A celeuma em torno do afastamento de Sá Fernandes revela uma certa maneira de estar na política. Uma maneira, como dizer, discrepante, parcelar, atrabiliária. Não, não é ao BE que me refiro. O BE, goste-se ou não, agiu com coerência. É sobretudo do lado do PS que veio o maior incómodo. Este foi fundamentalmente expresso numa fórmula tão árida quanto falaciosa. O Bloco só sabe ser oposição. Quando confrontado com as exigências do poder, tresmalha-se, extravia-se, perde o tino e acaba por não suportar a situação e ter que evacuá-la o mais depressa que conseguir.
O problema é que o PS tem um entendimento muito próprio do que são as exigências do poder. Nesta concepção de cartilha partidária incorpora-se habilmente a noção de compromissos estratégicos, que passam desde governar com o CDS-PP, tornando-se refém dos caprichos deste, até à boda oferecida aos accionistas do BPP. Na lógica do militante encartado do PS são torções necessárias para navegar na política e, por maioria de razão, na governação.
A governação torna-se assim uma acção sobre a qual o dilema da instituição da verdade não se coloca. Não pretendo enveredar pelos ínvios caminhos da verdade na sua acepção filosófica. Na acepção aqui utilizada a verdade é simplesmente uma fasquia a que nos propomos respeitar e da qual não transigimos. O dilema da instituição desta verdade é algo com que nos confrontamos diariamente – saber se desrespeitá-la não é mais prático e menos dispendioso, podia ser assim formulado na sua instância simplificada. Há claramente um fundo ético nestas escolhas. Essa mesma ética que, para o militante do PS, é facilmente tripudiada, quando não negada, caso se ofereçam condições para tal. Estou em crer que será difícil estabelecer o que são essas condições, pelo menos de uma forma, que se possa dizer heurística. Os factores são muitos e concorrem sempre em combinações diversas. Ou seja, é pouco provável que consigamos estabelecer um conjunto de factores fixos que levem a predições de atropelos éticos com grau de probabilidade aceitável. Por outras palavras, a ética é desvirtuada na medida em que a margem de manobra para a sua aplicabilidade – o que não estamos dispostos a transigir – encurta. Afigura-se isto a uma enunciação absolutamente pragmática, quando não instrumental, do dilema da verdade, que, como exemplificado, possui um fundamento ético. E talvez seja mesmo assim. De resto as questiúnculas que levaram ao afastamento de Sá Fernandes podem não manchar a coerência partidária – o acerto entre actuação e linha programática – mas são sobremaneira isso mesmo: questiúnculas.
Ficando salvaguardada a coerência militanto-partidária, resta saber se valeu a pena. Por exemplo, um atropelo ético da grandeza do empréstimo, por parte do Partido Socialista, a um banco privado com o nosso pecúlio, é uma chacina ética. As ilações que daí devem ser retiradas é que dificilmente poderá o governo assumir uma posição de autoridade que não caia esta acto contíguo na facécia. As manifestações dos professores aí estão para o provar. E enganam-se aqueles que pretendem que a política se compreende através de esferas autónomas, sem ligações temáticas entre as diversas reivindicações e posicionamentos. Porventura, o que oferece um tal poder de arregimentação às movimentações sindicais dos
professores – classe letrada e informada, como alguém já fez questão de salientar – não é tanto a questão da avaliação – que surge mais como um despoletador, um pretexto -, mas ao invés a perda de autoridade naquilo que princípios enunciados possam colidir com as acções. É esta sensação de falta de consequência na enunciação política que sobremaneira nos assola. Nesse sentido, só podem ser de louvar as irredutíveis decisões tomadas pelo BE. Assim seria, caso tivessem sido estas tomadas sobre algo que realmente afectasse a ética política, sobretudo a “verdade” política.
Objectivamente, de que se queixava o BE em relação a Sá Fernandes? Primeiro de ter este caucionado o fecho de uma praça para negócios privados. Nas imediações desta praça moram alguns militantes, membros e simpatizantes do BE. Heróis da gentrificação, aterraram em grande gáudio nas chamadas zonas históricas da cidade. E, talvez, tenha sido a proximidade de tão apetecido objecto – a praça e sua selecta esplanada – a causa de tão arreigada indisposição. Porque se dilema existia, resumia-se este a saber como e porque meios seria possível atenuar a dívida da Câmara. Parece lógico que a temporária “privatização” da praça se apresentava como possível solução. Trai isto alguma verdade inalienável? Não parece. Mas se o BE tinha ideias quanto a um plano de poupança que saldasse a dívida da Câmara deveria tê-lo por essa altura apresentado. Ao invés, apostou no arrazoado e na vexação.
O segundo pecado capital de Sá Fernandes foi ter-se solidarizado com a vereadora da habitação no terrível caso da habitação social, vulgo casa da Câmara. O motivo parece suficientemente mesquinho para sequer ser invocado, quanto mais fazer dele bandeira de dissenso político. Mas assim foi: o BE armou-se de toda a sua arrogância militante e vai de cascar em Sá Fernandes porque se colocou ao lado da vereadora. Em resumo, e perguntamo-nos: colocam estes motivos em causa princípios inalienáveis da mundividência política do bloco de esquerda? Fá-lo-iam, se pudéssemos garantir que nunca nenhum membro do BE pôs o pezinho em ramo verde. Hahahaha, gargalhada tonitruante.
E o que é que se perdeu? Uma aliança camarária com o PS? A possibilidade de ter alguém que comunga, em larga medida, do ideário BE e das suas opções para a Câmara de Lisboa? Espero que não se esgotem estas últimas em impedir o fecho de praças para operações de marketing ou na mais ingente questão da distribuição de casas. Se assim for, passe bem o BE e os seus inexoráveis valores. Como não será tanto assim – tenhamos esperança -, por que vocifera o BE? Para que corre o BE? Em contraste com o PS, para quem os verdadeiros valores se encontram entre a locupletação e o jogo de cadeiras, a solidariedade entre os seus membros surge como mais aritmética. Será isto assim tão negativo?