Pacheco Pereira (PP) tem um programa em horário nobre na SIC Notícias. Um programa assumidamente de opinião, onde PP esclarece os espectadores quanto à natureza perversa da comunicação social. De toda a comunicação social? Não. Só daquela que diz bem do PS. Os exemplos escolhidos com critério objectivo, analítico e de uma isenção inatacável acabam por, fruto das contingências próprias à teoria das probabilidades, recair sempre – e ainda só vamos no primeiro episódio – em artigos laudatórios para o PS.
PP fica indignado com as louvaminhas dedicadas ao novo porta-voz do PS; e invoca as histórias de santos para conotar tão insidioso e desequilibrado artigo. Sucede que nas histórias de santos não existiam apenas louvações, até porque – pormenor que parece ter escapado ao nosso doutrinador de ocasião – os santos começam por ser mártires. E como exemplifica o étimo grego, o mártir é aquele que testemunha…algo ou alguma coisa que todos os outros não querem ou não podem presenciar. Por isso, é-se agraciado com a revelação que cabe aos santos. Talvez a estória não fosse totalmente inocente. E na realidade, se o entendimento de PP sobre o artigo que tinha o porta-voz do PS como protagonista permitiu-lhe cotejar o mesmo com as histórias de santos, não deixa de ser menos correcto se atribuirmos o papel de mártir ao grande despertador de consciências, Pacheco Pereira.
Desde os comentários sistemáticos no seu blogue, passando por esta caricatura de programa televisivo, PP vende-nos uma imagem de mártir: aquele que testemunha aquilo que não pode nem deve ser presenciado pelos outros. A revelação que assiste ao santo não pode ficar enclausurada no seu íntimo, um caso de consciência que nunca chegaria a ser resgatado para o público e por conseguinte nunca serviria de regulador moral. Por esse facto, os santos expressam o agraciamento divino através de uma conduta; uma conduta em tudo idêntica à figura arquetípica que pretendem emular e que se manifesta publicamente como contraponto às condutas mundanas. Geralmente, essa é uma conduta marcada pelo sacrifício e privação que marca o distanciamento com uma vida anterior muitas vezes crivada de dissolução e de excessos vários.
Reparem que o “contraponto” não surge por acaso. O programa de PP dá pelo título de Ponto e Contraponto. A parte do Ponto prende-se com PP a fazer figuras imbecis enquanto folheia jornais com anúncios a oferecerem sexo com a câmara a uma distância suficientemente segura para que não se distingam as mamas das garotas, não vão elas chocar a Sô Dona Balbina que está em pulgas para aprender a olhar o mundo através dos olhos de Pereira.
Assim, PP ensina-nos que podemos “ler” o país em que vivemos pelas páginas dos suplementos: as falências, as ofertas de emprego, e os famigerados anúncios de sexo (e eu julgar que bastava ver a TVI!). Só de um intelectual a quem se talha particularmente bem a metáfora da torre de marfim podia passar tal coisa pela cabeça. Quando não, bastava-lhe andar por Portugal e ver as falências, as casas a serem vendidas; ou ir meter o bedelho nos centros de emprego e ver o incremento diário das filas; ou passar pela Duque de Loulé e ver a multiplicação – que nada tem a ver com a dos peixes – de bares de prostituição, nos quais PP encontraria eventualmente alguns dos seus camaradas de partido…mas das chamadas bases. Mas também observar os carros de luxo que por aí circulam; as casas dos ditos escalões mais elevados que se esgotam mal se encontram em projecto; e claro o cinismo de Pacheco Pereiro a seleccionar artigos que ele considera pouco deontológicos. Também isto faz parte do estado da nação.
Infelizmente para nós, telespectadores adormecidos pela falta de liberdade, pelo garrote mediático que o PS impôs, Pacheco está mais interessado em ter mais um espaço de opinião na SIC. À custa da falta de liberdade que nos sufoca diariamente, PP aparecia ainda em poucos sítios, poucos noticiários, poucos programas de comentário político, poucos comentários eleitorais; havia mesmo, podemos afirmá-lo, uma exiguidade pereiresca, carência que andava a afectar o país de forma intolerável. Deve ter sido por isso que a SIC decidiu dar mais um espaço de propaganda a Pacheco Pereira.
Propaganda, digo bem. PP não é um analista sério da comunicação social. Qualquer analista sério teria um certo (pequenino, quase imperceptível!) pudor em trabalhar tanto para ela. Note-se que o campo da comunicação social não é homólogo a muitos outros, onde estar dentro e fora simultaneamente não causa gravosas incompatibilidades estruturais. E isto porque a comunicação social vive de adesões. Não por acaso o seu principal impulsionador é a publicidade. Ora a publicidade é um veículo cujo objectivo é criar adesões. Os mesmos mecanismos da publicidade operam, e eficazmente, na comunicação social. Comunicação social e publicidade são os formatos ideológicos da comunicação actual. Mas Pacheco não está minimamente interessado nestas minudências. O que preocupa PP é denunciar a invasão esquerdista de que os meios de comunicação social têm sido alvo; esquerdista, e, obviamente manipuladora. Porque a invasão direitista (a acontecer - algo que nem passa pela mente do nosso erudito) nunca por nunca seria manipuladora. Por isso PP fica agastado quando se diz que Cavaco tem um tabu, verberando o jornalista pela falta de escorrência literária e pela incapacidade de fazer um jornalismo objectivo – factos, factos e mais factos. Esquecendo que foi justamente esse mesmo Cavaco que celebrizou a expressão “tabu” na linguagem política ao criar um, aquando da sua putativa reeleição. Para um historiador do calibre de Pereira constitui esta, estranha desatenção. Então temos que a objectividade de Pereira é formatada antes por opinião, opinião, opinião. Mas a doxa sempre foi um perigo para o entendimento colectivo e para as interpretações do mesmo. Se PP vem oferecer-nos uma pretensa objectividade formatada por uma assumida doxa terá então que notar a contradição em que irá reincidir todas as semanas: a doxa é o domínio do subjectivo e Pacheco ama os “factos, factos, factos”, porém filtrados através da sua “opinião”. Estranha conjugação.
Em resumo, para ser um programa que valesse a pena ver teria que ser realizado por alguém que fosse sério nas suas análises. E coloco judiciosamente todo o peso que a palavra sério possa ter. Pacheco Pereira não quer ser sério. Quer fazer propaganda encontrando-se preso (mas deliberadamente) a esse mesmo mecanismo que ele (falsamente) pretende denunciar. Falsamente porque para ser um analista credível as suas análises não poderiam ter cores partidárias. Para fazer uma análise isenta não poderia escolher exemplos com um critério pereiresco e oferecê-los como generalizações. E sobretudo para ser um analista honesto teria que começar por mostrar quem controla os meios de comunicação social; quem são os directores dos jornais; quem são os editores, etc, etc. E é aqui que Pacheco nunca se aventura. Porque se o fizesse, rapidamente chegaria à conclusão que a sua tese da “invasão esquerdista” da comunicação social é tão inverosímil que só pode ser falaciosa. Mas Pacheco Pereira também não quer fazer um programa sério; quer aproveitar o melhor que pode um novo espaço de propaganda que a SIC lhe concedeu (e quanto custará?).
Recorrendo ao mote anarquista que Pacheco escolheu glosar como emblema do seu programa: dinamitar o cérebro não dinamita, mas provoca-lhe cá um asco!