The horror!, the horror!

Fevereiro 9, 2010

O espectáculo da entrega do ceptro à figura régia de João Jardim, desgostou-me profundamente. Quando da esquerda, se esperaria um regicídio, oferecem-nos uma entronização. Estranhos momentos, esses.

Recordo a sanha com que Louçã bradava contra Alberto João Jardim e o seu offshore. Onde estava a indignação, quando o deputado do BE apareceu a dizer que 50 milhões de euros era uma quantia demasiado comezinha para aquele escândalo?

A esquerda teve a oportunidade de dar uma lição ao PSD-Madeira – lição essa que seria inteiramente merecida. Em vez disso, deu tempo de antena para aquele energúmeno de charuto na boca se vir pavonear para a televisão. Onde estava a esquerda do deficit democrático na Madeira? De férias, com certeza.

Porque de ambos os partidos ainda ditos de esquerda vieram as declarações mais inauditas em relação à Madeira e aos 50 milhões. A esquerda teve a oportunidade de decepar uma das cabeças da hidra, em vez disso trouxe-lhe a cabeça do baptista numa bandeja.

Quem sabe se uma demonstração de fraqueza de Jardim perante o governo da República, não seria o princípio do fim do caudilho madeirense? Quem sabe?

Nós, nunca saberemos. O que sabemos é que ele voltou a aparecer na televisão, com aquele ar de soberba de quem enverga a insígnia dos intocáveis, e disse esta coisa fantástica: “Estão criadas as condições no parlamento para derrubar o governo PS”. Se não foi isto, foi parecido. Referia-se, evidentemente, ao consenso obtido entre a esquerda e a direita contra o partido socialista. Estranho jubilo, vindo de um homem que chamou à República do continente “os cubanos”, que pratica um anticomunismo primário em todos os discursos e palanques por onde passeia a sua retórica podre; ; que detesta o 25 de Abril e já o fez saber em diversas ocasiões. Nada disto interessa. Não deve interessar. Senão como explicar as declarações de Honório Novo do PCP, partido que Jardim quis proibir através da Constituição, a secundarem a batalha de Jardim? Prima facie, não existe explicação.

Será assim tão impetuosa essa urgência de fazer cair o PS e ver uma nova aliança democrática ascender ao poder? É certo que as alianças entre PCP e o PSD contra o PS a nível do poder local, são já lendárias. O Bloco tem ainda pouca força no poder autárquico. Mas com a excepção de Lisboa, não há autarquia por esse país fora em que o PCP não faça coligações tácitas com o PSD nas assembleias municipais. Tivemos um exemplo disso nesta encenação patética de carpideiras pela Madeira. Posto que, e contrariamente ao que dizem jornalistas e comentadores, a encenação foi de facto da oposição e não do governo. Este último, respondeu da única maneira que lhe restava perante tremendo contra-senso: dramatizando. A encenação da esquerda, essa sim, revestiu-se de esperanto maquiavélico e de birra em surdina.

O argumento arvorado era o de que 50 milhões de euros eram uma ninharia e que o braço de ferro do governo só poderia ter razões pessoais. A pergunta foi feita variadíssimas vezes chegando-se sempre à conclusão que o argumento era reversível; ou seja, se 50 milhões é uma ninharia, por que razão lutar por eles? Não houve resposta. E não houve porque essa não era sequer a questão fulcral. Essa, era a desautorização do governo.

Todavia, um argumento não era reversível: o das razões pessoais. Esse mantém-se inalterável. E eu julguei que essas mesmas “razões pessoais” eram partilhadas pela esquerda. Claro que sim – razões pessoais. Que mais poderia ser? Esse argumento justificava inteiramente a negação dos 50 milhões. Essas “razões pessoais” que nos moviam a todos contra Alberto João Jardim. Sim, são razões pessoais! – afirmemo-lo com clareza e sem temores. São “razões pessoais” porque o homem é repugnante; porque como estadista é um verme; porque como político é um cínico asqueroso; porque como parceiro da Repúplica é um escroque que dela vive à custa há tantos anos, dando-se ao luxo de a injuriar a seu bel-prazer. Julgava eu que estas “razões pessoais” eram consensuais à esquerda. Que qualquer pessoa atenta à vida política neste país dos último trinta anos, não teria qualquer problema em as advogar. Que qualquer homem e mulher que tivesse assistido, mesmo sem ser em directo, aos famosos comícios de Chão d’Alagoa não teria dúvidas em fazer suas.

Enganei-me. A esquerda, no seu acordo de ratazanas, mostrou-me que não; que não era assim: que em democracia não há lugar para estas “razões pessoais”, mesmo que lhes assista toda a justiça. A esquerda mostrou-me quão bom era apoiar o Dr. Alberto João, se isso significar tramar o PS. E lá estava ele, com o seu charuto na boca, com o seu sorriso boçal, a congratular-se pelo consenso atingido no Parlamento entre esquerda e direita.

De facto, perante tamanha desfaçatez, o que são 50 milhões de euros? Com o meu voto não contam mais.      


“A natureza é o teatro de Satan”

Fevereiro 4, 2010

 

Anticristo é um filme atípico. Começa por ser atípico dentro da obra do realizador. Em anticristo deixou de existir o cunho dogma que embora com matizes bem diferentes do início da obra de Lars Von Trier, ainda eram patentes em filmes como Dancing in the Dark, ou Dogville e Manderlay, ou seja, a inacabada trilogia americana. Anticristo corta radicalmente com este legado, reinventando-se como estética. E reinventa-se de tal forma que, a busca da forma pura, sem o mediador tecnológico, o desaparecimento do plano estável, com a câmara a seguir os movimentos do cameraman, procurando assim um efeito de realidade, tão presente em Idiotas ou Breacking the waves, desaparece simplesmente. E se o Dogma emergira em contraposição às remanescências da Nouvelle Vague – objectivo assumido pelo Manifesto de 95 – então Anticristo surge como objecto de ruptura total com este projecto.

É igualmente atípico num certo trajecto moral (mesmo moralizante) que o realizador vinha percorrendo, assim como os seus companheiros do Dogma. Em Anticristo, embora a mensagem religiosa ainda se encontre presente, os seus pressupostos moralistas não se manifestam. Em lugar destes, Lars Von Trier explora um sucedâneo da estética gore dos filmes de terror, com a consciência estetizante, não tanto de impressionar o telespectador numa espécie de prazer sádico distante, mas de filmar o horror numa qualquer beleza intrínseca que o realizador pretenda nele captar. É bem verdade que a temática do sacrifício percorre praticamente toda a obra de Lars Von Trier. E também, tal como na subida para o Gólgota filmada com requintes de fascinação boçal ensaiada por Mel Gibson, sempre pareceu a Lars Von Trier que o sacrifício tinha um inexplorado potencial estético. Este tema é recorrente, e nele reincide em Anticristo. Todavia, não há lição moral a extrair.

O filme é ambíguo e esta mesma ambiguidade encontra-se bem reflectida nas apreciações divergentes que ele tem suscitado. Nem tanto ao mar nem tanto à terra: não é uma obra de génio, mas também não a considero o “reino do mau gosto” como foi assinalado por diversos críticos portugueses. Se bem que uma masturbação em que o esperma é substituído por um jorro de sangue após devida maceração dos testículos com um barrote de madeira possa ser considerada excessiva. Nada que não tenhamos visto, até pior, em filmes como Irreversible, do qual apenas se guarda uma memória desgostosa.

“A natureza é o teatro de Satan”, podia ser uma máxima de P.H. Lovecraft e do seu apócrifo Necronomicon. Mas não é: trata-se da punch line, da ideia que condensa Anticristo. Lars Von Trier, aquando da estreia de Anticristo, explicou que ele era o produto da sua depressão. Houve quem pretendesse ver na putativa sinceridade do autor apenas a derrisão do gozo e do embuste. Penso que estão enganados. Anticristo é um verdadeiro mergulho no âmago da depressão. A obsessão com o sofrimento tornada matéria de vida, sentido e verdade. E se a primeira parte do filme se encena como uma sucessão de sessões terapêuticas; na segunda, Von Trier vinga-se do terapeuta mostrando-lhe que a racionalidade nada pode quanto à potência negativa da natureza. E esta última, é feminina. A natureza que engendra, o gino fecundante, é a mesma que destrói. A sua hegemonia é total. A sua feminilidade é completa. A natureza fêmea, mater, é Satan – a coberto da sua beleza (e o filme é de facto de uma beleza exuberante) a pulsão de morte rasga a carne com a inevitabilidade de um nascimento. Muito freudiano. Não se desse o caso de a depressão trazer outra dimensão, uma dimensão que escapa ao onírico da psicose e que se entrega por inteiro à obsessão da violência. A natureza é malévola. O Éden possui uma beleza falsa. Nada é mais belo do que o mal.


Traumnovelle

Fevereiro 2, 2010

A estória de Mário Crespo e os vários desenlaces jornalísticos que esta ocasionou peca por excesso de verosimilhança.

Juntas as peças, equilibrados os relatos, calibradas as opiniões, a coisa fica mais ou menos assim: o primeiro-ministro mais a sua trupe de histriões deslocou-se à mesa onde se encontravam pacatamente a almoçar o Nuno Santos e a sensual Bárbara Guimarães. Chegados à ilharga desta (da mesa, não da Bárbara) cumprimentaram efusivamente os dois jornalistas: Lacão mandou uma beijoca na bochecha da Bárbara enquanto espiava conspicuamente as acetinadas tetas da diva televisiva, que rebentavam, como tem que ser, com o afogo do wonderbra. Silva Pereira, cumprimentou excitado o Nuno Santos revelando-lhe logo ali a sua admiração pelo excelente trabalho enquanto seleccionador oficial da televisão concorrente. Apenas Sócrates, mais comedido entre as mulheres, se vergou em digníssima vénia deixando escorregar um ósculo, deposto sobriamente, sobre a mão gélida de Bárbara; acrescentando: e como vai a Srª minha dama?

Feitas as apresentações costumeiras, lançou-se Silva Pereira num discretear enfático sobre as capacidades mentais de Mário Crespo: “aquele homem é um atrasado mental! Um verdadeiro perigo para a lisura da comunicação social”. Bárbara, não se contendo, admoestou o Ministro da Presidência, lembrando que aquele não era o sítio nem o momento apropriado para falar mal do seu colega, não renunciando, todavia, a secundar o Ministro, não se contentando em aquiescer que Mário Crespo era um retardado como ainda acrescentou que tinha mau hálito. Todos se riram. Mas foi Lacão que pôs fim aquele regabofe, vendo que a Duquesa do Cadaval, sentada mesmo ao lado, se mostrava agastada com o ruído que perturbava insistentemente a sua refeição de trufas brancas. Sócrates, dirigindo-se à duquesa, vergou a cerviz, produzindo mais uma acentuada vénia, não sem antes rematar a censura de Lacão com um “peço imensa desculpa pelo nosso comportamento, a todos os títulos reprovável; porém, permita-me que me exprima desabridamente, duquesa, a culpa é do cabrão do Mário Crespo, que me fode a vida todas as noites no jornal da SICNot”. Apesar do vernáculo, a duquesa condescendeu, concordando seguidamente que assim era: tornava-se necessário silenciar Crespo.  

Silva Pereira, partilhando da angústia do seu chefe, não quis deixar de se mostrar solidário (e mais do que isso: que melhor momento para demonstrar a sua fidelidade do que perante a duquesa do Cadaval?) e, tocando ao de leve no ombro de Nuno Santos, que entretanto deglutia um Vole aux Vin de perdiz desossada, sussurrou-lhe ao ouvido: “e, olha lá, não há maneira de solucionar este problema?”. Nuno Santos estremeceu. Não porque a pergunta lhe parecesse inusitada, mas porque Silva Pereira gritou de tal forma que aquilo que julgou ser um sussurro, repercutiu-se pela sala inteira, deixando inclusivamente um empregado, homem afeito às liberdades cívicas, importunado. De tal forma que não se conteve e exclamou: porcos, gatunos, filhos da puta! – Querem calar o Crespo! Primeiro foi a Moura Guedes. Agora o Crespo…Onde é que isto pára? Se calhar o próximo é o Nuno Santos? Era só o que faltava. Antes disso, saio para a rua…”

Perante aquela reacção, até Nuno Santos, homem dado a hábeis manobras de gabinete, se sentiu incomodado. Virando-se para Silva Pereira, exclamou: ouça lá, você tá bêbedo, ou quê. Então põe-se aqui a gritar-me aos ouvidos? Agora que toda a gente sabe vou ter que contar ao Crespo. Mas que porra de calhandrice!

Sócrates, que entrementes se sentara junto da duquesa do Cadaval, confessava-lhe o amor por arquitectura e como tinha sido ele a montar o bidé na sua nova casa.

Lacão tentava, em vão, aplacar a fúria de Nuno Santos, que entretanto esbracejava como um louco, invectivando Silva Pereira e acusando-o de apenas querer impressionar a Bárbara. Foi então que Silva Pereira, não contendo um espasmo que por ali já andava a alguns minutos, mistura do Whisky de 24 com o Quinta da Piriquita, vomitou para cima dos sapatos de Nuno Santos, facto que multiplicou a ira deste que desta vez, dizia, ia mesmo contar ao Crespo, “para vos foder a todos”(sic). Lacão, visivelmente transtornado com o sucedido, bradava que a culpa era do Crespo, que ele era uma ameaça, e que devia não somente ser irradiado do JN, como deixar de fazer aquele comentário idiota ao programa 60 minutos que não necessita de intróito. Sócrates concordou, acrescentando que detestava o programa e que preferia mil vezes ver o Henrique Monteiro do expresso a fazer o discurso idiota de contextualização de um programa que se contextualiza a ele próprio. A duquesa de Cadaval telefonava entretanto ao cardeal patriarca a dizer que ele nem adivinhava com quem estava a almoçar? Ah sim, e é quem? O menino d’ouro!, exclamou a duquesa. Sócrates ficou comovido com a atenção da duquesa, e colocou-lhe um ósculo na mão enrugada o que lhe provocou um esgar de sofrimento.

E pronto: foi isto que aconteceu.    


Mar encrespado

Fevereiro 2, 2010

O caso Mário Crespo possui contornos intrigantes. No texto que o JN recusou publicar e que faria a crónica semanal que o jornalista vem publicando nesse jornal, é referido um “executivo de televisão”. Fiquei a cismar nas razões que levariam MC a denunciar abertamente o nome das três figuras de Estado, a saber, o primeiro-ministro José Sócrates, Jorge Lacão e o Ministro da Presidência Silva Pereira, simultaneamente encobrindo o nome do tal executivo que, conforme o relato indica, tem direito a sentar-se à mesa do poder.

Foi preciso o 24 horas, fazendo uso do mesmo jornalismo delator que Mário Crespo ensaiou na sua peça para o JN, anunciar em grandes parangonas o nome do cliente mistério. É ele Nuno Santos. Ora, se a memória não me falha, Nuno Santos é (só) o director de programas da SIC; que é como quem diz, o patrão de Mário Crespo.

Dois aspectos suscitam imediatamente apreensão. Primeiro, como soube o 24horas que a identidade do comensal de tão augustas figuras era nem mais nem menos que o ilustre Director de Programas da SIC. Segundo, que espécie de poder político tentacular e omnipresente é este que leva MC a denunciar desabridamente o nome dos três maiores do governo nacional, deixando na sombra o do seu patrão?

O primeiro aspecto deve ser desvendado especulando. Nos lugares onde come gente graúda há imensos olhos e ouvidos que dão o cu e cinco tostões para vender uma informação à chamada imprensa amarela. E assim aparece o nome de Nuno Santos escarrapachado na capa do 24horas.

O segundo, leva-nos por uma deriva ideológico-política, roçagando por vezes a noção de hegemonia, mas nela não se demorando forçosamente. Os gritos histéricos de manipulação, quer da esquerda quer da direita, partem do princípio que a pressão apenas se exerce de cima para baixo; mais ainda, sugerem que existe um “cima” e um “baixo”. Desta forma, a pressão política exercida pelo governo socialista assumiria um registo estalinista de manipulação total dos jornais e dos jornalistas, sendo estes apenas meros órgãos da expressão propagandística do Estado. Esta visão é simplesmente ignorante, quando não cínica e enganadora (vide Pacheco Pereira). A política não possui, actualmente (se é que alguma vez possuiu), esta força, nem tem uma tal capacidade de mobilização institucional.

O que existe é uma simbiose entre jornalismo e políticos, em que ambos alimentam os egos uns dos outros, paralelamente, reforçando os respectivos campos de significado. O que isto significa é que o “politiques” em que os políticos profissionais se especializaram alimenta, ajustando-se quase perfeitamente, as agendas mediáticas. Reparem: não é o jornalismo que respiga no discurso político, e público, aquilo que interessa, transformando um material informe na forma noticiosa. É uma corrente que corre nas duas direcções: se a primeira alimenta os canais informativos de factos políticos; a segunda alimenta a política de uma visibilidade aplanada de que esta cada vez mais se reveste. Por isso, o comentário político resume-se ao comentário da “jogada” política, dentro do próprio campo do político, sem querer sequer averiguar das suas consequências, e ramificações, mais vastas. Conclusão, não existe qualquer pressão unilateral, mas antes uma troca gerida conscienciosamente e que traz avultados benefícios para ambos os lados dessa troca. Significa, que estes senhores do jornalismo possuem igualmente muito poder. Uma relação negocial, por conseguinte. 

Ao omitir, judiciosamente, o nome do tal executivo da televisão – que afinal é o patrão de Mário Crespo – o jornalista está a reincidir no viés desta visão unilateral. O mesmo caso aconteceu com Manuela Moura Guedes, não admira portanto que esta venha agora a terreiro emprestar o seu ombro ao companheiro ferido. O que estes dois jornalistas fazem é usar o discurso da vitimização com o intuito de ocultarem a prática da canibalização. No fundo, tendo chegado onde chegaram, sabem perfeitamente que o jogo está viciado à partida (como podem não saber se são eles que constroem diariamente o jogo?). Mas apenas quando são eles as (supostas) vítimas da promiscuidade informativa é que se lembram de lançar anátemas como virgens ofendidas.

Estes dois jornalistas não me merecem respeito. Foram sempre a jogo, quando este lhes era favorável. Tinham poder para não o fazer. Mas o conservadorismo que ambos apregoam como raison d’être, sempre os deixou confortáveis com a configuração dos poderes. Nunca lhes pareceu censurável a força dos grandes da televisão e do jornalismo; nunca lhes pareceu estranho a concentração partidária dos órgãos de comunicação social onde trabalham; nunca acharam escandalosas as fortunas geradas, justamente, pelo privilégio em aceder a informação privilegiada e em saber movimentar-se nos meios apropriados. Eles são parte da máquina e trabalharam para a fazer. Quando esta, porque possui uma voracidade imparável, lhes tritura os próprios dedos, saltam como se lhes picassem o cu. Alguma vez Mário Crespo afirmou ter dado aulas na Independente aquando da polémica Sócrates? E não foi ele um dos “encrespados” jornalistas perante as manigâncias da licenciatura socrática? Estão a ver a contradição (se não estiverem então é porque já vos deveria ter sido diagnosticada morte cerebral)?

É preciso tentar ir mais fundo do que palavras de circunstância ou desabafos irados. É preciso auscultar o ronronar da máquina, aquilo que se passa nas nossas costas, enquanto desfila perante nós em sombras imitando a placidez dos dias inconsequentes. Deixarmo-nos ir na excitação destes reptos avulsos é não compreender o andamento da procissão. Uma procissão para patego ver.      


Literatura de viagem

Janeiro 29, 2010

Pergunta 1bsk se o facto de não ver ninguém na rua a ler o Bolano quer dizer alguma coisa. Claro que quer! Primeiro, em Portugal vêem-se poucas pessoas a ler na rua, nos transportes, etc. O que diminui a probabilidade de ver pessoas a lerem em lugares públicos tout court. E depois em Portugal – mas isto não difere muito de outros países – quem lê na rua, nos transportes, etc, normalmente lê trampa. Nem sempre, seguramente. Mas a probabilidade de um Dan Brown ou de uma Rita Ferro escorregarem do interior de uma mala de senhora no trajecto que medeia entre Paço d’Arcos e o Caixidré é altíssima. Não sou relativista. Por isso assumo distâncias incomensuráveis entre a boa literatura e a má, ou daquela que nem sequer é literatura. Bolano está do lado dos bons. Dos muito bons. Em minha opinião, o melhor da segunda metade do século passado e até ver do início deste século. Não me espanta nada não ver pessoas a lerem o Bolano. Mas espanta-me ver pessoas a compulsá-lo avidamente nas livrarias. Refiro-me ao 2666, que foi editado com pompa e circunstância e que, alvitro, suscita a curiosidade das massas pelas suas invocações demoníacas, os seus laivos de mistery novel que a capa dá a entender, o seu perfume enigmático de calhamaço inacabado. Sucede que ainda no outro dia estava uma bela ninfa a admirar dois volumosos exemplares na mesa de uma livraria: um era o insondável 2666 o outro era o insonso Dan Brown. A ninfa pegou no primeiro, abriu-o delicadamente numa página ao acaso, e dedilhou umas tantas linhas como se de viola se tratasse. Aborrecimento. Depois, pegou no segundo, começou a lê-lo desde o início, emprestou a sua esbelta atenção a uma ou duas páginas, e dirigiu-se ao balcão sobraçando o Dan Brown, afivelando uma expressão no rosto de quem encontrou leitura para o resto do mês.

Moral da estória. O 2666 atrai muita gente pelo seu cunho misterioso. Gente que engaveta o 2666 juntamente com a menina dos vampiros e a chave para a compreensão do cálice divino. Só podem desiludir-se. E assim como o Evangelho de Saramago pululava nas prateleiras dos novos-ricos sobremaneira por causa da polémica, também o 2666 ficará a apanhar pó em muitas estantes desta Lisboa. Virá daí algum mal ao mundo? Não me parece.

E se o 2666, fascinante pela sua aura de mistério e, simultaneamente, assustador pelo seu peso, arreda muitos dos leitores afoitos, sugiro que se comece por material mais levezinho, como Estrela Distante, Nocturno Chileno, Novela lumpen,  mesmo os contos, que todo ele é genial. Depois sim, inoculados da febre bolaniana podemos aventurar-nos nas selvas dos Detectives Selvagens e do 2666. Estes pequenos milagres, penso eu, mais maneirinhos, teriam maior probabilidade de serem vistos por aí, a circularem. Mas tem isso alguma importância? Absolutamente nenhuma.   


I fought the law and the law won

Janeiro 28, 2010

 E ainda no outro dia se discreteava sobre a obra de Orwell numa solene sala algures num prestigiado instituto deste país, cidade, local…e hoje dou de trombas com esta notícia. E claro, mais interessante ainda, são os comentários, que, naturalmente, invocam as parábolas orwellianas. Por isso, surgem as expressões de crimepensante e polícia do pensamento (mas em inglês, todavia). E por isso, o Orwell foi um visionário idiota; ou seja, não soube colocar a sua visão (antevisão, antecipação, e mais homofonias) no contexto ideológico da época, fazendo com que ela se confundisse com um ideologia particular. Hoje sabemos que não poderia ter errado por mais; que não poderia ter acertado mais ao lado. Mas ficam os gadgets que Orwell vai semeando pelo 1984 como expressão do controlo insidioso que, pelos vistos, apanhou na sua malha o desgraçado do Chambers. Que o Orwell tenha sido idiota o suficiente para achar que isto era coisa que só aconteceria lá para as frias estepes do bloco soviético, só mostra que uma má premissa pode chegar a uma conclusão quase acertada. Chambers é, para todos os efeitos, o modelar crimepensante da distopia orwelliana

 (e será mesmo uma distopia? Jameson, no seu impressionante périplo pela história das utopias, considera o 1984, não como uma distopia (utopia negativa, se quisermos) mas como um livro marcado pelo descrédito absoluta na utopia. E eu manjo as suas palavras como quem abre os pulmões ao ar no alto dos Picos da Europa. De facto, e ainda segundo Jameson, uma mais fiel interpretação do livro, seria a de “ponham-se com utopias, vão ver onde vão parar”. Belo engano. Porque afinal de contas, não nos pondo nós em utopias chegamos rigorosamente ao mesmo planeta inóspito…)

 E se a preocupação por enquanto são aeroportos e explosões, quem me garante que não são igualmente triadas alusões a outras tantas pequenas revoluções, como greves, mordazes críticas ao governo, desafogos relativos à entidade patronal, ou mesmo, urdiduras contra as forças de segurança? Nada, com efeito. A única coisa que assinala que assim pode ser (o big brother, pois então) é a polícia ter agido num caso ingente. A acção é demonstrativa do apparatus e da eficácia na repressão, ou seja, gera visibilidade. Mas quem me diz a mim que nos gabinetes ultra-sofisticados da secreta não dedicam o tempo a arrolar coincidências perturbadoras, indícios amotinadores, expressões obscuras, e mesmo imagens de gajas nuas a fazerem cunnilingus uma na outra no recesso do lar? Pois, nada.  


ipoda

Janeiro 28, 2010

 

Steve Jobs conseguiu finalmente inventar a coisa mais inútil desde a invenção da cartola. Chama-se ipad, vem acompanhado de fanfarra HTec e de pirotecnia mediática. Com o ipad temos os media todos concentrados numa plataforma – bela, elegante, móvel. Com o ipad, podemos aceder ao jornal, aos livros, às redes sociais, a tudo o que a internet disponibiliza; a tudo o que se consegue aceder através de um portátil. Só que, diferentemente deste último, o ipad é leve como uma pena, tem um touch screen e o formato de uma folha. E quanto custa um ipad? A módica quantia de 500 € (a gama média)!!!!  

Imagine-se leitor a vir do emprego às 11 da noite, a apanhar o comboio das 11.20 no Rossio para Rio de Mouro. Qual é a primeira coisa que lhe ocorre? Sacar do ipad e ir confortavelmente sentado com o seu brinquedo de 500 € a dar nas vistas? Ou, sobraçar a mala onde transporta o portátil com a energia do TGV que virá de Madrid a Lisboa enquanto passa despreocupadamente os olhos pelo jornal “O Metro”? Se escolheu a segunda hipótese, o seu grau de sanidade continua a ser medianamente aceitável. Se escolheu a primeira, é provável que se encontre a caminho da worten para comprar um novo ipad a prestações.


Abaixo a burka, já!

Janeiro 28, 2010

Não consigo perceber isto?

Mas sobre isso, já disse o que tinha a dizer aqui


A bofetada

Janeiro 22, 2010

 

Isabela lê um excerto do seu livro Caderno de Memórias Coloniais. Está bem escrito; Isabela empresta-lhe a entoação suave e no entanto peremptória que o momento merece. Trata-se da descrição de uma bofetada. A autora terá dado uma bofetada numa menina mulata com a perfeita consciência que esta não poderia retaliar porque o gesto lhe era tolhido pela intransponível barreira da cor.

Não é certo se Isabela terá tido a perfeita consciência, ou se esta só terá sido adquirida retrospectivamente. Talvez através do trabalho da psicanálise que Isabela refere amiudadamente. Talvez o resultado desse trabalho encontre expressão no pedido de desculpas registado no livro; pedido que Isabela confessa nunca ter apresentado à vítima da bofetada. Talvez ela, a vítima, esteja agora, algures, a ler o livro de Isabela, sugerindo-lhe este mesmo excerto a barreira que ela porventura não tinha consciência de existir; ou pelo contrário, estava de tal forma consciente que nem sequer retaliou.

É também um país que se psicanaliza através do livro de Isabela. Ela encontra-se consciente disso; Carlos Vaz Marques coloca as questões de maneira a que a consciência desse efeito se torna iniludível. Éramos racistas – parecem chegar à conclusão. Não os vejo, mas adivinho uma certa cumplicidade embaraçada perante a descoberta de tal evidência. O momento psicanalítico atinge o seu paroxismo quando Carlos Vaz Marques pergunta se escrever o livro implicou uma vingança diferida contra o pai. Pai – País. Uma vingança diferida contra o país. Assestada bem ao âmago da nação. Mais ainda: do Império. Mais ainda: do sonho do Império.

Isabela diz que talvez, mas que agora está em paz e que já perdoou. O pai era um bom homem. O país era um bom país. Os portugueses eram uns bons homens. E nós vamos fazendo a catarse através do livro de Isabela.

As memórias coloniais de Isabela não são apenas a bofetada no pai, tão-pouco na mulata que, tendo ou não consciência daquilo que a impediu de retaliar, comeu e calou. São uma bofetada mais ampla, mais dolorosa: a todos aqueles que, pais e mães, acreditavam que eram bons, profundamente bons. Mesmo que os seus actos provassem o contrário. Mesmo que o “preto” fosse a criança grande a precisar de tutoria do branco. Mesmo assim.

Pais – País. Resta saber se o país irá retaliar a bofetada ou se pelo contrário dormirá descansado após a catarse.   


A disforia “catastrófica”

Janeiro 20, 2010

O terramoto de 1755 causou ondas de choque pela Europa adentro que não foram alheias ao descrédito e erosão de que a religião cristã vinha a ser objecto. Aliás, o terramoto é assinalado por grandes como Kant e Voltaire como a prova iniludível de que a natureza pode rebelar-se contra a ordem sobrenatural do divino. Perante a devastação causada por um acontecimento telúrico, a mortandade e destruição da (então) bela e próspera cidade de Lisboa, como acreditar na bondade divina e, sobretudo, na sua providencial orientação? Se o pensamento iluminista é construído em torno de um credo ateísta – paradoxo que viria a ser muitas vezes salientado pelas inúmeras exegeses que posteriormente lhe foram dedicadas -, encontra certamente no terramoto lisboeta um dos motivos maiores para respaldar as suas dúvidas lógicas. A natureza rebela-se como fizera anteriormente pela pena de Spinoza; mas rebela-se deixando marcas indeléveis e não apenas suposições vagas e retóricas. Como se, por capricho maldoso, o espinosismo ficasse gravado na própria matéria que este invocara anos antes. Deus ausentara-se, bem antes da máxima nietzshiana que decretou a sua morte. E esta ausência de deus era, por assim dizer, a necessária caução para o projecto da Aufklärung. Desgraça e ciência completam-se, como viria a acontecer vezes sem conta após este ensaio iniciático: com Hiroshima, com Chernobyl, com Three Mile Island. Porém, a aliança perversa que então se forjava transportava no seu cerne um bicho gigantesco, de possibilidades incalculáveis, de mutações imprevisíveis. Esse espectro larvar era o da emancipação. Não apenas do país X ou da seita Y, mas da humanidade, de toda ela, sem nada deixar excluído. O parto foi doloroso. Poderes constituídos, seculares, com a inércia que os caracteriza, opuseram-se ao canto das sereias que se evolava dessa terra incognita que já não confinava com os limites da linha do horizonte – como outrora definira a separação entre o espaço do conhecido e o espaço do incategorizável, do monstruoso – mas antes com a capacidade de domar a experiência. Os Aufgabe que mais tarde Marx viria a evocar eram tarefas possíveis e apenas determinadas pelos limites do entendimento humano – expandisse-se este e nenhuma tarefa seria demasiado titânica para travar o engenho humano.

Damos um grande salto. E é curioso como as catástrofes recentemente acontecidas nos deixam pequenos e perplexos. Contrariamente ao acesso de confiança na humanidade perante a catástrofe que colocava definitivamente deus de molho e por largos séculos, as “nossas” catástrofes não nos arrimam a portos seguros, mesmo que virtuais, e menos ainda nos inflamam de esperança em melhores futuros. É tudo muito estranho: entre a perversidade do voyerismo “catastrófico”, ou seja, inoculado pela exposição mediática das catástrofes, e o medo insinuante que encontra a sua catarse no misticismo actual. A catástrofe passou assim de um destruidor de misticismo vários, para um catalizador de um misticismo básico. As “nossas” catástrofes não nos suscitam dúvidas teóricas, mas sim dúvidas ontológicas. Não nos suscitam vontade de domínio, mas sim de retirada, de apaziguamento, de comunhão com a natureza que, paradoxalmente, e à velocidade geradora de simultaneidade dos media, se rebelou ao mesmo tempo que impõe o seu tempo às nossas vontades. Não trazem por conseguinte o motivo do recomeço no seu imaginário. Pelo contrário, imaginam-se, e presenciam-se, mesmo que à distância, como convulsões apocalípticas que anunciam o fim da nossa hegemonia.