteligível apenas para versados nos seus arcanos (e não falo das matemáticas que vão até aos integrais). Porém, a economia encontra-se num lugar charneira. Falsamente objectiva quando despida da análise dos seus pressupostos ideológicos; empiricamente eficaz quando reduzida à sua tecnicidade. A economia é, sem sombra para dúvidas, a mais bem sucedida das ciências a manejar esta ambiguidade. Por isso granjeia um tal sucesso na academia. “A rainha das ciências sociais” como a designam os próprios economistas. Ora a rainha só não vai nua porque os seus pressupostos são aceites como inscritos na natureza das coisas. Apesar de vários terem sido aqueles que dedicaram as suas vidas a denunciarem os seus mecanismos retóricos historicamente mutáveis (por exemplo, McCloskey e depois McCloskey transformado).

Para vermos como é falsa a tese da ditadura da esquerda na academia norte-americana (mas qualquer outra serviria) basta apenas lembrar que as metodologias oficiais dos praticantes de economia são aquelas que os hard core positivistas e operacionalistas, tais como Milton Freedman e Gary Becker, ditaram há quase meio século. Perigosos esquerdistas os dois – não teríamos qualquer dificuldade em reconhecê-lo. Curiosamente, este discurso rançoso do politicamente correcto na academia nunca se debruça sobre a economia. Omissão estranha, na medida em que esta é a ciência que actualmente tem mais disseminação na esfera pública, mais falada, mais comentada, por leigos e especialistas. Não se debruça porque a sua tese afundaria rapidamente perante a força da evidência. E no entanto, não há forma de contornar o facto de ser ela que mais impactos tem na sociedade alargada bem para além dos muros dos campus académicos. Pobres das sociologias, antropologias, filosofias, cultural studies, apenas escutadas por especialistas e ratos de biblioteca ou então enfiadas à pressão num “opinionismo” de emergência nos programas de rádio da manhã.

Que raposo demonstra uma ignorância presunçosa, já por diversas vezes demos conta disso aqui no blog. Que compra os argumentos preguiçosos da alt-right e do tea-party norte-americanos, também já percebemos, tal é a falta de originalidade e capacidade de pensamento próprio evidenciadas pelo cronista do expresso. Que a luminária tem um assento empíreo como representante de qualquer coisa tal “a direita conservadora” como forma de mimetizar uma qualquer simetria política na esfera pública – também se tornara claro. Mas alguém tem que pôr fim a tanto dislate, a tanta manipulação e, se quisermos com alguma brutalidade, a tanta estupidez. Não serei eu com certeza. O repto é feito para o infinito e mais além.

Black in the Klan

Setembro 24, 2018

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O que surpreende no último filme de Spike Lee é a sua actualidade. A história: um detective negro que trabalha como infiltrado faz-se passar por um branco racista que quer integrar o Klan. O contexto: os Estados Unidos no final dos anos 60 com a emergência do black power e da cultura pop negra. Dessa premissa desenrolam-se um conjunto de peripécias que quem as quiser saber veja o filme. Mas para além da comicidade da premissa inicial, o que choca é a correspondência cultural, terminológica, ideológica, entre o grande unicórnio da época, David Duke, e o actual grande unicórnio, Donald Trump. A mimetização do discurso do jovem líder do Klan pelo actual presidente dos Estados Unidos é de tal forma escandalosa que ficamos a cismar se Trump não terá de facto feito um tirocínio nas hostes do KKK. Desde o surpreendentemente eficaz America first, até ao Make America great again, glosado do jargão duckiano Make this country great again, encontramos nas palavras do presidente coevo uma cartilha do white power de antanho. Não admira por isso que Trump tenha recebido um sólido apoio dos neonazis norte-americanos: eles viram nas suas palavras um eco dos seus ideais.

Repare-se que Obama nunca fez aproximações à linguagem do black power. Se alguma coisa o discurso foi sempre no tom conciliatório do Dr. Martin Luther King. Porém, Trump não esconde de nenhuma maneira a sua associação com a base branca, racista e tradicionalista do seu eleitorado. As palavras de Trump são enunciações nada veladas da retórica do white power. Spike Lee mostra-nos aquilo que afinal sempre foi evidente: que os norte-americanos votaram num neonazi racista mergulhado no caldo cultural do white power. O facto de o terem feito speaks volumes da recrudescência da extrema-direita nos Estados Unidos. Que afinal sempre lá esteve, esperando apenas o homem providencial que fizesse ecoar as suas palavras para um palco maior.

Aqui, a figura de um negro que se faz passar por um branco racista para convencer os líderes do Klan eleva a fórmula histórica da dupla consciência a um nível novo. Não por acaso se cita Du Bois no filme. A jovem universitária negra explica ao detective negro infiltrado (sem ainda saber o que ele faz) a dupla consciência de Du Bois: a luta permanente entre ser negro e americano: an American, a Negro… two thoughts, two unreconciled strivings; two warring ideals in one dark body, whose dogged strength alone keeps it from being torn asunder – a frase emblemática citada milhões de vezes. Mas o detective infiltrado faz o papel de self-hating jew, construindo a sua imagem para o Klan com os tiques retóricos do ódio aos negros: detesto os escarumbas, metem-me nojo, a ameaça da hipersexualidade do negro, a identificação pela acentuação das palavras, etc, etc. (Contando a uma amiga a parte do filme em que o detective negro fala ao telefone com o chefe do Klan, ela disparou de imediato um dos elementos universais dos tiques retóricos racistas – mas como é que ele não o identificava pela fala? Algo que o próprio David Duke insiste em vários momentos do filme!).

No final, imagens poderosas dos acontecimentos em Charlotesville. Um David Duke envelhecido emerge das cinzas e faz um rasgado elogio a Trump; algo que lhe seria retribuído dias mais tarde pela famosa comparação entre os dois lados no comentário de Trump às marchas de Charlotesville. There were bad people on both sides – disse Trump, referindo-se às manifestações da esquerda e da extrema-direita.

É preciso colocar em perspectiva que os direitos dos negros frequentarem as mesmas escolas e ocuparem os mesmos lugares nos autocarros não tem muito mais do que 50 anos. Em alguns estados do sul, as leis que proibiam o casamento interracial apenas foram revertidas no final dos anos 60 do século XX. O movimento dos direitos civis é recente, em termos históricos, e as suas conquistas não foram muito além da esfera legal.

É aqui que as coisas se tornam interessantes: é que Lee ao fazer com que o negro revele aos brancos os seus próprios fantasmas está a assumir a outra face da consciência dupla, ou seja, aquilo que Du Bois designava por second-sight. A double conscience, no sentido de Du Bois, é em simultâneo uma maldição e um dom. A impossibilidade de autoconsciência que assola o negro sem que esta passe necessariamente pela visão do outro é compensada por esta capacidade de uma segunda visão. Essa visão mostra o mundo tal como ele é – para além do véu do burguês branco. É por isso que o detective negro infiltrado no Klan é quintessencialmente du boisiano. É o negro que fala dentro do branco; assim como para Marx, a desalienação do burguês estava directamente dependente da consciência de si do proletário. O jogo de um negro que se faz passar por branco – quer Spike Lee esteja consciente ou não (e eu acho que está) – torna assim Blackklansman o mais du boisiano dos filmes sobre os negros na América (tirando obviamente I’m your negro!). Digamos, antes, que é o mais du boisiano dos filmes comerciais de Hollywood.  E isto por duas razões.

Primeiro, porque diversos são os filmes sobre a libertação do negro, a sua emancipação, a sua heroicidade – depressa nos ocorre o django unchained de Tarantino, mas muitos outros podem ser arrolados a este. A filmografia pop, invocada a justo título por Spike Lee neste Blackklansman, iconografada com os gestos culturais e simbólicos da soul e do black power, têm um venerando historial. Há sua maneira, shaft representa o herói urbano negro, duro, street smart, e pujante de virilidade. Estas produções entroncam no black is beautiful e exploram essa atitude até à saciedade. De certa maneira representam aquilo de que uma vez se queixou Spike Lee: o negro estereotipado. Não já enquanto alvo do mais acabrunhante dos estigmas – a falta de humanidade -, mas ainda assim estereotipia de um negro que tem um lugar à margem do mundo dos brancos. Ora o que Du Bois pretendia justamente era a plena integração do negro no mundo que tão difícil era alcançar para os negros, mas que era assumido como de direito natural para os brancos. Imagino que Du Bois ficaria horrorizado ao ver a cultura do ghetto ser elevada aos pináculos de referência musical e artística. A especificação do negro enquanto ser violento, hipersexuado, de certo, aproximando-se da animalidade, reiterada na cultura do hip hop ou do rap. Du Bois não queria nada disto (Gilroy sente com o mesmo fatalismo esta tendência…). Para ele, a vanguarda da raça negra viria dos seus elementos mais excepcionais, a sua intelligentsia, os intelectuais capazes de articular um ideal negro que concorresse em pé de igualdade com a civilização branca (eram os termos utilizados na viragem do século passado) do quais ele Du Bois seria com certeza uma luz de guia. É por isso que o herói do filme de Lee, quando invisibilizada a cor da sua pele, passa por branco, é aceite como parte da América mais tradicional, mais profundamente americana, sort of saying. Mas é um truque obviamente. Também aí não andamos longe dos ditames de Du Bois. Este instigava o melhor do povo negro a elevar-se ao que lhe estava vedado por iniquidade, mas que lhe pertencia por direito. Porém, a fazê-lo enquanto Negro, enquanto parte dum grupo com uma identidade própria que nunca deveria ser dissolvida na americanização. Talvez por isso no final, o detective negro não resista a revelar-se ao branco arrogante, chamando-lhe justamente branquelas de merda! A dupla consciência do Negro americano não pretende soçobrar numa espécie de limbo espiritual (e as tonalidades religiosas são a justo título parte dessa mesma identidade) que branqueia os negros tornando-os wasps de pleno direito. Essa não é a intenção. Para superar a dupla consciência não é necessário aderir ao olhar do outro, conformar-se à sua mirada, nos termos desta. É, ao invés, obrigatório reinventar um olhar próprio, que venha do interior da alma, da alma negra, da soul of black folks. Estaríamos muito longe da verdade se disséssemos que o filme de Spike Lee cumpre também a função de tocar a reunir?

Serena

Setembro 13, 2018

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As linguagens do antirracismo têm uma elasticidade que por vezes me deixam pasmado. A estas aliam-se as do feminismo, e em geral as de qualquer política de identidade. Quando são agregadas, monta-se um cocktail de efeitos perturbadores. Assim, quando temos as linguagens do antirracismo acopladas às do feminismo e do antissexismo, numa interseccionalidade pragmática, a força que possuem na esfera pública multiplica-se à velocidade dos grupos e vozes que com elas se identificam. A sua manipulação é por isso agilizada e cobra efeitos redobrados.

Serena pode ter vindo de Compton, mas tornou-se numa multimilionária mimada e malcriada. Assim como várias das divas negras que aplicam a sua origem do ghetto à criação de uma persona que lhes permite tudo – tal como Nicky Minaj ou Azelia Banks. Não é diferente nos homens, diga-se. Mas o caso Serena, com o americanismo rude e mal-educado herdado de heróis como McEnroe – que estava longe de vir do ghetto – mostra apenas que esta gente joga o jogo do poder e da subalternização sustentando-o ideologicamente, mas invertendo-o na prática,.

As acusações de racismo e misoginia proferidas por uma Serena de cabeça perdida porque perdera de facto o Open contra a adversária mostram como o comportamento da tenista foi baixo e irreflectido. Ou se calhar, muito bem reflectido já que sabia que apelar aqueles dois demónios seria ter de rompante do seu lado uma esfera pública cada vez mais idiotizada. Não se fizeram esperar do lado norte-americano as rápidas acusações de mulheres discriminadas e abusadas. No ambiente calvinista de me too# e quejandos, uma qualquer acusação desta natureza incendeia facilmente as redes sociais.

As linguagens do antirracismo e do antissexismo são por vezes de tal forma inflacionadas que a sua razão recorre a uma desrazão particularmente estudada. Desde afirmações sem qualquer fundamento como “No desporto existe muita discriminação e sexismo” de Patrícia Vassallo e Silva, membro do Por Todas Nós – Movimento Feminista (Observador), até ao repisar da história de opressão das categorias visadas, como foi o caso das reacções da WTA, tudo serve para alimentar esta engrenagem imparável.

Quando se diz “No desporto existe muita discriminação e sexismo” de que desporto se está a falar? Com que dados se fundamenta esta afirmação? E qual a relação entre uma Serena Williams multimilionária aos 27 anos e a história da escravatura norte-americana?

A linguagem do antirracismo rasura tudo. É cansativa porque desproporcionada e tantas vezes enredada em contradições e considerações descabidas. E, como mostra o caso Serena, é manipulável quando não escrutinada.

Há tempos Taguief escreveu um tratado criticando duramente o antirracismo e as suas actuações na esfera pública. É certo que o seu alvo principal tem sido o antissemitismo, e creio que o autor caía em diversos erros de análise. Com tudo de asqueroso que Taguieff possa ter – e há muito – algo de correcto se encontrava no seu repto: o antirracismo como formação ideológica que postula um inimigo absoluto com o qual é impossível dialogar. O inimigo absoluto, no caso de Serena, o homem branco com toda a sua carga estrutural de opressão sobre o negro e a mulher. Por conveniente que seja esta formulação, ela é contudo falsa. E é sempre falsa quando não se tem em conta que as posições estruturais são diferenciadas e que isso é justamente o que conta. Ou seja, a localização na estrutura de estatuto, poder, influência e visibilidade (a nova categoria irredutível da sociedade da informação) sobrepõe-se ao recorte categorial por sexo e raça. E no caso de Serena isso é tão evidente que ela usou justamente essas armas para esgrimir ideologicamente os automatismos do discurso antissexista e antirracista. É justamente por ser Serena Williams, e não uma anónima negra, que se pôde dar ao luxo de enxovalhar o árbitro português à frente de milhões de pessoas.

É claro que o discurso antirracista tende a disfarçar esses automatismos, enquanto automatismos retóricos que são, através da ideia de partilha da experiência da opressão. Assim Serena, que imagino tenha uma legião de homens e mulheres, negras e brancos, a servi-la, sentiu-se oprimida enquanto mulher negra porque foi multada no court de ténis. A noção de que Serena, negra e mulher, partilha, pelo simples facto de ingressar nas categorias oprimidas historicamente, a experiência dessa mesma opressão é das alquimias mais interessantes (e mais falsas) que o discurso antirracista opera. Todo o branco é um opressor potencial, assim como todo o negro é um oprimido embrionário. Não é assim. Lembra, em certo sentido, a experiência sartriana que incitava os intelectuais a trabalhar numa fábrica (temporariamente) para que fossem contagiados pelo ethos da classe trabalhadora.  Qualquer que tenha sido o sofrimento provocado pela escravatura (e foi extremo) não está inscrito na pele de Serena Williams. Mesmo que, como é costume na retórica antirracista, apenas o negro, ou a mulher, possam reconhecer quando são vítimas de um acto discriminatório.

A vitimologia que se encontra associada ao reconhecimento de qualquer detalhe nos comportamentos alheios enquanto ofensivo ou ameaçador prende-se, logicamente, com a absolutização da categoria vitimizada. É na substantivação da pertença que se gere a magnitude da vitimização. Assim Serena abstraiu o facto de ser muito mais poderosa no mundo do ténis do que o árbitro português, abstraiu igualmente a realidade do seu protagonismo mediático e os potenciais aproveitamentos daí decorrentes, e finalmente abstraiu a sua posição de classe, sendo muito mais rica, incomparavelmente mais, do que o árbitro português  – mas substantivou a sua pertença às duas categorias: negra e mulher. Este aproveitamento instrumental da substantivação categorial faz com que a linguagem do antirracismo se proteja do contraditório e evite, ou rejeite em absoluto, ir à liça no espaço da argumentação e da ponderação de factores.

Há uma justificação que alicerça muitos destes discursos. É a da incorporação das estruturas racializantes e sexistas que fazem com que o homem branco não posso responder doutra forma, só o podendo fazer caso se sujeite ao endoutrinamento do próprio movimento. Tal como a noção de que a experiência da escravatura se transmite de forma que se diria quase genética, também a inevitabilidade da incorporação das estruturas racializantes segue o mesmo princípio: é uma formulação de natureza genética. Ora, não há nada de genético nos processos de atribuição cultural.

As estruturas de racialização e sexualização são reais e possuem eficácia causal. Quer isto dizer que definem condições, localizações e tensões sociais. Definem assimetrias e estigmatizações. No entanto, daqui não se segue que se sobreponham a todo e qual outro fenómeno estrutural. O caso de Serena traduz a pura evidência da impossibilidade dessa sobreposição, ou melhor, dessa sobredeterminação. O que o discurso antirracista, quando se torna manipulador, faz é integrar todo e qualquer acto nessa sobredeterminação. É aqui que Serena, multimilionária, famosa mundialmente, cortejada pela comunicação social, consegue surgir na posição de vítima pela sua cor da pele e condição feminina. É um truque que oculta quem são as verdadeiras vítimas.

Argentina

Setembro 5, 2018

Saque de um supermercado na localidade de Chubut, Argentina 

Se é verdade que a Venezuela se desmorona a cada dia que passa, a ultra-neoliberal Argentina mergulha numa crise de consequências imprevisíveis. O FMI aterrou em Buenos Aires e impôs a sua receita de destruição e austeridade. Como em tempos fez em Lisboa. Os Argentinos olham para esta crise como “ainda não chegámos ao curralito” – e há um lampejo de esperança que assoma aos seus semblantes. Porém, a preocupação é evidente: com a subida do custo de vida, com os preços a dispararem, e com os salários a estagnarem, o futuro não se afigura risonho. Seguir-se-ão despedimentos em massa; o encurtamento do Estado – já iniciado com a compressão de seis ministérios em secretarias de Estado – e a onda de privatizações desenfreadas que se adivinha.

Macri exigiu hoje deficit zero a todos os governos regionais. E deficit zero aos governos regionais significa cortes indiscriminados nos serviços sociais. A despromoção dos ministérios da saúde e da ciência e tecnologia a simples secretarias de Estado, evidencia o que aí vem como estratégia de privatização e os sectores a abater.

Nos últimos dias o peso desvalorizou mais de 40% face ao dólar. O que sendo boas notícias para os estrangeiros – porque pela primeira vez Buenos Aires não tem os preços de Paris para quem tem uma bolsa em euros – trazem devastadoras consequências para o bolso dos argentinos. Mas para todos?

Imaginem uma nação em que toda a classe média-alta e rica coloca o seu dinheiro em dólares fora do país. Estima-se que o total colocado fora do sistema nacional orce os 244 mil milhões de dólares, o equivalente a metade do Produto Interno Bruto. Para esta população a desvalorização do peso representa riqueza acrescida nos seus cofres. Para estes, os preços não aumentam; antes as suas economias quadruplicam quando convertidas na moeda nacional. Porque se devem eles preocupar?

Assim temos um país que entre a propaganda feroz governamental, a intoxicação noticiosa, ao nível de uma Venezuela, mas com mais motilidade, porque lindos meninos e meninas sempre muito sorridentes, falam do programa de ajuste estrutural da mesma maneira como falam das estrelas de futebol que se encontram na Europa, e uma elite que corrompe as entranhas do país, mergulha na pobreza mais ominosa. E o aumento desta é visível ao nível do quotidiano. Os pobres acumulam-se nas ruas. Chegam dos campos com as suas famílias, como é tradicional nas grandes cidades brasileiras, e aninham-se nas arcadas dos prédios das grandes avenidas. Constroem barracas de cartão e plásticos nos cantos das entradas dos bancos ou dos grandes armazéns e ali pernoitam. E de dia para dia cada vez são mais. Em contraste, os restaurantes de luxo e da gama alta estão cheios. Como qualquer crise, ela abate-se sobretudo sobre os mais desmunidos. E na Argentina, o país do paraíso neoliberal, ela chega com particular violência aos pobres e classe média-baixa.

E aqui chegamos à Venezuela e porque a sua crise tem sido o garante das economias dos países vizinhos. Estimo que 90% dos venezuelanos a trabalhar na Argentina, trabalhe “en negro”, ou seja, sem contrato, sem segurança social, sem qualquer vínculo laboral. São muito apreciados porque dizem que são muito trabalhadores e simpáticos, e para além disso falam a língua. Trabalham sem horários por ordenados de miséria. E este influxo é o que tem segurado o pequeno e grande comércio e as suas margens de lucro, algumas absurdamente altas até ao momento. A aparente prosperidade do sector do comércio deve-se em larga medida aos salários de miséria pagos aos venezuelanos. Por isso, com a característica mão de ferro dos governos de direita para as coisas da imigração quanto ao seu estatuto de permanência no país, se fecha os olhos às condições de empregabilidade dos venezuelanos (imagino que o mesmo se passe em Lima, Peru ou Santiago do Chile). Vindos de uma miséria extrema, da fome e da escassez, os venezuelanos aceitam o que lhes seja dado. Trabalham sem qualquer segurança ou previsibilidade. São dóceis e obedientes – e por isso os empregadores argentinos gostam tanto deles. A crise estrutural da Venezuela é um bênção para os países vizinhos. Não é apenas por Maduro e o seu governo ditatorial que Argentina, Brasil, Perú, assistem com passividade ao que se passa: esta sangria interessa-lhes, e muito.  O desespero dos venezuelanos inunda o mercado das baixas qualificações argentino e faz florescer a economia informal.

 Quanto a esta, também aqui se trata de um país sui generis. Os impostos não são cobrados porque não há registos das vendas. Quando ele existe é arcaico e facilmente sabotável haja vontade. Por isso temos uma economia paralela de dimensões incalculáveis que diariamente foge aos cofres do Estado. E na frente política?

A elite política, o macrismo, tal como o ruralismo no Brasil, apostou fortemente em destruir a oposição. Bem pode o ministro da economia Dujovni ter milhões de dólares em paraísos fiscais, ou Macri, que a sanha da população, orquestrada pelos meios de comunicação, se volta contra a alegada corrupção de Cristina Kirchner. A corrupção kirchnerista baseava-se no controlo do Estado, e esta até pode ser real, mas os valores que envolve empalidecem quando comparados com as fortunas que o macrismo catapulta para fora da Argentina. Assim ouvir Macri dizer que “estão a trabalhar para que nunca mais haja corrupção na Argentina”, quando a fuga aos impostos por parte das elites é endémica, mostra bem o nível de corrupção ética deste governo.  Mas as pessoas gostam. Assim como é forte o apoio a Bolsonaro no Brasil, porque a classe média gosta de progroms no Estado, de falsas limpezas morais, que não são mais do que rearranjos na distribuição e açambarcamento dos recursos públicos. O ataque escandaloso dos meios de comunicação ao kirchnerismo não tem por efeito um elevamento ético ou uma Argentina mais transparente. A sua missão é muito objectivamente destruir a oposição. Até porque os corruptos próximos de Macri e das suas empresas têm sido cirurgicamente poupados à fúria justiceira do juiz Bonadio. Como um Moro argentino as suas baterias justiceiras são criteriosamente apontadas para o que restava da oposição política – tal como aconteceu com o PT no Brasil.

Neste conspecto, a Argentina caminha alegremente para o sufoco neoliberal e para a devastação que este causa. As mesmas medidas aplicadas com zelo em Portugal e na Grécia, vão ser aplicadas na Argentina. Com uma diferença de monta: os dois primeiros, por incipientes que fossem, possuíam ainda assim um Estado-social. Nos países da América Latina os Estados-providência são uma miragem. O que existe são híbridos deformados onde o universalismo de uns é a marginalização de milhares quando não de milhões. Por isso, perguntamos, o que há sequer para devastar?

Macri, como é apanágio dos governantes em momentos de retórica autoritária (vimo-lo recentemente em Portugal com Passos) veio dizer que não era tempo para governantes timoratos.  Sabemos bem que a força a que se refere Macri se exerce sempre sobre os mais fracos, os excedentários, e poupa, de costume, os mais instalados.

Anedota

Setembro 5, 2018

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Hoje, uma curiosidade para o anedotário nacional: o texto de Daniel Oliveira e de Francisco Louçã no Expresso têm um parágrafo que é ipsis verbis o mesmo.

Sabe-se hoje que pelo menos 40% dos norte-americanos terão tido acesso a pelo menos um dos tweets lançados na campanha de desinformação pelos gabinetes russos. No entanto, nada dessa ajuda estrangeira a Trump serve para desvalorizar o trabalho de construção do ódio e da ansiedade que rádios, jornais, televisões como a Fox, blogs e comunicação da alt-right norte-americana construiu sistematicamente ao longo dos anos. Steve Bannon é um herói desta cruzada e, quando foi descoberto na lista dos administradores recentes da Cambridge Analytica, que roubou 87 milhões de perfis do Facebook para gerir a promoção de Trump, percebeu-se o alcance estratégico destas jogadas.

Não sei se é erro do expresso, mas se não é então a isto é o que se chama intercâmbio de ideias!

O general no seu labirinto

Setembro 4, 2018

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Rui Ramos acordou hoje… e desperta um pouco maldisposto. Acordou hoje no sentido mais metafórico da expressão, porque chegou finalmente à conclusão que algo de irredutível se passou no xadrez político nacional. Esse algo de irredutível foi a geringonça. E chega maldisposto porque parece que conclui que o psd não tem estratégia… que não seja contar com a geringonça.

Repare-se que o PSD não tem estratégia porque entreteve-se a desejar que o barco afundasse. Desde o diabo até à própria ideia de geringonça, o psd, e por arrastamento o cds, não fizeram mais do que rezar para que a experiência fosse uma catástrofe para o país. Por isso, infirmadas as suas piores previsões, o psd ficou sem estratégia. O acto de santana não é tanto suicidário, como resignado. A velha máxima perdido por cem perdido por mil aplica-se-lhe judiciosamente. Afinal santana não fez mais do que, constatando o óbvio, agir sem percepção do risco. O óbvio é que, para citar uma expressão cara a Marques Mendes, o forrobodó das alianças ganhadoras psd-cds tem os dias contados. Dantes, podiam sempre confiar no facilitismo dos acordos e dos compadrios entre amigos políticos; agora, o xadrez complicou-se, e aquilo que era confortável e praticamente imediato tornou-se factor de rebuscados cálculos. O que dá liberdade a Santana para ensaiar alternativas e enveredar por um experimentalismo político que pode custar a centralidade do PSD. E dá liberdade a Rio para se aproximar do PS.

É por isso que Ramos confunde as oportunistas alianças de direita entre o PSD e o CDS de antanho com “transcendência política”. Diz ele que a geringonça inaugurou uma época de “mercearia do poder”, quando se supõe que a confortável posição de alijar a esquerda do poder através de alianças pré-fabricadas para se manter (n)o poder fosse alta política. Mas numa coisa tem razão, porque afinal faça as contas de mercearia que fizer a direita deixou de ter o jogo viciado.

Foi uma revolução tectónica no planisfério político. A inauguração de uma nova era. De uma esquerda que sempre se pensou como estando fora do poder, para uma esquerda que se assumiu parte do poder. É claro que Ramos chama a isto “habilidade”. Como se os tempos da AD, que até o PPM lá enfiaram para não perderem o poder, fossem tempos de “transcendência política”. Quem não se lembra daquele grande político carismático, que exsudava transcendência política, de nome Soares Carneiro? Que homem! Que estadista! Que intelectual!

Aliás, para quem não tem memória curta, recordar-se-á com certeza da tentativa falhada de recriar a aliança de direita em finais da década de 90. Percebia-se a grandeza do projecto político quando este unia espíritos tão afins quanto os de Marcelo Rebelo de Sousa e Paulo Portas.

Toda a história do PSD foi de alianças oportunistas para assegurar maiorias parlamentares: Durão e Portas, Santana e Portas, Passos e Portas, até ver… Por conseguinte, dizer que a geringonça inaugura a era política da “habilidade” é de uma falta de objectividade e de critério histórico inadmissível.

Mas percebe-se: de um homem que tem a honestidade intelectual de um caracol, vale tudo e o seu contrário.