Melancholia

Há um poema de Milton (na verdade são dois) chamado L’Allegro & Il Penseroso onde, seguindo bem de perto os conhecimentos científicos da época, a cada sentimento é associado um estado físico. Não estariam totalmente errados os pensadores da época, e o próprio Milton, visto que actualmente é comummente aceite que há uma sintomatologia psicossomática. Em linguagem romântica, entre o corpo e os estados de espírito existe uma continuidade.

Gostaria de começar por aí: a continuidade entre o corpo e o espírito em Melancholia. Claro que o filme é sobre a depressão. Contrariamente ao que um bem pouco avisado crítico do Público nele viu, para quem Melancholia é a epítome do filme catástrofe falhado. Nem filme catástrofe nem ficção científica como alguns ainda mais afoitos e burros aventaram, propondo que se tratava de uma incursão de Von Trier pelos caminhos da ficção científica. Longe disso. Muito longe disso.

Melancholia é um filme sobre a depressão feito por um depressivo narcísico. Mas daí não vem qualquer mal ao mundo. Pela primeira vez na história do cinema, em minha opinião, a depressão surge como canal artístico. Não se trata de figurar a depressão cinematograficamente mas antes de criar cinema através dela. Utilizar-lhe o potencial criativo jogando em seu favor e simultaneamente despojando-a do seu potencial destrutivo transmudando-o em objecto artístico. Muitos foram os poetas e os pintores que a utilizaram no passado. Mas no cinema era raro se é que alguma vez ela irrompeu com esta força modeladora do objecto fílmico.

Melancholia é isso, um trajecto sobre o corpo deprimido, mas que não cai na evidência de ser um filme depressivo. Em Melancholia, o nome do planeta destruidor, exerce-se um fascínio sobre a depressão e a condição do corpo deprimido. Fascínio doentio? Talvez. Autocomprazimento narcísico? Sem dúvida. E depois? A beleza de Melancholia (o planeta), o fascínio que ele exerce como vontade de destruição – mas interior, por isso é que não pode nunca ser equacionado com um filme catástrofe – o profundo isolamento de todos os seus personagens, e o namoro libidinoso que se tece entre a pulsão destrutiva e a personagem de Kirsten Dunst fazem com que Melancholia (o filme) fale a linguagem da depressão. A melancolia era o nome pelo qual a doença que hoje conhecemos como depressão era conhecida. Os depressivos tinham uma disposição melancólica, e morria-se de melancolia.

Von Trier corteja a depressão como alguém que abraçasse uma dança com a morte. A dança do planeta Melancholia em torno da terra.

 

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