Saltar para o conteúdo

Populismo mach 3

Junho 24, 2019

Related image

Deng Cheng Wen – The Blind Leading , 2007

Nem todo o populismo se expressa por enfáticas proclamações de líderes como Le Pen ou Salvini. Há um populismo mais insidioso, quotidianamente banal, que abre o caminho para o mais retumbante e organizado politicamente. Penso por exemplo na propaganda da Iniciativa liberal, que de forma menos efusiva e labrosta que o “basta de roubalheira” de André Ventura promete acabar com “o sistema”. Este sistema, que não possui origem identificável nem limites denunciáveis, elabora-se enquanto perigo, poluição, quer no discurso de um Trump quer nas intervenções ignorantes de Octávio Machado. Quem não se recorda da obsessão com o sistema que Octávio Machado exprimia sempre que abria a boca? Nunca ninguém compreendeu o que era o sistema, para além do facto de Machado andar a mando de um bandido chamado Bruno de Carvalho, esse sim, cultor de “um sistema” de máfia e compadrio.

Entre o sistema do anedótico Octávio Machado, da Iniciativa Liberal e de Trump há um fio condutor que os liga. Aparentemente díspares nos seus contornos e objectos de denúncia, o sistema emerge propositadamente como uma ameaça instalada de difícil localização. Sabemos que para Trump o sistema eram os políticos de Washington. Reivindicação algo tormentosa na medida em que atacando o sistema, Trump se alcandorou aos pináculos do mesmo, tornando-se no presidente do sistema. Paradoxo com o qual se pode ou não conviver mal.

A iniciativa liberal quer acabar com o sistema, que não será o mesmo que atormenta Machado, mas cuja obsessão indistinta partilha matizes. O sistema da iniciativa liberal é como o polvo vermelho dos pesadelos portistas. Ambos agem de forma traiçoeira e fora de controlo. Para a iniciativa liberal o sistema, presume-se, é qualquer coisa que se instalou na política; qualquer coisa de nefasto  que deve ser erradicado. Mas não é a locupletação dos gestores da TAP que se amanharam com prémios de milhões de euros em ano de prejuízos da companhia – milhões que são nossos, dos contribuintes. Um tal acto de vontade indómita seria olhada pela iniciativa liberal com a devida vénia pelo uso das capacidades individuais e do livre arbítrio. O problema está no sistema. Como este nunca é definido, o que se encontra fora deste assombrador sistema é aceite com a benevolência da cegueira ética e da impossibilidade de retoricar o que o olhar não pretende abarcar.

Mesmo um tipo inteligente como Ricardo Araújo Pereira faz semanalmente um favor à retórica dos políticos incapazes e do sistema corrupto. Veja-se a sua rábula do cidadão mosca. O cidadão mosca, o super-herói português, apresenta a sua valentia como decorrente do facto de andar no cocó, seja qual for o governo. O governo x – cocó! O governo y – cocó! – afirma o cidadão mosca na sua rábula de revolta. Quão próximo estamos do discurso segundo o qual os políticos são todos os mesmos e querem é tacho? Não estamos apenas próximos, estamos a reproduzi-lo, com laivos humorísticos. Aliás, é interessante analisar o programa de RAP. Contrariamente aos seus congéneres transatlânticos, tais como o programa de Stephen Colbert ou o Late Show com o Trevor Noah, RAP não escolhe lados; ou melhor, não o faz de forma tão ostensiva como os anteriores apresentadores. RAP pretende situar-se num espaço de neutralidade da política: um espaço onde apenas o humor conte. Ora é justamente este espaço de neutralidade da política que é ocupado pelo populismo. Pela simples razão que ele só existe na sua formulação populista. Não há espaço de neutralidade política no político. Por conseguinte, RAP, inegavelmente com muita piada, tem um palco onde repercute em ondas populistas as suas bocas e tiradas. Não sei se foi por obrigação contratual, se qualquer coisa como exigência de equidade na cacetada e derrisão estava nas cláusulas do contrato. O facto é que se trata de uma posição perigosa. É-o porque não distingue lados, nem facções, o mesmo é dizer, torna a opinião indistinta. Ora um dos segredos do populismo é justamente vender-se como o equilibrador que surge do exterior; o de inventar uma posição exterior não contaminada, algo de pristino donde se possa arvorar um julgamento final – algo divino. A pureza é por isso uma constante da retórica populista. É certo que RAP é suficientemente flexível e arguto para gozar com ele próprio, e com os seus parceiros de humor. Não obstante este savoir faire humorístico de olhar para as próprias falhas como gargantuescos e risíveis enigmas, RAP tem-se aproximado mais de um Fernando Rocha do que aquilo que estaria disposto a admitir. A lógica de todo o político é risível, logo digno a abater, diminui a política naquilo que ela possa ter de sério: o que está para além do político x ou y.

Outra instância de populismo recente que passa por ser informação: a forma como foi noticiada a reforma de Constâncio. Em grandes parangonas, o Correio da Manhã deu a conhecer aos portugueses que o ex-governador do Banco de Portugal auferia de 27 mil euros de reforma. Escandaloso, de certo, quando se pensa nos 22% de trabalhadores por conta de outrem que recebem o ordenado mínimo mensal (dados da pordata). As pessoas escandalizaram-se; e a vox populi, aquela hidra que emerge nas redes sociais e nas caixas de comentários, mostrou as fauces, cuspindo contra a roubalheira dos políticos e a vergonha que isto é! Só que no mesmo dia saíram os rendimentos dos jogadores de futebol mais bem pagos de sempre: Messi e Ronaldo. Na ordem dos 70 a 90 milhões anuais. Ninguém se escandalizou. Quanto muito, um franzir do cenho por reflexo invejoso. Mas nada mais. Dentro do sistema, do pensamento do sistema, tais números são revoltantes e escandalosos. Porém, encontram-se automaticamente justificados, num mundo onde se ganha pelo mérito. O que a indistinção do “sistema” enquanto corrupto e corruptor primordial traduz é a incapacidade, ou indisponibilidade, de reconhecer o mérito do político que a esfera pública exibe. Isto é problemático… e simultaneamente falso. É problemático porque revela uma menorização da actividade política que não quadra com a sua necessidade institucional. Em democracia, as instituições são regidas por orientações públicas, e essas mesmas orientações são definidas por critérios políticos. Poderíamos então chamar ao exercício de selectividade que opera dentro de um campo de contingências, um exercício político. Ninguém que o exerça se exime de responsabilidades, mas por isso mesmo é preciso que alguém o assuma. É falso, porque, corolário da primeira, exercer uma tal responsabilidade não é para todos, nem todos estão dispostos a fazê-lo. A distanciação do comum dos cidadãos do exercício da política, quer através do voto, quer da militância, não traduz apenas uma apatia generalizada como resposta ao falhanço dos políticos em cuidar das vidas dos homens e mulheres seus constituintes. Ela revela sobretudo uma hierarquia de facilidades: consumir é menos trabalhoso do que optar dentro da linguagem da política. Não por acaso a grande revolução das campanhas eleitorais trazido pelo contexto norteamericano é justamente a sua individualização. Ou seja, os candidatos pedem literalmente o voto em pessoa ao eleitor. Este é o paradigma da individualização absoluta da escolha política; uma lógica em que é o cidadão que se sente o escolhido e não este que exerce o direito de escolha sobre algo que lhe é superior. Note-se que esta é lógica através da qual procede a escolha comercial, consumista. A grande invenção do marketing é fazer-nos pensar que fomos nós a ser escolhidos pela marca, a marca fala directamente para nós, para as nossas necessidades e desejos. O marketing político individualizou totalmente a relação política.

Que possam então medrar contratendências num tal panorama não nos deve surpreender. Desde logo, o populismo, com a sua crítica virulenta a tudo o que é político, ao “sistema”, deixa um espaço vazio para ser preenchido com figuras extra-políticas: os imigrantes, o islão, o “sistema”. Esta alquimia é facilmente descoberta, no sentido propriamente etimológico de destapar algo que estava coberto, oculto, quando são denunciadas as estreitas ligações entre a extrema-direita e um outro sistema, o neoliberal, que pretende minar a democracia e os seus alicerces institucionais a partir de dentro. Como no caso austríaco abordado no último post, as associações entre a extrema-direita populista e o mercado neoliberal e as suas normas não é fortuita. Com efeito, ocorre amiúde que estas sejam o real sustentáculo de todo o programa populista que não pretende mais do que desviar as atenções do principal com a poeira do acessório.

Anúncios

Strache du neo-nazi (Strache seu neonazi – frase ouvida nas manifestações de rua em Viena)

Maio 20, 2019

Rui Tavares caracterizou bem a extrema-direita europeia (mas vale para as outras): não são apenas populistas, são vigaristas. O caso Strache, o neonazi que se encontrava no governo de coligação austríaco ilustra bem o que pretendeu dizer Rui Tavares.

Tenho escrito variadíssimas vezes neste blog que devemos olhar para a extrema-direita e a sua mensagem como querendo outra coisa. Que os arrobos culturalistas e de defesa das nações escondem outros processos, outras vontades, e que essas sim são a realidade da extrema-direita. Se dúvidas houvesse, o caso Strache esclarece-as. Na luxuosa mansão em Ibiza estão reunidos os elementos que  funcionam como coordenadas essenciais para avaliarmos a extrema-direita. A situação é ideal, na medida em que mostra como as coisas se estão a passar nas costas dos cidadãos e a coberto de cortinas de fumo adensadas por rituais anti-imigração, retórica anti-burocracia de bruxelas, e frémitos nacionalistas de toda a espécie. O que vemos no vídeo de Ibiza? A plutocracia mundial, representada por uma rica russa filha de um oligarca (da qual estranhamente não temos imagem); Strache e o seu lugar-tenente do FPO, ou seja, o poder político; a negociação em torno de um tablóide, o Kronen Zeitung; as contrapartidas em negócios com grandes empresas; as grandes famílias dos negócios a sustentarem a extrema-direita. Esta constelação de interesses marca no fundamental os destinos da Europa, e porque não dizê-lo, do mundo.

Estes são os elementos que interessam fundamentalmente ter em conta quando se fala de extrema-direita. As ligações com Putin e a Russia dos oligarcas são das coisas mais insidiosas que estão a ocorrer. O despudor com que Strache oferece o Kronen Zeitung, o tablóide (e a publicação escrita) mais lido da Áustria, como máquina de propaganda ao seu partido, mostra como a batalha, como bem sabe Bannon, está a ser ganha na comunicação social. E apesar dos desmentidos das três grandes fortunas austríacas relativamente ao financiamento do partido de Strache, ninguém pode estar tranquilo quanto a essa possibilidade, porque ela evidentemente é real. De outra forma como se explica a força que qualquer destes partidos, inicialmente grupúsculos sem qualquer significado, ganhou, não de forma gradual, mas irrompendo com estruturas e membros e uma capacidade de arregimentação que dificilmente teriam sem o necessário respaldo financeiro.

O que o vídeo mostra é, por outro lado, quão bem oleado se encontra o sistema. Com a percepção exacta que é necessário açambarcar o principal veículo de comunicação para firmar o poder dentro da sociedade austríaca. O Kronen Zeitung, desde sempre um tablóide asqueroso que vomita propaganda de direita (por vezes radical) encontra-se nas mãos da direita neoliberal europeia, a que está actualmente no poder pelas mãos do wonder boy Sebastian Kurz. O que preocupou o jovem primeiro-ministro terá sido antes de mais, aventamos, a possibilidade de o filho querido da direita conservadora ir parar às mãos de Strache e a sua trupe de neonazis. Julgo que dificilmente Kurz não estaria ciente das ligações “incestuosas” com as oligarquias russas, das negociatas com a propriedade do Estado, e da vigarice política do seu companheiro de coligação. Claro que disso teria ele conhecimento. A sua perturbação vexada dever-se-á porventura a ter descoberto que Strache lhe queria fazer a cama para pôr o FPO no poder. Por alguma razão há uma câmara de filmar oculta na mansão de Ibiza.

A mentira que é a extrema-direita e o seu discurso moralista e anti-político fica também a descoberto mediante as patéticas declarações de Strache e Kurz. Começando por Kurz, na conferência de imprensa onde anuncia o fim da coligação elenca três grandes feitos desta durante os dois anos do seu governo: julgar os políticos corruptos, diminuir os impostos e estancar a imigração massiva. Por seu lado, Strache dá uma patética desculpa sobre nunca mais ter falado com a senhora russa ou tão-pouco qualquer membro do seu partido, não sem antes formular uma sentida desculpa à sua mulher por ter flirtado com a russa, mostrando-se profundamente arrependendido por se ter comportado como um “teenager”. Dois momentos de exposição da vigarice e da pulhice. Kurz orgulhando-se de ter combatido a corrupção, com um corrupto do mais alto calibre como parceiro de coligação. Strache dizendo que nunca mais viu a senhora, quando o Kronen Zeitung é propriedade do alemão Funke mediengruppe que tem jornais na Áustria, Hungria, Croácia, Albânia… e Rússia. Uma belíssima concentração informativa de extrema-direita com óbvias relações com a Rússia.

Apesar da evidência que mostra o vídeo, Strache consegue ser ainda mais patético, desculpando-se por estar alcoolizado e por se tratar de um ambiente informal e privado. Todavia, o seu braço direito, o chefe do FPO, Gudenus, está perfeitamente sóbrio e traduz fielmente para russo as negociatas que Strache vai propondo. E o que são elas? Em três actos: a) Stache propõe um financiamento ao seu partido fora do sistema de controlo, e logo fora dos impostos; b) a aquisição do Kronen Zeitung como plataforma para o FPO, acrescentando que com a limpeza correcta (mandar fora os membros incómodos) tudo é possível (sic); c) em troca da aquisição do Kronen Zeitung, promete negócios com a Strabag, a maior firma de construção austríaca e uma das maiores na Europa.  Percebe-se por isso que aquele encontro teve preparação e que aquelas ideias não são nada o efeito do álcool, mas foram antes pensadas e ensaiadas entre Strache e Gudenus.

Strache tem ainda o desplante de acusar os jornalistas de terem rompida com a ética profissional e diz-se vítima de um atentado político. Foi sem dúvida instrumental libertar um vídeo gravado em 2017 agora em época de eleições europeias. Mas de um pulha como Strache não se esperaria a invocação da ética profissional, certo? Errado. Strache baseou toda a sua ascenção ao poder no mote do homem em que se pode confiar. O seu lema de campanha “HC kannts vertrauen” – Heinz Christian é de confiança – foi a sua imagem de marca enquanto ascendia dentro do FPO e nas preferências dos austríacos. O homem em quem se pode confiar queria um esquema alternativo de financiamento do seu partido, queria a posse do Kronen Zeitung para ser a sua plataforma de mentiras e fascismo. Isto é a extrema-direita. Salvini, Le Pen, Órban, não são diferentes.

Em resumo, repito o que tenho dito, é preciso ter muitíssimo presente que a extrema-direita não é aquilo que diz. Aqui, no Portugal dos pequeninos, o nosso André Ventura já deve estar a receber suporte de alguma família com dinheiro. É um primeiro ensaio. Mas é necessário ter a consciência que estes tipos não vieram para brincar – apenas o que dizem é que não é para levar a sério.

Os ínvios caminhos da campanha eleitoral

Maio 16, 2019

A imagem pode conter: texto

O patriarcado achou por bem colocar uma tabela multicor com os partidos que eram pró-vida distinguindo-os com uma assertiva cedilha verde contra um duro x vermelho. Os felizes contemplados com a aprovação patriarcal foram o Basta, o CDS e o NósCidadãos. Os restantes levavam com o opróbrio patriarcal. Disse em comunicado o patriarcado que se havia tratado de uma “imprudência” e retirou a sugestiva imagem.

Independentemente da defesa ou não da vida, podemos intuir que ao dar respaldo ao Basta o patriarcado é pelo menos a favor de mais restrições à imigração, menos tolerância para com os ciganos – esses sugadores do erário público – e menos dinheiro para deputados – esses ultrassugadores da res publica. Podemos inclusivamente dizer, se Mussolini ou Franco regressassem à terra dos vivos, o patriarcado poria uma vindicante cedilha verde bafejando assim tais egrégios personagens com a bênção sagrada porque, glória ao pai!, eram intransigentes defensores da vida (quando não praticavam a morte).

As justificações do patriarcado foi dizer que a culpa era do operador da página do facebook que, supostamente, pusera lá o quadro à revelia da hierarquia.

Admitamos que sim. Quer apenas dizer que uma organização (movimento?) como a Federação portuguesa pela Vida tem acoitamento no facebook do patriarcado, mesmo que pela mão do seu gestor. Ora como o patriarcado não é pessoa inimputável, algumas qualidades terá visto ao seu gestor quando lhe deu tamanha responsabilidade. Uma desvinculação tão apressada quanto atabalhoada faz temer pela idoneidade do patriarcado de Lisboa e seus porta-vozes.

Como notam bem alguns dos comentários que se sucederam à postagem do quadro, parece que ser em defesa da vida contém a pena de morte, uma vez que a coligação Basta de André Ventura (foi assim mesmo que eu quis escrever!) defende a mesma.

É claro que o quadro, apesar da federação pela vida defender-se dizendo que é o resultado de um questionário enviado a todos os candidatos às europeias, pretende realmente obter este resultado. É uma daquelas coisas pré-fabricadas, com as perguntas feitas à medida para que apareçam os partidos de esquerda – sobretudo o PS e o Bloco – todos pintados de vermelho.

Diga-se de passagem que a categoria mais interessante é a “oposição ideologia de género”. Como terá sido formulada esta pergunta no famigerado questionário (que é quase certo que não existe)? Porque, o que é que se pretende dizer exactamente com oposição à ideologia de género? Trata-se de opor-se à existência de uma ideologia de género, no sentido em que existem demarcações claras entre os papéis do feminino e do masculino? Mas se assim for, a própria denominação “ideologia” fere de morte o sentido da negação, uma vez que se é ideológico, por definição, assenta na legitimação dissimulada – discursiva e simbolicamente – de relações de dominação. Afigura-se portanto que criticar a oposição à ideologia de género, significa apoiar a sustentação dessa mesma ideologia, qua ideologia. Ora isto significa que embora se saiba que as relações entre homens e mulheres são de dominação, escolhemos dissimulá-lo na crença da harmonia familiar. O certo é que o aceitamos enquanto ideologia!

Como não se entendem que critérios presidiram à tipologia, não admira que seja a tríade mais à direita que ganhe os favores da Federação Portuguesa pela Vida. Por exemplo, como se responde a uma questão que contenha a ideia de combate à prostituição? Como ela admite diversos sentidos, o mais conveniente para o efeito pretendido foi o que acabou por ser escolhido. Assim, o que se encontra subjacente ao combate à prostituição é na realidade a sua proibição. Neste sentido, apenas proibir a prostituição, como quer o Basta (e onde iriam os dirigentes do Benfica molhar o pincel depois das vitórias do glorioso?) seria combater a mesma, excluindo outras possíveis formas. Dar condições de salubridade, profilaxia, enquadramento social e económico, às prostitutas não é uma forma de combater os malefícios da prostituição? Por isso a pergunta deveria ser “proibição da prostituição” que é o que verdadeiramente se encontra dissimulado no nome da categoria escolhida.

Esta digressão sobre as duplicidades semânticas dos sistemas categoriais que sempre se encontram subjacentes às tipologias é porventura um esforço desperdiçado naquilo que se trata de um descarado instrumento de propaganda eleitoral. E assim ficamos a saber que apesar das aproximações progressistas de alguns sectores da Igreja católica portuguesa, subsiste uma beatice empedernida, atávica, e com um indisfarçável fascínio pelas correntes de direita mais extrema. Esteja ela disfarçada pela defesa da vida ou pelos pastorinhos de Fátima.

Guerra dos cornos

Maio 7, 2019

Tento aproximar-me daquele block buster televisivo chamado Guerra dos tronos. Não consigo. Que pastelada indecente, que seca sensaborona, que horas de diálogos para encher chouriços!

Sofro, como poucos de nós, daquela aversão à estupidez fantasiosa que já vem dos tempos do tolkien e do senhor dos pincéis. E o problema não é a fantasia; logo eu que sou fanático pela ficção científica. O problema é que estes dois produtos da nossa cultura, que têm de permeio umas cinco dezenas de anos, são os dois maiores pastelões que deus ao mundo deitou. Porque razão concitam tanta admiração e respeito é em si mesmo um enigma.

Os dragões andavam pelo mundo dos Grimm e fazia sentido que assim fosse: a iconografia medieval estava cheia de grifos e dragões, homens com pés gigantes (onde a figura do hobbit retira inspiração), sereias e melusinas, etc. A espaços vão sendo disseminadas nos contos dos Grimm…e bruxas claro, montes de bruxas. Evoluímos desde os tempos do Grimm. Curiosamente, o imaginário medieval – que era usado fora de época pelos irmãos – perdurou. Tolkien usou-o abundantemente, com referências oblíquas à Inglaterra do século XX e à condição geopolítica das potências da época. A guerra dos tronos recupera-o com mais ou menos zombies, mas o essencial, a estrutura feudal da guerra de todos contra todos, como um estado de natureza hobbesiano, permanece.

Actualmente, os nossos dias carecem de fantasia – explicação possível para esta obsessão com Tolkien e R.R. Martin. Só que não me parece. Com efeito, dificilmente podemos imaginar uma época em que a fantasia tenha penetrado de formas tão profundas e diferenciadas a estrutura cultural. Desde o universo Manga ao Marvel, é um aluvião de cenários futuristas, fantasistas, utópicos e distópicos que seria estranho pensarmo-nos como seres à míngua de fantasia. É certo que um grego da idade clássica vivia imerso em mitologia e que a natureza apenas tinha tradução através deste universo simbólico. Temos, apesar de tudo, um distanciamento lógico-empírico das múltiplas fantasias com que somos assoberbados.

Mas eis que chega a guerra dos tronos. Podia até ser uma recriação histórica, à maneira da série “Os Vikings” (bem melhor, para todos os efeitos). Porém, escolheu converter-se em adereço medieval, com mortos-vivos e gente com poderes mediúnicos, sobretudo que dormem com irmãos e irmãs (excepto os mortos-vivos que em todo o caso poderiam fazê-lo sem peso na consciência).

Ricardo Araújo Pereira resumiu numa fórmula genial o enredo de a Guerra dos Tronos: os maias, mas sem drama. Também ele apresentava sérias reservas quanto ao fascínio e correspondente entrega que esta série, aparentemente, suscita. Mas naquilo que parece ser um dos finais – pode-se saltar 70 episódios que não se ganha ou perde nada, donde a Guerra dos Tronos longe de ser uma criação genial segue no fundamental a estrutura da soap opera ou da telenovela brasileira -, mas dizia, num dos finais, na última temporada, um tipo que tem o poder de ressuscitar os mortos é morto com uma faquinha. Isto corresponde ao paradigma de “não sei mais o que fazer com esta merda, mas qualquer coisa serve para enganar os papalvos, porque de qualquer dos modos eles querem é tudo a estrelejar!”.

É assim que G.R.R. Martin descobriu a fórmula para fazer fortuna e convencer toda a gente que era genial. Repare-se que em Martin o engodo é um modus operandi, senão veja-se a explicação imbecil que ele dá para usar justamente as mesmas iniciais do seu mestre confesso – J.R.R. Tolkien! Em vez de afirmar que se tratou desde o início de um publicity stunt, não, inventa uma história sobre uma parte da família ser protestante, a outra católica… Alto lá! Mas quem é que ele pensa que engana?

Esta continuidade tola entre Tolkien e Martin deve de facto suscitar-nos muitas interrogações. Havendo pouco de genial quer num quer no outro; sendo um e o outro réplicas da mesma fórmula – dragões, exércitos do mal, e feiticeiros num ambiente vagamente medieval – como é que esta coisa sobrevive ao transcorrer dos séculos?

Nunca avaliámos correctamente este nosso fascínio pela Dark Age. Creio que algo terá que ver com as transformações estruturais nas sociedades onde vivemos (ou na extensa sociedade global onde vivemos). O esoterismo sobreviveu por debaixo das finas carapaças de empirismo lógico que nos levam ao dentista que comprovadamente nos tira a dor de dentes ao invés de consultarmos um feiticeiro. Mas ele encontra-se nas suas formas mais subtis e insidiosas no regresso à astrologia, ao fascínio com os sonhos, à actividade divinatória, às mezinhas, etc etc. Este fascínio esotérico regressa porque em tempos ele substituiu, ou melhor dizendo, ele consistia nas formas cognitivas de mapear o mundo e dele retirar sentido. Por exemplo, o regresso aos sonhos. Quantos de nós ficamos embevecidos com o que acabámos de sonhar, vendo nisso propriedades místicas de leitura de futuros possíveis ou de ensinamentos de actos e relações passadas? E no entanto este fascínio com os sonhos como material de conduta e de programação da acção é tão velho quanto o livro de Artemidoro, A chave dos sonhos.  É certo que o Dr. Freud deu-nos a chave do autoconhecimento na sua interpretação dos sonhos. Mas o tempo dos augúrios nas vísceras e dos sonhos de morte dos feiticeiros da tribo teriam, pensávamos nós, passado. Era falso. Com toda a armadura de racionalidade com que a modernidade se revestiu, o esoterismo sobreviveu nos interstícios da contingência e da impossibilidade (afinal o que havia sido a principal promessa moderna) de controlarmos os nossos destinos. O mundo da magia surge assim como o ersatz a este inconformismo. Sem pensarmos muito sobre a coisa, mesmo após de resmas de folhas a explicarem como trabalhamos o material associativo e dissociativo, mesmo assim, dizia, enveredamos pela explicação mais esotericamente irracional que esteja à mão e ficamos embevecidos a ver as cartomantes a lerem o nosso futuro no livro aberto da nossa incompreensão. Fazem-se fortunas com aquilo que consiste basicamente em boa intuição e ainda melhor atenção aos sinais individuais. Citando Adorno no seu estudo profundamente crítico da astrologia: “A tendência para o ocultismo é um sintoma da regressão na consciência”; e ele próprio associou o fascínio acrítico com a astrologia com o autoritarismo. E não é curioso que justamente o esoterismo e o ocultismo irrompam em simultâneo com as tendências mais autoritárias? Quando entregamos as nossas democracias a déspotas iluminados feitos à medida para o século XXI é também quando nos embevecemos com o mundo da magia medieval. Ambos possuem algo de expressão de força, de violência, de virtudes guerreiras, de morte e recomeço, de opressão e, last but not the least, de salvação heróica numa figura providencial.

Algo disso sobrevive no fascínio labrosta com a Guerra dos Tronos.

Theatrum mundi

Maio 7, 2019

Image result for coro grego

A esquerda está irritada com o alegado teatro do 1º Ministro. José Soeiro vem dizer que nada de fundamental se alteraria com a aprovação da lei do descongelamento total. Bom, se nada de fundamental se alteraria, ou o PS está cheio de gajos malucos que andam a negociar com os sindicatos dos professores apenas 2 anos, ou o Bloco está cheio de relapsos psicopatas que andam a insistir na devolução integral do dinheiro à classe dos professores. Não me parece que nem uma nem a outra correspondam à realidade. O que é certo é que Soeiro emprega um raciocínio sofistico e à boa maneira dos seus inventores vem provar que uma coisa é e não é simultaneamente. A pretensão do bloco ia frontalmente contra o pretendido pelo PS, contudo, segundo a lógica de Soeiro, nada de fundamental se alteraria!

Um outro exemplo de sofística discricionária é a rábula de Ricardo Araújo Pereira sobre a “birra rosa”. Um parêntises para dizer o seguinte: o programa de RAP mais se assemelha a um momento de propaganda anti-ps de tal maneira constitui este o foco da sua atenção. A tvi deve estar duplamente satisfeita porque consegue a maior estrela do humor português (paga a peso de ouro, obviamente) com o maior espaço de propaganda antigovernamental – e tudo pelo mesmo preço!

O problema que tornaria a coisa ingovernável, como bem viu António Costa, era o efeito de contágio. Por isso dizer que a medida apenas custaria 340 milhões de euros e não seria inscrita neste orçamento, como fizeram BE e Cristas, é o supremo exercício de sofística. Assim seria se ela fosse tomada isoladamente. Mas não apenas teria que ser estendida a todos os funcionários da carreira especial, donde resultariam os 800 milhões de euros cuja diferença parece fazer confusão a muita gente (RAP incluído), como seria imparável em termos de reivindicações que se sucederiam. Basta lembrar que no mesmo dia em que medida foi aprovada no Parlamento os enfermeiros vieram dizer que se sentiam injustiçados, o sindicato do ensino superior logo afirmou a necessidade de formas de luta mais duras para que houvessem concessões de igual natureza para os professores do superior, e por aí afora num efeito dominó imparável. Ou seja, aquela coisa que para o José Soeiro representava não modificar nada de fundamental, significaria, se deixada ao seu curso natural, uma sangria para o Estado de proporções bíblicas.

Entendamo-nos, o problema nunca se confinou aos professores, mas sim ao efeito de contágio que seguramente se lhe seguiria.

Quando o Parlamento presta um mau serviço à nação

Maio 3, 2019

Image result for costa demite-se se

Considero um nojo a devolução integral do tempo de trabalho aos professores num país onde a maioria dos jovens entre para o mercado de trabalho a trabalhar 10 horas por dia e a ganhar 680 euros. Um asco. Igualmente nojento foi a farsa da direita parlamentar ao votar em coligação negativa com a esquerda algo que nunca lhes passaria pela cabeça votar caso se encontrassem no poder. E a esquerda? Catarina Martins veio dizer que se trata de “uma crise política artificial”, porque a concessão aos professores não belisca o OE. Devem estar a tomar-nos por parvos. A concessão aos professores pode até não afectar o OE deste ano; mas o problema nunca foi esse – o problema sempre foi a sucessão de concessões que ter-se-á que fazer aberta a caixa de pandora da devolução integral aos professores. O caso é simples e já foi analisado pelos nossos eminentes constitucionalistas. É caso popularucho de ó comem todos ou há moralidade. Se não comem todos, é inconstitucional; mas comendo uns por ínvias fórmulas, tem que se dar aos outros cujo clamor já se faz sentir. Ora, admitindo até que haja um fundo de justiça no caso dos professores, escândalo será estender a medida a Magistrados, oficiais de justiça, GNR e militares! Isto seria inconcebível, num país que tem uma dívida pública de 125% do PIB. Mas que justiça social implicaria uma tal medida?

Medidas desta natureza fazem mais por alimentar a deriva para a extrema-direita do que qualquer discurso nacionalista orgânico ou anti-imigração. A verdade é que o sentido de injustiça é de tal forma accionado que o ressentimento se transfere para outras formas, nomeadamente o voto na extrema-direita que promete que o cidadão trabalhador não seja vítima dos interesses de grupos e corporações. A este nível a reivindicação dos professores é duplamente perigosa. Por um lado funciona como o despoletar de todas as possíveis reivindicações de grupos instalados no Estado (as forças de segurança e os militares são apenas um dos mais corporativos); por outro, provoca um sentimento latente de injustiça nas populações que não entende como é que as reivindicações duns, que estão em posições de bloqueio social, são atendidas, e as dos outros não. Pior que tudo é o facto de este duplo standard se inscrever geracionalmente. Em qualquer destas rupturas laborais são os jovens que se mantém como espectadores. Quer sejam professores quer magistrados, a devolução integral beneficiará sobretudo os mais velhos e passará indelével pelos mais jovens. Ora já são os mais jovens que estão a pagar as reformas dos mais velhos.

Sobrecarregar o Estado é uma receita para a catástrofe. Que a direita o use como forma de pressão destrutiva, não justifica que a esquerda o use como forma de pressão reivindicativa. Encontram-se os dois movimentos, mas com intenções radicalmente diferentes. O problema é que os seus efeitos são sempre destruidores.

A iminência da demissão do governo pode até satisfazer os intuitos perversos de uma Crista ou de um André Ventura (duvido quanto a Rui Rio). Mas ele coloca um ponto final irreversível na “geringonça”. A acontecer não será apenas sinal de desalento interno – será um sinal para o exterior de que a experiência é um falhanço. Espanha, mesmo aqui ao lado, observará com particular atenção tirando ilações sobre a instabilidade de fazer alianças à esquerda. Mas é sobretudo um golpe na imaginação política, na quebra da rotatividade protocolar e sonsa do bloco central, nas legítimas expectativas na recomposição do xadrez político. A consumar-se, a direita pode cantar vitória em toda a sua extensão: provou à saciedade que coligações com a esquerda estão fadadas ao fracasso – tarde ou cedo, esta há de minar a governabilidade.

Tais demonstrações de volubilidade levam o eleitorado a procurar soluções draconianas. E encontram-nas no autoritarismo populista da extrema-direita. A esquerda é perita em precipitar situações cujo desfecho é previsível na sua desvantagem. Porventura, estaremos à beira de mais um impelir de uma solução governativa para o caixote de lixo da história política. A esquerda que não pense que sai incólume desta armadilha. Cantem vitória os Andrés Venturas e as Cristas deste país!

Vox populi

Abril 30, 2019

Image result for vox españa

Tudo indica que o PSOE possa governar sozinho, assumindo (ou mendigando, conforme a perspectiva) pactos de coligação pontuais com forças políticas que não lhe sejam totalmente adversas.

Contudo, mais importante do que assinalar a proverbial incapacidade de os socialistas conseguirem uma maioria absoluta desde Gonzalez, será porventura notar as parecenças com a situação portuguesa à beira igualmente de um plebiscito. A direita fragmentada mostra as diversas faces que por lá se acoitavam. Assim como em Espanha conviviam no PP voxianos e ciudadanos a coberto da capa popular, também em Portugal o PSD está longe de ser o partido social-democrata em que um dia Pacheco Pereira acreditou militar.

Tenho poucas dúvidas que a chegada do VOX ao poder congressional vai dar ânimo a proto-forças como o Chega ou o Aliança. Muitos da direita extrema olham esperançados pelos desenvolvimentos espanhóis. Muito embora as situações não sejam totalmente replicáveis. Não há, actualmente, em Portugal um sentimento nacionalista como aquele que permaneceu em Espanha. Este último teve sempre o respaldo de franquistas não contaminados pela democratização republicana espanhola. Por outro lado, as tendências separatistas catalãs só vieram exacerbar estas tendências latentes.

Há em Espanha, em estado de congelamento criogénico, uma tendência falangista que não encontra o seu homólogo em Portugal. O nacionalismo português encontra-se mais simbolicamente concentrado na figura providencial do presidente Marcelo do que no orgulho pela história pátria e na recuperação das velhas glórias. O nacionalismo do presidente Marcelo é um nacionalismo ecuménico, de encontro das diferenças e agregador das dissenções. O nacionalismo espanhol é violento e afirmativo. O falangismo que se acoitava no PP de Aznar metamorfoseou-se tanto no Vox (sobretudo neste) como no Ciudadanos. Apesar das naturais diferenças, a simetria com a situação portuguesa não pode passar despercebida. Também aqui temos uma metamorfose do PSD em Chega e Aliança, em que o primeiro dir-se-ia o equivalente da extrema-direita Vox.

Não se consegue ainda perceber quem é que o Chega consegue atrair. Um partido talhado à medida dos gillets jeunes nacionais só mostrará verdadeiramente a sua face quando percebermos quem recruta para os seus quadros. Por exemplo o Vox tem uma definição mais exemplar a esse propósito. Dele fazem parte militares de carreira saudosistas do franquismo, médios empresários, quadros intelectuais do ensino, mas sobretudo o que parece já ser um padrão nos movimentos de extrema-direita mais consequentes, possui uma forte implantação na esfera da comunicação. É aí, como tem de aprender todo o bom populista, que se devem concentrar os esforços.

A articulação entre as forças de direita portuguesas na esfera comunicacional é ainda débil. O que não significa que não possam aprender e reforçar essa presença e a sua eficácia. Os périplos de Steve Bannon pelos países que caem às mãos do populismo de extrema-direita são disso mesmo vivo exemplo. Brasil, Hungria, Inglaterra, Itália, em todos Steve Bannon tem marcado presença levando a boa-nova da revolução populista informativa. Se resultou nos USA com um canhestro como Trump, porque não resultaria no Brasil com Bolsonaro, ou em Espanha com Abascal? No Brasil já resultou para gáudio da revolução cinzenta. Chamo-lhe cinzenta por oposição à rosa que levou arremedos de social-democracia a diversos países da América Latina. Essa pequena revolução encontra-se a ser esmagada na maioria dos lugares. E não por acaso, Bannon assentou arraiais em Itália, instalando-se palacianamente no país que ele firmemente acredita poderá derrubar a União Europeia.

Mas regressando à simetria Portugal-Espanha. Ao Ciudadanos corresponderia o Aliança (talvez com os liberais) e ao Vox corresponderia o Chega (talvez com o PNR). Logo aqui a direita portuguesa se encontra mais fragmentada que a Espanhola. Goste-se ou não da extrema-direita, André Ventura não é Abascal e Santana Lopes parece o retrato de Dorian Gray do próprio Rivera após ter sido ferido de Morte. Visto que nos movimentos de extrema-direita as ideias são escassas e pouco articuladas não podemos negligenciar as suas figuras principais como atractores do eleitorado. Em Portugal essa figura ainda não surgiu. Cristas gostaria de ter o impacto de uma Marine Le Pen; mas o CDS não é a Front National – e ainda bem – mantendo temas e articulações políticas fora da sua agenda, como no go areas. O mais significativo é sem dúvida a imigração. A retórica anti-imigração não pode nunca surgir no CDS com a mesma virulência com que aparece no Vox, pela simples razão da implicação no CDS nas inúmeras políticas migratórias ao longo da história da democracia. Mas pode em André Ventura, fosse este um candidato mais apelativo.

De todo modo esta tendência de fragmentação da direita é o resultado directo do recrudescimento da esquerda e não a sua implosão. Também me parece errado falar da implosão dos partidos tradicionais de direita, como seria o caso do PP espanhol – assistimos antes a uma clarificação.

Por exemplo, a radicalização da direita exibe aquilo que afinal sempre lá esteve. Ribeiro e Castro explicava ainda ontem que não podemos rotular de extrema-direita os movimentos de…extrema-direita. Segundo este ex-deputado do Parlamento Europeu, o Vox não é de extrema-direita e Orban também não. Proponho uma linha clara para terminar com a discussão: partidos que apoiem abertamente linhas nacionalistas que tiveram os seus fundamentos em movimentos fascistas são por definição de extrema-direita. A defesa do franquismo por alguns elementos do Vox deixa poucas dúvidas sobre isso. Da mesma forma, a defesa de Órban como simplesmente um político que quer uma Europa diferente, falha o essencial. No discurso de Órban, para além das costumeiras diatribes contra a imigração, ressalta o ódio à globalização multicultural (algo com que poderia estar acompanhado por Zizek) e, de forma sub-reptícia, a essa figura prototípica da globalização, o judeu. Neste caso, trata-se de Soros. Tal como o Vox, Órban critica a Europa de Merkel e Soros. Curiosamente, ele que veio justamente da Soros Foundation.

O que esta discordância, contradição exemplar, mostra é que a extrema-direita tem que ser lida como querendo outra coisa. Devemos olhar para estes movimentos e tentar perceber o que querem exactamente e que não estão a dizer. Por isso, convites como o de Ribeiro e Castro a branquear essa mesma extrema-direita são perigosos. E mais perigoso é um vira-casaca como Francisco Assis concordar genericamente que devemos ter cuidado com as classificações políticas. Este é o eurodeputado que o PS catapultou para o Parlamento Europeu.

Regressando a Portugal e ao futuro dos possíveis Voxes. Há um gáudio indisfarçável em alguma direita pelos sucessos da extrema em variados contextos nacionais europeus. Paulo Portas, no jornal da TVI, recuperou o argumento de Ribeiro e Castro pintando-o de tonalidades ainda mais capciosas: a tese da simetria entre os extremos. Para Portas, para falarmos de extrema-direita teríamos que falar de extrema-esquerda para o Podemos. Mas teríamos? Se a separação lógica das águas for justamente aquilo que eu assinalava atrás, ou seja, a proximidade ideológica ou afectiva a regimes autoritários de antanho, então nada mais descabido do que chamar extrema-esquerda ao Podemos ou ao Bloco de Esquerda! Onde está o trotskismo no segundo? Onde está o leninismo no primeiro? Ambos os partidos estão absolutamente pacificados em relação quer a uma sociedade de consumo capitalista, que tentam apenas corrigir, ou à pertença à União Europeia. O que existe então de extremo neles? Com honestidade, nada.

Diferente é a situação da extrema-direita. Não somente a sua proximidade a uma matriz ideológica autoritária é real como os seus temas são apropriadamente classificados de extremistas. Primeiro, a xenofobia radical que passa na mensagem destes partidos. Quer Abascal, como Salvini, como Órban, são radicalmente anti-imigração não por qualquer razão lógica que ao menos pudesse ser debatível, mas por puro proteccionismo cultural. Um tal proteccionismo cultural varia desde a muralha cristã que tem que ser erguida contra o bárbaro invasor (Órban) até à questão racial mais atávica (Salvini e Partido Nacionalista Alemão). Mais uma vez o âmago deste discurso é a contradição. O exemplo de Trump e o seu discurso radicalmente anti-imigração é clássico, quando ele próprio é oriundo de famílias imigrantes.

O segundo aspecto da radicalidade destes discursos é a reivindicação de acabar com os impostos. Há, como já referi noutros posts, em qualquer destes personagens um ódio ao Estado Social que não encontra o seu equivalente no Estado cultural. Ao fim do primeiro, contrapõe-se o reforço do segundo. Convivem assim o neoliberalismo mais desabrido com o conservadorismo mais paroquial. Se virmos bem (e muito contra Zizek) não é a esquerda que insiste na fragmentação identitária – é a direita, e em particular a extrema-direita. Os mais insistentes no particularismo identitário não são os grupos de esquerda, mas sim a extrema-direita. Podíamos dizer, terceira e porventura maior contradição, que os protestos sistemáticos dos intelectuais da direita contra as políticas de identidade deveriam ser assestados a eles próprios. A paranóia identitária está do lado deles. A defesa da identidade cristã, da história pátria, da unidade nacional contra os perigos da globalização – essa sim é a verdadeira política de identidade! Infelizmente não possui nenhum dos aspectos emancipatórios da outra, a política política de identidade (a iteração do termo política não é uma gralha).

E onde é que isto nos deixa? Que o recrudescimento da extrema-direita é uma realidade. Mais preocupante ainda é a sua implantação no eleitorado mais jovem que faz cair por terra aquela tese tão apressada quanto pateta segundo a qual seria o velho operariado desafeiçoado dos partidos tradicionais que estaria a alimentar estes movimentos. Não é. E as estratégias de implantação nas redes sociais mostram à saciedade que os alvos do populismo estão bem definidos e entre eles encontra-se maioritariamente os jovens.

Que esta extrema-direita está apostada em minar a Europa por dentro. Bannon, por exemplo, instiga à sua corrosão na linha da destruição de um concorrente com o poderio económico (mas não militar) dos USA. E porque não a China? Porque a teoria do third player implica que o confronto directo entre dois gigantes, tal como na guerra fria, seja o estrategicamente preferível, contra um terceiro que se imiscui na lógica de criação de um inimigo. Países como a Áustria, Itália, Hungria, Polónia, só para citar alguns onde a extrema-direita está no poder, pouco teriam a ver com a geopolítica dos USA não se desse o caso de os seus interesses económicos coincidirem. Ou seja, a implantação daquilo que a filósofa brasileira Marilena Chauí chamou de Totalitarismo neoliberal.

Talvez a maior mentira seja mesmo como a coberto da retórica xenófoba o que se pretende passar, em termos reais, é um totalitarismo neoliberal. Neoliberal nos princípios económicos (também aqui na sua radicalidade) e totalitário na distorção democrática.