Saramago não fez mal a ninguém para ficar indelevelmente ligado a este país de sacristas. O país não merece Saramago e parece que valoriza mais a Bíblia do que a obra do autor. É isso que se depreende de alguns comentários atolambados entretanto esporrados na Internet. Trata-se de ejaculação precoce, sem dúvida. Gente que ainda agora a meteu e zás já se esparramou todo dentro de vulvas paralíticas e de valores atacados de neurose. A grande caixa dos valores. Cada português carrega com uma. Às costas. Desajeitadamente, como os faisões de Herta Muller.
Assim como no conselho com maior densidade de gente diplomada se votou maciçamente em Isaltino, também a nossa intelectualidade molha a cuequinha porque Saramago disse sobre a Bíblia, o óbvio, o evidente, o incontestável. Disse-o por diversas vezes e em fora igualmente diversificados.
Os nossos plumitivos, às cavalitas dos jornalistas, asnos consumados que nos dão a ler o mundo (donde andarmos todos a reproduzir um mundo de asnos com os limites da tão asininas razões) compilaram um best of de frases de Saramago sobre a Bíblia proferidas numa das suas recentes apresentações do seu último romance. As frases descontextualizadas surgem como verdadeiros opróbrios, blasfémias para cristãos e gente elegante e bem pensante. Mas o que dizem é de uma banalidade que custa a crer que mesmo o mais boçal dos amantes da Bíblia não tenha inevitavelmente chegado a essas mesmas conclusões.
É ofensivo? Só se for no mesmo plano em que se considera ofensivo o vídeo de Maitê Proença: no plano da beatice, desta feita cristã, enquanto a outra era arremedo de beatice nacionalista.
Ofende os cristãos? Pois que ofenda. Saramago nunca pretendeu ser politicamente correcto, e se têm tanta fé no vosso livro sagrado, cristãos, então deve essa ser inabalável e não se postergar ao primeiro abanão. De um incréu pode-se esperar tudo, menos que trate com suavidade de donzela um livro sagrado.
Depois, e isto é que importa, é o demonstrar de um total alheamento no tocante à turbulenta relação de Saramago com a Bíblia. Ele não é um leitor desapaixonado. Só quem olha para a Bíblia com a sonolência de um recitador de terços é que pode ficar impávido perante a sua crueza. E, pela mesma ordem de razões, não a interpelar directamente, porventura com a mesma violência com que essas mesmas interrogações foram sendo silenciadas durante séculos. Por conseguinte, estas críticas a Saramago, muitas, virulentas, possuem o cheirinho a turíbulo inquisitorial. Várias foram os torquemadas da blogosfera; da mesma forma do jornalismo, só que estes últimos menos opiniosos, menos transparentes, menos concretos, mas não deixa por isso o seu exercício de corte e costura, de compilação e desagregação, de ser menos inquisitorial.
E os argumentos contra Saramago são vomitados da esquerda à direita; dos intelectuais de craveira aos jornalistas em ascensão; dos padrecos aos descomprometidos e reservados admiradores da santíssima trindade. Curiosamente nenhum se serve de um argumento retirado da Bíblia. Todos esgrimem argumentos de autoridade acima do livro sagrado, por vezes com megalómanas referências a outras estórias crivadas de intolerância, comparações absurdas que a colherem teriam que ser feitas recorrendo a exemplos dos múltiplos silenciamentos que tiveram por origem esse mesmo livro sagrado. Uma história de violência e descompaixão. Outras, socorrendo-se do insulto mais amesquinhador, e simultaneamente o mais desresponsabilizante, o argumento do neurónio, da velhice, da senescência mental. Porém, nem um se serve da Bíblia para infirmar as afirmações de Saramago.
Recorrente é o argumento da metáfora: “então ele não vê que aquilo é tudo metáforas?”. Mas as metáforas são perigosas, imensamente perigosas, tanto mais perigosas quanto são colocadas em mãos elas próprias exsudando perigo. E depois? Desde quando é que as metáforas se encontram acima de escrutínio? Desde quando é que as metáforas não trazem com elas potencialidades reais, práticas, tão ou mais destrutivas do que vontade faustica?
Metáforas? Não lhes retira nem um milímetro de responsabilidade por aquilo que geram.