A quem vai favorecer a Nova Esquerda de Manuel Alegre? O voto de descontentamento com o governo de José Sócrates tem sido essencialmente canalizado para os partidos da esquerda, e dentre estes, especial destaque encontra-se reservado ao BE. Por isso, tornou-se consensual afirmar que o BE tem crescido à custa do esvaziamento do PS. Esvaziamento, quer na sua acepção numérica quer ideológica, dado que o eleitorado que virou as costas ao PS de Sócrates fê-lo porque não se revia mais no sua progressiva aproximação ao centro-direita. Perante esta movimentação de vontades e convicções, onde entra Manuel Alegre e a sua Nova Esquerda? Em princípio, o grande afectado com a emergência desta nova força política será o BE. Se este último tem crescido através da capitalização dos descontentes do PS, será provavelmente atingido agora que este eleitorado encontrou uma força centrípeta. É que apesar de descontentes com o PS, muitos temem ainda a radicalização política que auscultam no BE e no seu líder. Não são nem suficientemente contrários para saírem da esfera do PS, nem suficientemente apaniguados para lá continuarem empenhando para o efeito as suas convicções. E aqui medra o alegrismo.
A Nova Esquerda só é nova quando comparada à velha não-esquerda. Isto porque, logicamente, foi o BE que ocupou, de algum tempo a esta parte, o espaço político passível de ser representado por esse mesmo alinhamento político e ideológico. Qual será então o espaço de Alegre e da sua Nova Esquerda? Por paradoxal que pareça, Alegre será a tábua de salvação do PS de Sócrates. Se o BE rejeitou veementemente uma coligação com o PS de Sócrates, deixando este a navegar num mar de escolhos a quem a única salvação poderia ser o incipiente MEP, será Alegre a preencher essa lacuna, na realidade, esse vácuo, no jogo coligacional. E isto porque, seja pelo passado, seja pela sua estrutura organizativa, é mais plausível que Alegre se coligue ao PS caso este não venha a ter uma maioria absoluta, do que opte por fazer uma coligação com as forças de esquerda que se imponha como oposição ao bloco-central. Atente-se nas declarações de um dos porta-vozes ao referir que a Nova Esquerda “não tem medo de assumir o poder”, pressupondo-se assim que a velha esquerda estaria condenada a repeli-lo. Em caso de perda da maioria, mais que previsível, do PS de Sócrates, muito estranharia que Alegre fosse coligar-se a uma espécie de esquerda unida carregando assim o ónus de bloquear uma solução facilitadora da governação – ou da governabilidade como agora se repete até à exaustão. Por esse facto, o PS de Sócrates só tem a ganhar com a Nova Esquerda. Pela primeira vez aparece uma força política que compete directamente com o BE e que para crescer, assim como o BE fez ao PS, terá que convencer o eleitorado do primeiro a migrar para o seu seio. Até porque os descontentes do PS, aqueles que não se revêem de maneira nenhuma neste PS, já se encontram no BE. Por conseguinte, diríamos que a capacidade para convencer o eleitorado PS a migrar está praticamente esgotada. Mas mesmo que não esteja, as vítimas desta guerra calharão por igual ao PS e ao BE. Com o enfraquecimento do BE, deixa este de ser sequer parceiro interessante para coligações. A sua base de recrutamento ficará atrofiada e só lhe resta voltar-se ainda mais para a esquerda na senda de aumentar o seu eleitorado. Pela primeira vez iremos também assistir a uma guerra que estava adiada; não tanto por afinidades ideológicas, mas porque as bases de recrutamento complementavam-se: refiro-me ao PCP e ao BE. Com a emergência da Nova Esquerda as coisas não poderão ficar assim. Estes dois partidos vão ter que competir directamente, e adivinha-se, sobretudo da parte do PCP, uma luta sem tréguas.
Conclusão, a Nova Esquerda é o seguro de vida do PS e o adiamento eterno de um bloco maioritário de esquerda no parlamento.