O PCP tem destas coisas: uma miopia agravada pela sua introversão progressiva. O que significa esta expressão verborreica e falsamente intrincada? Significa que o PCP limita-se a traçar a régua e esquadro uma linha divisória entre os maus dos imperialistas e os bons dos anti-imperialistas; e nisso não anda longe do maniqueísmo dos liberais conservadores.
O que deveria ser exigido ao editor e ao plumitivo era que nos explicassem exactamente o que defendem no Irão e no regime de Ahmadinejad? Se estão convictos que o Irão é uma espécie de bastião anti-capitalista então estão redondamente enganados.
(Numa das ruas centrais de Teerão, as vozes cantadas do muezines misturam-se com os sons surtidos que saem dos televisores de ecrã plano. À velha maneira dos bazares árabes, cada rua é especificamente dedicada a um tipo de comércio (lembrem a velha a Lisboa e as reminiscências de um tempo de mourama que nos legou ruas como a dos Correeiros ou a dos Fanqueiros, e por aí, haverá outras). Uma das maiores é exclusivamente dedicada à venda de electrodomésticos. É o capitalismo na sua expressão mais viva: o capitalismo consumista. E por lá se deslocam miríades de transeuntes, nas suas sóbrias vestimentas, e compram, e compram, como em qualquer grande capital do mundo ocidental (e já vem sendo tempo de atirarmos esta outra insidiosa divisória para o caixote do lixo). Nos passeios, jovens com ar cigano, expõem os seus DVDs piratas e alguns, cujas capas são mais atrevidas, onde uma perna de uma estrela de Holliwood sobressai na fotografia, estão semi-escondidos, tapados com folhas de jornal, mas que pedindo, são prontamente levantadas e as níveas trancas ficam ali à mão de semear. À mão, é como quem diz, que quanto muito ficam sujeitas aos cúpidos olhares dos homens que se passeiam de mão dada uns com os outros.
Há comércio a perder de vista. Aliás, se o capitalismo encontra um émulo à altura é a tradição comerciante árabe – ah, o velho Mediterrâneo. Mas porra estes não são árabes; nem gostam que assim sejam confundidos. Somos persas, diz-me a rapariga de dentes salientes enquanto se entretém a desenhar os belos caracteres pharsis no meu caderno de viagens (uso por vezes as folhas para limpar o cu quando não há papel higiénico – no Irão provou ser de grande utilidade).)
Se está o PCP convicto que no Irão reina a liberdade e a decisão colectiva, então só podem estar ceguinhos.
(Apanhámos o comboio para Isphaan por volta das dez da noite. No compartimento que nos coube em sorte já se encontravam dois homens quando lá chegámos. Um tinha o ar rude dos trabalhadores de jorna e dormiu o caminho todo. O outro, estava bem escanhoado, falava algum inglês e possuía uma curiosidade difícil de satisfazer. Perguntou-nos quem éramos, porque estávamos no Irão, para onde é que íamos, o que é que procurávamos em Isphaan, se tínhamos amigos na cidade, etc. Sempre com a maior das delicadezas e até, julgo ter percepcionado bem, uma certa fleuma iraniana que nada tem a ver com a tradicional congénere inglesa, e que termina sempre a beber um chá sentado num banco de pele. Acompanhou-nos toda a viagem. À medida que íamos saciando a sua curiosidade, parecia ficar satisfeito e cada vez se interessava menos por nós.
O sol já rebentava por trás dumas colinas de pedra ocre. Viajáramos toda a noite e avistávamos agora a estação de Isphaan. No caminho, porque da estação para a cidade propriamente dita ainda distam uns bons quilómetros, passámos um complexo militar, onde, dizem, se encontram os famosos mísseis de médio-alcance do exército iraniano. Teríamos oportunidade de os conhecermos por diversas vezes nos interlúdios permanentes que a televisão iraniana nos oferecia com propaganda militar; até durante os programas infantis da manhã. Mas dizia eu que estávamos a chegar a Isphaan. O comboio reduzia a velocidade e as pessoas preparavam as suas bagagens para sair. O homem que dormira todo o caminho acordou estremunhado, levou as mãos à cara como se elas contivessem água e esfregou-a vigorosamente. Depois, pegou na trouxa e despediu-se cordialmente. O nosso outro companheiro de viagem já se encontrava a pé e tinha a cabeça fora da janela. Quando assomámos à porta do compartimento cumprimentou-nos sorridente.
Fomos encaminhando-nos para a porta. O peso e o volume das bagagens dificultavam a deslocação no corredor que entretanto se enchera do vozear de homens, e só de homens, porque as mulheres viajam em carruagens separadas. O nosso companheiro, que tantas e tantas questões nos tinha colocado, não tinha bagagem. Por isso desceu do comboio com as mãos nos bolsos enquanto arrastávamos as sacolas para o cais onde se começavam a juntar as famílias que tinham vindo receber os seus familiares. O cais foi ficando vazio à medida que as famílias se juntavam e pressurosamente dirigiam-se para a saída. E nós também fomos nos deixando levar por aquele caudal de gente que lentamente se evaporava. Apenas o nosso companheiro de viagem ficou por ali, girando em torno dos postes como que a disfarçar o aborrecimento, com as mãos nos bolsos, e ainda hoje aposto que apanhou o mesmo comboio para voltar para Teerão. Afinal a sua missão estava cumprida: acompanhara-nos até Isphaan e pelo caminho ficou a saber a história das nossas vidas – nada a temer.
Que o regime de Teerão disponibilize alguém para controlar um grupo de passageiros estrangeiros diz bem da paranóia e, paralelamente, da eficácia com que as questões de segurança e controlo são assumidas.
Mais tarde, numa manifestação em prole do Hesbolah, seria abordado por um garoto que não teria para além de quinze anos. Dirigiu-se a mim num inglês perfeito, daquele que se aprende com as amas britânicas que ainda fazem serviço nas casas dos milionários da Quinta da Marinha, e perguntou: Sir, what is your propose in Iran? No meio do festival de lenços palestinianos e da gritaria dos miúdos que passeavam pela praça em formações militares (mas não tão organizadas que despertassem o temor dos incautos) aquela abordagem surgiu-me verdadeiramente inesperada. Expliquei que estava ali porque queria ver as mesquitas azuis antes que os americanos bombardeassem aquela merda. Ao que ele redarguiu que isso não iria acontecer porque o exército iraniano estava muito bem preparado e porque os iranianos eram um povo corajoso. Uns quinze anos bem endoutrinados, portanto.)
Porque insiste então o PCP numa versão tão patética dos acontecimentos? Porque não se informam; ou porque não se calam?
Publicado por nunocastro
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Os acontecimentos recentes no Irão mostram o quanto a islamofobia dos anos Bush era uma criação ocidental.
Enquanto por esse mundo fora os telejornais de referência concentram-se nos acontecimentos em Teerão, nos nossos telejornais passam coisas com a dimensão estrondosa de a mãe do Martim, cachopa de meros 15 anos, ter entrado em greve da fome pela posse do seu filho entregue para adopção. Outros blogs, que agora não recordo, notaram a ausência quase concertada do tema reacção às eleições iranianas nos telejornais nacionais; e se não ausência, com certeza a míngua de atenção que elas têm merecido pelos veteranos da verborreia noticiosa. Difícil explicar, sem dúvida. Há razões que a razão desconhece, por isso eximo-me a comentar as ínvias razões que possam estar subjacentes a tal desatenção. Sobretudo quando as manifestações iranianas parecem não apenas pressagiar uma nova época para o regime teocrático de Teerão como uma nova época para a política no Médio Oriente. É certo e sabido que os dois países mais alienados e anatemizados pela velha administração Bush, e, paralelamente pela reaccionária regência israelita, são aqueles que maior potencial democrático apresentam no conspecto do Médio Oriente e dos países árabes. Estes dois países são na realidade apenas um, dado que o outro é simplesmente um projecto eternamente adiado: a Palestina. O outro, claro está, é o Irão. E a dimensão do protesto nas ruas de Teerão – mas parece que é extensível a outras cidades menores – é a manifestação objectiva dessa vivacidade democrática, ou, se quisermos, dessa capacidade de intervir politicamente nos destinos do seu país. Por conseguinte, e isso também aqui já foi referido, à apatia dos sonâmbulos eleitores europeus contrapõem os iranianos a sua vontade democrática. Até quando perdurará ela, eis a questão.