O dia em que a terra parou

Temperaturas elevadas podem travar coronavírus - Ciência

É o título de um filme da década de 50 do século passado cujo remake mais recente teve como protagonista Keanu Reeves. O enredo tem as marcas de um outro tempo, um tempo onde as ameaças vinham de fora, neste caso do espaço infinito.

Quando olharmos com alguma distância para os dias actuais iremos recordar que estes foram os meses em que a terra parou – mas a ameaça era bem doméstica. Volvidos 4 meses do anúncio da epidemia na China, todos os países, mas literalmente todos, têm casos de infecção pelo covid-19.

Os países têm parado sequencialmente. Alguns protelam a decisão (caso da Rússia e do Brasil); outros avançam para ela aos primeiros sinais (caso de Portugal ou da Argentina). No entanto, paira no ar uma imensa apreensão. Vários sofrem por antecipação a hecatombe que se adivinha, enquanto outros deixam os filhos estampar arcos-íris nas janelas, reproduzidos em Twitters virais, a dizerem “vai ficar tudo bem”.

Não há memória de uma coisa assim. E até a comparação com a designada “economia de guerra” parece ficar bem aquém daquilo pelo qual estamos a passar. Numa economia de guerra há produção, concentrada em determinados sectores, e se alguma coisa, há uma reorientação do aparelho produtivo para produtos específicos, sobretudo armamento. Há também uma dinâmica colectiva onde uns são preparados para a frente de batalha e outros ficam nos bastidores a tratar das provisões dos primeiros. É certo que as comparações abundam: os profissionais de saúde são os nossos soldados e o material de que necessitam começa a tornar-se prioritário na reorganização de nichos do sistema produtivo. Tirando isso é todo um mundo que se encontra em confinamento obrigatório nas suas casas. Nada tem a ver com a mobilização gerada pelo contexto de guerra. A nossa guerra é assistir passivamente ao desenrolar da contaminação e como numa distopia de magnitude demencial cerrar os dentes e esperar pelo melhor.

Mas se a nossa vida parou por tempo indefinido, podemos no entanto ter a certeza de que, parafraseando aquele inefável momento em que Liza Minelli canta as suas angústias no New York New York, o mundo não para de rodar.  E neste movimento perpétuo teremos que estar atentos ao que aí vem, ao que se prepara, ao que alguns já congeminam. Ficando pelo nosso burgo e pelos problemas à escala nacional, não deixa de ser curioso como um conjunto de organizações, representantes dos grupos profissionais mais variados, se tem vindo a mobilizar para aquilo que se assemelha a um bodo aos pobres. De repente ninguém tem dinheiro. Aquelas confederações como a CAP ou a CIP, tão aguerridas em tempos de paz a combater o Estado e a limitar a sua intromissão na iniciativa privada, exigem do Estado, ou seja, de todos nós, um saco sem fundo de recursos. Chegámos ao ridículo de ver a ordem dos dentistas exigir dinheiro do Estado porque, dizem eles, as suas actividades estão paradas. Ora, não é preciso ser ministro da economia para saber que as clínicas privadas, sejam de dentistas sejam de outras especialidades, dão milhões de lucro. Onde está esse dinheiro? O mesmo para a CAP, onde estão os milhões das zonas vinícolas, das grandes explorações agrícolas, dos grandes latifundiários que enfeitam a nossa província com mansões e carros de luxo? E a CIP? Onde estão os milhões dos Amorins e Sonaes desta terra? O que eu quero dizer com isto é que circunstâncias excepcionais exigem medidas excepcionais. O dinheiro destas pessoas, o dinheiro das grandes fortunas ou mesmo das mais pequenas tem que ser obrigado a reentrar na economia.

Alberto Tórres, o muy lucido presidente da Argentina, afirmou recentemente que o coronavírus nos devia levar a reflectir que o tempo do êxito individual e de ganar plata (sic) deveria chegar ao fim – trata-se de instituir o tempo da solidariedade. Aqui a palavra não deve ser confundida com filantropia: caso em que Bill Gates decide retirar 100 milhões da sua colossal fortuna de 90 biliões de dólares para as necessidades impostas pela pandemia nos Estados Unidos. O que Tórres tem em mente é uma associação diferente, um contrato social de uma outra natureza. E neste sentido, as economias privadas devem ser chamadas a sustentar os alicerces da economia que sofrerão nos próximos tempos um desgaste inaudito. Não é admissível que os dentistas não se mutualizem para assegurar os seus postos de trabalho. Não pode ser o Estado a acorrer a todas as lacunas e dificuldades porque iremos passar. Não é admissível que os grandes agricultores não se organizem para suster a desgraça dos mais pequenos. E também não é admissível que os empresários se preparem para sugar os fundos do Estado sem porem nada deles.

É certo que 70% do tecido empresarial português é constituído por pequenas e médias empresas. Mais uma razão. Algumas destas empresas dão lucros muito significativos com custos exíguos. Não podemos ficar presos nesta chantagem de que as empresas não possuem dimensão suficiente. É justamente por isso que é viável exigir que as economias dos seus responsáveis entrem no plano de recuperação. Ou seja, isto não deve ser dado como opção, nem deixado ao voluntarismo do empresário, mantendo o ajuste com a lógica da iniciativa individual que nos guiou até agora. O dinheiro que estava a ser canalizado para andares de luxo, carros de alta gama, e património familiar deve ser obrigatoriamente direcionado para assegurar postos de trabalho. Como diz Tórres, não é mais tempo de ganar plata.

Não me interessa o que dizem os economistas. Os economistas são os mentores deste modelo insano que enriquece uns tantos e empobrece todos os outros. Por isso, a proposta da CIP de transformar garantias do Estado em subsídios a fundo perdido deveria ser avaliada caso a caso. Fazer chover dinheiro pode ser uma boa estratégia, mas desresponsabiliza os muitos que não querem perder os privilégios adquiridos em tempos de vacas gordas. Muitos estarão a pensar: eu não vou diminuir o meu nível de vida e espero que o Estado cubra o prejuízo. Muitos estarão já a deslocar o dinheiro para off shores e contas na Suíça, porque mais vale prevenir que remediar.

A reconstrução da sociedade tem de ser feita noutros moldes. Os avisos do papa podem soar muito caridosos, mas não passam, como sempre, de boas palavras sem qualquer efeito real. Os governos terão que se colocar ao lado daqueles que precisam e não dos ricos, como parece ser o timbre desde que a reaganomics ocupou o mundo. Saindo da Europa para a América Latina, aí o potencial de devastação é gigante. São milhões de pessoas cujos trabalhos – não se pode falar de empregos – são constituídos por biscates, ganchos, pequenos serviços. Toda uma economia informal incapacitada pela exigência de distância social. A desigualdade escandalosa da maioria de países como o Brasil, a Argentina, Colômbia, o Perú ou o Panamá, para ficarmos apenas pelos mais graves, terá de ser contrariada pelos governos, pela força se for preciso. Os ricos têm de deixar de viver nos seus castelos rodeados de favelas e villas e serem chamados a contribuir. Não basta dizer que são eles que dão o emprego. Essa justificação deixou de ser suficiente. Precisam de dar mais. Precisam, na realidade, de perder.

O Estado que pague a crise por inteiro?

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Como em qualquer crise os primeiros a sofrer os impactos da mesma são os mais pobres e precários. No caso da crise que presentemente atravessamos os impactos poderão ser catastróficos. Por isso julgo que seria importante distribuir estes mesmos impactos de forma mais justa e equilibrada.

Os mais ricos possuem reservas que lhes permitem suportar por tempos indefinidos uma paragem global da economia. São aqueles também que encheram as despensas e as arrecadações porque podem – porque têm dinheiro para açambarcar os produtos nos supermercados e porque têm grandes despensas e arrecadações. Mas para além disso, as suas reservas monetárias permitem-lhes não ter qualquer pressão para aquilo que se adivinha ser o ponto zero: quando as economias de muitas famílias chegarem ao limite.

Uma das coisas que devia ser imediatamente decretada é a suspensão do pagamento de todas as rendas quer de espaços comerciais quer habitacionais. Nisto inclua-se prestações bancárias e leasings comerciais. Há semanas saía uma notícia que dizia que o esforço para pagar a habitação ascendia a 56% do orçamento familiar da média das famílias portuguesas. Este é um esforço incomportável quando não se tem rendimento. Da mesma forma, não é aceitável que centros comerciais continuem a lucrar opiparamente com as rendas multimilionárias dos seus lojistas quando toda a actividade comercial se encontra congelada. Os únicos negócios que parecem vir a subsistir e a prosperar são as farmácias e os supermercados.

Da parte de empregadores e patrões deve-se também exigir um esforço adicional. Não é admissível que um sector como a restauração e a hotelaria que tem retirado lucros milionários desde o boom do turismo em Portugal venha exigir ao governo que intervenha dando dinheiro. Onde estão as fortunas acumuladas dos donos dos bares e restaurantes da moda? Onde estão as contas multimilionárias dos donos dos alojamentos e hotéis que enchem os centros das grandes cidades nacionais? Falta vergonha a esta gente da AHRESP! É tempo de irmos às contas de alguns senhores e obrigarmos a cederem parte dos rendimentos acumulados que lhes serviram durante o tempo das vacas gordas para engrossar os seus patrimónios: em apartamentos de luxo, carros de luxo, vidas de luxo. Isto pode parecer aquele ataque populista “dos ricos que paguem a crise”. Na verdade é um repto à justiça progressivamente enviesada pelo sistema em que vivemos. Um sistema que desequilibra quase tudo para o lado do capital em detrimento do lado do trabalho. Ouvir eminentes chefes de cozinha a vangloriarem-se de terem dispensado 75% do seu pessoal assegurando assim as condições sanitárias do protocolo de combate ao vírus e nem nos perguntarmos o que acontece então a estas pessoas? – isso é um exemplo de insensibilidade social descarada. Ouvir um tão conhecido quanto ordinário chefe multimilionário dizer que o governo não tem tomates para fechar os restaurantes sem lhe perguntarmos o que está a fazer para acautelar a vida dos seus empregados – agora dispensados – e das suas famílias, é desequilibrar a balança dos valores indispensáveis à dignidade humana.

A AHRESP quer que o governo dê 1000 euros por cada empregado, sensivelmente o equivalente ao ordenado mínimo mais prestações sociais. Pois eu acho que o governo deveria garantir as prestações sociais e obrigar os empregadores a manterem os ordenados. No geral estes postos de trabalho são precários e mal pagos. Incompreensivelmente, dado que é dos sectores que mais dinheiro dá actualmente em Portugal. Parece óbvio que este dinheiro está a encher os bolsos de alguns. Por isso, seria óbvio também, que numa altura de máxima fragilidade social, esses “alguns” fossem chamados a contribuir mais.

O argumento é o do peso da carga fiscal no funcionamento das empresas. Argumento useiro e vezeiro que não leva em conta que esta é mais que reposta pelos baixíssimos ordenados. Houve recentemente um pacto tácito entre governo e confederações patronais: os impostos mantinham-se, e o ordenado mínimo subia menos (bem menos) do que era possível. Pois bem, a crise está à porta e vai adensar-se de tal maneira que a palavra catástrofe já assoma aos lábios de muita gente. Esta não deve ser suportada apenas e só pelo Estado: o saco que leva porrada diariamente em virtude dos ensejos libertários dos cidadãos, mas que depressa é convocado quando a coisa está a correr mal. Creio que numa situação como a actual, quem tem mais deve contribuir com mais.

É tempo de repor justiça social.

Trump: a pior pandemia mundial

Embedded videoComo tantos outros, foi com um misto de perplexidade e nojo que assisti às declarações de Donald Trump sobre o bloqueio a implementar aos cidadãos europeus que se queiram deslocar aos Estados Unidos. A perplexidade advém do facto de a proibição não abranger o Reino Unido, isto já depois de uma das visões mais pessimistas ter sido veiculada por um virologista britânico segundo o qual haveria a possibilidade de chegar aos 10 milhões de infectados. O nojo decorre de Trump ter de facto colocado o ónus da transmissão do vírus nos europeus. Não ocorreu ao presidente Trump e aos seus correlegionários que a Itália recebe anualmente mais de 14 milhões de turistas norte-americanos, fazendo dos estados unidos a quarta nacionalidade no total do fluxo turístico para aquele país, sendo as primeiras a Alemanha e a China. Portanto para Trump, nenhum cidadão americano poderia ter levado o vírus para os estados unidos, o que parece ser, com efeito, a hipótese mais provável.

Porém, Trump não alimenta estas ideias sozinho. Ele e os seus falcões – como Pence – nutrem um ódio à Europa só semelhante aos tempos do nazi-fascismo. É que embora este último tivesse a sua base na Europa, odiava tudo o que fosse propriamente europeu: a cultura, a arte, os traços civilizacionais, o modo de vida. Os judeus foram eleitos os bodes expiatórios deste ódio alimentado em surdina, que se foi tornando gradualmente mais audível. O que o nazi-fascismo odiava era a literatura judia, a pintura judia, a filosofia judia, que dizia ter contaminado a verdadeira essência europeia, o classicismo dos tempos imperiais da Grécia e de Roma.

É preciso notar que o conservadorismo norte-americano, actualmente desmobilizado intelectualmente, mas extremamente activo nas práticas dos seus líderes, assumia os estados unidos como a nova Atenas do mundo. Os neoconservadores (neocons) que pululavam nos meios de comunicação norte-americanos e que foram actualmente substituídos pela mediocridade da breit bart, a revista online que Trump segue com cega submissão, olhavam a Europa com especiosa desconfiança e viam-na como o único empecilho na sua realização de um império mundi entre impérios rivais.

O ódio à Europa não emerge assim e apenas com o domínio de Trump, mas ganha uma expressão particular. Contrariamente ao beacon of freedom do presidente Bush, o novo farol americano, nas mãos de Trump e Pence, tem uma admiração especial por regimes autocráticos, como o chinês ou o russo. É por isso que Trump, ainda não há muito tempo, proferiu aquilo que podia ser a condensação do seu pensamento relativamente à Europa: “The European Union is a group of countries that got together to screw the United States — it’s as simple as that” (Trump dixit).

Neste sentido, Trump está perfeitamente alinhado com Putin que vê a Europa como o principal inimigo, e não a China. Apenas a China, tudo indica, está mais inclinada a estender os seus laços com a Europa e a não elegê-la como o inimigo a abater.

Não admira que Trump, à boa maneira de um ditador sul-americano, tenha aproveitado a ocasião de uma tragédia mundial para reforçar o seu ódio estratégico à Europa. Mas veja-se que, tal como os nazis de antanho, que espezinhavam os judeus, mas iam açambarcando as suas posses, também Trump apressou-se a corrigir via Twitter que a suspensão se destinava apenas a pessoas – não a bens. Afinal de contas, na carga de um avião não pode vir um coronavírus e um total de 1.3 triliões de dólares em trocas comerciais com a União Europeia (valores de 2018)  não são de desprezar na balança comercial norte-americana.

E agora, para algo completamente diferente – o pânico!

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Há indesmentíveis parecenças entre italianos e portugueses. Não é apenas partilharmos da mesma base da dieta alimentar, como o azeite, os queijos, as azeitonas, etc., mas são traços de carácter, porventura transplantados pela nossa convivência secular.

Lá como cá, perante as primeiras ameaças do covid-19, era tudo uma grande chocarrice – os colegas faziam piadas com a (suposta) paranóia dos menos incautos; o machismo latino proferia enunciados de nunca descer à vileza de usar máscaras – o disparate! – os serviços públicos e privados assobiavam para o alto, dizendo reconfortados: isso só acontece nos outros lados. Na televisão então, um cortejo de opinantes personagens a mofarem do pânico e a provarem-nos que o covid-19… – o quê? O covid-19? Isso não passa de uma simples gripe! Naqueles programas onde três ou quatro caras larocas são pagas para que se pronunciem sobre tudo e mais um par de botas, dizia-se que a pior coisa do covid-19 era o pânico! Tudo o resto era ilusão.

Porém, lá como cá, quando acontece, quando a coisa zombada se torna realidade, cai o pânico mais absoluto e destribado. E começou.

Nos supermercados os bons dos portugueses que olhavam com desdém a mariquice dos chineses a usarem máscara, começaram a açambarcar comida. É ver contas de 200 e 300 euros a serem pagas por mães que já antecipam um qualquer inverno nuclear com os filhos no lar paterno e sem irem à escola. Certos produtos a deixarem apenas as etiquetas com os seus nomes identificativos nas prateleiras das lojas.

Aos poucos o fenómeno covid-19 vai ganhando contornos. A informação que circulava a conta-gotas, dado que cautelas e caldos de galinha são bons conselheiros, vai-se espraiando mostrando com que verdadeiras linhas se cose a epidemia. Ficamos a saber que sim, o covid-19 é bem mais mortal que a gripe sazonal; que há uma probabilidade de 80% da humanidade vir a ficar infectada nos próximos anos; que as vítimas, embora prevaleça o teste da juventude, são também ceifadas fora da coorte dos idosos; que o vírus dissemina-se a uma velocidade bem maior do que o do gripe normal, com a agravante dos seus sintomas só se anunciarem muito depois. Registe-se apenas a blague cometida por inúmeros comentadores de atribuírem uma mortalidade ao vírus sazonal da gripe de 1% quando na realidade ela cifra-se em 0,1%. Compare-se agora com a tx de mortalidade de 3% em alguns locais do mundo (em particular Itália) e temos uma tx de mortalidade real 30 vezes superior à da gripe sazonal!

Paulatinamente, a bonomia latina que assevera que isso só acontece aos outros é substituída pela preocupação canina pela própria família. Outro traço vincado dos italianos – o familismo que tão fortes e esturdias raízes plantou no seio de fenómenos como a máfia. Lá como cá, a solidariedade entre privado e público é mínima ou inexistente. Melhor ilustração não há do que a entrevista feita ao presidente das instituições de saúde privada que garantiu aos portugueses que poderiam contar com a solidariedade destas instituições dado que tem 5.000 camas disponíveis. A pagar claro! Ou seja, afiançou que podiam contar com ele e o seu rancho para garantirem 5.000 negócios mais! É de se tirar o chapéu a tanta abnegação.

E lá como cá, o Estado leva com o ónus. Porque o Estado é ladrão na maior parte dos dias…excepto quando é o único a providenciar recursos essenciais à vida. Associações patronais e de comerciantes exigem a intervenção do Estado sob pena do descalabro! Lá como cá, os privados compram ouro e dólares para garantirem os seus activos perante a diluição bolsista; o Estado que pague o pato que é para isso que ele lá está.

A única coisa que espero sinceramente é que cá não cheguemos ao patamar de crise que se vive actualmente por lá. Espero.

E se de repente alguém lhe oferecesse flores?

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(cena do filme Oblivion)

O artigo de Miguel Sousa Tavares oferece-nos uma utopia ao jeito da melhor ficção científica na qual o mundo da tecnologia dá lugar ao reencontro com a vida. Os exemplos são inúmeros: desde o antigo Last woman on earth até aos mais recentes Oblivion ou Elysium, o tema é recorrente. Para Sousa Tavares a disseminação do vírus covid-19 tem por efeito um recuo benéfico de todo o excesso que torna as nossas vidas insuportáveis. Diz ele: “não é possível continuar a assentar um futuro sustentável numa fórmula que se traduz em mais, mais e sempre mais, de tudo: mais população, mais queima de resíduos fósseis, mais emissões poluentes, mais contaminação dos oceanos, mais desflorestação, mais incêndios, mais aviões nos céus, mais turismo de massas, mais agricultura intensiva, mais cidades megalómanas. É difícil não concordar com este elenco. O problema é que aquilo que MST omite na sua lista é eventualmente aquilo que sustenta a impossibilidade de mudar de vida assim mudando o mundo.

Por uma razão que não é imediatamente perceptível, MST escusa-se a acrescentar à sua lista “mais produção, mais consumo, mais dinheiro”. Omissão estranha. Pois esta é a tríade que faz funcionar todas as outras – é ela que activa por igual, até ao paroxismo, os outros elementos mencionados. A razão pela qual estas três dimensões não integram a lista pode até estar ligada a um paradoxo implícito na cabeça de MST que lhe terá assomado ao espírito, se bem que de forma inconsciente: chama-se a impossibilidade (quando não proibição) de parar o crescimento económico. Terá talvez MST pensado por momentos que dizer isto equivaleria a ser vergastado ou por vegan ou pior por socialista radical. Basicamente, o seu enunciado poderia ser reformulado da seguinte maneira: “não é possível continuar a assentar um futuro sustentável numa fórmula que se traduz em mais, mais e sempre mais…economia! Nesta pequena palavra está lá tudo contido. Trata-se no fundo de resgatar o mundo aos ditames (não éticos!) da economia.

É preciso fazer dinheiro, para que as pessoas tenham emprego, para que possam fazer mais dinheiro, e assim sucessivamente. A China conseguiu em pouco espaço de tempo forçar esta tendência em todo o seu esplendor. Era justamente quando se discutia uma vida menos dependente do trabalho que surge a China a mostrar que só há trabalho na vida. No momento (por volta dos anos 80) em que se começavam a pensar os primeiros modelos de empregabilidade generalizada através da redução do tempo de trabalho, chega a China e impõe que se deve trabalhar 24 sobre 24 horas. E assim deixámos para trás as ilusões de uma utopia humanizadora e passámos a dedicarmo-nos ao trabalhinho – porque a nossa política é o trabalhinho! Não nos açoitem pelo turismo de massa. Num mundo em que a interrupção do trabalho é celebrada como um solstício de verão numa tribo primitiva, não deve haver grandes dificuldades em perceber a obsessão com as férias de sonho!

O que impede MST de completar o seu elenco é a dificuldade em estar dentro e fora em simultâneo. Algo que não o atormenta só a ele, mas que eu diria é extensível a todos nós. Gostamos demasiado das bendições do consumismo para que as rejeitemos por princípio.

Super terça feira 2020 ou o efeito paralaxe da esquerda.

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paralaxe é a diferença na posição aparente de um objeto visto por observadores em locais distintos (Wikipedia)

Não deixa de ser irónico que Bernie Sanders seja castigado pelo eleitorado negro norte-americano. Aqueles para quem ele preferencialmente se dirige com a sua política redistributiva e de justiça social, abandonam-o quando ele mais precisa. Quem surge em seu auxílio é, paradoxalmente, o eleitorado bem-educado e com posses – mesmo que de classe média – da Califórnia.

Há pelo menos duas razões para isto. Primeiro porque a mensagem do sonho americano ressoa ainda bem mais junto do eleitorado negro do que os apelos a uma sociedade socialista. Esta última é mais provável encontrar respaldo em Silicon Valley do que nas zonas rurais da Carolina do Sul. Segundo, e corolário da anterior, porque não é despicienda a influência que o evangelismo cristão tem na comunidade negra norte-americana. Ora os grandes inimigos desse mesmo evangelismo são o socialismo e a homossexualidade. Foi assim que Pete Buttigieg percebeu rapidamente que não teria hipóteses e que ficaria pelo caminho. Se a sua homossexualidade é vista com bonomia no interior das comunidades brancas do norte, deixa de encontrar compreensão, e muito menos aceitação, nas comunidades negras do sul.

Contra toda a lógica, são os mais despossuídos, os mais desvalidos, os mais prejudicados pelo neoliberalismo norte-americano que optam por uma solução bem mais conservadora: Joe Biden. Prova-se assim que Marx não percebeu inteiramente o desenrolar da história e mesmo com truques permanentes para explicar a não eclosão da revolução – uma vez são os agricultores que não estão suficientemente industrializados; outras é a pequena burguesia que trai sistematicamente as aspirações do proletariado – não se convenceu do mais simples – que não há nem relação directa nem necessária entre a posição social e o desejo de transformação.

É facto que Sanders não terá qualquer hipótese contra Trump. Assim que o primeiro for açoitado pelas suas inclinações socialistas, rapidamente transmutáveis em comunistas pela fox e friends, o eleitorado irá a correr para os braços de quem lhes promete soluções menos comprometedoras do status quo do self-made man. Pois é este que vigora ideologicamente nos good old USA. E é esta constelação ideológica, para o melhor e para o pior, que atrai como insectos para a luz os norte-americanos. O paradoxo está, como foi notado inúmeras vezes, que é justamente essa mesma constelação ideológica que gera miséria, exclusão e desigualdade.

Mas basta ver uma entrevista com Anthony Mackie, o novo capitão américa – negro –para perceber quais os vectores de uma tal construção. Mackie começa por dizer a honra que é um negro empunhar o escudo do capitão américa. Ora o capitão américa, mergulhemos um pouco na semiótica dos commics, é dos heróis mais reaccionários do panteão de super-heróis. Um negro a empunhar o escudo do capitão américa só se torna emancipatório dentro da lógica de ocupar o lugar estrutural do branco sem substituir nenhum dos mecanismos que gera a iniquidade que em primeiro lugar subordina um grupo ao outro. MacKie continua apresentando um outro filme onde é o protagonista – the banker. Aqui o carácter emancipatório proposto é a do negro que se torna bilionário com investimentos imobiliários… tal como o branco. Com a agravante que há um branco muito específico que tem que figurar elipticamente nesta narrativa: Donald Trump, o próprio. Posto que se este último é um bilionário do imobiliário, o seu simétrico na negritude teria que ser apresentado como um objecto emancipatório. Como podem os apelos de Sanders por uma mais justa distribuição do bolo económico, pela emancipação das pessoas enquanto seres humanos, pelo fim da ominosa diferença de rendimentos, ressoar neste caldo cultural?

Embora a guerra continue acesa, os traços gerais do desenrolar da nomeação democrata já foram definidos. Gradualmente, os democratas unem-se em torno de Biden. Buttigieg, Klobuchar, Blumberg, Beto O’Rourke, um por um, anunciam o respaldo à candidatura de Biden. O que é lógico. Porque, convenhamos, desde que Lipset escreveu “Porque não há socialismo na América?” os termos da equação não se modificaram. O fascínio pela equal opportunities do credo liberal suplanta, sem piedade, o pietismo da igualdade económica. Lipset apresentou outras razões, tais como a maior mobilidade social norte-americana quando comparada com outros países, nomeadamente europeus, ou o sistema dos dois partidos vigente desde a fundação da democracia americana. O primeiro é facilmente rebatível: não apenas os Estados Unidos apresentam um índice de Gini escandalosamente próximo do peruano ou jamaicano – ocupando um orgulhoso 40º lugar (o índice mede a desigualdade de rendimentos) – como a mobilidade ascendente norte-americana é actualmente uma miragem. A justificação do sistema de dois partidos parece, contudo, sugerir uma seta de causalidade invertida. E se foi justamente a intenção de não deixar entrar nenhuma ideia alternativa ao status quo na vida política norte-americana que cristalizou a dicotomia partidária? Desta forma não são os dois partidos que impedem novos valores e perspectivas; pelo contrário, é a função de impedir novos valores e perspectivas que forçou a solução bipartidária.

Seja como for, grande parte da vida cultural norte-americana, salvo alguns bastiões, preocupa-se em encobrir a disjunção entre estruturas aspiracionais dos indivíduos e grupos e as condições institucionais para as realizar. Variações sobre o self-made man e o sonho americano, não são mais do que sistemas simbólicos para urdir essa armadilha cultural. Mas nas condições actuais de auto-governo do indivíduo elas encontram o terreno propício onde medrar. A vertigem pelo sucesso, possui a sua inversão na culpabilização compulsiva pelo insucesso. E se virmos bem, não há forma de estruturar esta correspondência, na medida em que o sucesso não é o atributo de um sistema de normas fixas e reconhecíveis. Assim, um atrasado mental de um youtuber que não tem nada para dizer nem acrescenta nada de valioso às vidas alheias, pode tornar-se multimilionário apenas porque atrai a atenção de um público.

Regressemos a Anthony Mackie e à sua entrevista. Ela mistura a honra de estar no mesmo edifício onde Luther King foi morto com o sucesso económico de um negro. Ela mistura dois padrões avaliativos: justiça com sucesso económico. Na visão de Sanders uma tal combinação não é desejável. E por isso a sua mensagem ressoa tão debilmente junto do eleitorado negro que foi verdadeiramente quem o penalizou.

Começaríamos a perceber esta distribuição de expectativas se lêssemos nas palavras de Obama “Yes we can” não um repto à emancipação social colectiva, mas antes um apelo à ideia de que no eldorado americano qualquer um pode enriquecer. O efeito Sanders, embora significativo como tem mostrado ser, ou é ainda prematuro ou já é anacrónico.

Corona ou o “vírus da China”

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É assim que o Correio da Manhã se refere sistematicamente ao Covid-19 – o vírus da China. Para além da imbecilidade da designação – nunca ninguém chamou ao ébola, a doença da Nigéria ou à VIH, o vírus dos macacos, e por aí fora – o vírus covid-19 já dificilmente se pode classificar como o vírus da China, dado que se transformou numa pandemia, ou seja, num vírus mundial.

Apesar da alarvidade dos jornalistas do CM existe de facto informação contraditória e, quer se queira ou não aplacar o pânico, as coisas estão mal contadas. Começando pelo número de infectados na China. Devo dizer que não acredito em quase nada que seja veiculado pelo governo chinês, e como na China não existem fontes de informação alternativas para além das dominadas pelo governo chinês, não tenho qualquer confiança nos números até agora divulgados. É claro que na medida em que a China é o país cuja incidência viral é maior, os números que dela saírem influenciam, e de que maneira, as estimativas de velocidade de disseminação do vírus e, em corolário, a sua taxa de mortalidade. O facto de a taxa de mortalidade dos infectados variar em países fora do epicentro da doença, ou seja – a China -, sustenta esta ideia de que os dados chineses, há boa maneira das ditaduras, estão “martelados”. Na China, a nível nacional, a tx de mortalidade é de 3,8%, e na província de Wuhan é de 5,8%. Em Itália é de 3,3%, e no Irão ronda actualmente – porque os dados também não devem ser fidedignos –  3,2%.

Mas se observarmos bem, creio que a maioria dos países e dos seus organismos de controlo de saúde também não confiam muito nos dados divulgados pelo governo de Xi Jiping. Senão como conciliar a informação segundo a qual a progressão do vírus estaria controlada na China com a passagem a alerta elevado por parte da União Europeia ou o estado de sítio em que recentemente entrou a Coreia do Sul, ou, ainda mais impressionante, com o fecho de todas as escolas até meados de Março decretado pelo governo Italiano?

Até agora as autoridades têm feito uma espécie de contenção de danos ao informarem sempre com a cautela necessária para não lançarem o pânico. É assim na União Europeia, nos Estados Unidos ou no UK. Contudo, as medidas tomadas por alguns sectores da sociedade infirmam esta blandícia das autoridades. Desde fecho de estádios de futebol, suspensão de campeonatos, isolamento de regiões inteiras, proibições de ajuntamentos públicos, etc, parecem mais actos saídos de um filme-catástrofe do que contenções da disseminação de uma simples gripe. Há muita gente a espremer-se – no domingo 01/03, Paulo Portas, por exemplo – para explicar que o covid-19 não é nem mais grave nem mais mortal do que outras tantas doenças e epidemias. E alguns há que levam a coisa até ao eufemismo de compararem o novo vírus com uma “simples gripe”. Ora nunca ninguém isolou regiões inteiras ou suspendeu eventos desportivos por causa da “simples gripe”. Na realidade, o covid-19 não é uma simples gripe, e é bem mais mortal do que esta. Como mostra o guardian num acesso de lucidez,

if borne out by further testing, this could mean that current estimates of a roughly 1% fatality rate are accurate. This would make Covid-19 about 10 times more deadly than seasonal flu, which is estimated to kill between 290,000 and 650,000 people a year globally.

Sim, o covid é mais mortal e mais sério do que a gripe sazonal que chega todos os anos pela altura do Inverno. E é por isso que os sistemas de saúde dos países onde se forem registando casos serão alvos de cada vez maior pressão. Por enquanto, em Portugal, os casos registados (2) têm sido judiciosamente tratados e afastados do olhar conspícuo da comunicação social. Tal irá deixar de acontecer quando o vírus se reproduzir dentro das comunidades. E quando isso acontecer, o problema não será mais a incidência da mortalidade causada pelo vírus, mas a incapacidade dos sistemas de saúde responderem à emergência. Aqui a China leva a vantagem. Não são todos os países que possuem a capacidade de construírem um hospital numa semana para fazer face às necessidades da multiplicação do vírus na província de Wuhan. Esta concentração de esforços contradiz a ideia de que a propagação está contida e que os números estão a diminuir como as autoridades chinesas querem fazer crer.

Mas o coronavírus tem a virtude de mostrar a dissolução de esferas de solidariedade no nosso mundo actual. Desde logo, o oportunismo demonstrado pela indústria farmacêutica, com a especulação assassina nos preços de desinfectantes e máscaras. A total falta de solidariedade revelada pelo sistema de saúde privado, ainda há uma semana tão pressurosos em negar a possibilidade de aplicação da morte assistida, e tão acanhados em oferecer medidas e equipamentos complementares que façam face à crise que se adivinha nos hospitais públicos. É para isto que serve um sistema privado de saúde? Quem são os responsáveis que se encontram diante destas instituições? Por que padrões éticos se regem? Porque não há pressões das chamadas “forças vivas da sociedade”, os tão activos, quando dá jeito, sindicatos de enfermeiros e de médicos, a exigirem que as responsabilidades sejam partilhadas?

Mas não é só dos grupos organizados que a solidariedade falha. Ataques racistas e comportamentos discriminatórios têm sido relatados em vários países – especial destaque para o reino unido do Brexit – contra cidadão chineses ou aparentando sê-lo (o recente ataque a um jovem de Singapura em Londres). Um pânico larvar que serve de cobertura a xenofobia anteriormente sedimentada. Teremos ocasião de ver multiplicar tais actos e atitudes com um novo surto de racismo anti-árabe e chinês.

O covid-19 ultrapassa assim, e muito, um problema de epidemiologia. As questões económicas já escalpelizadas por tantos não merecem mais detida análise. Mas a desregulação dos riscos e a forma de os manipular, sim. Observe-se a última jogada do sultão turco, Recep Erdogan, ao abrir as fronteiras para os refugiados que se encontravam concentrados na Turquia franquearem as portas da Europa. Não tenhamos dúvidas que o momento foi judiciosamente escolhido e que muitos decisores europeus devem ter colocado as mãos na cabeça perante a possibilidade não apenas de relançar a crise dos refugiados – que tinha entretanto sido aplacada mediante um lauto pagamento à Turquia -, como de ter uma população entre a qual a disseminação do covid-19 não tem qualquer controlo. Dir-me-ão: isso é estigmatizar uma população com base em especulações. Especulações essas que estão neste momento a ser congeminadas pelos principais líderes europeus. Por isso o timing da medida tomada por Erdogan é duplamente criminoso, e oportunista. Por um lado, Erdogan vê-se livre de um vespeiro humano sem qualquer controlo médico; por outro retalia contra a Europa por esta ter-se oposto à sua política de conquista dos territórios sírios.

Salientar que a Turquia é das poucas grandes economias que ainda não declararam qualquer caso de covid-19, e isto apesar de ter fronteiras com o Irão, o terceiro país no mundo em número de incidências e o segundo em número de fatalidades. Ou o sistema de rastreio é completamente ineficiente, ou a ditadura do sultão é altamente eficiente a abafar qualquer informação problemática – caso para o qual nos devemos inclinar.

Fica assim vindicada a ideia do saudoso Ulrich Beck e da sua sociedade de risco segundo a qual mais do que a realidade concreta dos riscos no mundo actual, mais do que a incapacidade de os regular perante a complexidade das relações globais, seria a percepção dos riscos e a sua manipulação que constituiria uma cultura de radicalização do risco. É a percepção cultural e a definição que constituem o risco – este e a sua definição pública são uma e a mesma coisa.

Como diria um Clausewitz do século XXI – o risco é a continuação da guerra por outras formas.