Gatas em terraço de estuque quente

Março 7, 2009

Se à noite todos os gatos são pardos, na Bahia, gatos e gatas, são sobretudo brancos. Quando o negro da abóbada celeste se instala saem, quais animais nocturnos, os brancos de suas tocas. Desaparece o negro de cena – ou pelo menos a hegemonia citadina do negro – e aparece o branco reclamando o seu quinhão de vida. O branco e o pardo. E aí, sim, sem dúvida, aí as gatas pardas lançam perfumes exóticos no ar carregado de humidade da orla marítima. 

O lugar é o Tarrafa. Um varandim debruçado sobre a baía; o parapeito a segurar as ondas pachorrentas. Lembram-se daquela de ‘um mar da cor da terra”? É verdade, mas apenas ao lusco-fusco. Pela manhã, o mar é azul, de um azul completo, de um azul para navegador aportar em baías inauditas e aí descabeçar até ao cantar das sereias. Este mar, o da noite, mal se vê, dali, daquele varandim donde saem os sons do novo samba, sem a mistura poluidora do axé. As raparigas vão-se rendendo umas às outras no palco improvisado, e no entanto cada voz é mais bela do que a anterior. E o samba, com misturas de free jazz vai fluindo. E as raparigas vão colando seus corpos coleantes de serpentes baptizadas por Iemanjá umas às outras. E vão-se beijando enamoradas. O tarrafa faria empalidecer qualquer análise socio/antropológico/psicológica da sexualidade, sobretudo da feminina. No meio encontro o actor francês Vincent Cassel dando seus passos de samba, mas mais numa ginga atlética do que propriamente com a sensualidade de Sandra que nos mostra agora como se podem trocar os pés a uma velocidade vertiginosa sem perder o equilíbrio. As raparigas, algumas de uma beleza subtil que só se encontra entre uma garfada de acarajé e um mergulho nas praias do Japuípe, continuam a beijar-se; mais tarde beijarão homens e julgo que é a isso que se chama hedonismo fragmentário. Ou simplesmente é o calor que faz com que os corpos se aproximem e se toquem. Apenas corpos, sem cor e sem passado.

Pergunto a Vincente Cassel se a Mónica está por aí. Ele vai-me enxotando (o gerúndio – embora inicialmente procurasse resistir – entra paulatinamente no sangue, instala-se, alarga-se, perde a vergonha e acenta praça, mesmo ali, na alvorada das palavras, onde e quando se julgava que a vontade lexical era inexpugnável – que nada menino!) respondendo que ela se encontra do outro lado. Mentira. Fico procurando, mas não encontro Mónica não. E que é que isso importa, quando umas mulatas empinadas como jacarandás rivalizam em beleza com a diva Bellucci?  

A elite jovem, académica, de Salvador, estará por ali. A galera alternativa. O samba com tonalidades de jazz vai puxando mais mulheres para os braços dos homens e de outras mulheres. E os homens, não vos esqueceis dos homens, vão se puxando uns para os outros. Uma mulata que assina afro-descendente, vertical e possuidora de um olhar que consegue abarcar toda a baía, fala-me de Fellini, Pasolini, Rosselini, Antonioni e Visconti. E é então que profere qualquer coisa como heterosemântica. Tremo. Ocorro-me aquela cena em que Woody Allen conversa com Annie Hall e em voz off, repetindo as suas cogitações, sente que parece um daqueles magazines culturais radiofónicos… Portanto, o que fazer com uma mulata linda que utiliza palavras como heterosemânticas e que adora Fellini e Visconti? Fui para casa enfiado em elocubrações sem sentido, angústias sortidas, e preces a Iemanjá, ali mesmo do terraço do Tarrafa, onde as moças ficam beijando-se e as saias rodam timidamente com os curtos passos do samba. 


Estórias

Março 6, 2009

Duas ruas acima, três rapazes de cara destapada entraram uma farmácia de arma apontada para os clientes. Roubaram o dinheiro que se encontrava na caixa, levaram a roupa dos clientes (as t-shirts) e até as alpercatas que não se encontravam demasiado danificadas. Isto segundo o relato da empregada da farmácia. Reconheceu-os e vai fazer queixa à polícia. 

Do outro lado, perto da praia, uns dez km daqui, um casal de jovens desaparaceu quando se preparavam para sair com os pais. Foram encontrados quatro dias depois, mortos. A rapariga fora violada e as análises revelaram três tipos diferentes de esperma . O rapaz tinha sido brutalmente espancado. 

A C. tem vinte e quatro anos. Deixou uma filha de quatro com os avós. Trabalha perto de Salvador. Sai quase todas as noites com homens mais velhos e chega tarde a casa. A C. gosta particularmente de homens que lhe paguem a cerveja que bebe em quantidades apreciáveis. Se, no conjunto, lhe pagarem um jantar, ainda melhor. A C.vê a filha uma vez por mês. Veio de uma cidade do interior à procura de fama e fortuna em Salvador. 

O mais impressionante de Salvador não é a sua baía de contornos intermináveis. Não é a subida no elevador Lacerda levando à velha arquitectura do centro de “todos os santos”. Nem sequer são as praias bordejadas de coqueiros e com areais a perder de vista. O mais impressionante da Bahia de todos os Santos é a Suburbana. Quilómetros a perder de vista de favela. Talvez trinta, quarenta quilómetros, ininterruptos, de casas clandestinas, sem qualquer urbanização, crescendo desordenadamente colina acima até à orla do mar. Os rostos são pesados. Mesmo a alegria histérica do Carnaval não ficou imarcescível nos rostos das gentes da Suburbana. E bem lá no alto, na Plataforma, um interregno mais urbanizado, com a sua pequena igreja de outros tempos a lançar sombra sobre um pequeno jardim, um teatro. Um teatro moderno, num edifício novo. Um teatro com capacidade para duzentas pessoas; com tela para projectar filmes e aulas de teatro dadas por um professor formado em teatro. As raparigas vão chegando para as aulas de teatro. Deixam a Suburbana pelo sonho de Brecht. E ela diz: “sempre gostei do teatro de Brecht, com suas preocupações sociais e personagens sofridos. Foi isso que me levou ao teatro…”. Verdade ou não, acrescenta que vários foram os alunos que chegaram a teatros mais prósperos, mais elevados, nas grandes capitais como o Rio ou São Paulo.  

Sentado a comer uma piza, à minha frente pára um carro da polícia. Já é noite e da esplanada onde me encontro, aqui em São Cristóvão, dá para assistir à cena como se tratasse de um filme de Hollywood. Dizem que é uma “abordagem”. A polícia leva dois jovens dentre do grupo de cinco ou seis, não sem antes vasculhar as imediações com uma lanterna à procura de droga, sobretudo numa velha casa devoluta. É fácil encontrar quem venda crack ou cocaína aqui.

Teatros da vida; vida de teatros.