Numa frase lapidar, o Eng. Mira Amaral, disse hoje de manhã tudo o que havia para dizer sobre a postura do PSD relativamente às próximas legislativas. Quando questionado sobre a razão de o PSD protelar a divulgação do seu programa partidário, respondeu, como quem não deve nada aos compadrios políticos, que se tratava de estratégia. Porém de uma estratégia com contornos muito particulares, para não dizer bizarros: adia-se a divulgação porque se irá passar o tempo a “dar cacetada em José Sócrates” (sic) e a não dispersar a atenção do eleitorado com minudências tais como alternativas para o governo do país, acrescento eu. Como argumento para uma tal estratégia não abona muito a favor da tal imagem de impoluta rectidão que bafeja a Dr.ª Manuela Ferreira Leite pelos dias que correm. Esqueceu-se, no entanto, e porque as independências posicionais não anulam as afinidades electivas, de acrescentar a razão de fundo que subjaz a esta dita “estratégia”. Suspeito que seja o facto de, no fundamental, não ser possível detectar diferenças entre o programa do PSD e o do PS. Consequentemente, o que menos interessa à liderança do PSD é dar o seu programa ao escrutínio da opinião pública com tempo suficiente para que esta se entretenha num exercício de detecção de simetrias políticas. Nada cairia pior num eleitorado que tem vindo a ser encantado com o canto das sereias da mudança.
E mais acrescentou o Eng. Mira Amaral, num acesso de lúcida frontalidade tão pouco comum em comentadores e spinn doctors de todas as estirpes e jaez: Portugal é governado por um bloco de interesses financeiro-político. E mediático – acrescentaria eu.
Uma das coisas que o eleitor deve ganhar consciência é que, contrariamente ao que é propagandeado, revestido de pânico “nacionaleiro” e de Avé Marias pela vinda do apocalipse, Portugal não está a virar à esquerda. E isto não decorre logicamente do estafado argumento das políticas do PS serem de direita. Embora o sejam. Decorre directamente do facto de quem tem poder decisório neste país, seja a nível financeiro, seja legal, ser a direita. É a direita, e nela incluem-se sobretudo o PSD e o CDS-PP, que manda nas associações patronais; é uma cúpula de direita que preside aos destinos das associações de agricultores; é a direita que tem o pé bem fincado nas magistraturas; e é ainda a direita que monopoliza os “media” nacionais. Sim, é verdade: há uma pequena aldeia gaulesa que resiste, e essa são os sindicatos. Mas no contexto de uma inoperância cada vez maior dos direitos laborais e da flexibilização das regras do trabalho, estes só possuem força em aparições esporádicas e em grupos muito determinados (que estão longe de serem os determinantes). Perante este panorama, os assustadiços do papão da esquerda podem bem dormir descansados.
Mas isto leva-nos por outros caminhos. A primeira coisa que devemos ter presente quando nos aproximamos de umas eleições é, consequentemente, que é a direita que manda em Portugal. E isto cingindo-nos ao período da chamada vigência democrática, porque mais para trás nem vale a pena discutir. Se assim é, então teremos que descontar todos estes avisos das Cassandras do status quo como ideologia e manipulação. E se a esquerda parece cativar o eleitorado, mormente enquanto catalizador do voto de protesto, não é menos verdade que o país é e continuará a ser de direita.
Ora, este país de direita, o país que tem poder e que decide quanto às coisas que verdadeiramente contam, apresenta fundamentalmente duas opções relacionais com o poder governativo estatal: ou de açambarcamento (caso em que o PSD e CDS se encontram no poder) ou de beneplácito (caso em que o PS governa). Por isso as políticas são fundamentalmente as mesmas. Mas enquanto o segundo sofre de problemas de margem de manobra (ideológica e operativa), no caso do primeiro a sobreposição entre os grupos de interesse é de tal forma perfeita que nem necessita de ter uma ideologia que o ajude a identificar-se no conspecto da ideologia vigente. Há um termo que agrada muito aos politólogos, mas que esconde, sob uma nuvem retórica, o seu valor analítico. Refiro-me ao catch all party. Neste sentido, o PSD seria o catch all party por excelência. Porém, ao contrário da intuição politológica mais banal, não significa isto que seja um partido particularmente aberto, onde todas as convicções, mais ou menos aplanadas, cabem, e onde a mecânica decisória seja orientada pela procura de consensos alargados. Bem pelo contrário. Os catch all parties dão-se ao luxo de dispensar a ideologia porque a coincidência entre eles e as estruturas hegemónicas (ideológicas e materiais) é tão perfeita que não necessitam de nenhuma identificação “forte” para a sua representatividade institucional. Daí que caiba às extremas-esquerdas e direitas o “ónus” do trabalho ideológico.