
O Reino Unido saiu penalizado da conferência europeia? Só se alguma vez estivesse estado interessado em participar no projecto europeu (quando ele ainda era projecto). Nunca tal aconteceu. E isto é fácil de perceber. Desde logo porque agora, como disse Habermas não contendo o espanto perante a sua própria ilusão, está a nu o que ele representa: uma moeda única a ser defendida custe o que custar, e sobretudo a ser defendida com o valor que o poder económico alemão lhe prodigaliza. Para quem percebesse a mecânica da sociedade europeia, para quem estivesse a par dos seus bastidores, como Cameron obviamente está, há muito que chegou à conclusão que a arquitectura europeia serve apenas para segurar uma moeda forte, e tudo o resto é uma ganga mais ou menos heterogénea coberta da patina do europês, ou seja, doses cavalares de ideologia mistificadora sobre o que significa ser europeu. Cameron sabe tão bem como os restantes 27 que não significa rigorosamente nada. Por isso o veto inglês não coloca o país em nenhuma situação singular – só o faria caso ele tivesse aderido ao euro. E nesse caso, e apenas nesse caso, o veto poderia ser considerado um sinal de ruptura. Mas evidentemente quanto se veta algo a que nunca se aderiu estamos em presença de um gesto vazio. E Cameron sabe bem que não arriscou coisa nenhuma.
Circula no entanto por aí uma teoria sobre o isolacionismo a que Cameron se votou ao dar este passo. Absurdo. Pergunta-se VGM com a desinteligência que lhe é característica, que língua falarão nestas conferências? Rematando que só pode tratar-se do pigdin, uma forma abastardada de inglês, que ele, formado em Oxford reputa de menor. Pois bem, se VGM se desse ao trabalho de pensar em vez de lançar atoardas facilmente concluiria que o pigdin pode ser o que se fala nos salões e nos corredores, mas é em inglês que a UE escreve. E isto não é de somenos, nem para a UE nem para a manobra de Cameron. O Reino Unido sempre teve um ascendente poderoso sobre a UE não apenas porque é economicamente poderoso, mas porque é simbolicamente hegemónico. Tudo o que a UE produz tem uma língua, o inglês. Não me refiro aos documentos oficiais, à legislação, aos tratados, que de qualquer das formas são traduzidos para cada uma das línguas dos 27. Refiro-me sim à produção quotidiana, desde o email entre departamentos passando pelas reuniões entre chefes e empregados e acabando nos relatórios, todo o registo escrito e falado sem excepção é trocado em inglês. Por isso os funcionários ingleses são cruciais no arrastar desta imensa máquina que é a burocracia europeia. Sem eles, não é possível produzir para o exterior na língua franca, que desta feita deixou de ser o pigdin, e passou a ser irredutivelmente o inglês. Foi por isso também que o Reino Unido sempre conseguiu estar com um pé dentro e outra fora: enquanto a sua adesão política era vigiada e limitada, a sua ocupação da burocracia e serviços da UE era total. Dá que pensar como é que um país que mostra tantas reservas em abraçar o projecto europeu tenha tantos funcionários colocados em lugares estratégicos da máquina que faz aparentemente avançar esse projecto.
Conclusão, Cameron não ficou mais de fora do que estava anteriormente. Ficou na posição ambígua que sempre o Reino Unido pretendeu – e é nessa condição que melhor manobra.