Dilemas socráticos

É comum ouvir por estes dias que Sócrates está a fazer uma operação de charme e que a uma postura arrogante e brusca estaria a querer substituir por uma (falsa) atitude de concordância e diálogo. No fórum da TSF foi a litania mais reiterada dentre os testemunhos dos ouvintes pressurosos em maltratar o nosso primeiro. Contrariamente ao seu homónimo clássico, o nosso Sócrates não é muito dado a dialécticas preferindo atalhar caminho reclamando razão apriorística. Não se desse o caso de vivermos mergulhados num país de mentiras, mais fantasiado (mas não fantasista) do que o país imaginário de Alice, e qualquer pessoa constataria que do outro lado da trincheira se encontra um monstro de simpatia, bonomia e compreensão chamado Manuela Ferreira Leite. Mas a aparente inconsistência tem a virtude de remeter-nos para o fulcro dos diálogos socráticos, ou seja, ao obrigar-nos a escolher perante definições de uma mesma entidade aparentemente incongruentes, lança-nos em aporia. E dela, infelizmente, é que nunca mais saímos. Por isso, temos um partido da oposição a rilhar os dentes com acusações sibilinas de arrogância absolutista e de crueldade mongol ao nosso primeiro, quando o que tem para apresentar como cabeça de cartaz destacou-se em tempos como o paradigma nacional da sobranceria e do quero, posso e mando, mais conhecido por prepotência.

Se há assunto em que o velho ditado da memória curta tem cabimento é este relativo à comparação entre Sócrates e Ferreira Leite. Mas deve isto espantar-nos, quando Paulo Portas acusa as sondagens de serem meros instrumentos do governo, sendo que ele próprio foi o director de instituto de sondagens? Ele lá saberá, e a nós nada nos parece demasiado pérfido para que nos faça perder o sono. Veio moção de censura e ninguém (ou pelo menos eu) percebeu muito bem o que se censurou ao governo…para além da postura socrática, deste nosso Sócrates, que pouco tem de dialogante, ao contrário do outro que apenas queria demonstrar a nossa ignorância. E na ignorância ficámos todos perante o desconhecimento, agora agravado, do que seria uma alternativa do partido que apoiou a moção de censura, o PSD, levantada pelo CDS-PP. Ficámos, todavia, a saber que, no geral, não se trata de uma questão de políticas, mas sim de postura, dado que foi isso que apareceu repetido à exaustão pelos faustosos deputados do PSD e do CDS. Eles, coitados, que sempre se caracterizaram por uma postura humilde, bem figurada, à falta de melhor exemplo, no régio cartaz de campanha de Nuno Melo que parece dizer-nos Le Roi, c’est moi – e bem assim, acreditemos que seja o rei da falcatrua e do show-off. Pelo menos postura não lhe falta.

Encontramo-nos portanto perante um dilema: dois candidatos que não têm rigorosamente nada para oferecer se não as suas (más) posturas. Será uma batalha de posturas e não de titãs a que se avizinha. Mas será também uma batalha de artifícios. De um lado, Sócrates, abandonado pelas sondagens e pelo voto a tentar fazer uma operação de cosmética segundo a linhas enunciadas por António Vitorino: menos números e mais sentimento. Do outro, um candidato desesperadamente à procura de aprender a sorrir. É entre isto que o país vai escolher: beijinhos nas criancinhas e sorrisos apalermados, declarações ecuménicas e bonomia rasteira. O TGV e o desemprego são meros adereços perante estas questões de supina importância. O povo vai estar suspenso na incógnita dos centímetros de distância a que Ferreira Leite deixa as massas populares e saber se Sócrates conseguirá explicar às peixeiras do Bulhão o que foi o programa Novas Oportunidades, batendo assim Paulo Portas em ósculos e abraços num terreno que é tão do agrado deste último. Prevejo que estas vão ser as eleições do sentimento.

Deixar uma Resposta