Ler ultimamente Pacheco Pereira é uma experiência de estranhamento fascinante. O pereirismo cedeu o lugar à crítica veemente de tudo aquilo que antes era endeusado. A conversa de Passos Coelho e do seu governo é economês-politiquês, como se os líderes do PSD de Cavaco a Ferreira Leite alguma vez tivessem falado outra coisa. A defesa do Tua património da humanidade, embora o autor desminta logo de entrada (público d’hoje) algum amor extemporâneo pela causa verde, é prontamente assumida na linguagem dos repudiados ecologistas: a urze, os arbustos, a experiência autêntica da mãe terra, etc. Se alguém duvidasse do pendor ecologista de PPereira rapidamente deixaria cair a sua desconfiança perante esta peça de esplendoroso amor ecológico.
A desonestidade intelectual de PPereira é lendária. Ela inscreve-se em tantas e tão notáveis páginas de jornalismo opinativo e de reflexão sociopolítica, que é difícil a ela não nos rendermos. A rendição começa evidentemente por aceitarmos que uma coisa pode ser uma coisa hoje, e daqui a dez anos outra totalmente diferente. Por exemplo, ontem Cavaco era um homem de visão, atacado por uma elite lisboeta sebenta que julga que a política se faz com um recurso intensivo às beaux lettres. O economês de que então era acusado servia apenas para PPereira deleitar-se na inventividade do mestre. Manuela Ferreira Leite, que nunca outra coisa falou se não o economês, recebia blogosféricos buquets com dedicatórias pessoais solidárias e de intenso afecto. Passos Coelho que não faz mais nada do que continuar a longa lista de economês-politiquês que salvo raras excepções o seu partido sempre falou, surge agora para PPereira como paroxismo da vacuidade economicista.
Um dia ainda veremos PPereira a defender encarniçadamente o Estado Palestiniano.