
Letargia. O mundo, aliás o estado do mundo, a América, aliás as eleições americanas, a bolha especulativa e as suas consequências nefastas para a economia, aliás a bolha especulativa e as reacções da direita, e também da esquerda, a primeira, desculpando ignominiosamente o mercado e a fé dogmática que por ele nutre, a segunda a regogizar-se com o indefinido, o improvável, o utópico (e depois? Não foi este sempre o papel que coube à esquerda?). Pois sim, foi isso e outras coisas. Por exemplo, uma canzoada sem dono a ladrar às canelas do Baptista Bastos porque este vive…numa casa da Câmara. Uma canzoada da direita, de dentes feros e brutais, ali, a atazanar, por causa de uma casa da Câmara; e outros da esquerda também. Esses, nem vale a pena. Pergunto-me se um alegre bloquista que em tempos conheci também terá tentado ferrar o dente ao Bastos? Ele, o alegre bloquista, que beneficiou de uma casa da Câmara e em vez de ir para lá morar fez dela uma biblioteca. Que chique: a marmeleira do bairro da rameleira; Pacheco Pereira entre os canibais, os imigrantes, os escurinhos. E aposto que nenhum destes impertigados bloquistas de carnaval alguma vez poriam seus delicados sapatos num bairro social. Mas e então, à que ladrar à casa da Câmara do BB!
Quando penso nisso fico doente, letárgico. Por isso e por uma amizade que se revelou fantochada (e isso há quantos anos?), filha da putice; e no entanto coberto de razão estava ela que me avisou ainda há mais anos, e que, como qualquer traição que se amarga nos torna azedos, descontinuados, mais preocupados com a saúde do que com o crash bolsista.
As eleições na América, é claro, as eleições na América…E lembro-me de um artigo de VGM onde referia do alto da sua ironia sobranceira (pleonasmo que assenta ao VGM com uma burqa assenta a uma mulher afegã) que a economia americana estava robusta e que Obama era o pior que lhe poderia acontecer, caso acontecesse. Perante isto, merda. A direita mente. A direita especializou-se a mentir. Não faz mais nada se não mentir. Fenómeno identificável de um e do outro lado do Atlântico; estendendo-se de McCain-Palin aqui ao pequenino Portugal (o que fica ao lado da Espanha aquela que McCain nem sequer sabia onde ficava – e se lhe perguntassem por Portugal? Não quero nem pensar) e ao seu vate do infortúnio o digníssimo VGM. Ali estava ele, postado às cavalitas da sua coluna de jornal, como de rocinante se tratasse, na sua expletiva sobre os malefícios de Obama. Ipsis verbis, embora com edolcorado verbo e farpenta prosa, a cartilha dos Republicanos. E então afirmava despojado de dúvidas (raramente as terá), a regurjitar certezas (sempre as teve) que Obama era uma mistificação. E porquê? Porque, dizia ele, o problema racial tinha sido resolvido por Lincoln há muitos muitos anos, resolução vertida na Constituição e que dá pelo nome de 15ª ammendment. Para além disso, quem era esse tal de Obama, cujo nome soa a terrorista desterrado para Guantánamo? Sim, quem esse tal de Obama? Um preto, num país cuja questão racial há muito que foi enterrada! E neste conjurar do anónimato de Obama ouvimos os ecos de McCain com a sua insidiosa pergunta: Who is senator Obama? Causa-me grande satisfação, quando não alívio, que todos saibamos quem é McCain. O tal que é glorificado porque andou a lançar napalm sobre aldeias vietnamitas, matando mulheres e crianças, esturricando-os com o tal composto de gasolina. Estamos sempre à espera que ele diga lá do alto do seu púlpito: I love this smell of napmal in the morning; e mais à frente (…) it smells like victory!
Letargia porque os estados vão pagar as dívidas aos bancos e ninguém questiona o facto de esse dinheiro poder ser utilizado para melhorar o sistema de saúde público, o sistema de ensino público, os transportes públicos, etc. Lembram-se do mantra da contenção do despesismo público e do controlo orçamental? Onde está ele agora? Onde estão os sacrifícios que são necessários para conter a dívida pública? E porque razão, e perante tamanha evidência, não cai todo este edifício de mentira; de mancomunações mafiosas entre poder político e aristocracia capitalista; entre as fortunas dos administradores dos bancos e os nossos distintos economistas? Porque razão não cai o pano sobre esta farsa? Teremos que pagar isto até quando? E o VGM lá do seu canto a dizer que Obama era a pior coisa que poderia acontecer ao mundo e a jurar a pés juntos que a economia americana nunca esteve tão robusta. Hipócrita que seja, isto ainda se compreende num McCain – ele pelo menos compete pela presidência dos USA. Mas no VGM? Porquê esta rendição acrítica ao amigo republicano, à direita e ao discurso do poder e da prepotência? E porque não nutrir o mesmo fascínio pela Rússia? Julgam que se retratou, que se desmentiu, que disse “olha vejam lá que apesar de ser um faccioso imoral, afinal enganei-me e as coisas são mais negras do que pareciam (entre Obama em cena!).
Bem sei que a moralidade é uma coisa pesada, desusada, chata, inconveniente, e valha-nos deus se andassemos todos para aqui agora a pregar uns aos outros…Ah, mas andamos! Por coisas sérias, com alcance inescrutável para a ordem cósmica e para o desenvolvimento da espécie. Como, claro está, o casamento homossexual. Que os estados safem bancos cujos administradores ganham na ordem dos milhões de qualquer coisa por mês, ainda vá lá, agora os gays casarem?, devem estar a mangar com o povo! E com a espécie, claro está. Porque como bem informou Mário Crespo, o instituto do casamento seria desvirtuado caso não cumprisse a sua função procriativa, o que constituiria um sério abalo para a espécie, sobretudo caso pretendessemos colonizar Marte. Podíamos começar por mandar o Mário Crespo para Marte, para colonizar, para fecundar a superfície iridiscente de Marte, embora a partogénese só se faça em, como ele diz, “seres não superiores”, facto que qualifica Mário Crespo para uma colonização isolada de Marte – por partogénese, desejar-se-ia. Correm rios de tinta: porque é monstruoso, porque desfigura, porque atenta contra…, porque não é reprodutivo, e mais e mais…o casamento, a sagrada instituição do casamento, a inabalável instituição do casamento, nunca antes encontrou tantos intelectuais, jornalistas, especialistas, e predicadores, tantos e tão bons, casamenteiros. E de repente é uma azáfama casamenteira que quase nos deixa prostrados de tão singular obrigatoriedade, constrangidos perante os imperativos que se nos impõem: ou abraçamos o sagrado matrimónio, ou somos vermes imprestáveis. E os outros, os que ganharam os milhões através da especulação, os que apareciam amíude a cagar centenas sobre como o estado deveria governar o país? Sim, esses, onde é que estão? Terão opinião sobre o casamento homossexual? Espero sinceramente que sim. Gente de tão reputado gabarito, que apenas cedeu aos impulsos mais fortes da sua natureza, da espécie, tem sem dúvida uma opinião avalizada sobre questões prementes como esta. E reproduzem-se? Ou lá, se se reproduzem! De tal forma que até reproduzem as dívidas, os calotes, as escroquerias, de pai para filho, orgulhosamente guardadas e passadas de geração em geração. Salvemos a gente que reproduz a espécie, caramba! Esses sim, esses dão-nos progérie rija e conforme ao estatuído no grande-pequeno livro da hipocrisia humana.
Letargia. Cultivar um encantamento sóbrio pela letargia. O mundo mente? Mentimos ao mundo.