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As lágrimas amargas da direita conservadora

Julho 16, 2019

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Eu confesso que o estado mental da gente do Observador me parece preocupante. E isto vem a propósito das respostas, sensivelmente em uníssono, à reacção gerada pelo artigo de Fátima Bonifácio.

Tenho o maior respeito por conservadores inteligentes. Dharendorf era um conservador inteligente – e um brilhante pensador. Popper, era um conservador inteligente – embora estivesse enganado em diversas coisas. Leo Strauss é um conservador muitíssimo inteligente. E ninguém lhe retira esse mérito. Agora a cáfila que se acoita no salário do Dr. (?) Relvas é que são uma cambada de asnos de bradar aos céus! E refira-se que a transmutação animalesca de camelos para asnos nem lhes fica mal. Num arremedo das metamorfoses de Ovídio trata-se de observar a passagem da teimosia dos camelos para a estultícia (teórica e romanesca) dos asnos: e eles conservam, em doses mutáveis, significativas quantidades de ambas.

Por exemplo, será admissível berrar pela liberdade de expressão quando são os próprios a botarem palavra, mas quando esta os contraria, ou os amofina, ou chama os bois pelos nomes, aqui del rei!, que vem a polícia do pensamento? Um liberal que se prezasse, perante a iniquidade estúpida do texto de Fátima Bonifácio, querendo defendê-lo, sairia à liça com argumentos; bons argumentos de preferência. Não argumentos estúpidos. Como faz o João Pedro Marques, quando diz “a pobreza é um problema, não a cor da pele” e tergiversa contra a discriminação positiva. Mas depreendemos que se assim for o sr. é contra quotas para mulheres, ou deficientes, porque elas seguem a mesma lógica da discriminação positiva. Então que o defenda. Que diga abertamente que considera que a lei da paridade é uma barbaridade, e que ter deficientes na função pública é um entorse ao livre funcionamento da sociedade.

A Mariana Ferreira, entre uma jantarada no Loco e uma saída com os amigos betos ao Urban Tejo decide escrever um texto onde assevera que as quotas são um dispositivo terrível porque “estamos a competir com alunos cuja média de ingresso reflicta unicamente o seu trabalho, dedicação e capacidades intelectuais”. Sério? E o dinheiro dos pais? E as explicações? E as aulas de piano desde tenra idade? E as habilitações académicas dos pais que fomentam o interesse pela aprendizagem segundo o código escolar? Nada disso interessa? Talvez porque os pretos do bairro social não possuem nem trabalho, nem dedicação, e muito menos capacidades intelectuais! Conclua-se que esta gente (a do Observador) é deveras asinina!

E a piéce de résistance pertence ao inefável Alberto Gonçalves. Soi-disant sociólogo, eterno crítico de Boaventura Sousa Santos – mas o que já deu ao mundo o Gonçalves? Ah espera, um pseudo-livro de propaganda anti-esquerdista contra a geringonça! – diz-nos que não sabe bem se a Fátima Bonifácio é racista. Mas quem a critica, esses sim são com certeza racistas!…e fascistas! Porque quem diz que o outro é fascista é com certeza mais fascista ainda! O nível de infantilidade da prosa do Gonçalves reflecte com grande fidedignidade aquele jogo das crianças “quem diz é quem é!”. E é ele que quer terçar armas com o Boaventura? O nível de argumentação é de deficientes mentais, porque escasseiam argumentos perante o texto de Fátima Bonifácio. E isso até corresponde à impossibilidade de justificar o injustificável. E a estratégia de Alberto Gonçalves é justamente essa: em vez de defender os argumentos da professora, encarniça-se contra os seus detractores. Mas vejamos, se há processos por difamação porque prejudicam objectivamente os nomes e vidas de pessoas, porque não poderá haver processos por discriminação porque esta prejudica objectivamente a identidade e vida de grupos? Alberto Gonçalves não tem resposta, porque no geral do seu arrazoado (e é corrente nos seus escritos) nunca coloca as interrogações pertinentes.

Finalmente, Rui Ramos. Este quer correr tudo e todos a pingalim. Desmonta da sua sela devidamente arreada no lombo do Estado e invectiva a massa ignara que morde as canelas da aristocracia iluminada. O artigo de Rui Ramos é duplamente interessante. Não somente insulta quem teve a ousadia de chamar racista a Fátima Bonifácio, como afirma uma entidade mirífica designada por “os portugueses” que pelos vistos não tem negros nem ciganos. Parece-me pouco e mau para um historiador.

Pedro Picoito emerge assim como o mais sensato dos plumitivos. Depois de se posicionar contra as quotas, como um bom liberal faria (mas não explicita se é contra a lei da paridade, e se não é, o que as distingue então das quotas étnicas?) critica a justo título a generalização, o que era afinal o âmago do artigo de Fátima Bonifácio, e não as quotas.  Curiosamente remata o artigo acusando a esquerda de “fechar os olhos aos problemas”. Afinal há problemas…e serão da mesma natureza dos identificados pela professora Fátima Bonifácio? Porque o paradoxo está em que as medidas propostas pela esquerda visam precisamente debelar os problemas. O problema, passo a redundância, é que a natureza dos mesmos parece assumir conteúdos diferentes à esquerda e à direita. À esquerda é a segregação e a desigualdade. E à direita? Será que Pedro Picoito também está muito incomodado com os “desordeiros” dos ciganos que não respeitam as filas ou com os gangs de negros que lançam as suas ondas racistas por onde passam? Se esta for a sua concepção dos problemas, bem pode o Picoito ombrear com a professora na sua gesta pela pureza rácica.

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The white woman’s burden…and stupidity

Julho 12, 2019

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Foram ondas de desaprovação geradas pelo artigo de Fátima Bonifácio. E com efeito ele contém tudo o que é feio e pusilânime na direita conservadora bem-pensante. Antes de passar à questão do racismo e ao turbilhão que ela provocou, não apenas nos sectores activistas, saliento que o artigo possui dois vectores que são frequentemente eixos do pensamento conservador da direita alt-right. Nele se misturam um ódio à esquerda com um serôdio – mas nada inócuo – nativismo ultramontano. Foram por conseguinte duas das matérias que mais acirrariam a consciência tranquila de uma conservadora portuguesa que se dispuseram em simultâneo: um programa de esquerda anunciado por um sociólogo e, em corolário, um golpe nefasto na pureza nacional. Há uma outra interpretação que atalha estas duas: a crescente senilidade da senhora em questão. Seria assim simples, se os seus próceres do Observador não tivessem saído a terreiro a defenderem o direito da senhora dizer o que lhe dá na veneta. O que significa, muito witgensteineamente, que basicamente concordam com os seus pressupostos.

Tem-se dado uma importância ampliada à questão levantada no texto de Bonifácio de os negros e ciganos não pertencerem à cristandade, enquanto as mulheres sim, o que justificaria as quotas para umas e infirmaria essa possibilidade para os outros. A frase é lapidar: As mulheres, que sem dúvida têm nos últimos anos adquirido uma visibilidade sem paralelo com o passado, partilham, de um modo geral, as mesmas crenças religiosas e os mesmos valores morais: fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade. Começo por isso pelo profundo sexismo labrosta e ancilosado da académica. Ao racismo lá chegaremos; e isto porque frequentemente andam a par.

Não era apenas do activismo anti-racista e de pessoas que se sentiram indispostas com o racismo flagrante do artigo que a denúncia devia ter vindo. As mulheres são igualmente visadas. Para Fátima Bonifácio, que tem direito a palco em programas de televisão como o Prós e Contras, a mulher é aquela coisa que partilha “as mesmas crenças religiosas e os mesmos valores morais” da cristandade. Desde os tempos do Dr. Oliveira Salazar que não se via tão bela caracterização do sexo dito frágil. Por isso é preciso desde o início do texto perceber que ele se encontra embebido em beatice. João Miguel Tavares intuiu bem esse lastro beato e saiu a terreiro em defesa da Santa Madre Igreja. Mas a verdade é que a história da igreja não tem nada de inclusivo e foi uma das principais razões – responsabilidades partilhadas com qualquer religião do livro – que relegou grupos inteiros para o estatuto de sub-humanidade. E aí contam-se mulheres, negros, ciganos. Não é preciso ser nazi para participar desta raiva estigmatizadora – basta ser radicalmente beato. Até os nazis, hostilizando, e matando, negros e ciganos, divinizavam a mulher com qualquer coisa de latência dos cultos pagãos e das lendas teutónicas.

E depois o racismo. Trata-se de facto de um texto que não mede as palavras. Prima facie, no universo alucinado dos conservadores alt-right do Portugal dos pequeninos, uma tal atitude seria motivo de celebração e rasgados encómios. Afinal a senhora, contra a polícia do pensamento acantonada no politicamente correcto, não fez mais do que expressar a sua opinião. Viva a liberdade de expressão!

O problema é que a senhora só diz merda. E mais grave ainda, merda toda ela filtrada por preconceitos básicos, indignos de uma académica que tem obrigação de ter um pensamento crítico mais afinado do que um bêbado numa taberna. Podem bem dizer que o ódio aos ciganos é ilógico – como diz Daniel Oliveira – porque eles são na maioria cristãos. Mas não é isso que a dinausárica Fátima exprime; é justamente a consabida raiva beata ao evangelismo dos ciganos. Por isso, nem o seu cristianismo os absolve de tão cruel labéu como o de desordeiros, inassimiláveis, destruidores de lares.

Dos negros – há toda uma história para ser ponderada e estudada sobre o trauma trazido de África com a perda do império. Uma parte odeia os negros, expressa-o com um racismo sibilino soprado entre dentes no seio das famílias e em contextos natalícios. Outra parte teme os negros e a sua reivindicação pela visibilidade. Seja como for os dois lados de uma moeda pós-imperial encontram-se na efabulação que fazem dos negros. É claro que o lado para o qual notoriamente pende a velha senhora é bem mais tenebroso. Mas nele podemos encontrar os temas essenciais do retornado em gestação que mora em cada um dos africanistas da geração da senhora. Os negros são muito mais racistas! E veja-se nem com os ciganos se conseguem dar bem! E uma tal demonstração da ética do cuidado vindo da parte de quem tinha acabado de arraiar forte e feio nos ciganos.

Não fica por aqui. A entrada de negros no parlamento pelo sistema de quotas a que alude Pena Pires seria catastrófico para a qualidade parlamentar. Um tal raciocínio é plasmado do parlamentarismo do século XIX e das posições dos políticos de então justamente… em relação às mulheres! Mas há que explicar qualquer coisa de simples sobre o que é um sistema de quotas à querida Fátima. Assim como não significou para as mulheres ir buscar a mais burra dentre elas para substituir o mais inteligente dos homens, também não significaria relativamente a uma quota para negros. O sistema é relativamente fácil: entre duas pessoas em condições semelhantes, escolhe-se aquela que pertence ao grupo que é tradicional e historicamente preterido. Donde, não se trata de trocar o sobrinho da Fátima que anda na Católica em gestão pelo filho do negro da construção civil que trabalha no Macdonalds. Trata-se de equilibrar a balança da distribuição social precisamente para que não haja somente negros na construção civil e no MacDonalds.

DEMS para o povo!

Julho 10, 2019

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O exagerado número de candidatos à liderança do partido democrata norteamericano é sinal de clarificação ou de desnorte? Inclino-me para a segunda hipótese. Nunca a convenção democrática viu tantos – e tão obscuros – candidatos. Nunca as questões triviais que os norteamericanos têm por adquirido foram tão convulsionadas. E creio bem que nunca os candidatos foram tão escrutinados pela comunicação social. Veja-se por exemplo o escândalo (na realidade mais um burburinho) que visou Kamala Harris. A candidata negra que se posicionava nas sondagens como sendo a mais provável a ser eleita, teve um deslize ao afirmar que ouvia Tupac quando andava na universidade. A FOX, criteriosa em assuntos de política, logo denunciou o anacronismo: como podia Kamala ouvir Tupac na universidade se ele ainda não existia enquanto cantor? Escândalo! A candidata estava a mentir! Mas pior do que o bruá que se levantou em torno de tal minudência, foi a forma como Kamala se justificou. Ao invés de dizer, Ok, no big deal, fiz confusão… – deu uma entrevista em que falava de Tupac como o seu herói. O problema é que o que dizia parecia directamente saído da wikipedia e não possuía qualquer ligação afectiva. Kamala não apenas estava a mentir como a apelar, através do seu amor por Tupac, a uma geração de negros que com ele se revê.

Mas qual é a diferença com Trump então? Trump mente descaradamente. Kamala mentiu num trejeito de pandering for the black constituency. São iguais? De todo – Trump mente e nem tenta dizer que não mentiu. Kamala mentiu e embrulhou-se em desculpas preparadas para passar a mensagem que estava a dizer a verdade. A diferença? Há uma autenticidade, por paradoxal que seja, na mentira de Trump; há uma falsificação na mentira de Kamala.

Fora este fait divers, que mostra que as linguagens da política não se instalam no campo da verdade argumentativa, mas antes no da retórica marketizada, a sanha dos candidatos na competição pelo podium do mais igualitário e redistribuidor tem marcado os debates dos democratas.

Na minha opinião a estratégia democrática incorre num erro de perspectiva. Os seus candidatos estão convencidos que os norteamericanos querem igualdade. O problema é que não se questionam sobre o que realmente significa igualdade nas nossas sociedades actuais. O exemplo da Grécia é flagrante. Depois de um esforço hercúleo para que pela primeira vez ganhasse um governo de esquerda com uma agenda economicamente progressiva, os gregos, que sempre negaram uma maioria absoluta ao Syriza, oferecem-na agora à direita conservadora da Nova Democracia. Acho que é possível retirar algumas ilações desta debacle da esquerda. Primeiro, temos que recusar o “circulo de giz caucasiano” em que a esquerda sempre fecha a interpretação das suas derrotas. Sem surpresa, a reacção é: não se fez o suficiente! O partido, na realidade, traiu as legítimas aspirações do eleitorado!

Algo disto perpassa na campanha democrática nos Estados Unidos. Há uma reacção segundo a qual a era Obama não foi suficientemente longe. Ela está nas palavras de Bernie Sanders, de Ocasio Cortez (que não sendo candidata tem uma presença fortíssima na comunicação social) de Beto O’Rourke, de Kamala Harris e até de Bill di Blasio. O que todos estes candidatos propõe é um aprofundamento da capacidade redistributiva do Estado. Algo que será designado até à exaustão pelos republicanos, de socialismo. É óbvio que não se trata de socialismo; embora a retórica inflamada de um Sanders possa até conter algumas das suas intonações. Facto é que os democratas estão mais à esquerda do que alguma vez me recordo. Nem com Obama; e seguramente, com Clinton, uma frente de esquerda tão aguerrida surgiu no firmamento liberal norteamericano. O problema é que a ideologia do sonho americano e o seu lastro traumático está longe de estar resolvida. De que se trata? Esta ideologia encantatória prediz que se trabalharmos muito, nos esforçarmos e formos muito empreendedores o sucesso é garantido. Ela prediz que o sucesso é o fio de prumo da igualdade – não que a igualdade é a condição de justiça do viver em comum. Ou seja, todos podemos alcançar o sucesso e nesse sentido todos estamos em condições igualitárias de o fazer. Se não ocorre, a culpa é do próprio.

Esta internalização da culpa do falhanço tem efeitos directos na dignidade individual. A forma como as pessoas são dignas ou deixam de ser dignas tem pouco a ver com o seu estatuto moral. Prende-se sobretudo a esta estrutura psíquica do sucesso. É por isso que Trump pode ser admirado independentemente de ser um estadista repugnante.

Significa que o quadro ético que envolvia a noção de igualdade liberal se quebrou. A igualdade não é mais percepcionada da maneira como queriam os liberais, i.e., igualdade de direitos num quadro de liberdade. A igualdade burguesa, imbuída do espírito de pertença a uma cidadania, não é mais operativa, ou tão-pouco celebrada. O manto que cobria esta mentira, retirado por Marx há praticamente dois séculos, não resiste mais. Mas as pessoas não podem viver de desilusão – as sour grapes não podem ser tudo aquilo que existe no horizonte de sentido dos indivíduos e que lhes é permitido ambicionar. Uma outra ilusão veio substituir o encómio dos direitos iguais para todos. A igualdade através do dinheiro. Se tens dinheiro, és igual, porque podes obter os mesmos produtos e consumir ao mesmo nível, reza este novo credo. Logo, o que tens que fazer, pelo o que tens que lutar, é pela obtenção de dinheiro. Porém, como o dinheiro se concebe como um jogo de soma nula – para alguém ganhar alguém tem que o perder – este é um equilíbrio que nunca pode ser atingido como era a abstracção dos direitos iguais para todo e qualquer um. É certo que o dinheiro foi pensado como a medida objectivável por excelência, designadamente por Simmel, o homem que forneceu a cartilha para a teoria da racionalização da escola de Frankfurt (com Weber). Creio contudo que Simmel percebeu mal a natureza da sociedade de consumo, e que o dinheiro é porventura o maior investidor de emoções e afectividades de que há conhecimento. Isto pela simples razão que é ele que liga qualquer intenção a um afecto, ele constitui o único e actual mediador entre a vontade e o gozo efectivo traduzido em emotividade.

Dito isto, os padrões de compreensão dos indivíduos actuais sobre a questão da igualdade não coincidem com a ideia genérica da esquerda segundo a qual a justiça encontra-se numa maior redistribuição. Aliás, o sonho americano, como bem documentou Norbert Bellah no Habits of the heart, reveste-se de ambiguidades inextirpáveis; sobretudo, o seu individualismo cavalgante e esmagador, que Bellah incita-nos a rejeitar para bem do nosso regresso ao seio ancestral da comunidade. Algo deste pensamento liberal de esquerda sobreviveu e é agora reactivado pelos candidatos democratas. A lógica de que estamos melhor em comunhão com os outros no que numa corrida solitária contra todos marca o discurso de pendor comunitarista destes candidatos. Mas para quem falam? Decerto não para um público cuja escala cultural de valores associa a dignidade da pessoa ao ter dinheiro. O valor moral da pessoa não é mais distinguível das suas posses, algo com que a teologia católica sempre batalhou, mas que a doutrina protestante baralhou os termos.

É preciso ter presente que isto não sendo propriamente novo – afinal sempre o estatuto dignificou o seu detentor – assumiu novas modalidades, nomeadamente a deslocação desse mesmo estatuto da sua rigidez estratificada para a ilusão de que qualquer um pode dele usufruir. A sociedade de consumo destrói o planeta porque associou o valor intrínseco da pessoa à sua capacidade de aquisição. Os nossos julgamentos quotidianos, e ipso facto, as nossas auto-imagens, prendem-se com o poder aquisitivo. Numa tal economia do valor moral, a noção de redistribuição, de um mínimo para o máximo de pessoas, emerge como ruído, como provocação, como cataclismo expectante…

Os gregos que votaram Nova Democracia estão piamente convictos na eficácia (ou na realidade!) do sonho americano e que este pode ser transplantado para as praias da Hélada. Este é o problema da esquerda: como desmobilizar o sonho americano quando este se tornou o único mapa ideológico onde enquadrar os grandes dramas e ambições da vida?

Bem-vindo à Trumplândia

Junho 27, 2019

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É engraçado como Zizek insiste que Trump foi uma epifania no interior da mediania política do establishment liberal norteamericano. Num artigo intitulado “Bem-vindo à guerra civil” teima que a sua intuição de radicalização nas hostes dos democratas estava correcta e como o “clima de guerra civil” no seu interior pode levar a uma clarificação. Como se o problema fosse o da falta de representatividade de um eleitorado pobre que estivesse apenas à espera da voz suficientemente radical de esquerda para se erguer contra o capitalismo. Como se a clarificação que Zizek vê ocorrer entre os democratas tivesse uma qualquer correspondência necessária na clarificação das vontades do eleitorado. Esta ideia de que o eleitorado das classes baixas está apenas à espera da representação fidedigna é de uma ingenuidade tocante. Primeiro, como pode Zizek sustentar tamanha ilusão quando foi justamente o eleitorado da rust belt que votou Trump? A solução fácil é dizer que este eleitorado não se encontrava representado pelo establishment democrata liberal – que é o argumento central de Trump! –, mas quando assim for, rapidamente irá ver a luz – que é o argumento tolo de Zizek!

Zizek que é profundo conhecedor de filosofia política é pouco conhecedor de ciência política. A ordem de preferência dos eleitores não tem que ser racional no seu efeito agregado. É porque Zizek nunca fala em preferências nas escolhas eleitorais que lhe permite sobrevoar – seria o termo mais acertado – que existe um comportamento hierarquizante nas escolhas sociais. Estes eleitores não votaram simplesmente em Trump – votaram na ordem de preferências apresentada por este. E qual é esta? O regresso da hegemonia norteamericana, contido no slogan MAGA!; a política de proteccionismo cultural, inscrita na perseguição feroz aos imigrantes; a limpeza do “sistema” traduzida num discurso anti-político e anti-parlamento. In a nut Shell esta é base de sustentação da ideologia Trump!

Contrariamente ao que Zizek diz ser o acto falhado da esquerda liberal, ou seja, a sua preocupação ingente com os temas do género, da raça e da sexualidade, foi justamente esta combinação de temas e as suas preocupações liberais centrais que levaram à queda de Trump. O presidente não viu a sua popularidade afectada pela sua política militarista ou económica, mas sim pelos seus escândalos sexuais, o seu machismo e racismo. Esses foram os pontos que verdadeiramente atingiram Trump – e continuam a fazê-lo. Por isso, e completamente contra Zizek, não é a crítica da ordem capitalista global que está a fazer estremecer Trump. É ao invés, a agenda das políticas de identidade, aquilo que Zizek tanto despreza.

O segundo aspecto da cegueira política de Zizek prende-se com a posição de Trump no concerto da nova geopolítica mundial. Zizek bem pode vangloriar-se que apoiar Trump era o passo correcto para acordar a esquerda para as questões essenciais: a luta de classes. Mas isto é esquecer que não existe tal coisa como um Trump isolado no seu castelo norteamericano. Levar Trump ao poder foi fazer regredir em décadas o clima de concórdia que Obama havia conseguido. Foi permitir o regresso dos falcões da era Bush, ainda mais acirrados e com rédea mais livre para espalhar a sua retórica da “dangerous nation”. Não perceber que o projecto MAGA provinha essencialmente de uma inconformidade com o multilateralismo do mundo contemporâneo é ser mais do que cego – é ser ignorante. A política de blocos reafirma-se numa belicosidade que já era estranha à linguagem da diplomacia norteamericana. Para quem pensava que Hillary Clinton era um falcão pronta a assaltar a política do médio-oriente com as garras em riste como a lança de Marte, sirva-se agora da escalada contra o Irão promovida por Trump e os seus bed fellows da Arábia Saudita. Para quem pensava que Trump ia promover um isolacionismo benéfico para a harmonia  entre os povos, remire-se no plano de Kuschner para os territórios palestinianos, e o eminente apagamento dos mesmos. Para quem achava que os democratas do establishment tinham duas faces, como Janus, em matéria de política internacional, atente nas guerras comerciais impelidas pelo proteccionismo trumpista e o seu total desrespeito pelas consequências ambientais.

Por isso a opção Trump de Zizek é absurda; caverniculamente montada num hegelianismo reificado e relapsamente instalada na mesma crítica ao “establishment” que tantos votos rendeu a Trump.

Populismo mach 3

Junho 24, 2019

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Deng Cheng Wen – The Blind Leading , 2007

Nem todo o populismo se expressa por enfáticas proclamações de líderes como Le Pen ou Salvini. Há um populismo mais insidioso, quotidianamente banal, que abre o caminho para o mais retumbante e organizado politicamente. Penso por exemplo na propaganda da Iniciativa liberal, que de forma menos efusiva e labrosta que o “basta de roubalheira” de André Ventura promete acabar com “o sistema”. Este sistema, que não possui origem identificável nem limites denunciáveis, elabora-se enquanto perigo, poluição, quer no discurso de um Trump quer nas intervenções ignorantes de Octávio Machado. Quem não se recorda da obsessão com o sistema que Octávio Machado exprimia sempre que abria a boca? Nunca ninguém compreendeu o que era o sistema, para além do facto de Machado andar a mando de um bandido chamado Bruno de Carvalho, esse sim, cultor de “um sistema” de máfia e compadrio.

Entre o sistema do anedótico Octávio Machado, da Iniciativa Liberal e de Trump há um fio condutor que os liga. Aparentemente díspares nos seus contornos e objectos de denúncia, o sistema emerge propositadamente como uma ameaça instalada de difícil localização. Sabemos que para Trump o sistema eram os políticos de Washington. Reivindicação algo tormentosa na medida em que atacando o sistema, Trump se alcandorou aos pináculos do mesmo, tornando-se no presidente do sistema. Paradoxo com o qual se pode ou não conviver mal.

A iniciativa liberal quer acabar com o sistema, que não será o mesmo que atormenta Machado, mas cuja obsessão indistinta partilha matizes. O sistema da iniciativa liberal é como o polvo vermelho dos pesadelos portistas. Ambos agem de forma traiçoeira e fora de controlo. Para a iniciativa liberal o sistema, presume-se, é qualquer coisa que se instalou na política; qualquer coisa de nefasto  que deve ser erradicado. Mas não é a locupletação dos gestores da TAP que se amanharam com prémios de milhões de euros em ano de prejuízos da companhia – milhões que são nossos, dos contribuintes. Um tal acto de vontade indómita seria olhada pela iniciativa liberal com a devida vénia pelo uso das capacidades individuais e do livre arbítrio. O problema está no sistema. Como este nunca é definido, o que se encontra fora deste assombrador sistema é aceite com a benevolência da cegueira ética e da impossibilidade de retoricar o que o olhar não pretende abarcar.

Mesmo um tipo inteligente como Ricardo Araújo Pereira faz semanalmente um favor à retórica dos políticos incapazes e do sistema corrupto. Veja-se a sua rábula do cidadão mosca. O cidadão mosca, o super-herói português, apresenta a sua valentia como decorrente do facto de andar no cocó, seja qual for o governo. O governo x – cocó! O governo y – cocó! – afirma o cidadão mosca na sua rábula de revolta. Quão próximo estamos do discurso segundo o qual os políticos são todos os mesmos e querem é tacho? Não estamos apenas próximos, estamos a reproduzi-lo, com laivos humorísticos. Aliás, é interessante analisar o programa de RAP. Contrariamente aos seus congéneres transatlânticos, tais como o programa de Stephen Colbert ou o Late Show com o Trevor Noah, RAP não escolhe lados; ou melhor, não o faz de forma tão ostensiva como os anteriores apresentadores. RAP pretende situar-se num espaço de neutralidade da política: um espaço onde apenas o humor conte. Ora é justamente este espaço de neutralidade da política que é ocupado pelo populismo. Pela simples razão que ele só existe na sua formulação populista. Não há espaço de neutralidade política no político. Por conseguinte, RAP, inegavelmente com muita piada, tem um palco onde repercute em ondas populistas as suas bocas e tiradas. Não sei se foi por obrigação contratual, se qualquer coisa como exigência de equidade na cacetada e derrisão estava nas cláusulas do contrato. O facto é que se trata de uma posição perigosa. É-o porque não distingue lados, nem facções, o mesmo é dizer, torna a opinião indistinta. Ora um dos segredos do populismo é justamente vender-se como o equilibrador que surge do exterior; o de inventar uma posição exterior não contaminada, algo de pristino donde se possa arvorar um julgamento final – algo divino. A pureza é por isso uma constante da retórica populista. É certo que RAP é suficientemente flexível e arguto para gozar com ele próprio, e com os seus parceiros de humor. Não obstante este savoir faire humorístico de olhar para as próprias falhas como gargantuescos e risíveis enigmas, RAP tem-se aproximado mais de um Fernando Rocha do que aquilo que estaria disposto a admitir. A lógica de todo o político é risível, logo digno a abater, diminui a política naquilo que ela possa ter de sério: o que está para além do político x ou y.

Outra instância de populismo recente que passa por ser informação: a forma como foi noticiada a reforma de Constâncio. Em grandes parangonas, o Correio da Manhã deu a conhecer aos portugueses que o ex-governador do Banco de Portugal auferia de 27 mil euros de reforma. Escandaloso, de certo, quando se pensa nos 22% de trabalhadores por conta de outrem que recebem o ordenado mínimo mensal (dados da pordata). As pessoas escandalizaram-se; e a vox populi, aquela hidra que emerge nas redes sociais e nas caixas de comentários, mostrou as fauces, cuspindo contra a roubalheira dos políticos e a vergonha que isto é! Só que no mesmo dia saíram os rendimentos dos jogadores de futebol mais bem pagos de sempre: Messi e Ronaldo. Na ordem dos 70 a 90 milhões anuais. Ninguém se escandalizou. Quanto muito, um franzir do cenho por reflexo invejoso. Mas nada mais. Dentro do sistema, do pensamento do sistema, tais números são revoltantes e escandalosos. Porém, encontram-se automaticamente justificados, num mundo onde se ganha pelo mérito. O que a indistinção do “sistema” enquanto corrupto e corruptor primordial traduz é a incapacidade, ou indisponibilidade, de reconhecer o mérito do político que a esfera pública exibe. Isto é problemático… e simultaneamente falso. É problemático porque revela uma menorização da actividade política que não quadra com a sua necessidade institucional. Em democracia, as instituições são regidas por orientações públicas, e essas mesmas orientações são definidas por critérios políticos. Poderíamos então chamar ao exercício de selectividade que opera dentro de um campo de contingências, um exercício político. Ninguém que o exerça se exime de responsabilidades, mas por isso mesmo é preciso que alguém o assuma. É falso, porque, corolário da primeira, exercer uma tal responsabilidade não é para todos, nem todos estão dispostos a fazê-lo. A distanciação do comum dos cidadãos do exercício da política, quer através do voto, quer da militância, não traduz apenas uma apatia generalizada como resposta ao falhanço dos políticos em cuidar das vidas dos homens e mulheres seus constituintes. Ela revela sobretudo uma hierarquia de facilidades: consumir é menos trabalhoso do que optar dentro da linguagem da política. Não por acaso a grande revolução das campanhas eleitorais trazido pelo contexto norteamericano é justamente a sua individualização. Ou seja, os candidatos pedem literalmente o voto em pessoa ao eleitor. Este é o paradigma da individualização absoluta da escolha política; uma lógica em que é o cidadão que se sente o escolhido e não este que exerce o direito de escolha sobre algo que lhe é superior. Note-se que esta é lógica através da qual procede a escolha comercial, consumista. A grande invenção do marketing é fazer-nos pensar que fomos nós a ser escolhidos pela marca, a marca fala directamente para nós, para as nossas necessidades e desejos. O marketing político individualizou totalmente a relação política.

Que possam então medrar contratendências num tal panorama não nos deve surpreender. Desde logo, o populismo, com a sua crítica virulenta a tudo o que é político, ao “sistema”, deixa um espaço vazio para ser preenchido com figuras extra-políticas: os imigrantes, o islão, o “sistema”. Esta alquimia é facilmente descoberta, no sentido propriamente etimológico de destapar algo que estava coberto, oculto, quando são denunciadas as estreitas ligações entre a extrema-direita e um outro sistema, o neoliberal, que pretende minar a democracia e os seus alicerces institucionais a partir de dentro. Como no caso austríaco abordado no último post, as associações entre a extrema-direita populista e o mercado neoliberal e as suas normas não é fortuita. Com efeito, ocorre amiúde que estas sejam o real sustentáculo de todo o programa populista que não pretende mais do que desviar as atenções do principal com a poeira do acessório.

Strache du neo-nazi (Strache seu neonazi – frase ouvida nas manifestações de rua em Viena)

Maio 20, 2019

Rui Tavares caracterizou bem a extrema-direita europeia (mas vale para as outras): não são apenas populistas, são vigaristas. O caso Strache, o neonazi que se encontrava no governo de coligação austríaco ilustra bem o que pretendeu dizer Rui Tavares.

Tenho escrito variadíssimas vezes neste blog que devemos olhar para a extrema-direita e a sua mensagem como querendo outra coisa. Que os arrobos culturalistas e de defesa das nações escondem outros processos, outras vontades, e que essas sim são a realidade da extrema-direita. Se dúvidas houvesse, o caso Strache esclarece-as. Na luxuosa mansão em Ibiza estão reunidos os elementos que  funcionam como coordenadas essenciais para avaliarmos a extrema-direita. A situação é ideal, na medida em que mostra como as coisas se estão a passar nas costas dos cidadãos e a coberto de cortinas de fumo adensadas por rituais anti-imigração, retórica anti-burocracia de bruxelas, e frémitos nacionalistas de toda a espécie. O que vemos no vídeo de Ibiza? A plutocracia mundial, representada por uma rica russa filha de um oligarca (da qual estranhamente não temos imagem); Strache e o seu lugar-tenente do FPO, ou seja, o poder político; a negociação em torno de um tablóide, o Kronen Zeitung; as contrapartidas em negócios com grandes empresas; as grandes famílias dos negócios a sustentarem a extrema-direita. Esta constelação de interesses marca no fundamental os destinos da Europa, e porque não dizê-lo, do mundo.

Estes são os elementos que interessam fundamentalmente ter em conta quando se fala de extrema-direita. As ligações com Putin e a Russia dos oligarcas são das coisas mais insidiosas que estão a ocorrer. O despudor com que Strache oferece o Kronen Zeitung, o tablóide (e a publicação escrita) mais lido da Áustria, como máquina de propaganda ao seu partido, mostra como a batalha, como bem sabe Bannon, está a ser ganha na comunicação social. E apesar dos desmentidos das três grandes fortunas austríacas relativamente ao financiamento do partido de Strache, ninguém pode estar tranquilo quanto a essa possibilidade, porque ela evidentemente é real. De outra forma como se explica a força que qualquer destes partidos, inicialmente grupúsculos sem qualquer significado, ganhou, não de forma gradual, mas irrompendo com estruturas e membros e uma capacidade de arregimentação que dificilmente teriam sem o necessário respaldo financeiro.

O que o vídeo mostra é, por outro lado, quão bem oleado se encontra o sistema. Com a percepção exacta que é necessário açambarcar o principal veículo de comunicação para firmar o poder dentro da sociedade austríaca. O Kronen Zeitung, desde sempre um tablóide asqueroso que vomita propaganda de direita (por vezes radical) encontra-se nas mãos da direita neoliberal europeia, a que está actualmente no poder pelas mãos do wonder boy Sebastian Kurz. O que preocupou o jovem primeiro-ministro terá sido antes de mais, aventamos, a possibilidade de o filho querido da direita conservadora ir parar às mãos de Strache e a sua trupe de neonazis. Julgo que dificilmente Kurz não estaria ciente das ligações “incestuosas” com as oligarquias russas, das negociatas com a propriedade do Estado, e da vigarice política do seu companheiro de coligação. Claro que disso teria ele conhecimento. A sua perturbação vexada dever-se-á porventura a ter descoberto que Strache lhe queria fazer a cama para pôr o FPO no poder. Por alguma razão há uma câmara de filmar oculta na mansão de Ibiza.

A mentira que é a extrema-direita e o seu discurso moralista e anti-político fica também a descoberto mediante as patéticas declarações de Strache e Kurz. Começando por Kurz, na conferência de imprensa onde anuncia o fim da coligação elenca três grandes feitos desta durante os dois anos do seu governo: julgar os políticos corruptos, diminuir os impostos e estancar a imigração massiva. Por seu lado, Strache dá uma patética desculpa sobre nunca mais ter falado com a senhora russa ou tão-pouco qualquer membro do seu partido, não sem antes formular uma sentida desculpa à sua mulher por ter flirtado com a russa, mostrando-se profundamente arrependendido por se ter comportado como um “teenager”. Dois momentos de exposição da vigarice e da pulhice. Kurz orgulhando-se de ter combatido a corrupção, com um corrupto do mais alto calibre como parceiro de coligação. Strache dizendo que nunca mais viu a senhora, quando o Kronen Zeitung é propriedade do alemão Funke mediengruppe que tem jornais na Áustria, Hungria, Croácia, Albânia… e Rússia. Uma belíssima concentração informativa de extrema-direita com óbvias relações com a Rússia.

Apesar da evidência que mostra o vídeo, Strache consegue ser ainda mais patético, desculpando-se por estar alcoolizado e por se tratar de um ambiente informal e privado. Todavia, o seu braço direito, o chefe do FPO, Gudenus, está perfeitamente sóbrio e traduz fielmente para russo as negociatas que Strache vai propondo. E o que são elas? Em três actos: a) Stache propõe um financiamento ao seu partido fora do sistema de controlo, e logo fora dos impostos; b) a aquisição do Kronen Zeitung como plataforma para o FPO, acrescentando que com a limpeza correcta (mandar fora os membros incómodos) tudo é possível (sic); c) em troca da aquisição do Kronen Zeitung, promete negócios com a Strabag, a maior firma de construção austríaca e uma das maiores na Europa.  Percebe-se por isso que aquele encontro teve preparação e que aquelas ideias não são nada o efeito do álcool, mas foram antes pensadas e ensaiadas entre Strache e Gudenus.

Strache tem ainda o desplante de acusar os jornalistas de terem rompida com a ética profissional e diz-se vítima de um atentado político. Foi sem dúvida instrumental libertar um vídeo gravado em 2017 agora em época de eleições europeias. Mas de um pulha como Strache não se esperaria a invocação da ética profissional, certo? Errado. Strache baseou toda a sua ascenção ao poder no mote do homem em que se pode confiar. O seu lema de campanha “HC kannts vertrauen” – Heinz Christian é de confiança – foi a sua imagem de marca enquanto ascendia dentro do FPO e nas preferências dos austríacos. O homem em quem se pode confiar queria um esquema alternativo de financiamento do seu partido, queria a posse do Kronen Zeitung para ser a sua plataforma de mentiras e fascismo. Isto é a extrema-direita. Salvini, Le Pen, Órban, não são diferentes.

Em resumo, repito o que tenho dito, é preciso ter muitíssimo presente que a extrema-direita não é aquilo que diz. Aqui, no Portugal dos pequeninos, o nosso André Ventura já deve estar a receber suporte de alguma família com dinheiro. É um primeiro ensaio. Mas é necessário ter a consciência que estes tipos não vieram para brincar – apenas o que dizem é que não é para levar a sério.

Os ínvios caminhos da campanha eleitoral

Maio 16, 2019

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O patriarcado achou por bem colocar uma tabela multicor com os partidos que eram pró-vida distinguindo-os com uma assertiva cedilha verde contra um duro x vermelho. Os felizes contemplados com a aprovação patriarcal foram o Basta, o CDS e o NósCidadãos. Os restantes levavam com o opróbrio patriarcal. Disse em comunicado o patriarcado que se havia tratado de uma “imprudência” e retirou a sugestiva imagem.

Independentemente da defesa ou não da vida, podemos intuir que ao dar respaldo ao Basta o patriarcado é pelo menos a favor de mais restrições à imigração, menos tolerância para com os ciganos – esses sugadores do erário público – e menos dinheiro para deputados – esses ultrassugadores da res publica. Podemos inclusivamente dizer, se Mussolini ou Franco regressassem à terra dos vivos, o patriarcado poria uma vindicante cedilha verde bafejando assim tais egrégios personagens com a bênção sagrada porque, glória ao pai!, eram intransigentes defensores da vida (quando não praticavam a morte).

As justificações do patriarcado foi dizer que a culpa era do operador da página do facebook que, supostamente, pusera lá o quadro à revelia da hierarquia.

Admitamos que sim. Quer apenas dizer que uma organização (movimento?) como a Federação portuguesa pela Vida tem acoitamento no facebook do patriarcado, mesmo que pela mão do seu gestor. Ora como o patriarcado não é pessoa inimputável, algumas qualidades terá visto ao seu gestor quando lhe deu tamanha responsabilidade. Uma desvinculação tão apressada quanto atabalhoada faz temer pela idoneidade do patriarcado de Lisboa e seus porta-vozes.

Como notam bem alguns dos comentários que se sucederam à postagem do quadro, parece que ser em defesa da vida contém a pena de morte, uma vez que a coligação Basta de André Ventura (foi assim mesmo que eu quis escrever!) defende a mesma.

É claro que o quadro, apesar da federação pela vida defender-se dizendo que é o resultado de um questionário enviado a todos os candidatos às europeias, pretende realmente obter este resultado. É uma daquelas coisas pré-fabricadas, com as perguntas feitas à medida para que apareçam os partidos de esquerda – sobretudo o PS e o Bloco – todos pintados de vermelho.

Diga-se de passagem que a categoria mais interessante é a “oposição ideologia de género”. Como terá sido formulada esta pergunta no famigerado questionário (que é quase certo que não existe)? Porque, o que é que se pretende dizer exactamente com oposição à ideologia de género? Trata-se de opor-se à existência de uma ideologia de género, no sentido em que existem demarcações claras entre os papéis do feminino e do masculino? Mas se assim for, a própria denominação “ideologia” fere de morte o sentido da negação, uma vez que se é ideológico, por definição, assenta na legitimação dissimulada – discursiva e simbolicamente – de relações de dominação. Afigura-se portanto que criticar a oposição à ideologia de género, significa apoiar a sustentação dessa mesma ideologia, qua ideologia. Ora isto significa que embora se saiba que as relações entre homens e mulheres são de dominação, escolhemos dissimulá-lo na crença da harmonia familiar. O certo é que o aceitamos enquanto ideologia!

Como não se entendem que critérios presidiram à tipologia, não admira que seja a tríade mais à direita que ganhe os favores da Federação Portuguesa pela Vida. Por exemplo, como se responde a uma questão que contenha a ideia de combate à prostituição? Como ela admite diversos sentidos, o mais conveniente para o efeito pretendido foi o que acabou por ser escolhido. Assim, o que se encontra subjacente ao combate à prostituição é na realidade a sua proibição. Neste sentido, apenas proibir a prostituição, como quer o Basta (e onde iriam os dirigentes do Benfica molhar o pincel depois das vitórias do glorioso?) seria combater a mesma, excluindo outras possíveis formas. Dar condições de salubridade, profilaxia, enquadramento social e económico, às prostitutas não é uma forma de combater os malefícios da prostituição? Por isso a pergunta deveria ser “proibição da prostituição” que é o que verdadeiramente se encontra dissimulado no nome da categoria escolhida.

Esta digressão sobre as duplicidades semânticas dos sistemas categoriais que sempre se encontram subjacentes às tipologias é porventura um esforço desperdiçado naquilo que se trata de um descarado instrumento de propaganda eleitoral. E assim ficamos a saber que apesar das aproximações progressistas de alguns sectores da Igreja católica portuguesa, subsiste uma beatice empedernida, atávica, e com um indisfarçável fascínio pelas correntes de direita mais extrema. Esteja ela disfarçada pela defesa da vida ou pelos pastorinhos de Fátima.