P’ra boi dormir

MSP diz que se revê no que diz Pacheco Pereira. Pois faz mal, porque quando nos revemos em PPereira é porque algo está muito turvo nas nossas lentes. No artigo em questão, a propósito do “federalismo autoritário” imposto pela Alemanha, PPereira afirma: Aliás, em muitos países é só esperar para ver crescer movimentos nacionalistas e populistas anti-europeus, tendo como alvo a Alemanha e os actuais dirigentes europeus e sequiosa de atirar fora o menino e a água do banho. Até faria sentido, não se desse o caso de o mesmo PPereira ter vociferado até à rouquidão contra as sanções impostas ao governo de coligação austríaco com o então FPO liderado por Haider, uma das forças mais anti-europeias e nacionalistas que vegetavam na Europa dos 15. Mas não é tudo. Em 2001, o intelectual campeador da democracia saía em defesa da coligação, ainda mais sexy, feita entre a Forza Italia de Berlusconi e a Lega Nord de Fini, que tinha por lema reactivar os campos de trabalho para os imigrantes, e que brandia na altura uma linguagem ultranacionalista. Afirmou então Pereira, Há uma enorme duplicidade em todas estas coisas. Não há nenhuma razão para que se sancionasse o governo da Áustria nem para que se sancione o governo da Itália. Não havia, portanto, nenhuma razão para que se tomasse uma cautela acrescida contra coligações de inspiração neofascista que disseminavam um populismo ultranacionalista. Não, para PPereira a coisa estava conforme os mais estimados e preciosos mecanismos da democracia – era a escolha do povo.

A preocupação actual com a irrupção de movimentos nacionalistas tinge-se pois da velha hipocrisia pereirista. Aliás, só um cínico é que podia achar que a tendência não grassava há muito no seio da europa comunitária. Só um cínico – um mestre, na realidade -, poderia pensar e, mais grave, dizer, que Haider e Fini eram perfeitamente aceitáveis numa europa democrática ou achar muito bem as manifestações de skinheads a favor de Le Pen. Para além disso, deve ter-lhe passado despercebida a ascensão fulminante de partidos nacionalistas na Húngria, Eslováquia e Letónia, só para falar de alguns; ou ainda, num lado supostamente mais civilizado do espectro europeu, o nacionalismo endémico de Pia  Kjersgaard na Dinamarca, uma das faces mais perturbantes do nacionalismo no eixo norte europeu. Perante tanta falta de atenção, donde virá esta súbita preocupação pereirista com o “crescer de partidos nacionalistas e anti-europeus”?

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