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Novos-velhos racismos

Junho 30, 2016

O que têm em comum os insultos aos portugueses na Inglaterra pós-brexit e a rotulagem de “nojento” ao futebol da selecção portuguesa aplicada pelo jornal francês 20 minutes? São duas expressões de populismo xenófobo que as invocações identitárias essencialistas com facilidade produzem. Que o brexit foi em larga medida motivado por essas pulsões é demonstrado pela campanha orquestrada por Farage e o UKIP. Mas de forma quase automática o sentimento nacionalista extremado transmuda-se na mais desbragada xenofobia. Com efeito, ontem cidadãos da União Europeia pertencendo ao interior das fronteiras que este estatuto definia; hoje, párias no reino reclamado da Inglaterra – assim se transformaram os cidadãos portugueses da noite para o dia.

O termo “nojento” não é usual como qualificação da forma como se joga futebol. Este dégueule (nojento em calão como diminutivo de dégueulasse) não tem a ver com estratégia ou táctica futebolística. Surge, certamente, no seio da sobranceria dos franceses perante outros povos, neste caso os portugueses. O que repugna ao plumitivo não é a táctica de Fernando Santos – essa podia-se designar por falhada, desinteressante, medrosa, pouco inspirada, eu sei lá: mas não por “nojenta”. O alvo são obviamente os portugueses. Como numa confusa mistura de campos semânticos, os significados atribuídos a um objecto (o futebol) rapidamente resvalam para o seu verdadeiro alvo (as origens dos futebolistas).

Do outro lado da Europa, estudantes portugueses em Erasmus na Polónia são insultados e agredidos. Dizem que a razão foi serem confundidos com muçulmanos. Naturalmente que se os estudantes portugueses são confundidos com muçulmanos, também o seriam os espanhóis, os italianos ou os gregos. Pouco interessa as razões subjacentes a estes casos. Podendo ser diversas, revelam uma constância notável nos seus efeitos. O eixo comum parece ser a fenotipia. Ou seja, a raça. É o regresso da raça e das suas colagens fenotípicas. Mostra bem como os seus significados são voláteis e como se reconstituem depressa. Julgando nós que quando assestamos essa generalização comum de “os pretos isto ou aquilo” estamos a salvo de constituirmos o alvo de intenções racistas, esquecemos que estas não são constantes nos seus significantes e marcadores. Esta nova forma para dizer: – Se é mais escuro, na dúvida é muçulmano… ou romeno… ou búlgaro! Seja qual for o referente de origem o que ela invoca é uma associação directa entre cor e pertença. Ora esta não se faz sem ter uma geografia precisa onde se basear. A velha distinção entre o norte e o sul parece estar a ser reactivada. O que coloca de facto um problema grave não apenas na relação da Europa com os seus “outros” externos, mas também na relação desta e os seus “outros” internos. Pensávamos nós que décadas de trabalho ideológico a criar uma identidade europeia fossem resistentes a tendências racializadoras que constituíram sempre parte da história europeia. A evidência nega o desejo de progresso.

Esperemos que os escurinhos do sul dêem nos cornos dos branquinhos polacos mais logo ao final do dia.

Worstward Ho (Pioravante, marche)

Junho 24, 2016

O Brexit venceu. Duas análises que têm tanto de curioso como de aberrante correm em paralelo pela mão de alguns políticos portugueses. A primeira é a versão da esquerda que afirma que os britânicos fizeram uso da democracia para afirmar a sua soberania. Note-se que esta leitura não está assim tão longe da retórica dos meios mais conservadores. Modifica-se, contudo, no que respeita aos valores subjacentes a defender. Para esta versão, os britânicos reclamaram a sua autonomia contra o jugo draconiano da União – autonomia para gerirem a sua política social e para evitar o garrote das políticas monetárias europeias. Pensar que o brexit foi motivado por questões de justiça social eventualmente tripudiadas pelo diktat europeu é de uma ingenuidade tocante. Só uma arreigada convicção no poder do povo enquanto poder (sempre!) emancipatório é que pode moldar qualquer análise a esta conclusão relativamente ao brexit. É claro que esta filtragem negligencia sistematicamente formas populares como os fascismos e movimentos conservadores religiosos, por exemplo, que nada têm de emancipatório.

A segunda versão chega do lado conservador. É mais tenebrosa e podemos encontrá-la sendo enunciada por pessoas como Nuno Melo, o eurodeputado do CDS-PP. Para este o brexit é o reflexo de identidades nacionais manietadas pelo federalismo forçado da União Europeia que não soube conter-se enquanto projecto de cooperação. Esta visão é tenebrosa porque ela é em boa verdade a visão partilhada pela larga maioria do parlamento europeu sob a égide do partido popular. Nuno Melo diz-se europeísta mas enjeita determinado o federalismo que vê emergir nas tendências actuais da União. É uma afirmação exdrúxula. Pois o que pode ter a União que a separe dum mero convénio entre nações que não seja estruturas semi-federalistas ou parafederalistas? Eis enunciado por Nuno Melo o ácido que corrói a União. Eis a expressão acabada do programa do partido popular, coveiro dissimulado da União. Eis também como esses mesmos coveiros repetem as ambiguidades destrutivas de intentos parafederalistas antigos. Também as Luzes se pensaram soluções parafederalistas com a Paz Perpétua de Kant e acabaram, como num processo de consequências não intencionadas, a reafirmarem de formas essencializadas as identidades nacionais. Não é pois o que faz Nuno Melo quando diz que cada nação tem a sua identidade que não pode ser esmagada por um projecto comum? O que é isto senão uma ontologização quasi-genética das identidades nacionais? Como poderíamos esperar resultados diferentes se as pessoas que se encontram defronte do destino da União são os seus principais detractores? Certo é que foram os povos da Europa que os escolheram, numa demonstração de cínica lealdade ao projecto europeu retirando-lhe através dos mecanismos que ele próprio concede a sua capacidade legitimatória. Não foi isso que fez Cameron ao convocar o referendo?

Por isso o brexit, pese as boas intenções transformativas da esquerda, não anuncia nenhum projecto emancipatório. A sua expressão é de um típico processo de retirada do lado mais rico do conjunto mais pobre. Como os movimentos secessionistas na Bélgica, com os Valões a serem a parte mais rica e por isso a quererem a independência. Ou não tivessem vindo as reacções de apoio e de partilha das mesmas intenções da parte do clube dos ricos: Suécia, França, Holanda, Itália. Portanto a Europa parte, mas não do lado dos pobres, daqueles que realmente sofrem o jugo dos países dominantes. Quebra-se pela força dos ricos.

As razões encontram-se subjacentes às declarações de Gert Wilders ao exigir um referendo holandês. Por um lado, retomar o controlo do próprio orçamento, ou seja, deixar de contribuir para o bolo europeu; por outro lado, o controlo da política de imigração, ou seja, fechar as fronteiras aos imigrantes e refugiados. Estas foram, em essência, as duas linhas de força do brexit. Representam um sentimento anti-solidário e de fechamento nacionalista. Ora os ingleses não estavam sob um programa de reestruturação que lhes impusesse duros cortes; não eram vítimas de políticas draconianas de ajustamento. Escolheram sair somente por estas duas razões: deixar de contribuir para os restantes países europeus e proteger a sua Albion das hordas de bárbaros que se acumulam às suas portas. Por conseguinte, por muitas razões que existam para reformular a União Europeia e inclusivamente abandoná-la, estas são seguramente as mais erradas.

O império da bazófia

Junho 17, 2016

E a selecção lá partiu, em meio de grande alvoroço, com fanfarras a acompanhar e meninas histéricas a desejarem boa sorte ao seu capitão. E lá chegou – fez uma triste figura com a Islândia e prepara-se para um embate mortal com a Áustria que desfeito que foi a entent austro-húngara logo no primeiro encontro tem agora que comer a relva se quiser aguentar-se em lugar recomendável.

Custa no entanto ver o tempo e esforço – e sobretudo o dinheiro – que se desperdiça em torno de uma ilusão. Quem nos tivesse visto jogar contra a Inglaterra em jogo de preparação perceberia imediatamente que o caminho não iria ser fácil, quanto mais dar-mo-nos ao luxo de almejarmos ser campeões. Não sei se foi erro de cálculo ou pura bazófia. Seja como for, a péssima prestação evidenciada ainda nem há muito no mundial do Brasil aconselharia mais cautela e contenção. Assim não foi. Mais uma vez partimos para ceuta com grande algazarra e peito inflado de campeões ad hoc. E mais uma vez levámos logo pela proa com Alcácer Quibir ficando numa espera inconsolável que o nosso capitão Ronaldo ressurja por entre o nevoeiro como o melhor do mundo.

Há quem diga que os portugueses são de extremos. Assim como embandeiram em arco à mínima coisa, com a primeira desfeita caem num pessimismo crítico sem apelo. Acho que é mais um daqueles mitos, como o dos brandos costumes. Acontece que o pessimismo crítico não é um tique de um povo mas antes uma bem objectiva atitude perante a cagada que foi a selecção. Objectivamente não mostrámos respeito pelo adversário, que as nossas estrelinhas trataram como amadores; não nos esforçámos para ganhar como tenho visto a França e a Inglaterra fazerem nos seus dois últimos embates; e portámo-nos como iniciantes de cabeça perdida para quem levar um bigode da Islândia seria macular de tal forma o ego que seria preferível o suicídio. E isto não obstante termos defrontado aquela que até agora demonstrou ser a equipa mais fraca do Europeu. Objectivamente.

O problema é de gestão de expectativas. Já tínhamos visto isto no Brasil: à mínima contrariedade a equipa desmorona-se. Isto porque o exagero em torno do seu valor é tão grande que o erro torna-se fatal para um carisma construído com cuspo e esparadrapos. Não teria sido mais prudente manter o discurso com que se iniciou esta campanha? Ou seja – temos ambição mas não somos os favoritos. De repente, damos 7 a 0 a uns mortos de fome da Estónia e autorizamo-nos a dizer que vamos ser campeões! Mas que delírio! Que fanfarronice! Não vimos nós que no jogo contra a Inglaterra estávamos a levar um baile de início e que a expulsão de Bruno Alves foi no final de contas providencial porque permitiu ter um bode expiatório para a má exibição? E que dizer de a Islândia jogar como uma equipa pequena, nas palavras de Ronaldo, quando Portugal não saiu do seu meio-campo em 70% do jogo contra a Inglaterra?

Exagero, portanto. Hinos, canções de galvanização, directos televisivos obsessivos. Um enfardar de selecção para tão pouco futebol. Estamos perante um caso acabado de excesso simbólico: em que temos mais selecção (mito) do que futebol (real). Quando assim é, os desencontros entre os dois termos provocam sempre catarses que geralmente redundam em intensas frustrações.

Espero sinceramente que Portugal vença a Áustria amanhã. Mas gostava igualmente de ver um ganhar de consciência que o princípio da realidade (com que temos chocado frequentemente) deveria impor.

Brexit: uma reflexão não económica

Junho 16, 2016

O brexit tem sido analisado nas suas consequências económicas como prefigurando uma catástrofe financeira de proporções épicas para a Europa. As bolsas, apenas com o aproximar da possibilidade, dão sinais de nervosismo e imprevisibilidade. O outro lado, uma faceta geopolítica menos debatida, mas com afloramentos diversificados pelos comentadores, coloca a implosão do Reino Unido como quase certa, com a independência da Escócia. Razões que têm sido analisadas pelos mais diversos protagonistas do mundo da opinião.

Mas o Brexit tem uma consequência menos espalhafatosa e que no entanto atinge, a meu ver, a União Europeia no seu âmago administrativo e organizacional. Em tempos fiz referência ao papel ambíguo que a Inglaterra assumira para si própria no seio da União. Parte dessa ambiguidade residia no facto de demonstrando esta sempre uma condição periclitante enquanto membro possuía, todavia, uma posição quase hegemónica na sua arquitectura. Em larga medida essa posição decorria da competência linguística.

É certo que o inglês constitui uma espécie de língua franca de comunicação entre os povos, e que poderia continuar a ser a via media para os entendimentos europeus. Contudo, havia uma regra de ouro que era as línguas dos países mais populosos da Europa servirem como línguas oficiais das instituições europeias. Tínhamos assim que o francês e o inglês eram as línguas obrigatórias do funcionamento e profissionalização das suas instituições. Logo a seguir vinha o alemão como terceira opção. A questão do domínio europeu através da língua não é estranha a este sistema – os países dominantes imporem a sua língua, sempre foi uma das estratégias imperialistas. Compreende-se que as três línguas oficiais da UE sejam o inglês, francês e alemão – por esta ordem – quando os seus falantes representam de facto 42% do total da população europeia. Mas como pode toda a produção e comunicação organizacional europeia funcionar em inglês quando o único país que terá essa língua como oficial será a pequena Irlanda com os seus pouco mais de quatro milhões e meio de habitantes, ou seja, 0,9% da população da Europa? O que impede a Itália de reivindicar o italiano como língua oficial na medida que passa a ser o terceiro país mais populoso da Europa, logo a seguir à Alemanha e à França? E se o inglês continuar a ser a principal língua institucional, o esperanto da comunicação europeia, o que impede Portugal de reclamar o português como sendo objectivamente mais representativo da população europeia do que o inglês?

A questão da língua está longe de ser de somenos para as dinâmicas da arquitectura europeia. Era justamente devido à centralidade do inglês nas suas instituições que, não sendo os ingleses os trabalhadores com maior representação (esses são os belgas) eram geralmente dos melhores colocados. A necessidade de ter a produção oficial em inglês fazia com que a competência linguística natural destes constituísse uma mais-valia para os serviços. Com a brexit não é apenas 3,8% de todos os funcionários da EU que regressam a casa – é um segmento particularmente bem colocado em lugares-chave das suas instituições.

Por outro lado, há todo um bloco que reivindica uma maior proximidade ao alemão, os países da Europa central, para quem a língua dos negócios, pela penetração alemã nas suas economias, é o alemão. É o caso da Polónia cujas línguas secundárias nunca foram o inglês ou o francês, mas sim o alemão e o russo. Como continuar a dizer que o inglês deve ser a língua hegemónica quando a maioria da população da Europa se encontra justamente na Europa central e de Leste?

A agonizante morte do Estado

Maio 25, 2016

Paralelos entre a situação brasileira e venezuelana devem ser encontrados quanto ao papel que o Estado assumiu na estruturação da vida económica e social. Emir Sader, o sociólogo brasileiro, apresentava como especificidade dos governos PT da última década e meia, a reversão da “desmoralização do Estado”. Com efeito, sobretudo com os governos Lula, o processo de delapidação, não apenas material como também simbólica, do Estado, fez parte do programa e da ideologia dos governos PT. Com Dilma, face a um congresso de direita conservadora que agora se guindou ao poder, essa estratégia vinha sofrendo sistemáticos reveses.

O chavismo, e a sua continuidade através de Maduro, baseou-se no mesmo pressuposto: o Estado como motor fundamental da organização social e económica. Delineado de forma menos democratizante do que no Brasil, o poder de penetração do Estado foi intensificado e a extensão das suas redes incrementada nas diversas esferas sociais.

Estes dois projectos colidiam com os pressupostos centrais do neoliberalismo, para o qual o Estado é sempre o problema e nunca pode constituir a solução. O processo de desmoralização do Estado torna-se parte fundamental da cultura neoliberal. Provar ineficiência do primeiro, mostrar o seu peso excessivo, a sua corrupção intrínseca, são formulações conhecidas.

Quer no Brasil quer na Venezuela, a estratégia seguida foi a de assegurar o aumento dos gastos públicos através das receitas de uma mercadoria principal. Em ambos os casos, essa mercadoria foi o petróleo. Em ambos os casos, os gastos do Estado foram em grande medida sustentados pelos rendimentos gerados pelas grandes companhias nacionais de extracção do petróleo: no Brasil a Petrobrás, na Venezuela a Petroleos de Venezuela. Em 2012, 50 % das receitas do Estado venezuelano provinham do petróleo. No Brasil, o pré-sal era suposto assegurar a expansão do ensino público e a melhoria do sistema nacional de saúde. Tais políticas, em que a expansão do Estado se baseia na centralidade de uma mercadoria, correm o risco de ciclos de retracção nos preços dessa mercadoria produzirem efeitos multiplicados nas áreas de expansão do Estado. É o que assistimos actualmente no Brasil e de forma bem mais agudizada, na Venezuela. Despesa programada com base em receitas esperadas de um produto central e nacionalizado corre o risco de não encontrar cabimento se as variações negativas nos preços desse produto forem demasiado acentuadas. O “crime” das pedaladas fiscais de que Dilma é acusada teve em grande medida a sua origem nessa eventualidade… que se tornou realidade. No caso da Venezuela, com 94 % das exportações a serem de petróleo e seus derivados, o choque foi avassalador.

A questão que se coloca é então se se deve estabelecer uma tal dependência entre receita de Estado e um produto nacional central. Curiosamente, a questão foi levantada pelos ecologistas em ambos os países. No Brasil, por exemplo, pedia-se uma maior diversificação apostando em energias renováveis para se acautelar não apenas a extrema dependência do petróleo, mas os efeitos nocivos da sua exploração intensiva.

Todavia, este raciocínio aparentemente escorreito, esconde o simples facto de a forma como um “oil country” gere a riqueza extraída não ser necessariamente idêntica. Tome-se o caso da Arábia Saudita, um oil country por excelência. Aqui, embora a mesma centralidade na estratégia económica do Estado caiba apenas e só a uma mercadoria, não há qualquer interesse em redistribuir a sua rentabilidade através da expansão do mesmo. Pelo contrário, o fruto dessa exploração intensiva fica acumulado no topo gerando assim uma elite plutocrata imensamente rica contrabalançada pelo crescente empobrecimento da sua população. Aliás, terá sido justamente porque as receitas do petróleo quer no Brasil quer na Venezuela foram redistribuídas através de programas estatais que os efeitos da crise não se fizeram sentir com a mesma violência que assumiram noutros contextos. Assim se compreende que em 2010, quando se repercutiam as ondas de choque da bolha de 2008, e apareciam estas sob a forma de aumento do desemprego, o número de postos de trabalho aumentava na ordem dos 3 milhões ao ano e a desigualdade medida pelo índice de Gini não parou de diminuir. A escolha de ter o Estado como equilibrador das intervenções das multinacionais foi uma escolha política. Peter Evans mostrou que no Brasil períodos em que o Estado teve mão nas multinacionais foram períodos de crescimento, e contrariamente, sempre que alianças entre multinacionais e empreendedores locais ocorreram em detrimento do Estado, verificou-se o inverso.

Finalmente, a desmoralização do Estado, no caso brasileiro, passou em grande medida pela desmoralização da sua companhia principal, a Petrobrás. As duas coisas articulam-se para uma crítica do papel do Estado. O que esta procura mostrar é que mesmo que a gestão estatal não seja ineficiente economicamente, as armadilhas da corrupção são crónicas quando se trata de funcionalismo e orientações públicas. O Estado é assim visado tanto económica como moralmente.

Pontes para o passado

Maio 17, 2016

(EPA)

A agenda que se encontra em preparação, e de que o governo de Temer é exemplo, é fundamentalmente de retrocesso nas conquistas sociais. A austeridade como equilíbrio das contas do Estado, como é apregoado pelas políticas de reestruturação, irá afectar sectores sociais que viram pela primeira vez a possibilidade de ascenderem a patamares mais elevados no sistema de estratificação brasileiro. A precariedade em diversas esferas da vida – habitação, educação, trabalho – será relançada como forma de flexibilizar o pacto social conseguido pelos governos do PT. A desigualdade, apanágio da sociedade brasileira desde sempre,

Não se trata somente de um regresso dos conservadores ao poder; trata-se de uma mudança de paradigma há muito gizada nos bastidores pelos partidos que se coligaram com o PT. Já foi salientada a estranheza de certas coligações congeminadas no sentido de sustentar a governabilidade. A aliança entre PT e PMDB é uma delas. No fundamental existe entre estes dois partidos uma fractura, senão mesmo antagonismo, relativamente ao papel do Estado. O que Michel Temer vai tentar fazer neste seu governo interino, preparando as bases para uma vitória de um candidato PMDB em 2018, é uma reformulação do papel do Estado. Num post anterior assinalei a importância do timing da destituição da presidenta. Era crucial que o processo se iniciasse antes das olimpíadas. A razão é simples: são momentos de galvanização do país e a oposição a Dilma não queria que isso viesse a transformar-se numa onda de apoio ao seu governo.

O Brasil do PT teve por objectivo durante os três mandatos e meio institucionalizar os preceitos da constituição de 88. O interessante desta, e que deve servir como case study, foi o ter incorporado tanto das agendas dos movimentos sociais. Os governos do PT foram programáticos na sua execução, mas fizeram-no de uma maneira também ela particular. Através da incorporação destes movimentos no Estado. Como diz um ferrenho opositor ao PT, “transformaram movimentos sociais em ministérios”. Perdoe-se-lhe o exagero decorrente da verrina que devota a Lula e Dilma, mas concorde-se no essencial: a extensão do Estado foi em larga medida, e em diversas instâncias, sustentada nos corpos dos movimentos sociais. Esse alargamento, ou se quisermos apropriação social, na medida em que os movimentos passaram a ter as suas plataformas incrustadas no Estado e fazendo uso dos seus recursos, é o que está actualmente em jogo. Se a questão da corrupção é importante, e fez uma tremenda mossa nos governos do PT – ao ponto de comentadores televisivos chamarem ao partido um movimento de crime organizado -, mais do que a limpeza do Estado, o que se encontra em pauta (como dizem os brasileiros) é a sua redefinição. Nada de novo – afinal milhares de páginas já foram escritas sobre o projecto neoliberal de redefinição do Estado. Concordemos ou não, esse projecto vai ser retomado depois de ter sido brevemente interrompido. Serão as conquistas irredutíveis a tais guinadas? Nada é mais incerto. Julgo mesmo que contrariamente ao que foram levados a crer alguns brasileiros enlevados pelo espírito da constituição de 88, elas são facilmente desmobilizáveis.

Veja-se por exemplo a redução de ministérios que Temer encetou. Quais são os ministérios que vão ser reduzidos ou extintos? A supressão do ministério da cultura, integrado no da educação; a extinção do ministério das Mulheres, igualdade racial e direitos humanos, agregado ao ministério da justiça, ele próprio resultado de uma fusão anterior das respectivas secretarias (com equivalência a ministérios) de igualdade racial, igualdade de género, e de direitos humanos. É interessante notar as parecenças na disciplina com que as mesmas medidas são aplicadas independentemente do contexto. Cultura e igualdade são sempre os suspeitos do costume a serem desmembrados nas políticas de controlo do deficit. São também aquelas arenas que mais mobilização, dos famigerados movimentos sociais, produzem. Curiosamente, são aqueles que menores orçamentos têm, em geral incomparavelmente menores que outros superministérios.

Estas medidas não têm por isso nenhuma intenção equilibradora – que seria para todos os efeitos residual -, mas o mais eficaz objectivo de retirar os movimentos sociais e as suas plataformas da máquina do Estado. Ou seja, desincorporá-los estatutariamente e esvaziá-los materialmente.

Crónica de uma morte anunciada – ou como a esquerda (também) colocou a direita no poder.

Maio 14, 2016

A situação a que Dilma chegou não se deve apenas ao ataque desabrido dos grupos conservadores. Uma quota-parte do desgaste no governo mais impopular de todos os tempos no Brasil (10% de aprovação no mês de Abril) deve-se à esquerda brasileira. É facto que as movimentações de apoio a Dilma, o ganhar a rua, como lhe chamam os intelectuais orgânicos do PT, são fomentadas pelos movimentos de base da esquerda com implantação nos sectores sociais e do trabalho. Mas estas acontecem como manobra de desespero – ou seja, depois de porta arrombada…

Há quem especule sobre a iminência de uma guerra civil no Brasil que oporia a esquerda à direita nas ruas. Não creio que chegue a tanto. A mobilização não tem sido tão significativa quanto se esperaria. Mas quando se compara as manifestações pró-dilma com as manifestações pró-impeachment, fica a nu uma fractura evidente na sociedade brasileira. De um lado, negros, trabalhadores e sectores sociais desfavorecidos, geralmente de extracção rural; do outro brancos, classe média e média-alta e sectores urbanos do pequeno comércio. A segmentação era real e foi explorada pelos dois governos Lula.

Com efeito, a base social de apoio de Lula esboroou-se nos governos Dilma. Ou pelo menos perdeu a sua intensidade, fragmentando-se em diversos movimentos críticos aos governos da presidenta. Por isso o golpe, como lhe chamam, e a meu ver bem, os apoiantes do PT, beneficiou numa medida não despicienda do próprio trabalho de erosão dos movimentos sociais. É facto que o recuo em algumas causas que eram bandeira dos governos Lula provocou o descontentamento. É certo que as concessões que Dilma foi obrigada a fazer a um congresso que a viria a depor como agora assistimos, também geraram descontentamente nos sectores mais progressistas da sociedade brasileira. Contudo, uma radicalização fomentada pelas conquistas dos dois governos anteriores e pelo espaço político obtido pelos movimentos sociais fez muito pela quebra do pacto social herdado da era Lula. Começou com o movimento passe livre em São Paulo, com a esquerda universitária, urbana, dos jovens da esquerda à esquerda do PT a exigirem aquilo que actualmente surge como uma efabulação do acesso aos serviços – transportes públicos gratuitos. O movimento tem tanto de estranho como de extemporâneo quando se pensa que por trás dele estavam os jovens universitários das universidades públicas maioritariamente de classe média e alta. Alastrou com as manifestações contra a copa. Quem não se lembra da mobilização pedestre com pessoas a empunharem cartazes a pedirem hospitais públicos melhores em vez de gastos na copa? Desta vez, a mobilização já foi aproveitada pela direita, e mais ainda pela extrema-direita, infiltrada nestas demonstrações de desagrado contra toda a evidência: estaria a direita preocupada que não se gastasse dinheiro em fazer hospitais públicos? Por isso a radicalização do protesto contra Dilma foi rapidamente aproveitada pela oposição política; julgo ter sido aí que a sua deposição teve início.

Não devemos esquecer, como é óbvio, os casos do mensalão e do petrolão, com as inúmeras denúncias de corrupção. Mas aí a incidência de casos é de tal forma transversal às forças políticas que o protesto dificilmente poderia ser assestado apenas contra o PT de Dilma. Quer isto dizer que a culpa na realidade foi da esquerda e que com quem ferros mata com ferros morre? Não. Mas significa que aquilo que foi uma base de apoio sólida para Lula retirou o seu suporte ao governo Dilma e este viu-se entre dois fogos cruzados. Não podendo manobrar sem o apoio da base social e obrigada a fazer concessões à direita evangélica por definição do estranho xadrez político brasileiro dos últimos tempos – o bicamaralismo que tornou Dilma refém de Temer e do PMDB – a presidente foi perdendo apoios e a sua autoridade foi sendo alienada quer à esquerda quer à direita.

Houve uma peça fundamental no meio deste tiroteio – a mídia. Com diversos focos de insatisfação a percorrerem o país, a mídia foi instrumental para amplificar o seu impacto. Em grande medida a tese de que a mídia deliberadamente sabotou as tentativas de equilíbrio político corresponde à verdade. Órgãos como a revista Veja e as subsidiárias do grupo editorial a que esta pertence são veículos de propaganda contra o PT e nada têm a ver com jornalismo isento e de qualidade. Apenas um pequeno exemplo, é ler o post anterior que está abaixo. A campanha de assassinato de carácter da presidenta não teve precedentes, nem com Lula. E se as tentativas de humilharem Lula aquando da sua presidência eram numerosas, o forte respaldo dos movimentos sociais contra-atacava por outros meios, como as redes sociais, e reequilibrava o campo de batalha. Com Dilma esse apoio foi tardio. E surge já no declínio.

A retracção do Estado, a que foi obrigada pelo fiscalismo das suas políticas, levou ao descontentamento de um leque de clientelas que ascendera dos movimentos sociais de base à máquina do Estado. Lula integrara judiciosamente os “intelectuais orgânicos” do PT – provenientes dos sindicatos, dos movimentos sociais e associativos – na arquitectura do Estado. Dilma, acossada pela direita, retirou alguma da penetração do Estado nestes mesmos movimentos. E isso custou-lhe apoios à esquerda que na verdade não soube fazer concessões em momentos em que seria importante fazê-las.

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