E se o vigiado passasse um dia a ser o vigiador?

O que o blog cinco dias está a fazer chama-se serviço público. Sem querer recair no discurso anti-autoridade, com o qual não simpatizo, é bom que a câmara seja virada, ou seja, é bom que o foco fique virado para as forças de segurança para que se encontre um equilíbrio no escrutínio. Responsabilização, accountability, o que lhe quiserem chamar – a câmara não pode apenas estar virada para aqueles que, através desse mesmo movimento, são constituídos enquanto objectos da autoridade. Por isso é bom que a câmara mostre de um outro ângulo práticas autoritárias que desautorizam essa mesma autoridade. É bom também que isto não seja visto apenas como mais um excesso anti-autoritário, como se depreende de expressões como hackers radicais e quejandas. Em verdade, o que estes acontecimentos mostram é que só se pode ser radical quando a legitimidade é sabotada pelas mesmas forças cuja função seria impô-la. E, concomitantemente, que expressões como “radical” e “legitimidade” trocam facilmente de lugar semântico quando assistimos a este nível de distorção. Radical passa então a ser a prática da polícia ao pretender simular uma radicalização da acção dos manifestantes.

As interrogações de Rafael Fortes são igualmente de uma pertinência inegável. Que espécie de terrorismo está em marcha com a conivência de altos decisores políticos? Por que razão estão a ser utilizados métodos semelhantes (como o vídeo acima gentilmente cedido por um conhecido prova) nas diversas manifestações de indignação que têm ocorrido pelas cidades europeias? Por que razão não constitui esta prática motivo de interesse jornalístico? São interrogações importantes que não apenas colocam em dúvida uma suposta legitimidade do Estado de direito, como de todo o sistema comunicacional sobre o qual ele se alicerça. O Estado de direito só pode funcionar com transparência. Nós sabemos, contudo, que este pressuposto tem sido tantas vezes desmentido que acaba por ser uma fórmula vazia de tão usada das maneiras mais cínicas e dissimuladas. Por isso, e contrariamente  ao que diz Fortes, a câmara tem que ser virada para o lado que assumiu que só ele pode registar, profanar, divulgar, expor e, assim fazendo, violentar.  Porque é disso que se trata: de violentar. A mesma violentação (palavra que não existe, mas que teria razão de existir) a que somos sujeitos pelas iníquas tácticas orquestradas pela ordem.

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