As apps da dissonante estupidez

Peacock Releases Trailers for 'Brave New World,' 'The Capture” and Eight  Other Original Shows | Next TV

Portugal foi atingido por um nível de estupidez, em muitas instâncias completamente senil, cuja origem são as polémicas em torno do covid-19. A propósito do uso da app stay away covid passou-se da discussão sobre o uso obrigatório da mesma – naturalmente aberto à polémica e contestação – para o questionamento da sua utilidade.

Não há uma grande separação entre os maluquinhos que confrontaram recentemente o Presidente da República no Algarve, acusando-o de encobrir a maior conspiração de sempre que é supostamente o logro do covid-19, e tantos intelectuais e jornalistas (ou opinion makers) que vão botando palavrório por aí. Os textos de Pacheco Pereira e Clara Ferreira Alves – intelectuais que eu muito prezo – são disso exemplo. A histeria de Daniel Oliveira ou a idiotia de Henrique Raposo juntam-se à festa, partilhando do mesmo inconcebível primitivismo e timbre conspirativo.

O que me parece interessante sublinhar é que as apps de contact tracing foram desenvolvidas pelos governos para tranquilizar o pânico dos cidadãos. Foi em virtude do medo generalizado que se disseminou, sobretudo no sudoeste asiático – com países como Coreia do Sul, Singapura ou China à cabeça – que as apps foram fabricadas e promovidas junto das populações.

Basta ir à wikipedia para constatar que mais de cinquenta países já desenvolveram apps de contact tracing e que a stay away covid é uma late comer no cômputo das intervenções a nível mundial. Países ditatoriais como a Suíça ou a Dinamarca, ou mesmo a Austrália a Nova Zelândia e o Canadá, possuem apps de rastreio. O Brasil tem regiões inteiras com apps de rastreio, e só não tem um sistema global centralizado porque as dificuldades de instalar uma coisa semelhante num país gigantesco como este apresentam-se evidentes. Quem não tem apps são aqueles que não as podem ter: ou porque a população é demasiado miserável que não possui os dispositivos necessários em número funcional; ou porque as suas instituições são tão disfuncionais que não saberiam como gerir a informação. Por isso aparecem sub-representados na lista os países africanos, o médio oriente e a américa latina.

Nos vários países, ainda segundo a wikipedia, são em geral consórcios entre grandes companhias de high tec, laboratórios universitários e governos que estão a produzir as apps. É preciso um país de velhos do restelo como Portugal para batermos quase em uníssono numa solução inovadora instalada pelo INESC (embora não seja nenhuma novidade ao nível mundial).

A ideia segundo a qual estamos a dar poderes a obscuras organizações como nunca antes teríamos dado é igualmente absurda. Esses poderes há muito que já foram oferecidos, através da miríade de dispositivos de conexões e interconexões com que brincamos diariamente. Aliás, aplicativos como os contact tracing só são possíveis justamente porque já utilizamos tecnologia com esse nível de conectividade e de rastreamento em tempo real – e não o contrário.  

Uma coisa é contestar a obrigatoriedade da app, algo cuja discussão é sensata e oportuna. Outra coisa é dizer que a app é um sistema manipulador das nossas liberdades e recusar-se terminantemente a usá-la nessa premissa. Um número elevado de países possui apps em regime de voluntariado; outros, menos, fizeram com que o seu uso fosse obrigatório. Esta é uma escolha que nada tem a ver com a natureza ou objectivos da app, mas sim com a latitude da sua imposição. Acho importante separar os dois planos. Por um lado, é um desserviço ao país e à saúde pública atacar o uso da app. Por outro, é absolutamente possível apelar para o uso da app sem que esta seja obrigatória. A app pode até ter um conjunto de problemas que a tornam pouco efectiva no seu funcionamento. Agora fazer a antipedagogia ao uso da app é que me parece assassino.

Tão assassino como por exemplo em nome da liberdade rejeitar o uso do preservativo quando se está infectado com sida. Houve tempos em que ninguém teria dúvidas em acusar de assassino quem assim agisse. Tempos mais simples sem dúvida.

O hedonismo e a regra

Jovens divertindo-se na Universidade de Lisboa (há quatro dias atrás)

As invocações de uma qualquer sacrossanta liberdade para o não acatamento das regras para a contenção da disseminação do covid-19 são tão absurdas que nos remetem para um paraíso de estúpidos hedonistas irresponsáveis. Assim mesmo, com três adjectivos. Qualquer regra coarcta a liberdade. Por isso é que é uma regra, ou seja estabelece um padrão, e deixa este de estar sujeito à mais absoluta contingência. Mas se de facto a liberdade individual fosse um bom argumento, poderia este ser invocado para qualquer situação. Por exemplo, não me apetece pagar impostos porque atenta contra a minha liberdade; ou, não pago as compras do supermercado porque atenta contra a minha liberdade; ou, não respeito o código da estrada porque atenta contra a minha liberdade, etc… Em todas estas instâncias a velha distinção entre liberdade positiva e negativa proposta por Berlin pode ser utilizada. A segunda indicando a ausência de obstáculos a que eu faça aquilo que me aprouver; a primeira, implicando a presença de controlos para que eu faça aquilo que é útil e necessário. Grosso modo, a liberdade negativa tem a ver com o plano meramente individual; a positiva é do domínio do colectivo.  

Porém, o que eu gostaria de sublinhar é o facto de o hedonismo de alguns não poder colocar em risco a vida de muitos. Os jovens, num espectáculo de displicência e desrespeito, têm lidado com o covid como se fosse uma coisa que acontece aos outros. E, em certa medida, têm razão: o covid não os ataca fatalmente ou sequer os depaupera. A eles, não. Mas o facto de se comportarem como superspreaders afecta todos os outros. E nesse sentido, interfere na liberdade dos restantes. O que faz deste comportamento um acto imoral, e dos jovens os fautores da imoralidade.

Outros grupos ainda, há medida dos corporativismos bem temperados que por cá temos, quiseram dar um ar da sua graça mediante a exigência do endurecimento de medidas de contenção do covid. Assim, a polícia, perante o endurecimento das medidas, veio logo dizer que era mais trabalho e que eles coitados, sobrecarregados de trabalho que já andavam, não podiam fazer aquilo que lhes compete. Como eu, desde que desapareceu o anterior estado de calamidade, nunca mais vi um polícia na rua, pergunto-me o que andam eles a fazer?

Outro corpo que veio imediatamente queixar-se foi os representantes dos médicos, através da sua ordem e sindicatos. Não tenho qualquer dúvida que os profissionais de saúde – médicos, enfermeiros, auxiliares de saúde – dão couro e cabelo para salvar vidas. Mas não consigo ver uma atitude construtiva, colaboradora, sustentadora, da parte das ordens profissionais que os representam. Como se se demitissem de fazer aquilo que deles se espera, colocando-se simplesmente na posição de cassandras a apontar o dedo ao Estado. Ora, da ordem dos engenheiros eu espero que fiscalize as condições para construir pontes. Porque não esperar da ordem dos médicos orientações precisas para combater o covid-19? Por que razão se queixam sempre estes senhores de não ter diretrizes claras do Estado quando deviam ser eles a coautorar as mesmas?

Depois a sua hipocrisia não tem limites. Quando o governo propôs aumentar 10% o número de vagas nas faculdades de medicina, saíram os reitores das universidades de medicina a terreiro, quais buldogues a espumarem da boca, a dizer que era lançar médicos no desemprego. A ordem nem tugiu nem mugiu. Mas passa a vida a dizer que não há recursos humanos no SNS. Então onde é que ficamos?

Nós conhecemos bem os ínvios caminhos da medicina em Portugal. Os médicos não estão nos seus lugares porque geralmente estão noutros a sacarem melhor pecúlio. Um médico com nome na praça, inicia o seu dia a fazer uma perninha no hospital da sua localidade, à tarde vai para a clínica privada e ao crepúsculo ainda dá umas consultas no seu consultório pessoal. Ganha-se muito dinheiro nesta transumância, e a concorrência não é bem-vinda.

Em Portugal há um vício (o que substituiria a frase da Agustina: O que é a alma? – A alma é um vício!). Esse vício resulta de uma acentuada esquizofrenia nacional. Há gente que está metade do dia a invectivar o Estado por este se imiscuir na vida dos cidadãos, para na outra metade berrar “onde anda o Estado, que não cumpre com as suas obrigações!!?”. Gente que se levanta a dizer que o Estado não deve interferir nos comportamentos individuais, para se deitar a perorar que o SNS não tem recursos. Gente que considera o Estado o papão da actualidade, e que depois passa a vida a pedir meças aos seus agentes e programas.

Têm de se decidir de uma vez por todas. A primeira fase da pandemia mostrou que o privado era inútil quando se trata de proteger o colectivo e não os interesses individuais de cada um (passe o pleonasmo, mas que considero necessário). A inação dos serviços de saúde privados foram um testamento ao chacun que se amanhe da cartilha liberal. Sem o Estado, sem as imposições deste, a coisa teria perdido as estribeiras. Passado este impacto, ninguém aprendeu nada. As pessoas mostraram à saciedade o seu nível de irresponsabilidade. Festas, ajuntamentos, comportamentos de risco – de tudo um pouco ocorreu sob a premissa de que isto não fazia mal a ninguém. Trump enunciou-o melhor que qualquer outro – Não deixem o covid dominar as vossas vidas! Pela mesma lógica não teríamos deixado o sida dominar as nossas vidas e continuaríamos a usar e abusar dos comportamentos de risco que disseminam o vírus. Custa muito perceber que o princípio é o mesmo?   

Pedro e o lobo

The Boy Who Cried Wolf (Flip-Up Fairy Tales): Jess Stockham: 9781846433689:  Amazon.com: Books

Vivemos tempos perigosos para andar a brincar às virgens ofendidas. Declarações tonitruantes dos vates partidarizados cá da casa, como João Miguel Tavares, sobre o regime estar podre, são pasto onde medra o melhor alimento para a extrema-direita. Histerias em torno da modificação da lei de contratação pública apelando a todos os santos para travar uma onda de corrupção que se prepara, são contraproducentes e fornecedoras de paragonas para o próximo comício do dr. Ventura. Até Ana Gomes caiu na patetice de sair a terreiro a dizer que com ela a lei era intocável.

Há duas coisas significativas nesta reacção. A primeira é, como assinalado anteriormente, o facto de ser assim que a extrema-direita chega ao poder ou perto dele. Gritar corrupção e apontar o Estado é o expediente mais eficaz da actualidade. Se não, veja-se Trump e como a sua campanha contra os democratas foi urdida em torno da “drenagem do pântano” estatal, ou Bolsonaro que, com a ajuda do poder judicial, deu um golpe de Estado que alijou um projecto progressista de mais de uma década para dar lugar ao plano mais retrógrado e autoritário desde a ditadura de 68. Grite-se corrupção e as hordas de moralistas de fim de semana acorrem como os fiéis a meca. Grite-se corrupção e os paspalhos hipócritas que dizem não querer pagar impostos, aparecem a correr a invectivar de gatunos os políticos. Grite-se corrupção, e aquilo que é a pobreza de ideias e de programas da parte da extrema-direita ganha uma linguagem audível e cativante para os carneiros.

A segunda é que só com doses concentradas de hipocrisia e falso pudor se pode achar que os processos do tribunal de contas não são lentos, ineficazes e muitas vezes inúteis. Sei do que falo. Um familiar meu trabalhou mais de 30 anos na instituição – a minha mãe. O tribunal de contas parece uma organização saída dum pesadelo kafkiano; e dado que a mente kafkiana no seu estado normal já é tingida de pesadelos, imagine-se o que será um pesadelo kafkiano. Entrar nos arquivos do tribunal de contas era como entrar num cenário do Harry Potter mas sem o glamour vitoriano do segundo. Os processos arrastam-se porque os empregados, presos por teias de aranha e parafina aos lugares, se arrastam, numa rotina que leva qualquer um ao desespero. As guerras internas, contrariamente ao que se esperaria de uma instituição que zela pelas contas nacionais, proliferam, entre gabinetes e magistraturas. Por isso o tribunal de contas é tudo menos a imagem de santidade acima do humano que se quer pregar-lhe.

A análise deve ser a inversa. E se a morosidade, disfarçada de escrutínio apurado, o cumprimento escrupuloso da burocracia, disfarçado de transparência, fossem na realidade os mecanismos que mais facilitam os buracos, as imprevidências, os desajustes, e em última análise, os actos corruptos? E se aligeirar estes processos, ao contrário do que se apregoa, resultasse em maior eficácia no controlo e escrutínio das contas públicas?

Portugal é iniquamente desequilibrado, não porque nos encontramos infestados de corrupção, mas porque nos encontramos sustentados em corporativismos. Os nossos corpos não são, contudo, fermentadores de vida cívica, como nas observações patéticas de Toqueville, mas antes procuradores de status quo, uma combinação entre elites intocáveis e privilégios adquiridos que nenhuma democracia conseguirá demover. Podemos achar que foi coincidência, ou não (eu não acho) a substituição do presidente do tribunal de contas. Porém, a sua reacção imediata de alertar para perigos latentes que espreitariam por detrás da flexibilização da lei é o retrato cuspido deste torpor do status quo. A primeira coisa que ocorreu ao ex-presidente da instituição quando confrontado com a possibilidade de agilizar os processos de contratação pública foi, aqui del rei, que vou perder o poder!

Só quem não vive em Portugal pode achar que a burocracia da contratação pública, os seus procedimentos contorcidos, as suas ínvias rotas para chegar algum lado, protegem o erário do compadrio e da traquibérnia.  Toda gente sabe que quem quer por o seu favorito num determinado lugar, ou conceder uma benesse a um qualquer grupo ou organização o faz, ajustando as aparentemente draconianas regras aos seus desideratos. O problema é que apesar da mentira que aqui se acoita, da ilusão de uma transparência traficada, a morosidade dos processos acaba com a maioria das tentativas e dos empreendimentos. Ora estando nós na iminência de receber uma pipa de massa que precisamos de executar com celeridade, o que ocorre à sociedade portuguesa é gritar lobo porque os procedimentos vão ser agilizados? Será necessário recordar que no ano da graça de nosso senhor de 2019 apenas 30% dos fundos comunitários foram executados?

Depois há esta ideia, tão ao jeito dos trapaceiros de extrema-direita segundo a qual o Estado é um criminoso sem apelo nem agravo, enquanto os privados fazem parte de um território edénico onde apenas reina a boa-vontade. Visão estúpida e contumaz. Leva-nos a memória aos idos tempos do cavaquistão onde proliferavam cursos profissionais por todo canto deste país. Não havia negociante de passamanarias que não tivesse enriquecido ao alugar uma sala e duas cadeiras e montar o seu curso profissional. Eles estenderam-se pelo país a uma velocidade virótica. Nada disso serviu para alguma coisa. Excepto para encher os bolsos de muita gente que afivelou o pecúlio da CEE aos seus empréstimos para casas e carros. Jorge Sampaio esclamaria que não entendia como num país pobre pudesse haver tanta ostentação. Ninguém entende… ou entende bem demais.  

A corrupção deste país é simples: olhe-se para o ranking de transferências para off shores. Aí, Portugal ocupa um honroso terceiro lugar – logo a seguir a Chipre e Malta. O dinheiro malbaratado, ilícito, que foge ao nosso país e, por conseguinte, às nossas vidas, não é o Estado que o retira. São os privados, através de esquemas fraudulentos desenhados por grandes escritórios de advogados. Esses mesmos que vieram afligidos berrar que a democracia estava em risco pela voz do seu bastonário.

Sim, é um país de corruptos. Mas estes não estão no Estado, nem é este culpado da sua venalidade.

Tomar a nuvem por Juno

O cão que fuma...: [O cão tabagista conversou com] Gabriel Mithá Ribeiro:  “Não basta ser um político notável para resistir. É necessário algo mais.  Bolsonaro tem esse algo mais que é difícil
Gabriel Mithá Ribeiro

Olhamos com demasiada concentração para André Ventura. E nesse olhar fixo perdemos o que se movimenta nos bastidores, as personagens que se deslocam nas sombras, as eminências pardas que sustentam Ventura. Elas aparecem de vários calibres e pendores. Há os homens de negócios que, como aqui referi, se reuniram para apresentar, tal festa de debutante, o dr. Ventura aos meios do dinheiro. E depois há os ideólogos, não necessariamente de extração aristocrática (da aristocracia do dinheiro, entenda-se), mas de todo o modo os cultores de uma linha ideológica que imprime um rumo político ao Chega. Aqui o retrato é tenebroso; e tem sido pouco abordado, quer pela comunicação social quer por quem sobre estas coisas exprime opinião.

Primeiro temos Mithá Ribeiro, nº 3 de Ventura, homem que escreveu “Um século de escombros. Pensar o futuro com os valores morais da direita” e que se diz vítima da censura de esquerda que pelos vistos impera no mercado livreiro. Mithá Ribeiro, em entrevista ao jornal viriato – uma publicação de extrema-direita que merece toda a atenção das pessoas que se preocupam – afirma que o seu livro foi preterido em relação “ao pensamento político e social de esquerda – por norma de qualidade intelectual duvidosa”. Não ficamos a saber muito mais sobre a justificação de tal libelo lançado contra a esquerda e as suas análises. Mas ficamos a saber que do alto da sua impoluta qualidade intelectual de extrema-direita, o autor considera que existe um “consenso social negativo mentiroso em torno de Donald Trump, Jair Bolsonaro, ou a Nova Direita Europeia”. E para mostrar que não fica apenas pelas boas intenções, dedica o seu livro a Trump, Bolsonaro, à Nova direita europeia e ao Povo de Israel, dizendo que estes “valem hoje como símbolos maiores de um ciclo que se está a iniciar de renovação civilizacional, que inclui a profunda renovação das nossas democracias”. Creio que quanto a renovação civilizacional, Mithá até acerta na mouche. Trump e Bolsonaro são responsáveis por garantir o lugar no pódio dos contágios e das mortes por covid-19 – o primeiro e terceiro lugar, respectivamente – aos seus cidadãos. E como a tendência não parece abrandar, podemos estar de facto mediante uma “renovação civilizacional”. Já Bolsonaro poderia ser responsabilizado por matar lentamente o pulmão do planeta, atirando para cima dos índios a culpa dos incêndios, mostrando assim o grande homem de Estado que é.

Não tenho qualquer dúvida que Trump e Bolsonaro se encontram a refundar as nossas democracias, sobretudo quando este trabalho visa aproximá-las cada vez mais de ditaduras ou autocracias. Quanto a estes dois aspectos é difícil discordar de Mithá Ribeiro.

O mais interessante, porém, é a visão que Mithá tem daquilo que designa o século dos escombros cujo ciclo finalizaria, segundo a sua leitura, com a ascensão messiânica de Trump e Bolsonaro. É que segundo Mithá, o século que os precedeu foi infectado pelo vírus soviético e pode ser interpretado como tendo tido uma ruptura em 1917 cuja cesura só virá a acontecer com os tempos actuais e com o recrudescimento da nova direita.

Viva!, a qualidade intelectual do nosso autor de direita. Nem uma palavra sobre o nazismo, os fascismos mundiais, as guerras de descolonização, as mortandades causadas pela primeira e segunda guerras, geradas por aquilo que Mithá clama ser “a autonomia identitária dos povos, da sua alma colectiva”. Foi justamente esta “alma colectiva” que matou milhões durante o século XX. Nem uma palavra é dita sobre a prática de limpeza étnica que conheceu o seu apogeu durante o século passado. A violência do extermínio nazi, acompanhada pela meticulosidade estaliniana, na busca, arrolamento e morte de tudo o que colocasse em causa a pureza étnica, não conheceram paralelo em épocas anteriores. Aliás, o silêncio de Mithá sobre o domínio nazi-fascista da Europa e a perseguição aos judeus quadra mal com a sua admiração pelo “Povo de Israel”, uma das esperanças que a la Reagan – a ideia messiânica de uma renovação civilizacional liderada por Israel era sustentada por Reagan – liderará esta renascença.

 Muito estalinianamente, Mithá apaga 90% do século XX para provar a sua tese absurda do domínio soviético do mundo. Para Mithá há um contínuo entre a mancha soviética de 1917, alastrando pelo mundo, até à salvação do mesmo por Trump.

O título do livro é uma óbvia glosa a esse monumento da história intitulado “A Era dos Extremos” do historiador marxista Hobsbawm. Como grande historiador que é, Hobsbawm não tem a tentação de ceder às suas convicções políticas para reescrever a história, mas Mithá está acima da “duvidosa qualidade intelectual da esquerda” e oferece-nos um relato impoluto, objectivo, digno da melhor tradição historiográfica mundial.

Mithá surge assim como o complemento ideológico da bazófia de Ventura. Se Ventura necessita de aparecer às massas como o boçal excitado que, à maneira portuguesa, irá “drenar o pântano”, Mithá é a sua articulação ideológica, cerzindo com programática precisão política a gritaria de Ventura. Não que Ventura não possua estofo intelectual para as atoardas de Mithá – tem-no de sobra. Só que mostrar-se ao mundo como o ideólogo da extrema-direita que é, e não como cristo a correr à bordoada os vendilhões do templo, é contraproducente em matéria de eleitoralismo.

Tenho uma lágrima no canto do olho…

Expresso | Ventura só altera um nome e lista da direção volta a ser chumbada  por “votos de protesto”. Mas à terceira acaba por passar
foto retirada daqui

É patético como é que o homem que invectiva os candidatos rivais de “candidatos ciganos”, que berra em comícios que Portugal não é racista e que quer os portugueses a festejarem orgulhosamente a sua pátria, comece a chorar porque a sua querida lista apresentada a sufrágio foi rejeitada duas vezes. Sim, esse homem é André Ventura; e o relatado ocorreu este fim de semana durante a convenção do Chega.

A imagem de Ventura com uma lágrima ao canto do olho quando estava prestes a descer do pedestal da presidência do Chega faria corar de vergonha os velhos capos da extrema-direita como Pinochet, Franco ou Mussolini. Ninguém imagina estes guerreiros negros a choramingarem porque a sua lista partidária foi rejeitada.

Entre as virtudes másculas e a extrema-direita sempre houve uma afinidade electiva. Sempre? Até recentemente. O que faz da extrema-direita actual um híbrido, ou um palco de enganos, ou uma ópera bufa. Não lhe retiremos um mínimo de sal da sua perigosidade. Apesar dos seus actores de opereta, quando o poder lhes cai no colo as tendências perversas de manipulação autocrática emergem como dançarinas do ventre sobre uma lápide – a da democracia.

Mas se olharmos bem os desenvolvimentos recentes, encontramos um campo de paradoxos na vida política da extrema-direita mundial. Haider, o mais convincente dos políticos de extrema-direita e aquele que iniciou o processo de abrir o espaço político da mesma na Europa do pós-guerra revelou-se, após a sua morte, homossexual. O defensor dos valores católicos tradicionais austríacos – país de maioria católica –, do Iodelei, e da Europa para os europeus, tinha afinal um namorado, por sinal bem mais jovem do que ele que apenas foi revelado após o acidente que vitimou mortalmente Jorg Haider.  

Pym Fortuyn, abertamente homossexual, casava com Berlusconi e Fini, abertamente homofóbicos, nas plataformas internacionais da extrema-direita, designadamente no partido com assento no parlamento europeu que acolhe estas forças. Um partido cujos líderes nacionais se apresentam na sua maioria contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Quem melhor captou este lado “frágil” de André Ventura foi Ricardo Araújo Pereira que na sua impagável rábula de Ventura e a coelha mostra aquilo que Ventura é na realidade: a imagem do homem a chorar porque a sua lista perdeu as eleições.

Não me interpretem mal. De modo algum pretendo defender que os homens não choram ou que vem mal ao mundo por se ser homossexual e líder partidário. A direita, e sobretudo a extrema, é que parece assim acreditar; senão veja-se o caso de Paulo Portas que nunca assumiu a sua homossexualidade, pouco menos que consensual dentro do partido que se autointitula de democrata cristão.

 O que pretendo sublinhar (e que tenho feito em inúmeros posts anteriores), é que estes protagonistas da nova extrema-direita são de mentira. Oportunistas, sem qualquer ética – nem política nem individual – mentirosos compulsivos, fascinados com a própria imagem que criam de galvanizadores do público, estes tipos são uma fachada.

Não significa, bem pelo contrário, que nas suas hostes não se acoitem as piores tendências militaristas, violentas, antidemocráticas, porque é lá mesmo que elas se encontram. O que cria um paradoxo ainda mais singular: como é que gente dos hammer skins se revê na lágrima ao canto do olho de Ventura?

O menino Ventura continuará a envergar a sua persona, invectivando, menorizando, achincalhando os mais pobres e mais fracos – em nome da pátria honrada, claro está! Aliás como fez logo que a sua lista foi confirmada. Regressou à bravata, à histeria e…enfim, à mentira. Mas nós recordaremos sempre o momento em que o líder Ventura choramingou porque o seu partido, por momentos, deixou de o querer.

A verdade da mentira

Trump-Woodward interview: 'I wanted to always play it down'
retirado daqui: https://www.kgns.tv/video/2020/09/09/trump-woodward-interview-i-wanted-always-play-it-down/

O que mais surpreende na gravação da conversa entre Bob Woodward e Trump divulgada recentemente não é que o segundo tenha mentido aos americanos a respeito do covid – Trump passa a vida a mentir aos americanos, por isso, nada de novo aí. O que mais impressiona é como Trump é articulado, lógico, coerente com as questões que lhe são colocadas, e isto é válido quer para o tema do covid quer para o do racismo. O que surpreende na entrevista é que Trump poderia ser aquilo que ali se mostra e não o palhaço arrogante, insensível, mal-educado, e boçal com que passeia a sua persona em público. Qual dos trumps é o real? Não restam dúvidas que ambos o são. Isto porque o problema actual da política é a incapacidade de mostrar a sua verdade.

Em 2014, Obama deu uma entrevista a Jack Galiafianakis para o seu hiper-sucesso between two ferns. A premissa do programa é simular que se está a fazer entrevistas fundamentalmente ofensivas ao entrevistado. Por lá passaram todas as estrelas de cinema; e perante o êxito que o entre dois fenos granjeara, Obama decidiu que chegara a vez dele de ser entrevistado. Tudo na entrevista é simulado: desde o desagrado de Obama com as perguntas de Jack – obviamente combinadas – até à surpresa do presidente com o facto de o programa se encontrar a ser gravado na casa branca – cai o pano negro e o que se encontra por detrás é a ala diplomática da casa branca.

Estes dois exemplos mostram que a política joga com os mesmos dispositivos da sociedade dos reality shows. Não quero reincidir na retórica da sociedade do espectáculo porque creio que não estamos mais numa sociedade do espectáculo. Essa era a do legado hollywoodiano dos grandes cenários e melodramas. A nossa é a da falsa proximidade. O reality show provoca uma identificação fácil com o que lá se passa porque, como o nome indica, encena uma realidade que pretende ser vista como tal.

Deste ponto de vista não há diferença entre a entrevista de Obama e a gravação de Trump. São ambas falsificações. Ora se a política, como queria Arendt, é o domínio da verdade (embora nunca tal tivesse acontecido, e ela continuasse a insistir) a pós-política não é a infestação por fake news – é a indistinção entre o que é encenado e o que é verdade.

Mas a política, contra Arendt, sempre foi o lugar da encenação. Os grandes líderes, imperadores, czares, reis, faraós… sempre encenaram o espectáculo do poder e com ele a política. Só que esta encenação construía distância. Os cortejos reais mostravam que o rei era algo acima do humano, em proximidade com deus (mesmo que com o devido limite) e colocavam em evidência o poder que aquele ser, aparentemente humano, poderia exercitar sobre o seu povo caso quisesse. A alusão aqui é aos dois corpos do rei de Kantorowicz. Se um dos corpos era mortal, o outro incarnado no reinado sobre o seu povo, aproximava-se de cristo, segundo os pressupostos da teologia cristã da imortalidade da alma. A relação actual é exactamente a inversa. O poder procura aproximar-se do corpo mortal, da banalidade do homem comum. Procura com ele identificar-se e quer que este lhe devolva a identificação. Trump, como revelado pela gravação com Bob Woodward, finge a maior parte do tempo que é igual à base que o apoia: boçal, preconceituoso, ignorante, etc.

Das duas coisas que Trump admite nessa gravação, a do perigo que representava o covid, nem é a que mais impressiona. É o reconhecimento da existência de racismo, da sociedade americana como racista, algo que Trump sempre negou em público. Se o argumento segundo o qual Trump queria atenuar o pânico e por isso mentiu aos americanos sobre a gravidade do covid ainda pode colher simpatizantes, mais complicado é explicar o porquê da sistemática negação do racismo norte-americano em público. Aqui não há pânico a aplacar.

Um benfica à benfica!

Jesus perde com Abel Ferreira e Benfica está fora da Liga dos Campeões -  Liga dos Campeões - SAPO Desporto
imagem retirada daqui

Queria escrever sobre outra coisa. Queria escrever sobre a verdade em política no rescaldo da revelação das gravações entre Trump e Bob Woodward (para o próximo post). Mas o desaire benfiquista de ontem, compele-me a escrever sobre o desaire benfiquista de sempre.

No final de muitos milhões gastos, o que se viu ontem foi consternador. Joaquim Rita, perto de cair num pranto choroso, afiançava que o benfica da primeira parte tinha jogado muito bem; 45 mns à benfica!, como queria a propaganda que andei a receber durante um mês. Não vi nada disso. Vi um benfica que foi medíocre na primeira parte e um descalabro na segunda. Passou de mau a muito mau. E esta coisa de o benfica não aguentar mais de 45 mns em campo, é algo que vinha da recta final do tempo de Bruno Lage. Com razão assim é: o benfica apresentou exactamente os mesmos vícios e insuficiências que levaram ao despedimento de Lage e à ressuscitação de Jesus. Seferovic continuou a ser um ponta-de-lança medíocre, sem estamina nem categoria; Tarabt continuou a oscilar entre passes de génio e a estupidez mais completa na condução de uma bola; André Almeida continuou a não subir à linha para centrar para dentro da área adversária; Vinícius continuou a fazer parvoíces impensáveis à frente da baliza; Grimaldo continuou a fazer das tripas coração sem qualquer apoio à sua esquerda; e Pizzi, colocado à direita, desapareceu em combate.

Tanta tinta, tanta paragona, tanto quilómetro de frases feitas e lugares-comuns para um resultado tão medíocre.

Este é o benfica tal e qual o conhecíamos na fase final de Lage. A aposta maravilha trazida a preço de panama papers dessa glória da segunda divisão espanhola chamada Almeria, nem se viu. E quando apareceu foi para enviar um balão para dentro da área quando o que se aconselhava era passá-la rasteira para as costas dos centrais: precisamente aquilo que foi feito no primeiro golo grego.

Nada no benfica é bonito. Os processos são idiotas. Não existe qualquer pragmatismo na abordagem aos lances. A zona de construção é uma piolheira de egos individuais… Acho que sobretudo foi essa a ideia que ficou deste benfica de Jesus: uma equipa sem disciplina, dada a arroubos momentâneos dos seus jogadores – aquilo que afinal já existia… antes de cristo.

Nem tudo foi desilusão. Foi bom voltarmos aquelas frases grandiloquentes de Jesus, cheias de empáfia e de deslumbramento irrazoável, tal como o “acredito que podíamos ter chegado longe”. Eu não. E acho mesmo que com aquilo que vi ontem, o Krasnodar na Rússia iria massacrar este benfica de brinquedo. E este desfecho teve quase a justiça poética de uma opereta, com zivkovic, depois de ter passado meses a fio a aquecer o banco em lisboa, a catapultar o PAOK para a liga dos campeões.

Começamos bem. Não vale a pena dizer que foi azar. Azar é quando se joga bem e nos acontece uma infelicidade. Este benfica não convence ninguém. E a gente pergunta-se, mas afinal que foi feito de tanto milhão, de tanta preparação, de tanto planeamento para a inauguração duma nova era, se o que ontem foi visto foi decalcado do que já lá estava a apodrecer?

As vicissitudes de uma candidatura necessária

Ana Gomes sente “vergonha e amargura” perante voto do PS | Esquerda

É bom que Ana Gomes se candidate. Aquilo que se prenunciava como um passeio à beira mar entre o professor Marcelo e Ventura, terá doravante umas pedrinhas irritantes a macerar os pezinhos. Não que Ana Gomes tenha alguma possibilidade de fazer sombra a Marcelo ou Ventura – não lhes irá roubar muitos votos. Mas tem pelo menos a virtude de interromper ao centro aquilo que se anunciava como sendo uma serena lua de mel entre Marcelo e Ventura. Terá também, espero, a capacidade de denunciar Ventura, as suas mentiras e postura padreca hipócrita, mostrando quem ele realmente é, algo que Marcelo nunca faria.

Há quem diga que Ana Gomes irá dividir o voto de protesto. É uma confusão conveniente, a de enquadrar os votos em Ventura com o protesto. Este não é um voto de protesto: é um voto conservador, neoliberal, abismado com o egoísmo pessoal, e, à falta de melhor palavra, reacionário. Chamar a isto voto de protesto, é o mesmo que dizer que os enaltecimentos à ditadura militar brasileira de 64 verbalizados por Bolsonaro representam o protesto do povo brasileiro. Duas ratoeiras da ignorância, ou do laxismo, dos comentadores políticos que ajudam a eleger os venturas desta terra: a ideia do antissistema e a de que mobilizam o voto de protesto. São duas falácias, mas que reverberam intensamente na marca política do candidato.

Contudo, Ana Gomes capitaliza um voto de protesto que cinde o próprio PS. A deputada não teve papas na língua relativamente ao Novo Banco; não ficou serenamente a assistir aos desvarios de Mário Centeno; e sobretudo não se identifica minimamente com os caciquismos locais do seu próprio partido. E isto cria mais problemas ao PS do que aqueles que resolve.

De todo modo, é importante que surja Ana Gomes. Com uma direita a oferecer o púlpito a Ventura – não se escuta uma crítica nem da parte de Rio nem do Chico do CDS ao candidato populista – uma esquerda desacreditada por ser o demónio comunista (veremos se ventura não utilizará o modus operandi dos seus ídolos Trump e Bolsonaro para quem tudo o que se lhes oponha é germe socialista), Ana Gomes pode ter a capacidade de recentrar o debate. A tarefa, todavia, não lhe vai ser leve.

Primeiro, porque encontra-se a disputar os votos do centro com Marcelo. E para isso terá que atacar Marcelo. Existem apenas duas formas de o fazer. Ou denunciar a sua aliança tácita com o governo de Costa – espaço de gritaria para venturas e quejandos, mas definitivamente errado para Ana Gomes -, ou denunciar a inclinação de direita de Marcelo, mostrando que na realidade ele é o candidato conservador por excelência.

Ambas as tácticas são perigosíssimas. Com o carisma de Marcelo, atacá-lo equivale a profanar um objecto sagrado. Os ataques a Marcelo que não sejam feitos sob o pressuposto do anticomunismo manipulativo saldar-se-ão em pedradas directas no PS. E essas estará lá Ventura para as arremeter. Por outro lado, alienar Marcelo não é bom para uma futura convivência entre o mais que previsível próximo presidente e o governo Costa. E mais grave, corolário da anterior, significa alienar o governo de Costa porque este sempre prestou homenagem a Marcelo.

O que resta então a Ana Gomes?  Pouco. O seu espaço político está à partida consumido. Os ataques a Marcelo apenas possuem legitimidade se vindos da esquerda à esquerda do PS… ou da direita. Porém, a direita está ciente, se exceptuarmos o estilo incendiário do autoritário ventura, que atacar Marcelo lhe pode ser desfavorável. Por isso fará dele o seu candidato natural. O que lhe coloca um paradoxo: como pode o nosso candidato ter coabitado tão alegremente com o nosso rival político? Marcelo será incensado dentro do pressuposto de que apenas pretendeu manter os equilíbrios institucionais e evitar uma crise política, ou seja, o psd e o cds deixarão muito capciosamente o terreno do assassinato político para o desbocado Ventura. O mesmo é dizer – deixá-lo fazer o trabalho sujo.

Assim sendo, Ana Gomes irá fundamentalmente discutir votos com Marisa Matias. Lembram-se de Alegre em 2006 e como este arrumou com Mário Soares?  

Pior, Avante, marche [seguindo a tradução do Worstward Ho de Samuel Becket]

São Pedro do Estoril, sexta feira dia 4/09/2020 ao final do dia

A Festa do Avante! O que foi feito com a festa do Avante não prenuncia nada de bom. Com efeito, é assim que se constroem cavalos de Tróia – e este a direita cavalgou até ao sol poente.

A quinta da atalaia possui 30 hectares. O limite imposto pela DGS foi de aproximadamente 16.500 pessoas. Uma praia da Costa da Caparica ou da linha de Cascais leva com isso facilmente num dia. Com a diferença de que não há máscaras nas níveas areias da outra-banda.

A fotografia que encima este post é da praia de S. João do Estoril, perto das 19h de sexta feira. Não vi por lá piquetes da JSD, nem cartazes do Chega, nem comentário do Chicão, ou do professor Ventura, ou de Rio. Por aí, não se pode ir: ninguém quer prejudicar os empresários do turismo. Mas bastava, por exemplo, e numa outra latitude, darem uma voltinha no barco que leva os rebanhos para a ilha de Tavira para constatarem o óbvio: milhares de pessoas carregadas por dia para o ilhéu e em alegre convivência proxémica.

Para além disso, esta histeria já fora ensaiada com o 25 de Abril. Lembram-se quando Ventura concitava à revolução nas redes sociais por causa da comemoração do 25 de Abril? Como é que a memória pode ser tão curta, e tão equivocamente medíocre que tenhamos assistido a um bando de ressabiados telegénicos a dizerem as coisas mais absurdas sobre a festa do Avante?  Se nos lembrarmos do 25 de Abril, aconteceram as comemorações e não me parece que tenha sido pela ocorrência que os surtos de casos começaram a disseminar-se em Lisboa.

Politicamente, pode ter custado caro aos comunistas terem feito a festa. Não porque algo de extraordinário dela tenha resultado – na verdade, como aqui já mostrei, os atropelos às regras são constantes e disseminados noutras paragens -, mas porque este é o tipo de coisas que o populismo gosta de agitar. Veja-se o correio da manha: não houve dia em que as suas páginas não fossem devidamente enfeitadas por antigas fotografias do Avante onde se vêem pessoas aos magotes, sem qualquer distância social, sem máscaras – ou seja, um cenário em tudo diferente daquele que acabou por se verificar. Mas como se a invocação do passado não fosse suficientemente ressonante, uma fotografia de uns desgraçados próximos uns dos outros serviu de capa do CM devidamente intitulada “Primeiro ajuntamento…”, como se anunciassem muitos mais, numa cadência catastrófica. Significa, no entanto, que o PCP deveria ter sido mais judicioso e adiado a festa. Não somente esta foi um fiasco – quando comparado com os outros anos, não resta dúvida disso – como fazê-la nesta altura era receita para o desastre. Bem sei que, vindo o inverno a festa do Avante torna-se impraticável. Porém, assim como tanta coisa foi adiada, a organização do Avante poderia ter escolhido melhor timing.  

Há muitos anos que não vou à festa do Avante. Porém, se recordação guardo, é que dificilmente se encontra numa celebração desta envergadura um sentimento de solidariedade, de pertença comunitária, de fazer parte de um todo maior do que nós próprios, como aquele que se experimenta no Avante. Então, mas não é a mesma coisa que nos concertos e nos estádios de futebol? Não. A sensação é em tudo diferente; diria mesmo incomensurável por relação aos outros dois exemplos. Os concertos não produzem nenhum sentimento de solidariedade. Se alguma coisa, multiplicam solipsismos, envergados numa relação narcísica entre espectador e músico(s). Os estádios podem oferecer a ressonância da pertença, mas é um sentimento tribal, na medida em que o que se estabelece num estádio é sempre uma relação de rivalidade, que pode inclusivamente descambar em violência.

Por isso, não – o sentimento da festa do Avante não é replicável por estes outros dois momentos de ajuntamento. O que faz o Avante produzir esta sensação, posso especular, são pelo menos dois factores. Um primeiro, é a sensação de que se ingressa numa festa cuja intenção é mudar o mundo – para melhor, para mais justo, para mais equilibrado. Independentemente de existir ou não correspondência entre o desenrolar histórico e este desiderato, o sentimento persiste. O segundo, é uma míni-representação de Portugal que ali se nos depara, com barracas de todas as regiões do país, a apresentarem as suas comidas regionais; e se bem que isso possa ser acolhido criticamente como decorrência de um serôdio nacionalismo, é também o espírito de congregação que ali se institui. Quer queiramos quer não, os limites culturais que nos são reconhecíveis coincidem com as fronteiras do país. A sua representação condensada num espaço gera um sentimento de unidade que não se obtém noutros cenários de proximidade.

Decorrente disto e mais algumas outras coisas, foi pena o que fizeram à festa do Avante. Foi consternador ver o seu espírito ser esmagado por baixo das botas cardadas da hipocrisia da juventude de direita, dos comentadores arrolados ao poder que se reconstitui nas sombras – e veja-se como um personagem de má memória, o jornalista António Carneiro Jacinto, retoma a ribalta -, da jovem estrela do cataventismo Joana Amaral Dias, a acertar agulhas com a linha do correio da manha… Foi tudo deplorável. Curiosamente, ninguém teceu os mesmos comentários sobre os comícios-jantaradas do professor Ventura, esses sim, sem qualquer respeito pelas regras de distanciamento social, e a juntarem rebanhos de grunhos que consideram que o covid-19 é uma conspiração socialista para retirar as liberdades individuais aos cidadãos. Sobre isso, nem um pio.  

Lá se fez a festa do Avante, como se tinha comemorado o 25 de Abril, e ninguém deu por nada, nem se sentiu minimamente afectado. A razão é simples: foi uma construção do princípio ao fim – um pânico manipulado pela comunicação social sem nenhuma aderência à realidade. Mas foi também um acontecimento muito mal gerido pelo próprio PCP que mais do que nunca deveria ter vindo a terreiro esclarecer sobre as medidas de segurança que então lá se preparavam que, de acordo com a boa organização dos comunistas, parecem ter sido cumpridas escrupulosamente a julgar pelas imagens que nos foram chegando.

Era bom que, doravante, estes senhores tão incomodados com os ajuntamentos no Avante fossem de facto zelar pela crítica dos verdadeiros lugares e práticas perigosos. Isso sim: seria fazer serviço público.

Já cheira a mofo outra vez…

Manifesto contra disciplina de Cidadania junta Passos, Cavaco e Barreto

fotografia retirada daqui

O discurso mofento, aconchegado pela naftalina dos velhos armários, saiu novamente a espairecer e passeia-se agora por aí impante ganhando alforria de meditação séria. O artigo de Miguel Sousa Tavares no Expresso é o exemplo acabado desse espraiar-se, do espraiar-se do mofo, da naftalina, do cheiro a mortos e a éter. O outro, um cadáver esquisito, parafraseando o grande poeta, chama-se Manifesto contra a Educação para a cidadania.

É de facto uma coincidência infeliz que o último trecho da corrida do governo PS em Portugal tenha esbarrado com a persistência do covid, e com ela, a desgraça e desestruturação.

Este discurso, embalsamado recentemente, estava reduzido à sua expressão receosa e alienada em face das condições sociais e económicas que entretanto se obtiveram. Mas eis que chega o covid, a crise alastra-se, e com ela os tenores da reforma do estado, da desgraça da dívida pública e do colapso apocalíptico que nos espera a todos regressam com fanfarra e comoção.

Facto: as forças reorganizam-se. Não é apenas o texto de MST a respigar os temas mais caros à direita antes do governo da geringonça – reduções nos salários e pessoal da função pública, o “vivermos acima das nossas possibilidades” eufemizado através doutras formulações, ou o Estado comedor insaciável – é também o regresso dum conservadorismo beato e anacrónico à esfera pública nacional.

E quanto a isso, nada poderia vir mais a preceito do que o manifesto papa-missas dos monos Cavaquistas e Passistas, tudo devidamente ungido com a bênção da santa-madre igreja.

A iniciativa liberal não quer ver os seus rebentos serem sujeitos a lavagens cerebrais marxistas e esquerdistas que evidentemente se acoitam sob o manto tecnicista do programa da disciplina. E mesmo os paizinhos, a quem obviamente a crise do covid não trouxe maiores preocupações, se organizaram para dizer que aos seus filhos ninguém os manipula… excepto eles, os pais… ou as mães.

Curiosamente, num mundo de reificações ideológicas, o manifesto, muito sub-repticiamente, mostra extrema preocupação, quase apoplética, com a possibilidade de se introduzir aquilo que carinhosamente apelidam de “ideologia de género” na recentemente criada cadeira de cidadania. Podem dar as voltas que quiserem em florilégios jurídicos sobre os direitos humanos e a objecção de consciência – a preocupação fundamental tem um nome: sexo.

Confesso que isto me parece um país disléxico. Com tanta merda com que nos preocuparmos, com uma crise iminente a bater-nos à porta, com o fim do mundo tal e qual o conhecíamos (há um ano atrás) vêm estas alimárias protestar contra a disciplina de cidadania, que terá mais cábulas que sei lá, e mais alunos faltosos que o diabo. Só mesmo este espírito padreca, esta imersão no fumo do turíbulo e empanturramento de hóstias, justifica tamanho vexame.

É claro que a disciplina de cidadania não terá qualquer influência moral ou ideológico sobre as crianças. Para isso está o instagram, o face, o tik-tok e a panóplia de apps imersivas que lançam a juventude em trips catalépticas pelo seu próprio ego. Nada que a disciplina de cidadania consiga sequer beliscar.

E vendo bem as coisas, que bosta é a “ideologia de género”? Dizer às crianças que podem ser felizes seja qual for a orientação sexual que assumam? Dizer que há mais configurações familiares no mundo do que o papá e a mamã a grunhirem no quarto com a porta fechada? Mas meus senhores, padralhada da minha terra, gente obtusa e ultramontana que se acoita na “social-democracia”, acham mesmo que os putos, com toda a informação que consomem, com o que já viram de pornografia na internet, e com o que vão vivendo entre uma broca e um shot de gin, não estão fartos de saber que assim é? Gostariam, vossas encartadas excelências, que o mundo fosse diferente. Pois, recuem até 1950, onde um homem era um homem e uma mulher era uma mulher, mesmo que por vezes levasse esta, legitimamente, porrada do primeiro.

Amigos, os manifestos eram coisas sérias. Serviam para expressar revolta, inconformismo, garra pelo futuro, potencial revolucionário, grito contra a dominação – assim foi com o comunista e assim foi com o seu émulo estético, o surrealista.

Este manifesto é uma vergonha, não apenas pelo conteúdo, como sobretudo pela forma! Uma usurpação da nobre arte do manifesto. Valeria mais que lhe déssemos o nome de encíclica… chata, petulante, jurisdista.