Se à noite todos os gatos são pardos, na Bahia, gatos e gatas, são sobretudo brancos. Quando o negro da abóbada celeste se instala saem, quais animais nocturnos, os brancos de suas tocas. Desaparece o negro de cena – ou pelo menos a hegemonia citadina do negro – e aparece o branco reclamando o seu quinhão de vida. O branco e o pardo. E aí, sim, sem dúvida, aí as gatas pardas lançam perfumes exóticos no ar carregado de humidade da orla marítima.
O lugar é o Tarrafa. Um varandim debruçado sobre a baía; o parapeito a segurar as ondas pachorrentas. Lembram-se daquela de ‘um mar da cor da terra”? É verdade, mas apenas ao lusco-fusco. Pela manhã, o mar é azul, de um azul completo, de um azul para navegador aportar em baías inauditas e aí descabeçar até ao cantar das sereias. Este mar, o da noite, mal se vê, dali, daquele varandim donde saem os sons do novo samba, sem a mistura poluidora do axé. As raparigas vão-se rendendo umas às outras no palco improvisado, e no entanto cada voz é mais bela do que a anterior. E o samba, com misturas de free jazz vai fluindo. E as raparigas vão colando seus corpos coleantes de serpentes baptizadas por Iemanjá umas às outras. E vão-se beijando enamoradas. O tarrafa faria empalidecer qualquer análise socio/antropológico/psicológica da sexualidade, sobretudo da feminina. No meio encontro o actor francês Vincent Cassel dando seus passos de samba, mas mais numa ginga atlética do que propriamente com a sensualidade de Sandra que nos mostra agora como se podem trocar os pés a uma velocidade vertiginosa sem perder o equilíbrio. As raparigas, algumas de uma beleza subtil que só se encontra entre uma garfada de acarajé e um mergulho nas praias do Japuípe, continuam a beijar-se; mais tarde beijarão homens e julgo que é a isso que se chama hedonismo fragmentário. Ou simplesmente é o calor que faz com que os corpos se aproximem e se toquem. Apenas corpos, sem cor e sem passado.
Pergunto a Vincente Cassel se a Mónica está por aí. Ele vai-me enxotando (o gerúndio – embora inicialmente procurasse resistir – entra paulatinamente no sangue, instala-se, alarga-se, perde a vergonha e acenta praça, mesmo ali, na alvorada das palavras, onde e quando se julgava que a vontade lexical era inexpugnável – que nada menino!) respondendo que ela se encontra do outro lado. Mentira. Fico procurando, mas não encontro Mónica não. E que é que isso importa, quando umas mulatas empinadas como jacarandás rivalizam em beleza com a diva Bellucci?
A elite jovem, académica, de Salvador, estará por ali. A galera alternativa. O samba com tonalidades de jazz vai puxando mais mulheres para os braços dos homens e de outras mulheres. E os homens, não vos esqueceis dos homens, vão se puxando uns para os outros. Uma mulata que assina afro-descendente, vertical e possuidora de um olhar que consegue abarcar toda a baía, fala-me de Fellini, Pasolini, Rosselini, Antonioni e Visconti. E é então que profere qualquer coisa como heterosemântica. Tremo. Ocorro-me aquela cena em que Woody Allen conversa com Annie Hall e em voz off, repetindo as suas cogitações, sente que parece um daqueles magazines culturais radiofónicos… Portanto, o que fazer com uma mulata linda que utiliza palavras como heterosemânticas e que adora Fellini e Visconti? Fui para casa enfiado em elocubrações sem sentido, angústias sortidas, e preces a Iemanjá, ali mesmo do terraço do Tarrafa, onde as moças ficam beijando-se e as saias rodam timidamente com os curtos passos do samba.
Publicado por nunocastro
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