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Libertadores

Dezembro 12, 2018

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E o River levou a taça. Enzo Perez de boa memória no Glorioso!, ergueu o troféu no meio da euforia do Santiago Bernabéu.

Os hinchas acorreram a Madrid para assistir à final, e assim a capital espanhola vestiu-se por uns dias de cores argentinas. Houve quem notasse sérios sintomas de pós-colonialidade no acontecimento: afinal de contas os argentinos regressavam à potência colonial de outrora para acompanhar as suas duas principais equipas. O dérbi latino-americano da década jogado na velha Madrid que em tempos enviou os seus barcos para a entrada do Rio de La Plata para esmagar os insurrectos.

Não é surpreendente que os hinchas depositados em Madrid nas vésperas da final se regozijassem com a segurança que viviam esses dias. Em contraste com o clima de violência que rodeou a final em Buenos Aires, a capital espanhola pareceria um paraíso ao turista argentino. A insegurança de uns não reflecte a insegurança de todos. Os milhares que vivem em La Boca que não têm dinheiro para pagar uma casa condigna teriam apreciado poder deslocar-se ao estádio do River para assistir à “sua” final. Mas a capacidade monetária para pagar uma viagem à Europa não assiste a todos.  Para os pobres de La Boca a violência teria sido pagar essa viagem. É por isso natural que o público que se deslocou a Madrid e que se sentia seguro fosse sobretudo gente de posses. Os outros ficaram a espalhar o seu fervor clubístico pelos cafés e bares das diversas capitais das províncias argentinas.

Se é verdade que a copa libertadores chamou pela primeira vez na sua história a atenção de milhões por esse mundo fora, também não deixa de ser de registo que retiraram à América-Latina a sua festa máxima do futebol. É certo: os chineses ficaram embevecidos com os craques argentinos a jogarem num palco mundial. Mas os argentinos de carne e osso só se puderam encantar pela televisão.

Podem obstar: mas as finais dos campeonatos europeus podem ser em Berlim ou em Moscovo se for caso disso. É um facto. Mas ainda assim é na Europa. O que seria uma final da champions no Perú? Como reagiriam os europeus?

A mansidão com que a decisão do comité da uefa foi aceite diz mais do espírito argentino do que à partida se possa pensar. Afinal de contas os argentinos imaginam-se como os últimos europeus da América-Latina; a sobrevivência do adn europeu no meio da crioulização que abafou o remanescente de brancura ariana nos outros países do continente. Teria parecido então um regresso natural ao seio europeu, agora que estão ultrapassadas as convulsões revolucionários e o mundo global permite-nos pensar como cidadãos do mundo. Não houve por conseguinte uma grande comoção. Os argentinos aceitaram o molde onde os colocaram: violentos e incivilizados; incapazes de organizar pacificamente uma ocasião desta natureza. E viram como seu destino indiscutível a civilizada europa. Foi como um reencontro com a sua fiel e especular imagem de Paris da América-Latina. Será na verdade que os mecanismos da pós-colonialidade funcionaram de formas subreptícias e fantasmáticas?

Se bem que a Europa foi provincializada em muitas das suas velhas dimensões, o futebol não é uma delas. No reino do futebol, a Europa continua a ser o centro do mundo. E ao reclamar para si a taça libertadores exerceu uma vez mais esse direito como querendo reescrever a história no único legado em que ainda pode efectivamente pensar-se como central. Assim, em plena revolução de descentramento da Europa, outrora senhora do Weltgeizt (espírito do Mundo), segundo Hegel, vem ela reclamar uma centralidade perdida há muito. Esta personificação da Europa é algo que percorreu os caminhos da modernidade Iluminista em diversas frentes. Entre elas a da Europa civilizadora, senhora de aquém e além mar, domesticadora de pulsões primevas e tribais. Não poderemos ver neste assomo paternalista da parte da uefa o recriar dessa função? Não vieram os indomesticados argentinos levar um banho de civilização à cidade do Escorial assim como em tempos os indígenas eram trazidos à presença dos reis?

É certo que a relação de subordinação actual sofre de muitos e variados matizes. Os milhões que os jogadores e clubes ganharam com a transplantação do jogo mais aguardado de sempre na Argentina temperam qualquer visão radical de subalternidade. E no entanto algo da missão civilizadora de tempos coloniais se inscreve nesta transplantação geográfica. Porque se a razão foi a impossibilidade de controlar a violência que lhe estava associada em Buenos Aires, porque não realizá-la no Chile? Ou no Perú? Nada havia de irredutível na violência latino-americana assim como nos foi representada. Basta lembrar que o ano passado a segunda-mão da copa foi realizada em Lanús, província de Buenos Aires e não houve qualquer ocorrência que a ameaçasse.

A hiperbolização dos acontecimentos perto do estádio do River leva a crer que a solução encontrada já havia sido pensada. O lastro de magia que os grandes jogadores argentinos deixam pelos estádios europeus poderia ser replicado, com benefícios, caso se providenciasse um palco mundial para as duas maiores equipas da Argentina. Porém, o futebol argentino está longe de ser o que era. E a razão para que assim suceda é a mesma estrutura pós-colonial que ditou que a final da copa libertadores fosse trazida para a Europa. A rapina a que os clubes argentinos são sujeitos anualmente pelos grandes –  e ricos – clubes europeus nunca teve uma expressão como a que assume actualmente. Se as grandes promessas são como teletransportadas na idade de 13, 14 anos para os pastos verdejantes da globalização futebolística, como poderia ser de outra forma? Daí vermos Tevez ou Enzo Perez a capitanearem equipas quando já deram tudo o que havia para dar nos maiores clubes europeus. Todos os jogadores que se encontravam este domingo no Santiago Bernabéu, se ainda não saíram da Argentina, já não vão sair. Quando muito transitarão para grandes clubes brasileiros ou chilenos. Para eles o sonho de ingressarem no carnaval rutilante dos salários na ordem dos milhões não se irá mais concretizar. Por isso aceitaram jogar a partida da sua vida no centro do futebol europeu. Para eles foi a oportunidade que ou nunca tiveram ou, como Tevez e Enzo, não mais vão ter.

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Poder e massa (século xxi) parte 2

Novembro 22, 2018

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Homem na encruzilhada… de Diego Rivera

Os republicanos, nos Estados Unidos, começaram a perder terreno não em virtude dos atropelos aos direitos por estes gradualmente perpetrado; tão-pouco pela desregulação selvagem da economia; ou sequer pela inversão total das políticas redistributivas. Estas são questões que quadram na lógica social dos direitos sociais. Onde os republicanos começaram a perder terreno foi na esfera dos afectos. Esfera propriamente privada que suscita comoções populares quando invadida e exposta como pública. É aqui que devemos pausar e retornar à questão inicial do porquê do fascínio com a “autenticidade” dos reality shows. A princesa Diana não era política, e no entanto comandava mais vontades e concitava mais admiração do que qualquer figura política. Tão-pouco o fascínio que esta suscitava se devia à sua pertença na realeza. Se assim fosse não teria mantido os índices de popularidade que teve mesmo depois de sair do domínio da vida da monarquia britânica. Não era por conseguinte uma relação de legitimação que estava em causa. Tratava-se de um investimento afectivo, libidinal até se quisermos. O mesmo se passa com Trump e com Bolsonaro.

Acontece que a esquerda articula a sua mensagem na ordem dos direitos, ou seja, da legitimação contratual. Mas na sociedade dos likes as adesões são instantâneas e afectivas. É por isso errado ver a questão quer pelo lado da anomia – a desagregação da normatividade – quer pelo da classe – os excluídos que não se identificam com a democracia. Pessoas como Bolsonaro ou Trump cativam o eleitorado porque justamente não se dirigem a ele como eleitorado, mas sim como audiência. O voto passa então a ser uma guerra de audiências e não o plebiscito de ideias e programas.

A lógica das audiências nada tem a ver com o que é “bom”. Não há uma axiologia na guerra de audiências. Nesta guerra ganha a espectacularidade. É por isso que o discurso da esquerda se mostra particularmente impreparado. Ele mantém-se (e ainda bem que assim é) axiológico. Porém, numa época pós-axiológica – que não deve ser confundida com uma pós-ideologia – o que importa não é estabelecer valores numa hierarquia, mas sim organizar a emotividade.

As fotografias de Bolsonaro com os dedos em formato de cano de uma pistola, bem podem ter irritado a esquerda intelectual, mas criaram uma identificação imediata com o público. Afinal de contas a maioria de nós tira selfies a fazer gestos estúpidos com as mãos. No facebook chovem likes se publicamos uma fotografia em pose. Ou seja, implicitamente identificamo-nos com aquele modelo de apresentação do “eu”. Viver como uma estrela, com ostentação, mostrando a distância que nos separa de todos os outros, é apreciado, admirado, desejado. Por isso as atitudes autocráticas de Trump não surgem aos olhos do público como obscenas porque elas seguem o padrão das “estrelas”. A esquerda faz mal em procurar em Trump um estadista. O público não quer um estadista: quer uma estrela.

Isto não é propriamente novidade. Reagan não era um estadista – era uma estrela. E até Palin, antes de cair em desgraça, surgiu sobretudo como uma estrela, visto que o falhanço enquanto estadista estava exposto para toda gente ver. Trump refina apenas o princípio subjacente a estas experiências. De tal forma que num famoso debate com Hilary Clinton que antecedeu as eleições de 2016 sugere que deveria ter ganho um emy e que só por que o sistema está “rigged” (viciado) não o obteve. Utilizou rigorosamente o mesmo tipo de raciocínio que fez quando popularizou a expressão “drain the swamp!” – o sistema político de Washington estava “rigged”.

Há, nos dias que correm, uma correspondência muito estreita entre a autocracia e o universo simbólico do star system. Putin, na Rússia, engendrou um culto de personalidade de pendor religioso. Altares com a sua efígie são montados em diversos locais de Moscovo, curiosamente os mesmos locais simbolicamente associados aos vultos do velho comunismo.  A sua vida privada, de forma controlada, é passeada pelas revistas e órgãos de comunicação afectos ao presidente (que são praticamente todos).

As afinidades entre Trump e Putin não ficam pelos tiques autocráticos – extravasam para a capacidade de transferir o modelo do homem de negócios à gestão política. E este tem, actualmente, uma particularidade: o sucesso.

O sucesso não é uma característica política. O sucesso não funciona por legitimação; não é um aspecto contractual. Recordam-se como Habermas associava a legitimidade à verdade? O sucesso é uma máquina autoexplicativa. Não necessita da verdade para nada. É por isso que o relapso raciocínio da esquerda está errado. O que diz a esquerda?

Atribui uma espécie de falsa consciência aos votantes da extrema-direita. De Trump a Bolsonaro, a esquerda quis explicar o indizível através da noção de que as pessoas eram enganadas. Ou por fake news no watsap ou por bots: a tecnologia das notícias falsas serve para justificar o comportamento eleitoral que não encontra enquadramento na racionalidade política da esquerda. Quer seja pela influência das fake news quer pelo lugar de classe (Marx) a lógica é sempre a de atribuir a comportamentos aparentemente irracionais uma qualquer obnubilação ideológica.

Julgo que nada é mais falso do que a noção de falsa consciência aplicada aos tempos actuais. As pessoas possuem um acesso à informação como nunca antes existiu. Que esta é manipulada, disso não restam dúvidas. Mas mesmo na manipulação, os enquadramentos são tão diversos que permitem ter uma imagem geral e relativamente completa do crivo ideológico pelo qual passam os assuntos. Sendo certo que muita gente não se dará ao trabalho de fazer esse cotejo – porque é algo trabalhoso! – também é verdade que as adesões respondem a motivações individuais, por vezes momentâneas, e não a uma qualquer agenda inculcada da qual o alvo não possua capacidade de apreciação e julgamento. E onde nos deixa isto tudo?

Tenho para mim que nos encontramos no território das identificações e desidentificações. É neste jogo que actualmente se faz o que quer que seja que passe por política. Casos tão diversos como Bruno de Carvalho e Trump, ganharam e perderam pela oscilação entre identificação e desidentificação. A crise da Venezuela, com milhares de imigrantes a serem vertidos nas fronteiras do Brasil diariamente a aparecerem na televisão, fez mais pela eleição de Bolsonaro do que qualquer programa político que este pudesse apresentar. Trump cai porque as mulheres se desidentificaram com o seu estilo machista e truculento. Nada de essencial mudou nas orientações governativas de Trump de 2016 para 2018 – pelo contrário: estas foram seguidas diligentemente e com o beneplácito de uma economia a crescer como poucas vezes aconteceu. O que ditou as suas perdas (não se pode falar de derrota) foi a crescente desidentificação com a figura do presidente.

Identificação/desidentificação existem num campo ortogonal à legitimação. Weber associava esta última à validade, ou seja, à justificação do mando, na sua linguagem – da dominação. Porém, as opções actuais dos grandes líderes mundiais são injustificáveis, no preciso sentido em que ninguém lhes pede justificação, ninguém se interessa mais por aquilo que se convencionou chamar accountability. É certo, os parlamentos funcionam, há uma pluralidade de partidos, geralmente reduzida a uma dicotomia, e há a imprensa. O problema é que não se distinguem mais os assuntos legitimamente accountables daqueles que não o são, ou só muito tangencialmente o serão. Assim Trump não começa em perda por causa da sua política de impostos; antes pelos seus hábitos privados com porn stars e prostitutas. Lula não é julgado pelo bolsa família ou pelas quotas no ensino público para alunos carenciados – mas sim pelos supostos subornos do apartamento do Guarujá. Chega a ser patético que uma população inteira se levante em armas contra um presidente pelo caso do apartamento num país em que os golpes, a plutocracia, o peculato, fazem parte do quotidiano. E no entanto a população saiu para a rua em polvorosa a exigir a prisão do presidente. Quem todos os dias convive com uma ostentação pornográfica em certas partes das cidades brasileiras convivendo paredes-meias com a miséria mais atroz ficaria seguramente impávido perante a minudência do apartamento de Lula. São estas contradições que já não são da política (cont.)

Poder e massas (século xxi) parte 1

Novembro 21, 2018

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A famosa frase de Toqueville (frase a rescender a púlpito e beatice, claro está) reza assim “America is great because she is good, and if America ever ceases to be good, she will cease to be great”. A América é tudo menos boa, e nunca o foi na largueza do seu tempo histórico. Glosando a personificação aplicada diligentemente por Toqueville à sua amada América, ela não tem sido senão vingativa, violenta, prepotente, intolerante e injusta – e isto desde os tempos em que a colónia passou a país. Um retrato do seu actual presidente, portanto. Ou não fosse isso que os americanos tanto amam em Donald Trump – uma fiel imagem das próprias características da pátria.

Ainda não tivemos oportunidade de perceber quem são as pessoas que se mobilizam para votar em ditadores, prepotentes, imbecis e fascistas. No Brasil, como nos Estados Unidos, há um movimento que confere esperança ao conservadorismo fascista que se avizinha. Como diria Órban, um governo do povo, para o povo, pelo povo… esquecendo sempre de mencionar as elites oligárquicas e plutocratas que o sustentam.

A onda azul não se verificou; ou ficou muito aquém das expectativas. Há uma América do interior que se revê em absoluto na figura e método de Trump. Que o reforçou no Senado e em número de governadores eleitos. Tal como no Brasil, e em contextos que se vão multiplicando por esse mundo fora, enfrentamos um eleitorado que não está nada interessado nos pilares da democracia. Essa distanciação da ideia democrática deve-se em larga medida ao facto de não sermos mais cidadãos, mas sermos sobretudo consumidores. Esqueçam por conseguinte a litania da falta de reflexo dos problemas reais nos discursos dos políticos; da desindustrialização que leva as pessoas a procurarem soluções radicais; dos esquecidos pelo poder de Washington, etc. Não são esses que votam Trump; e não foi com certeza quem votou Bolsonaro.

Podíamos inclusivamente cair no erro de pensar que a democracia foi sequestrada pelo grande capital, como é o discurso de alguma esquerda revoltada. Sendo um tal diagnóstico correcto ou incorrecto, o facto é que não tem qualquer peso na opção dos eleitores. Para estes, as soluções democráticas não são necessariamente as melhores.

A democracia tornou-se um termo vazio. Não por causa do capital, tão-pouco dos mercados – tornou-se vazio pelo mau uso que os principais visados da sua estrutura de oportunidades – o povo de Órban! – dela fazem.

Seria necessário perceber os mapas cognitivos que estão em acção actualmente. Gente como Zizek ou Jameson afirmam que não existe mais mapa cognitivo. Existe. O que não existe é mapa cognitivo no sentido emancipatório desejado pelos dois autores. Mas isso é mero wishfull thinking.

Os mapas cognitivos actuais devem ser lidos através dos parâmetros de apreciação dos reality shows. Devemos perguntarmo-nos por que razão a vida das celebridades interessa tanto a cada vez mais pessoas? Por que razão a situação comportamental “autêntica” nos fascina cada vez mais?

Porque nos comportamos como consumidores e não como cidadãos, os nossos padrões avaliativos, os critérios pelos quais se pautam as escolhas, nada têm a ver com a percepção liberal da participação do indivíduo na comunidade social. Aliás, estão tão afastados dessa condição – situação própria da cidadania – que é difícil falar de um cidadão para além do laço formal que liga alguém a um todo nacional. O espaço da cidadania é o espaço da legitimidade, da soberania, ou seja, o espaço da contratualidade e dos direitos. Os indivíduos actuais não se revêem mais neste espaço. Por isso é fútil o desejo expresso por Boaventura Sousa Santos de inventar uma nova contratualidade. O espaço actual não é político no sentido pristino do termo. Ou melhor, é directamente político no seu sentido mais primitivo. Linguagem dos afectos e das adesões bem menos do que dos direitos e das obrigações. Trump percebeu isso. Os discursos carregados de uma linguagem dos afectos contrastam com o rigor lógico dos discursos, por exemplo, de Obama. Bolsonaro seguiu a mesma cartilha – ou não fosse Steve Bannon o seu conselheiro. Como é que na sociedade dos Likes, de adesões tão imediatas quanto efémeras, poderia ser de outra maneira?

Bolsonaro

Outubro 26, 2018

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Nos últimos tempos tenho falado com brasileiros, em Portugal e no estrangeiro. Brasileiros da classe trabalhadora ou empreendedora; não os brasileiros académicos ou de altas habilitações. A paixão por Bolsonaro é evidente.

Há dois aspectos que sobressaem nesta paixão. Primeiro, o fascínio pela ordem. Bolsonaro é interpretado como a promessa da ordem, da segurança, do pôr cobro ao desmando normativo em que, putativamente, se encontra o Brasil. Segundo, e corolário do anterior, a militarização. Cresceu recentemente no Brasil a noção de que a militarização da sociedade – da tropa ao cidadão comum – é a salvação para as demais esferas sociais: do trabalho à família, da educação à religião. Parece estranho, mas atente-se no facto de no programa do Hulk, show com uma audiência colossal, quem chegou à final do concurso de soletração animado pelo apresentador ser proveniente de colégios militares. Ora esta façanha foi interpretada por largos sectores da sociedade brasileira como a virtude evidente da educação militar. Com o seu quê de massagem ideológica para as consciências, o resultado do concurso prova afinal aquilo que tantos brasileiros e tantas brasileiras acreditavam: a virtude da militarização da socialização. Os temas da pobreza, da exclusão, da desigualdade escandalosa empalidecem perante a força bruta da ordem prometida pela disciplina militar.

Perguntava-se alguém se o Brasil poderia ter 44 milhões de fascistas. Sim, pode. Assim como a Europa teve muitos milhões no período do entre-guerras. É certo que nem a Alemanha nazi teria uma tal concentração. Mas reunidas as potências do eixo, estaríamos seguramente muito perto de um número assim.

Que as pessoas deixaram de acreditar na democracia tornou-se óbvio. Que esse descrédito se explica em grande medida pela sistemática destruição ideológica do Estado, é uma hipótese viável. Sem Estado não há democracia. Contudo, se acreditarmos que o Estado é intrinsecamente corrupto, ineficiente e subjugador das liberdades individuais, então a democracia deixa de ter casa.

Vários comentadores acabaram por enjeitar as comparações entre Bolsonaro e Trump. Fazem mal. Bolsonaro é um Trump à escala brasileira. Como o seu congénere norte-americano, é um mentiroso. E faz da mentira e da demagogia as suas armas principais. Tal como Trump, inicialmente incensado por muitos como a voz dos desprotegidos, também Bolsonaro fala pela voz do povo – mas o que diz é o contrário do que faz, e do que sempre fez. Outra característica que é mimetizada de Trump é a tendência para se vitimizar bem assim como ao campo ideológico dos seus apoiantes. O mais emblemático exemplo desta postura encontra-se num quadro com a bd Charlie Brown onde a cada uma das afirmações o interlocutor responde com uma acusação dos ditos movimentos sociais. Assim, “eu sou gay, eu sou heterossexual – então és homofóbico”, funciona como a caricatura daquilo que dizem ser a intolerância de esquerda. Muita gente afina por este diapasão; não é preciso ir muito longe, e os exemplos podem ser respigados na profunda desonestidade intelectual dos cronistas do Observador. Este mecanismo é usado vezes sem conta pela direita conservadora, escondendo os seus tiques de intolerância sob um manto de vitimização. Uma vez mais os quadrinhos da campanha do Bolsonaro: “eu sou de esquerda, eu sou de direita – então és fascista”. O significado último desta suposta montra de intolerância é o de a esquerda funcionar por rotulações, enquanto a direita, supostamente, possui o espírito fenomenologicamente sofisticado da especificidade das coisas. É óbvio que esta interpretação cai pela base quando o candidato Bolsonaro rotula qualquer política social de “socialista” e qualquer contraste com as suas opiniões (cavernículas) de “politicamente correcto”.

Esta direita, extrema, ou simplesmente ultraconservadora, possui um guião. Podemos inclusivamente auscultar na sua crispação contra o designado “politicamente correcto” alguns dos tiques e mecanismos do antissemitismo. Em certa medida, o politicamente correcto é o judeu actual. Numa época em que a nação é, mesmo para os arautos de um certo nacionalismo que nem eles próprios acreditam, um campo de diluição, demasiado fluído para que compreenda agitações étnicas ideologicamente construídas ou baseadas numa suposta pureza de pertença grupal. Isso, no mundo globalizado, é difícil de definir; mesmo que as alusões à pátria se façam altissonantes. Ninguém mais sabe muito bem o que ela seja. Mas o politicamente correcto tem os elementos que constituem as grandes ameaças na figura do judeu. E é por isso também que há uma figura do politicamente correcto. São eles: a sua afinidade esquerdista, a sua transversalidade nacional, a sua exigência de justiça. Os lugares ocupados pelo judeu na cúspide do antissemitismo do início do século passado.

O elemento fundamental desta lógica é o corruptor. Lembremos que também o judeu corrompia: a pureza da raça, as tradições nacionais, a religião oficial. Seja como for o pânico da corrupção pressupõe sempre que há um lado impoluto. Um dos maiores méritos da extrema-direita actual, de Trump a Bolsonaro, foi ter convencido as pessoas que apenas há uma esfera de corrupção. Assim quer o pântano de Washington como os baderneiros do PT são filtrados pela mesma lógica. Alguém (Walters) designou recentemente esse mecanismo como de antipolítica. Uma política que se faz contra alguma coisa. No caso da anticorrupção a entorse ideológica é de tal forma eficaz que indica espaços de que são efectivamente de corrupção e outros que passam por ser comportamentos normais. Assim, pagar para serem lançadas milhões de mensagens falsas pelo watsapp, um acto eminentemente corruptor do jogo democrático, não é arrolado ao anátema lançado por esta onda de purificação dos apoiantes de Bolsonaro. Trump usar esquemas fraudulentos para lesar o Estado e acumular fortuna não passa pelo crivo purificador dos amantes da anticorrupção. São exemplos de comportamentos banais e banalizados pelos novos evangélicos anticorrupção. O PSD em Portugal, caso tivesse ganhado as eleições, teria explorado o caso Sócrates até à medula. Não há nada de racional nesta ambiguidade: que uns recebam o opróbrio de corrupção e outros nem sequer figurem na galeria de actos perversos. Mas também não existia nada de racional no antissemitismo e na ideia segundo a qual um grupo de pessoas que professava uma religião específica inquinava toda a história de uma nação.

E sim é verdade: existem mesmo 44 milhões de fascistas no Brasil.

Contra a literatura-bloom

Outubro 19, 2018

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(pintura de Strindberg)

Três obras literárias que exploram os meandros da depressão. Melhor dito, mergulham na literalidade da depressão, descrevem-na, exibem-na na sua experiência quotidiana, sentem-na literariamente. Hoje em dia não há exemplos semelhantes. Não há sangue. Na literatura-bloom (Gonçalo M. Tavares), ou seja, a literatura exangue, não há vida. Assim não há sofrimento: apenas trocadilhos inteligentes, referências intertextuais, brincadeiras lógicas. A literatura-bloom está adaptada aos académicos; aos pós-modernos cínicos e descomprometidos. E o mundo actual está cheio de literatura-bloom.

Por isso os mergulhos na depressão a que farei referência são tão impressionantes. O primeiro mergulho é O Inferno de Strindberg. Uma sequência de experiências paranóicas e de visões da insuportabilidade do mundo. Visões, angústias, uma impossibilidade do si mesmo – demonstrações óbvias da constrição depressiva.

O segundo mergulho é Os Cadernos de Malte Laurids Brigge de Rilke. Morte, insanidade, paranóia, entretecidos em finos liames de observação naturalista e prosa poética. Proust, a quem Rilke venerava, não chegou exactamente a cortejar da mesma forma a queda … Se bem que o último volume da Recherche exibe todos os tiques da inadaptação sexual e dificuldade de aceitação do mundo. Rilke ou Brigge lidam com a morte como uma presença obsessiva, e dela tecem um encadeado de imagens saturadas de beleza poética e de minúcia maníaca.

Finalmente, Pessoa e o Livro do desassossego. A página 109 (da edição que eu tenho) explica tudo. Dificilmente se obteria uma melhor descrição da depressão. A indefinição do eu; o questionar sistemático do lugar e do espaço desse mesmo eu; a indiferença magoada perante as coisas e o tempo.

Reflexões sobre a identidade individual? Certamente. Mas julgo que estaríamos errados se reduzíssemos qualquer destas obras a tergiversações sobre a identidade , próprias do complexo moderno de experimentalismo com o eu. Mergulhos na consciência, como Proust e a minudência descritiva dos objectos e dos acontecimentos.

O homem sem qualidades é um mergulho na consciência, ou no vazio dessa mesma consciência, obrigando Ulrich a deambular na sua busca indolente por uma identidade. E se bem que em qualquer dos três – Stringberg, Rilke, Pessoa – o stream of conscience dos modernos guie a sua pena, não podemos reduzir estas aflorações do abismo a idiossincrasias deslocadas.

A morte, a companheira fiel de cada um deles, essa presença-ausência que lhes dobra as palavras e as força a caminhar na sua sombra, é um signo distintivo. E o que distingue está para além da idiossincrasia quando considerada como absoluto. É certo que qualquer destas obras é idiossincrática; tanto quanto podemos falar de uma singularidade inimitável de cada um dos seus autores. Mas a companhia da depressão, ou mais propriamente o eflúvio negativo que infla as suas frases instala-se para além da idiossincrasia. São depressivos na exacta medida em que vivem uma relação que oscila entre a contemplação narcísica e a insuportabilidade do seu ser. Este conflito interno é vivido não de forma mística (e aí eu estaria em desacordo com a tese do misticismo rilkeano) mas sim doentia. O misticismo instalar-se-ia na doença. Seria aliás a única forma eficaz de lidar com ela. O swendborgerismo para Stringberg, o misticismo clássico para Rilke, o misticismo nacionalista para Pessoa. Sim, é tudo verdade. Todavia, dir-se-ia que foi a modalidade de tradução que encontraram para transmitir a sua angústia existencial. Existencialistas então? Nem todos os existencialistas são uns depressivos. Sartre não era certamente; Camus tão-pouco. E Faulkner o pai dos existencialistas novelescos não apresenta traços de depressão.

A famosa frase de Pessoa, Uma constipação da alma, é mais explícita do que milhares de páginas escritas por psicólogos. Aliás, no excerto onde essa frase se encontra, reside uma das mais perfeitas descrições do estado depressivo: Há sensações que são sonos, que ocupam como uma névoa toda a extensão do espírito, que não deixam pensar, que não deixam agir, que não deixam claramente ser (…) Não é tédio o que se sente. Não é mágoa o que se sente. É uma vontade de dormir com outra personalidade (…). E por aí afora. Conheço poucas descrições que vistam tão bem como esta o sentimento da depressão. Em Rilke, na sua única obra em prosa, é o medo que assola os passos do poeta, as suas observações, o seu spleen, tão baudelaireano, mas tão desencantado ao contrário do seu percursor – tropeça em medos vários, como a morte que ele diligentemente segue nos passos de um velho doente que persegue pelas ruas de paris. Strindberg vive numa obsessão permanente. Visões, ruídos, paredes que o esmagam – um sem fim de aflições que estão bem para além da simplicidade profiláctica da constipação da alma. Mas que tornam o seu quotidiano insuportável, pesado, transfigurado ao limite da impossibilidade.

Qualquer destes escritores (génios!) ultrapassou à sua maneira estes estados de angústia-pânico-medo-desindentificação. Dir-se-ia que o seu melhor trabalho viria posteriormente. As suas crises foram por conseguinte aplacadas por obras de uma inventividade extraordinária. Rilke, estaria ainda para escrever as Elegias e os Sonetos; Strindberg, escreveria mais tarde O Sonho ou Miss Julie. Pessoa espraiou a sua criatividade por miríades de vozes, e assim o continuou a fazer, não tendo verdadeiramente um período limite – até porque a única obra publicada em vida foi Mensagem, o resto foram colaborações em revistas e outras publicações.

É um facto que a sua vida real se afastou a mais das vezes dos protótipos sonambulísticos que descreveram nestas obras. Da mesma forma que os anónimos depressivos actuais levam, na sua grande maioria, a sua vida adiante. Nas obras mencionadas, a depressão é exposta, desentranhada através da escrita. Ainda não havia nome para estes estados de alma. Mas o que mostram é que não se compadeciam com a literatura-bloom.

Esta não é uma mensagem de optimismo sobre a depressão, patrocionada pelo espírito de auto-ajuda e pelo manual motivacional para idiotas. É uma cogitação anti-literatura-bloom. O buraco entediante em que o génio literário actual nos enfiou. A brincadeira desafecta que hoje em dia concorre para o Nobel.  A menos-vida que se sentam actualmente a escrever. Os três grandes depressivos literários davam-nos a vida. Mesmo que ela fosse negra e opressiva.

A máquina de fazer bebés

Outubro 3, 2018

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A abertura da máquina hamlet de Heiner Muller: Aqui vem o fantasma que me gerou, com o machado ainda no crânio. Quem gerou o fantasma mee#too? Reflictamos: os conservadores norte-americanos. Vêem-se agora a braços com uma vingança infinita. O desespero do congressista republicano na audiência a Ford: – Vós, democratas, não terão pedras onde se acoitarem, nem buracos para fugirem: serão vítimas da vossa própria perfídia! Curiosamente, os inventores da perfídia foram os conservadores republicanos, ou não? Corria o ano de 1998 quando Clinton confirmou o seu caso extramatrimonial com Lewinsky. Outras mulheres, anteriormente, já tinham vindo a terreiro com acusações de violação e de abuso sexual. Mas foi Lewinsky que fez cair o presidente. Não foi a primeira vez que se ouviu falar de escandâlos sexuais envolvendo altas figuras políticas. Porém, a perseguição movida a Clinton foi de tal maneira encarniçada que fez desabar as fundações do partido democrático, com consequências que ainda hoje são exploradas pelos republicanos na sua guerra de propaganda. Por isso o espanto do congressista republicano contra a pretensa orquestração das mulheres que acusam Brett Kavanaugh é um caso claro de “com ferros matas com ferros morres”.

O jogo, contudo, está desgovernado. A máquina que traz à tona os fantasmas de abusos sexuais e violações (reais ou não) é autopropulsionada. Ganhou vida própria. E nesse sentido, tornou-se incontrolável. Qualquer coisa serve: desde as bebedeiras de Kavanaugh, até aos impropérios dos seus amigos, chegando ao cúmulo de surgirem acusações de abusos pelas frases escritas por adolescentes no livro de curso! Deixou de haver fronteiras discerníveis entre o que é uma conduta apropriada e o que pode ser atentatório da liberdade de outrem.

Reparem que não me interessa minimamente o futuro de Kavanaugh, de todo o modo um juiz ultraconservador colocado estrategicamente pelos republicanos no supremo para assegurarem a sua hegemonia até ao dia do juízo final. Mas assim como soam a falso as declarações do juiz, mascaradas que estão num misto de hipocrisia e de atabalhoamento, a máquina de acusação por abuso deixou de possuir baias entre o que é aceitável e o que é histeria colectiva.

Por exemplo, o mais recente caso envolvendo Ronaldo e a norte-americana Magoya tinge-se das cores do ridículo e capcioso. Uma vez mais os relatos são caricaturais. As mulheres acedem a tudo, ou a quase tudo, e depois quando tudo acontece dizem-se violadas. Como não há peritagem que resista aos anos que entretanto passaram, a culpa pode viajar a velocidades estonteantes que não há forma de a confirmar ou infirmar. O certo é que na maioria dos casos estas mulheres aceitam dinheiro para se calarem, para não denunciarem, ou seja, para não acusarem. O que diz muito da qualidade moral de cada uma delas. Parece então que quando necessitam de mais dinheiro, recuperam a potencial acusação do baú das memórias (forjadas?) e contra-atacam no sentido mais mercenário do termo. Magoya remeteu-se ao silêncio durante anos, supostamente enquanto o dinheiro lhe durou ou não lhe fazia falta. Regressa agora com a acusação a Ronaldo porque, aventamos, precisa de dinheiro, de mais dinheiro. Encontrou dois jornalistas oportunistas no Der Spiegel que por seu turno viram em Magoya a hipótese de se catapultarem para o estrelato internacional. Uma conjugação de factores, portanto, que reforça sistematicamente o mecanismo da culpa sem presunção de inocência, e que desliza sobre pressupostos tanto mistificadores como alarmistas.

O movimento metoo# deu força e cobertura a estas aparições. Qualquer destas mulheres – Magoya no caso de Ronaldo; Ford, no caso de Kavanaugh – exibem a sua aura de pureza fabricada nos seus testemunhos e queixumes. Porém, é difícil emprestar-lhes muito crédito. Os seus depoimentos estão cheios de contradições; e ninguém acredita na sua santidade quando temos sistematicamente mulheres que se envolvem em festas e outros rituais e depois, só depois, se arrependem. Não se trata de reeditar o velho tema da violação por culpa da mulher, variadamente declinado em “estava mesmo a pedi-las” ou outras formulações. Contudo, não podemos deixar de lado uma certa sensação de desconforto quando invariavelmente estas mulheres aderem activamente a certos comportamentos. Magoya aceitou um convite para uma festa num quarto de hotel com Ronaldo e mais pessoas. Isto soa a orgia. Qualquer pessoa, por mais inocente que seja, sabe ler estes sinais. Quer dizer que por aceitar ir a um quarto de hotel está a pedir para ser violada? De todo – mas significa que as condutas que aí se desenrolarem possuem fronteiras muito pouco claras e facilmente manipuláveis.

A histeria é de tal ordem que até Lewinsky da qual se concluiu sempre ter tido sexo consensual com Clinton, veio agora desdizer-se argumentando que pelo diferencial de poder não saberia bem dizer se teria de facto sido consensual. Esta é a justificação mais elástica que pode existir. Curiosamente (e terrificamente) é a simétrica daquela que é utilizada nos países onde é impossível provar uma violação, como a generalidade dos países árabes. Os seus sistemas jurídicos são blindados pelas suas formulações excessivamente patriarcais contra acusações de violação. Se aqui se torna improvável que algum acto seja considerado uma violação (desde logo porque o ónus da prova recai por inteiro sobre a vítima) no mundo do metoo# torna-se improvável que algo não seja uma violação (ou abuso sexual). Qualquer contacto físico que envolva seres em posições de poder diferenciadas pode ser facilmente arrolado ao abuso sexual – sejam dadas as condições suficientes. E se não for no imediato, pode sempre ser recuperado posteriormente e interpretado através da lente da anti-falocracia que estabelece que o poder submete as suas vítimas para além de qualquer escolha, e que este é irremediavelmente masculino.

Da “ditadura intelectual da esquerda” ou da estupidez operacional

Setembro 25, 2018

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In recent years, there has been some tension among the political groups on campus. One group, Texas Aggie Conservatives, petitioned to ban radical leftist speakers from the campus. In another incident, the same group sued the university when their request for club funding was denied (though funding was eventually offered).

Curioso é ver uma direita que embora comprometida com Trump e o seu programa se envergonha de o fazer declaradamente por causa de… Trump. O apoio envergonhado que a direita prodigaliza ao “baby in chief”, como o apodou De Niro, é assumido por detrás de um véu de pretensa crítica que evita a identificação com a boçalidade do presidente eleito pelos norte-americanos.

Um tal apoio contrasta com a virulência dos ataques à universidade e a uma tão ridícula quanto efabulada “ditadura intelectual da esquerda” (Henrique Raposo dixit). Reparem que esta obsessão faz parte do programa trumpista – do seu ataque às elites intelectuais e em geral a tudo o que tenha a ver com pensamento. Mas se é verdade que há manifestos exageros no programa de limpeza das consciências nas universidades norte-americanas, também é facto que este não pode ser generalizado. Por exemplo, as duas grandes universidades norte-americanas – Harvard e Princeton (e claro está Texas A&M!) – estão bem longe de serem conotadas com a esquerda intelectual. Sobretudo a primeira, onde nas diversas áreas das humanidades e ciência política se pode até dizer que o que impera é um conservadorismo subtil.

É claro que esta luta não é nova. Desde que os irmãos Bloom (Alan e Harold – irmãos em conservadorismo e não pelo sangue) iniciaram a sua gesta contra a ditadura do politicamente correcto nas humanidades que esta histeria fez o seu caminho. E embora esteja fora de cogitação colocar em dúvida a genialidade literária de Shakespeare, também dificilmente se pode suportar Harold Bloom e a sua monomania de reconduzir tudo o que foi produção literária ao agon com o bardo britânico. Justificadamente se insurgiram as vozes apoiantes de outras literaturas quando Bloom, por exemplo, criticava a adopção de um contista mexicano “sem grande jeito” nos programas de literatura de algumas universidades. Esse contista era Juan Julfo. Donde se conclui que o disparate não se encontra acantonado nos heresiarcas de esquerda, mas que abunda em velhas carcaças conservadoras.

Mas esta luta é ainda mais descerebrada quando se assiste à forma como corredores e departamentos são abertos (para não dizer cus) aos mais ortodoxos da economia neoliberal. Aqui a crítica ao esquerdismo das universidades torna-se uma verdadeira caricatura (afinal o que ela é também em relação a outras áreas). Sabendo-se do espaço diminuto que os designados economistas heterodoxos possuem nas universidades americanas – e nos seus rankings internos – perguntamo-nos onde anda a tão famigerada ditadura da esquerda? Apenas na cabeça tresloucada, histérica, de raposos e quejandos.

E é talvez aqui que devemos concentrar os nossos poderes analíticos. O alvo a abater por esta frente ultraconservadora são as chamadas humanidades, ou as soft sciences, ou ainda, à maneira dos idealistas alemães, as geistwissenshaft, as ciências do espírito. É assim porque é nestas que os contornos culturais, ideológicos, são mais vincados, mais, diríamos, perceptíveis. Desde logo porque o seu sistema simbólico é o mais acessível: história, sociologia, psicologia, antropologia, filosofia, linguística – são tudo áreas imediatamente legíveis. Diferente da física, cuja linguagem é apenas para iniciados. Ou as matemáticas, cuja notação possui um código inteligível apenas para versados nos seus arcanos (e não falo das matemáticas que vão até aos integrais). Porém, a economia encontra-se num lugar charneira. Falsamente objectiva quando despida da análise dos seus pressupostos ideológicos; empiricamente eficaz quando reduzida à sua tecnicidade. A economia é, sem sombra para dúvidas, a mais bem sucedida das ciências a manejar esta ambiguidade. Por isso granjeia um tal sucesso na academia. “A rainha das ciências sociais” como a designam os próprios economistas. Ora a rainha só não vai nua porque os seus pressupostos são aceites como inscritos na natureza das coisas. Apesar de vários terem sido aqueles que dedicaram as suas vidas a denunciarem os seus mecanismos retóricos historicamente mutáveis (por exemplo, McCloskey e depois McCloskey transformado).

Para vermos como é falsa a tese da ditadura da esquerda na academia norte-americana (mas qualquer outra serviria) basta apenas lembrar que as metodologias oficiais dos praticantes de economia são aquelas que os hard core positivistas e operacionalistas, tais como Milton Freedman e Gary Becker, ditaram há quase meio século. Perigosos esquerdistas os dois – não teríamos qualquer dificuldade em reconhecê-lo. Curiosamente, este discurso rançoso do politicamente correcto na academia nunca se debruça sobre a economia. Omissão estranha, na medida em que esta é a ciência que actualmente tem mais disseminação na esfera pública, mais falada, mais comentada, por leigos e especialistas. Não se debruça porque a sua tese afundaria rapidamente perante a força da evidência. E no entanto, não há forma de contornar o facto de ser ela que mais impactos tem na sociedade alargada bem para além dos muros dos campus académicos. Pobres das sociologias, antropologias, filosofias, cultural studies, apenas escutadas por especialistas e ratos de biblioteca ou então enfiadas à pressão num “opinionismo” de emergência nos programas de rádio da manhã.

Que raposo demonstra uma ignorância presunçosa, já por diversas vezes demos conta disso aqui no blog. Que compra os argumentos preguiçosos da alt-right e do tea-party norte-americanos, também já percebemos, tal é a falta de originalidade e capacidade de pensamento próprio evidenciadas pelo cronista do expresso. Que a luminária tem um assento empíreo como representante de qualquer coisa tal “a direita conservadora” como forma de mimetizar uma qualquer simetria política na esfera pública – também se tornara claro. Mas alguém tem que pôr fim a tanto dislate, a tanta manipulação e, se quisermos com alguma brutalidade, a tanta estupidez. Não serei eu com certeza. O repto é feito para o infinito e mais além.