
No último Cronenberg estaríamos à espera de descer às profundezas tenebrosas do desejo. Em vez disso, o Método Perigoso acaba por ser igualmente insonso. A história do triângulo Freud-Jung-Sabina (Spielrein), triângulo esse que pode ser confundido com o tradicional triângulo amoroso, mas que no fundo é bem mais representativo do triângulo psicanalítico, i.e., id-ego-superego, na ordem inversa dos nomes. Temos assim que Freud representa o Superego, Jung o Ego, e Sabina Spielrein, o Id. Esta hipótese é tanto mais cabal quanto Freud assume no filme o explícito papel de pai castrador; Jung, tem que matar o pai para se autonomizar, e mata-o simbolicamente; Sabina Spielrein representa o investimento libidinal do ego sobre os objectos exteriores.
Partindo desta configuração particularmente sugestiva, estaríamos à espera que a dimensão perturbante que geralmente faz parte dos filmes de Cronenberg se imiscuísse como um vírus no filme. As temáticas do desejo, do corpo deformado e da intrusão na mente e no corpo, os temas clássicos e obsessivos do cinema de Cronenberg estão lá, isso é inegável. Mas surgem de tal forma suavizadas, normalizadas, domesticadas, que qualquer potencial elemento perturbador é de imediato anulado. Porventura, essa anulação faz parte da estratégia de Cronenberg: trata-se de um filme sobre os primórdios da psicanálise, cujos personagens corporizam uma reprodução do trio freudiano e assumindo como óbvio o papel domesticador que o método psicanalítico encerra. É como se Cronenberg nos dissesse, Eis a matriz de todos os meus filmes! E a matriz já não é perturbante mas sim esquemática. O filme (pobre filme!) desloca-se nesse esquematismo nunca deixando entrar uma real tensão entre os seus personagens; nunca sucumbindo ao estranhamento, que era tão característico da restante filmografia de Cronenberg, o elemento deslocado, o trauma. A qualidade das representações é irrepreensível. Porém, isso não chega. E em boa verdade, o filme acaba por se esgotar nos seus três únicos alicerces que são justamente as recriações das sumidades da psicanálise no seu início. Só que, e apesar das prestações dos actores, Cronenberg nunca consegue dar o tom de perigo que o seu título sugere. Repare-se que não se trata de transformar o filme num thriller, onde o suspense irrompesse em cada esquina. O perigo expectável seria o do desconhecido no desejo, esse lugar fantasmático que é o Id. Cronenberg levara-nos muitas vezes a passear de mão dada por esses territórios, desde They came from within, onde parasitas internos levam as pessoas a comportamentos ninfomaníacos, passando pela mutante sexual de Coma profundo (em jeito parentético, talvez seja interessante notar como Marlin Chambers, actriz porno e de filmes eróticos dos anos 70, no seu papel de predadora sexual, é substituída por Tara Reed, outra actriz porno, mas que ao contrário da sua percursora, representa sempre papéis de menina ingénua e pura no cinema mainstream, manifestação do lugar ambivalente, do cinismo, que se instalou em torno do sexo e do discurso sobre este na cultura norte-americana) e acabando em M. Butterfly. Julgo que a partir daqui podemos assistir não a uma inflexão no seu imaginário, mas a um desvio gradual onde a violência ganha o palco central e o corpo deixa de ser o cenário ideal para a perversão, passando a ser o lugar agencial da violência. Seja como for qualquer uma destas dimensões do cinema de Cronenberg, a sua griffe, aquilo que faz que haja um cinema de Cronenberg, como há de Lars Von Trier ou de Scorcese, encontra-se ausente neste Método (nada) perigoso. Quase que se diria que o papel de pai castrador sobre Jung que Freud assume neste filme, foi levado demasiado literalmente que contaminou o próprio projecto, resultando num Cronenberg igualmente castrado. Podemos ainda perguntar, confiando nesta hipótese, o que seria o último filme de Cronenberg caso este não tivesse reprimido o seu desejo através de um deliberado acto de auto-castração. Talvez no futuro surja esse mesmo desejo reprimido num outro filme, de forma deslocada como quer o mecanismo da repressão.