Trump ou a aparência do Caos

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Há quem compare Trump ao Joker do filme do Nolan (não o mais recente); aquele que é interpretado pelo saudoso Heath Ledger. Para esses, Trump é a epítome do Caos, não se ententendo uma linha na sua actuação atribiliária e imprevisível. Tal como o Joker do Nolan cujo único intento era semear a anarquia e a violência, também Trump não seria mais do que um Juggernauth desgovernado que atropelasse tudo e todos, inclusivamente a sua entourage. Prova disso, seria a retirada das tropas americanas do Norte da Síria deixando caminho livre para os turcos de Erdogan massacrarem os Curdos.

Creio que há mais método em Trump do que aquilo que aparenta. Julgo também que estamos a assistir ao regresso da guerra fria entre os Estados Unidos e a Rússia. E que esta tem se desenrolado através de formas pouco perceptíveis e aparentemente desconexas. Mas só aparentemente.

Trump enfrenta um empeachment porque as suas conversas com o presidente da Ucrânia foram reveladas. Aí encontram-se evidenciadas as pressões de Trump a um líder estrangeiro no sentido da interferência directa nas eleições norte-americanas. A moeda de troca era contudo armar os ucranianos contra os Russos. Ora é plausível suspeitar que pressões destas façam parte do pão nosso de cada dia da diplomacia mundial sobretudo quando se trata de grandes potências. Porquê então a divulgação por um wisthleblower desta conversa em particular? A quem prejudicava ela objectivamente? Os russos, óbvio!

Já se percebeu que desde Snowden os únicos segredos que saem cá para fora são os dos Estados Unidos. Numa espécie de branqueamento não intencional, perante a sujeira norte-americana, o governo Russo e Chinês surgem como imaculadas virgens da política mundial. Só a ingenuidade mais tonta pode acreditar que assim é; sobretudo quando se trata de ditaduras que governam com mão de ferro os seus países. Também já se percebeu – só não o faz quem não quer – que os russos têm um pipeline informativo para dentro do regime norte-americano, eventualmente inaugurado com a campanha de desinformação contra Hillary. O exemplo da Ucrânia foi mais uma demonstração dessa capacidade.

Mas como poderia Trump hostilizar os russos sem os antagonizar directamente? Mexendo na Síria claro está. Trump sabia bem que a entrada dos Turcos no Curdistão sírio iria provocar uma reacção da parte de Assad e este por sua vez é apoiado pelos russos. O massacre dos curdos que está em desenvolvimento é, na gíria militar, colateral damages. O principal alvo são os russos e o seu apoio a Assad. Trump deixou os turcos fazer o trabalhinho de antagonização dos russos não envolvendo as suas tropas, antes retirando-as do teatro de guerra. Isto não parece nada ser de um homem imprevisível cujos desígnios são inescrutáveis. O que se passa naquele território é o princípio de uma guerra fria entre russos e americanos que tal como a anterior põe e dispõe de povos terceiros sem qualquer preocupação pelo rasto de morte que deixa para trás apenas para definir posições estratégicas no jogo de influências das duas potências militares. Quem perde são os curdos. Por um lado, os Turcos avançam sobre o Norte da Síria que estava há algum tempo sobre governo curdo. Por outro, os Sírios reentram em território que era na prática curdo e começam a sua anexação.

Quando há uns tempos atrás falei com um curdo sobre a possibilidade de Erdogan avançar sobre os territórios curdos que ficam ou na Síria ou no Iraque ele respondeu-me desdenhosamente que tinham o apoio dos americanos e por isso ninguém seria louco o suficiente para se meter com eles. Esqueceu-se que em questões de geopolítica a luta de autodeterminação dos povos só interessa enquanto sustentar jogadas que beneficiem política ou economicamente as estratégias das grandes potências.

A próxima jogada será dos russos – veremos sob que forma e onde irá ela surgir.

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As cascavéis a matarem-se.

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O tiro ao alvo a Rui Rio é digno dos pergaminhos mais democráticos de uma associação de oportunistas: PSD – Pusilânimes, sádicos, disfóricos. Comecemos pela última. O psd encontra o seu modelo comportamental nos adeptos do sporting. Um dia são a glória da nação e o seu líder é o exemplo máxima de grandeza. No dia seguinte o líder é um nojo e deve ser abatido sem hesitação nem piedade. A sportinguização do PSD está em andamento e se o exemplo vale como escola, mudanças de treinador a meio da época nunca deram grandes resultados. E as alternativas não são de molde a entusiasmar ninguém. Com toda a franqueza, alguém acha que Montenegro tem mais carisma do que Rio? Alguém vê Miguel Morgado a falar para as massas no mercado do bulhão?

Depois apareceu a múmia de Boliqueime. Dantes quando as coisas corriam mal ressuscitavam o fantasma de Sá Carneiro. Agora que já poucos se lembram quem foi Sá Carneiro, e numa alusão directa ao fascínio actual pelos mortos-vivos, emerge Cavaco do seu sarcófago para dar umas orientações veladas às hostes. E veio a terreiro queimar o Rio.

Há uma cena no Mississipi Burning onde os polícias lançam os membros da KKK uns contra os outros espalhando intrigas sobre cada um deles. Aqueles que se sentiam lesados pelas intrigas atacaram e como no dilema do prisioneiro “as cascavéis começam a suicidarem-se” como diz Gene Hackman. O que é interessante é que Rio parece mais aquela serpente de que fala Joaquin Phoenix no papel de Imperador no Gladiador (voltarei num próximo post a Phoenix, mas na pele de Joker) que se mantém estática no fundo do mar enquanto os peixes vêm mordiscá-la. É que por estranho que pareça, Rio que tem sido enxovalhado nas últimas semanas por pessoas do calibre de um Relvas, não contra-ataca. Remeteu-se a um profundo silêncio medidativo ou está simplesmente como a serpente do imperador à espera de atacar quando menos esperarem?

Rio já provou no passado que é um político resiliente. Quando desafiado, ganhou a aprovação das bases do PSD e venceu a contestação interna. Mas o jogo então era outro. Primeiro, a possibilidade de um bloco central subsistia ainda no horizonte político do PSD. E nesse sentido Rio era o homem mais preparado para estabelecer pontes com o PS de Costa. Segundo, Rio parecia ser o economista tecnocrata que devolveria a alma tecnicista do PSD cujo paroxismo foi encontrado em Cavaco e nessa espécie de reverência provinciana que o país dedicou a um economista medíocre. Nesse sentido, para uma significante parte das bases do PSD, Rio surgiria como a reinvenção cavaquista que necessitávamos para pôr cobro aos desmandos da esquerda. De tal forma foi a identificação entre a persona Rio e a lenda Cavaco que o primeiro, em campanha por Viseu, prometeu ressuscitar o cavaquistão.

Mas, como dizia, o jogo agora é outro. O bloco central não persiste mais enquanto possibilidade política. A morte da geringonça é também a morte de um PSD alinhado com o centro. Para derrotar o PS, os sociais-democratas apenas de nome terão que radicalizar os discursos e posicionamentos. O tom conciliatório de Rio não serve para a abordagem que se segue.

Vae Victis (Ai dos vencidos!)

 

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Sem ponta de ironia, é com alguma tristeza que vejo o CDS caminhar para a dissolução. O CDS, no seu formato tradicional, continha ainda assim as forças centrífugas e de extrema-direita que lá se encontravam. Se há coisa que a pulverização à direita mostra neste resultado eleitoral é o facto de no adn do CDS-PP se encontrarem pelo menos três grandes tendências. Os liberais tatcheristas que dão pelo nome de iniciativa liberal. Aqui temos os betos ultraliberais que têm o “a sociedade não existe” de Tatcher como o santo e a senha do seu presbitério ideológico. São uns liberais muito alternativos que não usam gravata nem fato e que se apresentam como o grande movimento de ruptura, mas que não passam de uma sopa de reaganomics com violência estrutural thatcherista (por conseguinte, tendo como seus founding fathers o santo Reagan e a Madre Tatcher – algures deve estar por lá o Carrapatoso e uma qualquer task force do Observador). Vê-los a urrar que querem acabar com o socialismo em Portugal é todo um programa copiado do pior do Tea Party e da sua máquina de propaganda.

A outra secção é mais tenebrosa. Encabeçada por um ex-psd desafecto da moleza dos intentos ainda assim demasiado sociais do seu partido de origem, o Chega assume o seu património de extrema-direita que pela primeira vez coloca uma lança no Parlamento da nação desde que temos democracia. Não será tanto assim. Porque nitidamente o Chega desloca algum do eleitorado do CDS-PP que já se revia nas obtusas palavras de ordem de André Ventura e no programa cavernícula que pretendem que seja a expressão da voz do povo. Estavam era abafados. E é aqui que se derrama alguma melancolia pelo velho CDS sobre o meu estro sonhador. A parte dita de democracia cristã, com a influência dos sectores mais conservadores da igreja católica portuguesa, é certo, servia contudo de tampão a estas tendências esdrúxulas que sempre medraram dentro do CDS. Cristas era, apesar de tudo, a imagem desta tradição. Quando Paulo Portas quis fazer propaganda eleitoral com o discurso anti-imigração que tão bons resultados dava por essa Europa fora, foi justamente esta tradição, representada por homens como Freitas e Basílio Horta que travou a sofreguidão do então empossado líder. Ora, a caixa de pandora está aberta e produziu dois monstrinhos: o iniciativa liberal e o Chega. Nenhum deles pede meças aos resquícios de doutrina social da igreja que ainda vegetavam no CDS-PP. Podem dizer-me: mas já nada disso existia na época de Portas. Não é verdade. A entourage de Portas era ainda assim beata que chegasse para que contivesse as reais opções internas do CDS-PP. Cristas é a última representante dessa tendência.

Sem religião que os segure, Ventura e Cotrim, um caceteiro, o outro mais para o lado dos CEOs da City – a descontração do grande capital – abrem a direita à direita do centro cristão donde nasceu o CDS. É para mim a novidade mais perturbante destas eleições. Não devemos ser condescendentes com André Ventura, como ouvi alguns comentaristas a fazer. Ventura terá doravante um megafone nacional para a sua mensagem de ódio e de sensacionalismo. Fará tudo para o explorar. Quanto mais bombásticas forem as suas afirmações, maior possibilidade terão estas de abrir os telejornais. Vejam como a sua primeira intervenção foi dizer que vai lutar pela diminuição do número de deputados. Se tem assim tanto empenho, porque não começa por desistir ele próprio de ir para o Parlamento. A mim por exemplo dá-me engulhos que os meus impostos sirvam para pagar semelhante personagem.

Portanto podemos esperar para os próximos anos um nunca acabar de barbaridades sensacionalistas que lhe dêem tempo de antena. Dir-me-ão, mas a esquerda também tem novas vozes e nesse sentido o jogo encontra-se equilibrado. As propostas da esquerda não suscitam a comoção que populistas desbragados como Ventura geralmente conseguem. A iniciativa liberal preocupa-me menos, porque eu não acredito que o Cotrim ponha os pés no parlamento mais do que três meses. Ali não se faz dinheiro, e para esta gente tempo, mesmo o da república, é para fazer dinheiro.

Se me parece que o CDS-PP tem os dias contados e que vamos assistir ao seu lento estertor, já a CDU coloca problemas distintos. Desde logo, apesar de uma tendência para o seu emagrecimento que se tem vindo a consolidar, a CDU possui ainda alguns recursos estratégicos. Contudo, qualquer um deles coloca perigos. O primeiro é fazer oposição a um possível acordo entre o PS e o BE. No caso de uma tal solução governativa se verificar, a CDU fica de fora, como aliás pretende, e a partir desse lugar exterior poderia fazer oposição de rua, mobilizando eventualmente os professores e outras classes profissionais. O problema é que estaria a erigir o BE à posição de inimigo directo; e o BE reagiria, porque a discussão do espaço do seu eleitorado dirigir-se-ia inevitavelmente para o espaço político da CDU. Ora o BE se quer crescer terá que ir para o governo. E isso será com certeza uma das exigências do bloco para facilitar uma solução governativa com a actual minoria. Não creio que o bloco vá pedir uma pasta menor; eventualmente lançará a bisca para a economia. E duvido que o PS esteja disposto a dar-lha, mais interessado que estará em oferecer coisas de cariz social e menores, como a pasta da desigualdade e quejandos. Chegaremos por conseguinte a um impasse. Ficando o BE fora da solução governativa, só lhe resta para crescer discutir o eleitorado com a CDU. E porque não com o PS? Porque tudo indica que o PS tenha consolidado a sua posição, e que a hipotética sangria que o BE representava para o espaço socialista tenha atingido os seus limites. Por isso, deverá o BE voltar-se para a sua esquerda, ou seja, para a CDU. Por seu turno, a CDU não poderá sobreviver sem roubar eleitores ao BE. Está numa situação catch 22, mas cujos resultados não variam muito independentemente das vias encontradas. Fora da solução governativa, e ficando nela o BE – cenário A – terá que fazer oposição directa não apenas ao PS, mas também ao BE. Ficando quer o BE quer a CDU fora da solução governativa – cenário B – terão que começar a digladearem-se pelo espaço político.

O PS terá que ter cuidado com as negociações que se seguirão, pois poderá ficar ensandwichado entre uma direita revanchista e uma esquerda que alienada da sua condição governativa que dava pelo nome de geringonça não tenha outro recurso que não seja o de fazer uma oposição feroz. Possamos nós viver em tempos interessantes, parafraseando o provérbio chinês.

Queimar pontes

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Um dos aspectos curiosos do manifesto pela geringonça é que ele só pode representar ou o voto no BE ou no PCP. Não há voto na geringonça como pretendem os seus signatários. É uma figura de estilo defender a geringonça enquanto opção eleitoral.

A esquerda tem uma dificuldade tremenda em construir pontes, mas é extremamente hábil a queimá-las. Assim tem sido o pendor da campanha eleitoral.

Os partidos à esquerda do PS basearam a sua campanha na crítica ao PS para evitarem quer a maioria absoluta quer a própria dissolução, como é o caso do PCP. O PS, por seu turno, como quer uma maioria absoluta, baseou a sua campanha a demonstrar que para nada precisava dos partidos à sua esquerda, chegando mesmo a aludir ao facto de lhes ter feito um favor ao torná-los companheiros desta legislatura que agora finda.

Ambos estão equivocados. Do lado dos primeiros, as críticas são absurdas provindas como provêm de alguém que colaborou intensivamente nas várias políticas e medidas. Do lado do segundo, a arrogância é má conselheira, dando-se o caso de o PS apenas ter sido governo porque chegou a um entendimento com a esquerda. António Costa, no seu afã da maioria absoluta, parece ter esquecido que foi o PS que precisou do acordo dos outros partidos da esquerda para ser governo; quer o PCP, quer o BE, podiam muito bem continuar a ser oposição, porque era isso que estruturalmente tinham sido até a essa data.

Houve, por conseguinte, um entendimento táctico para alijar a direita do poder. Esse entendimento encontra-se actualmente controvertido. Primeiro, porque a batalha parece ser entre a esquerda e não contra a direita. Que é feito daquelas áreas de consenso que construíram a possibilidade do acordo? Porque não são estas a ser esgrimidas contra as opções da direita? Por um lado porque a direita, quer na pessoa de Rio, quer de Cristas e em certa medida de Santana e a sua aliança, não dizem exactamente ao que vêm, estratégia consabida quando se encontram demasiado tempo afastados do poder. O seu discurso ganhou as cores de um reformismo social aveludado, com umas tintas de estado-providência e de combate à horrenda corrupção. Desapareceu o neoliberalismo dos seus antecessores, a homenagem ao deus mercado, a satisfação moral com a crescente desigualdade social. Contudo, nós, os avisados, bem sabemos que estas três feras se encontram lá em hibernação apenas à espera de serem chamadas a actuar, numa qualquer primavera marcelista dos tempos actuais da direita. Por outro lado, e relativamente à esquerda, a cisão parece ter sido consumada no seu interior, fazendo-nos recuar aos tempos pré-geringonça, atirando-nos assim para o velho e ineficaz paradigma.

Poderão os partidos de esquerda ser tão cegamente solipsistas que destruam em pouco tempo aquilo que laboriosamente foi construído? Por exemplo, nunca se viu o PSD a hostilizar directamente o CDS, e tão-pouco a inversa. Há entre aqueles partidos um pacto tácito  que leva a assumir que a união das direitas é mais fundamental do que tendências refractárias no seu seio. O Aliança, que ousou quebrar com essa tradição, corre o risco de desaparecer ainda mal saiu do berço. Repetir-se-á a história dos pontapés na incubadora que tanto amofinou o governo de Santana em tempos de confusão política? Mas tirando essa singularidade, a direita do psd e do cds guardaram as pistolas e recusam terçar armas guardando todos os cartuchos para a possível maioria absoluta do PS.

Que faz a esquerda? Quebra-se. Hostiliza-se. Mobiliza-se no sentido de impossibilitar um novo pacto de regime.

Com efeito, após as ondas de choque do caso tancos e eventualmente de mais maravilhas que o ministério público achará por bem revelar ao longo da semana de campanha (o correio da manhã parece que já tem algumas na manga), a maioria absoluta tornou-se bastante improvável. Uma vez mais o PS vê-se relegado a partido de segundo escalão que não merece a confiança total dos portugueses. Contudo, aquilo que ainda há poucas semanas surgia como solução – a geringonça – está provavelmente colocada em causa. O que atirará o PS para os braços de uma carta anónima chamada PAN caso a correlação de forças assim o permita. E isto decorre do simples facto de dificilmente conseguirmos imaginar um encontro sereno entre um António Costa e um Jerónimo de Sousa que passou a campanha a dizer mal do PS e a associá-lo ao PSD. Da mesma forma, temo que actualmente esteja inviabilizado um franco aperto de mão entre Catarina Martins e Costa, depois deste último ter sugerido que não necessitava do BE para governar.

Os apelos ao centro que temos ouvido nos últimos dias por parte de Rio são elucidativos da estratégia que o PSD quer colocar no terreno para se guindar novamente ao poder. Com Passos e os passistas, mas antes destes também, o PSD nunca se apresentou como partido do centro. Ensaia agora esta nova versão, de um partido de moderação, deixando para trás a pele de cobra de partido da imposição e da “suspensão da democracia”, a velha atoarda de Manuela Ferreira Leite que lhe valeu o perder qualquer estima junto dos portugueses.

Ora uma tal inflexão traz gato e rabo de fora. O PSD quer aproximar-se do PS, mas não para reeditar um bloco central, o que de qualquer das formas seria a certidão de óbito do PS, mas sim para reclamar uma nova AD. Tão certo quanto Rio tiver a possibilidade de se coligar com o CDS para inviabilizar um governo PS. É que o BE já não é o aliado potencial e de confiança que era há quatro anos atrás. E se nos lembrarmos do que acontece em Espanha com o Podemos não será assim tão remota a possibilidade do bloqueio para uma nova governação vir justamente dos partidos da geringonça. As pontes que se queimam demoram muito tempo a reconstruir.

A cabala

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Num país em que a justiça se arrasta a passo de caracol para a maioria dos cidadãos é estranhamente célere e “oportuna” a julgar o PS. Recordam-se quando o ministério publico quis assassinar a grande esperança do PS, o então secretário de estado Paulo Pedroso? E como arrastou Ferro Rodrigues minando assim a confiança dos eleitores por suposta ligação ao escabroso caso de pedofilia da Casa Pia? De Paulo Pedroso não mais ouvimos falar, o seu assassinato politico foi consumado com requintes romanos. Ferro teve que penar para sacudir a imagem de pedófilo inveterado do seu capote político. O desfecho é conhecido: o ministério público não conseguiu provar nada nem sobre um nem sobre outro. A esperança que o PS depositava em Pedroso de este poder a almejar voos mais altos – inclusivamente a liderança do partido – foi inexoravelmente destruída na sequência das acusações tornadas públicas. A mossa feita ao PS foi tremenda e, na altura, a contenção dos danos exigiu energias e esforços hercúleos.

Actualmente este caso está mais ou menos esquecido. O Ministério publico continuou a sua conduta abertamente escandalosa, mas desta fez tendo por alvo Sócrates. Não defendo Sócrates de maneira nenhuma, e dificilmente poria as mãos no fogo por ele. Mas a manipulação que o seu caso sofreu às mãos do ministério publico devia exigir de cada um de nós uma pausa para reflexão. O PSD de Passos Coelho denotava grande ansiedade para que o caso Sócrates coincidisse com a campanha eleitoral e prejudicasse uma vez mais o PS. E foi exactamente o que aconteceu. Na altura, Costa geriu com grande mestria os acontecimentos, pautando a sua conduta por um afastamento estudado do estigma socratista e pela frase que agora repete à saciedade: da política o que é da política, da justiça o que é da justiça. Um pretor romano não expressaria melhor uma sua convicção. Só que por esse tempo os intentos do ministério público foram gorados. A raiva à troika passista, ou ao passismo troikista, era de tal ordem, que não havia acusação a um antigo líder do ps que fizesse oscilar sentimentos e inflectir escolhas. O momento actual é diferente.

Não precisamos de ter um trumpismo ou um putinismo – o nosso ministério público assume o papel de ambos. É uma instituição inquinada no seio da nação. Já deu provas mais do que suficientes que, ao contrário de muitos que são elevados à condição de arguidos,  que não é de confiança, e que a ninguém inspira confiança. Que os seus casos são manipulados, que a maneira como a informação é lançada para o público é estratégica e controlada por vontades extrajudiciais, que, enfim, não serve para administrar justiça, mas para comprar justiceiros posto ao serviço do sectarismo e negociatas partidárias. Não suscitaria tantas dúvidas se o seu método fosse estocástico. Infelizmente (mas não certamente para alguns) o afã condenatório funciona criteriosamente contra o PS, e nos momentos chave da vida deste partido. Costa bem pode apelar à vaidade do corpo de magistrados do ministério público, mostrando-se respeitoso com os seus elementos, como fez, aliás de maneira demasiado reverente, no debate com Rui Rio. Mas o ministério público, instrumentalizado que está politicamente não se compadece com encómios banais. E por isso com precisão surpreendente desferiu mais um golpe nas costas abertas do PS. É caso para parafrasear Jorge Coelho numa frase que o celebrizou noutro contexto político: – Quem se mete com o ministério publico leva!

O zelo com que foram cumpridos os prazos no caso de Tancos e como a acusação é deduzida no início da campanha eleitoral é digno de admiração. Facto é que um tal acto prejudica objectivamente o PS e muito provavelmente vai ser o assunto chave da campanha. Quando a direita nas pessoas de Rio e Cristas não tem nada para oferecer ao país, eis que chega a benesse que com grande probabilidade tirará a maioria absoluta ao PS e quem sabe se não terá consequências maiores.

Baldwin vs Greta

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(Greta Thunberg no barco que a levou a Nova Iorque)

Lendo a carta que James Baldwin escreveu à sua “irmã” Angela Davis começo a perceber como a forma intelectual de olhar o mundo está actualmente esmagada. As palavras de Baldwin são de uma beleza arguta e cortante. São de uma beleza e verdade intemporais; e esta combinação, tão cara aos gregos clássicos – o belo e o verdadeiro – perdeu-se inexoravelmente.

Do que Baldwin disse sobre a América podemos facilmente estender o seu núcleo para os restantes povos e países. Diz Baldwin:

One way of gauging a nation’s health, or of discerning what it really considers to be its interests—or to what extent it can be considered as a nation as distinguished from a coalition of special interests—is to examine those people it elects to represent or protect it.

Quão verdade e contemporânea é esta afirmação proferida em 1970. Países que elegem um Trump, um Salvini, um Órban ou um Putin, estão, na concepção de Baldwin, incapacitados para serem salvos. Não existe salvação possível para a América de Trump e para os seus eleitores; tão-pouco para a Itália de Salvini. Foram as pessoas que os elegeram. Foram as pessoas que neles se reflectiram e neles viram potenciais representantes das suas mais profundas e acarinhadas ideias. Não foi um faux-pas, um deslize momentâneo, ou sequer uma tentativa-erro que mostra a experiência como aquilo que ela é realmente: uma tentativa de imitar o mundo matando a sua imprevisibilidade. Foi uma deliberada vontade de se verem representados por um porta-voz das suas ansiedades e dos seus desejos.  E estes são invariavelmente pequenos quando medidos pela grandiosidade das palavras de Baldwin.

Claro que estou ainda sobre os efeitos de I’m not your negro – esse documentário cuja voz de Samuel L. Jackson empresta a gravitas dos grandes momentos históricos. Mas felizmente que não podemos ficar presos a demasiado peso moral. É preciso ser imponderável. E para isso temos o documentário Tony, como o mais visto documentário português de sempre. Tony, assim com um Y de Freixo de Espada à Cinta, como o carreira deveria ser, esperávamos, transmudado para career. A beleza dos pequenos momentos. Dos gregos não saberíamos que parte ir buscar para relacionar com a efeméride da estreia do filme que retrata a vida do Tony Carreira – a parte da verdade não seria com certeza dado estarmos em presença de uma charlatão que fez dinheiro (muito!) à custa do plágio e da credulidade de terceiros. Mas tem, como qualquer vigarista que se preze nos dias de hoje, o justo prémio: uma homenagem à sua imensa aura artística reproduzida em formato documental.

Se não parecesse demasiado escandaloso, porventura até imoral, eu diria aos produtores de tal criação: I’m not your negro.

E com esta boutade regresso a Baldwin, que era onde me queria centrar. Quando Baldwin escreve ou fala, sentimos que algo de poderoso se ergue por detrás das suas ideias. Sabemos que estamos a aprender a articular sentidos, grandezas morais, posições políticas. Um tal bouquet dá demasiado trabalho à geração da fast food communication.

Actualmente temos uma jovem sueca que se aproveita de todos os truques da boa publicidade para salvar o planeta. Greta Thunberg, de seu nome, não sabe articular um discurso minimamente interessante. Também não precisa para dizer platitudes como temos que salvar o planeta e etc. O que é simultaneamente interessante e aterrador é que esta é o porta-voz de uma geração. Greta atravessa o atlântico num iate para mostrar ao mundo que se podem evitar meios poluentes como o avião. O patético da situação faria rir desbragadamente se não fosse o retrato final de uma geração. Esta geração prefere selfies a ideias; prefere desportos radicais a pensamentos radicalizados. Greta Thunberg é a imagem de um mundo que só tem imagem.

Bem sei: por cada ataque a Greta levanta-se uma multidão moral que acusa “o que fizeste tu hoje para separar os plásticos do lixo comum?”. E esta voz, embora mal calibrada, diz uma verdade essencial. Greta na realidade está tão focada nos plásticos que não nos dá a ver o lixo comum. E não o pode fazer porque o seu discurso é anti-intelectual por definição e excelência. Porquanto Greta não diz nada sobre a origem nem do plástico nem do lixo comum.

É certo: aponta o dedo aos usos e abusos que os homens da minha geração infligem sobre a geração dela. E num dedo acusador em riste, singulariza – tu, velho, porque não me dás a juventude que eu sempre sonhei? A juventude com que Greta sonha ninguém a percebe muito bem. Todos concordamos que o caminho para a catástrofe ambiental está a ser percorrido com certeza e temeridades desconcertantes. Como os Lemures que se juntam em grupos e se precipitam para o mar num gesto suicida colectivo, nós, a humanidade, caminhamos alegremente para a catástrofe. Mas Greta não percebe o fundamental da sua incoerência que é no fundo o resultado da sua mediocridade intelectual. Greta vai de barco para a cimeira do clima nos Estados Unidos, para evitar o meio de transporte ultrapoluente chamado avião. Mas donde pensa Greta que vem o ferro que constitui a quilha do navio onde navega de consciência tranquila? Porventura de alguma mina da Rússia, da China ou do Brasil, onde milhares de homens trabalham para extrair ferro para o barco de Greta e os outros milhões de barcos que por aí navegam; e, estendendo o raciocínio, para os biliões de utensílios de ferro, desde os nossos automóveis aos corrimões que nos amparam o peso nas escadas dos hospitais. A cadeia de produção-consumo atingiu um tal nível, uma tal dimensão, que não é possível fazer-lhe a crítica (apenas) através dos hábitos poluidores. Na medida em que, à escala actual, qualquer acto de produção é por definição poluidor.

Isto tem um nome. Chama-se economia de mercado. Longe de mim estar a verberar as benesses da economia de mercado, os seus confortos, as suas prerrogativas de bem-estar e diversão. Certamente que podemos evoluir com a técnica. Podemos construir carros eléctricos e substituir a gasolina. Mas como vamos construir biliões de carros eléctricos, o problema mantém-se.

Por isso, o que falta a Greta é uma crítica real à sociedade de consumo. A geração de Greta, na realidade, quer consumir sem ter a consciência pesada. Quer abolir a carne de vaca nas cantinas universitárias para melhor se poder empaturrar de hambúrgueres no macdonalds; quer separar criteriosamente o lixo para reciclagem, para depois encherem os lugares de divertimento nocturno semanalmente produzindo lixo em larga escala; quer andar de barco, mas vive obcecada por viajar pelo mundo, principal combustível da indústria do turismo e das viagens internacionais. O que quero dizer é que a geração de Greta é tão ou mais hipócrita do que as anteriores e que não é com choradeiras televisivas que salvarão o planeta.

Não concordo com a frase: – Não há planeta B. Claro que há! Nem que seja um calhau sem vida a vogar na sua rota em torno do sol, cujo significado será tão inexistente para a ordem cósmica do universo como sempre foi até hoje. O que não há é uma humanidade B! Nós traçámos este caminho: por orgulho, por comodismo, por cegueira. Não é um caminho meramente ambiental. É um caminho moral, de hábitos e de necessidades, de desejos e saciedades. Quem achar que salvará o planeta tirando as beatas da rua (que está certo) ou proibindo carne de vaca nas cantinas (que é ridículo) estará por sua conta e risco. Fazer disto uma questão entre Gretas ambientalistas e cientistas munidos de gráficos de clima é de uma puerilidade confrangedora.

Julgo que o destino está traçado. Assim como Méliès achou prescientemente que o homem aterraria no olho da Lua, também acho que futurólogos de diverso jaez e escrevedores de ficção científica acertaram de alguma forma. Haverá soluções para os ricos – veja-se como o mundo do bio é quatro a cinco vezes mais caro do que o “poluidor” e como se prepara este para ser o grande negócio do futuro – enquanto uma maioria da humanidade perecerá ou viverá francamente mal. De resto, este não será um padrão a que a história da humanidade não nos tenha habituado.

As lágrimas amargas da direita conservadora

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Eu confesso que o estado mental da gente do Observador me parece preocupante. E isto vem a propósito das respostas, sensivelmente em uníssono, à reacção gerada pelo artigo de Fátima Bonifácio.

Tenho o maior respeito por conservadores inteligentes. Dharendorf era um conservador inteligente – e um brilhante pensador. Popper, era um conservador inteligente – embora estivesse enganado em diversas coisas. Leo Strauss é um conservador muitíssimo inteligente. E ninguém lhe retira esse mérito. Agora a cáfila que se acoita no salário do Dr. (?) Relvas é que são uma cambada de asnos de bradar aos céus! E refira-se que a transmutação animalesca de camelos para asnos nem lhes fica mal. Num arremedo das metamorfoses de Ovídio trata-se de observar a passagem da teimosia dos camelos para a estultícia (teórica e romanesca) dos asnos: e eles conservam, em doses mutáveis, significativas quantidades de ambas.

Por exemplo, será admissível berrar pela liberdade de expressão quando são os próprios a botarem palavra, mas quando esta os contraria, ou os amofina, ou chama os bois pelos nomes, aqui del rei!, que vem a polícia do pensamento? Um liberal que se prezasse, perante a iniquidade estúpida do texto de Fátima Bonifácio, querendo defendê-lo, sairia à liça com argumentos; bons argumentos de preferência. Não argumentos estúpidos. Como faz o João Pedro Marques, quando diz “a pobreza é um problema, não a cor da pele” e tergiversa contra a discriminação positiva. Mas depreendemos que se assim for o sr. é contra quotas para mulheres, ou deficientes, porque elas seguem a mesma lógica da discriminação positiva. Então que o defenda. Que diga abertamente que considera que a lei da paridade é uma barbaridade, e que ter deficientes na função pública é um entorse ao livre funcionamento da sociedade.

A Mariana Ferreira, entre uma jantarada no Loco e uma saída com os amigos betos ao Urban Tejo decide escrever um texto onde assevera que as quotas são um dispositivo terrível porque “estamos a competir com alunos cuja média de ingresso reflicta unicamente o seu trabalho, dedicação e capacidades intelectuais”. Sério? E o dinheiro dos pais? E as explicações? E as aulas de piano desde tenra idade? E as habilitações académicas dos pais que fomentam o interesse pela aprendizagem segundo o código escolar? Nada disso interessa? Talvez porque os pretos do bairro social não possuem nem trabalho, nem dedicação, e muito menos capacidades intelectuais! Conclua-se que esta gente (a do Observador) é deveras asinina!

E a piéce de résistance pertence ao inefável Alberto Gonçalves. Soi-disant sociólogo, eterno crítico de Boaventura Sousa Santos – mas o que já deu ao mundo o Gonçalves? Ah espera, um pseudo-livro de propaganda anti-esquerdista contra a geringonça! – diz-nos que não sabe bem se a Fátima Bonifácio é racista. Mas quem a critica, esses sim são com certeza racistas!…e fascistas! Porque quem diz que o outro é fascista é com certeza mais fascista ainda! O nível de infantilidade da prosa do Gonçalves reflecte com grande fidedignidade aquele jogo das crianças “quem diz é quem é!”. E é ele que quer terçar armas com o Boaventura? O nível de argumentação é de deficientes mentais, porque escasseiam argumentos perante o texto de Fátima Bonifácio. E isso até corresponde à impossibilidade de justificar o injustificável. E a estratégia de Alberto Gonçalves é justamente essa: em vez de defender os argumentos da professora, encarniça-se contra os seus detractores. Mas vejamos, se há processos por difamação porque prejudicam objectivamente os nomes e vidas de pessoas, porque não poderá haver processos por discriminação porque esta prejudica objectivamente a identidade e vida de grupos? Alberto Gonçalves não tem resposta, porque no geral do seu arrazoado (e é corrente nos seus escritos) nunca coloca as interrogações pertinentes.

Finalmente, Rui Ramos. Este quer correr tudo e todos a pingalim. Desmonta da sua sela devidamente arreada no lombo do Estado e invectiva a massa ignara que morde as canelas da aristocracia iluminada. O artigo de Rui Ramos é duplamente interessante. Não somente insulta quem teve a ousadia de chamar racista a Fátima Bonifácio, como afirma uma entidade mirífica designada por “os portugueses” que pelos vistos não tem negros nem ciganos. Parece-me pouco e mau para um historiador.

Pedro Picoito emerge assim como o mais sensato dos plumitivos. Depois de se posicionar contra as quotas, como um bom liberal faria (mas não explicita se é contra a lei da paridade, e se não é, o que as distingue então das quotas étnicas?) critica a justo título a generalização, o que era afinal o âmago do artigo de Fátima Bonifácio, e não as quotas.  Curiosamente remata o artigo acusando a esquerda de “fechar os olhos aos problemas”. Afinal há problemas…e serão da mesma natureza dos identificados pela professora Fátima Bonifácio? Porque o paradoxo está em que as medidas propostas pela esquerda visam precisamente debelar os problemas. O problema, passo a redundância, é que a natureza dos mesmos parece assumir conteúdos diferentes à esquerda e à direita. À esquerda é a segregação e a desigualdade. E à direita? Será que Pedro Picoito também está muito incomodado com os “desordeiros” dos ciganos que não respeitam as filas ou com os gangs de negros que lançam as suas ondas racistas por onde passam? Se esta for a sua concepção dos problemas, bem pode o Picoito ombrear com a professora na sua gesta pela pureza rácica.